“Deus, não quero mais ficar sozinha”, ela orou baixinho… Mas……..
O resto
Luzia engoliu o nó. “Demorei, Benedito. Vamos tomar o remédio?” Ela entrou e ficou um instante parada no meio da cozinha, olhando em volta. Na parede, o calendário da farmácia ainda estava no mês errado. Em cima da cristaleira, a foto da mãe sorria de avental, com uma bandeja de doces de casamento nas mãos.
Ao lado, a foto de formatura de Marcos, que fazia tempo não ligava. A casa tinha cheiro de gente que já foi embora e ela que ficou. Às vezes se sentia a última pessoa acordada numa casa onde todo mundo já tinha ido dormir. Pendurou a sacola no prego, lavou as mãos na bacia de ágata e voltou para a varanda com o copo d’água.
Deu os comprimidos com água do filtro de barro, esquentou a sopa de mandioca com carne-seca e serviu numa cumbuca. Ele comeu devagar, contando pela quarta vez naquela semana do casamento em que tocou três dias seguidos sem dormir. Ela escutou como se fosse a primeira. Acordou de madrugada com um barulho de ferro.
Era o portão da frente batendo com o vento. O portão nunca ficava aberto. Ela trancava toda a noite e escondia a chave dentro do pote de açúcar por causa do avô. Correu até o quarto dele. A cama estava vazia. Na cozinha, o pote de açúcar estava virado, o açúcar esparramado pela toalha de plástico. A viola não estava mais no prego da parede.
“Vô!”, gritou já com a voz quebrando. “Vô Benedito!” Ninguém respondeu. Ela pegou a lanterna de pilha, enfiou o chinelo e saiu correndo de camisola e trança desfeita. A luz fraca mal alcançava três metros. De um lado, o barranco, do outro o cerrado fechado. Mais adiante, o córrego que no tempo das águas virava rio.
Pensou no córrego e as pernas quase falharam. Correu mais de um quilômetro sem parar e foi perto da capelinha, na curva do pequizeiro grande, que viu um farol de caminhonete aceso no acostamento. De dentro da escuridão vinha uma voz rouca, cantando bem baixinho uma moda antiga de viola.
Luzia conhecia aquela voz melhor do que a própria. Seu Benedito estava sentado na carroceria de pijama listrado, enrolado num paletó de couro que não era dele com a viola no colo. Ao lado de pé estava o homem da capela. “Ele tá bem”, disse Tomás antes que ela perguntasse. “Achei ele no meio da estrada.”
“Disse que estava atrasado para tocar num casamento. Não quis entrar na cabine de jeito nenhum. Só aceitou sentar aqui atrás.” Luzia subiu no para-choque e abraçou o avô com tanta força que a viola rangeu. O velho passou a mão no cabelo dela. “Calma, menina. A noiva ainda nem chegou.” Ela chorou no ombro dele. Tomás se afastou uns passos e ficou olhando o mato escuro, dando a ela o espaço que ninguém dá.
Quando ela conseguiu respirar, desceu e levantou o queixo, mesmo descabelada e de camisola. “Obrigada.” “Deixa eu levar vocês. É mais de um quilômetro no escuro.” Ela olhou o avô tremendo dentro do paletó e engoliu o orgulho. “Tá bom, mas eu vou atrás com ele.” Na porta de casa, Tomás ajudou seu Benedito a descer, segurando pelo cotovelo, como quem segura uma coisa preciosa.
Levou o velho até a cama e ajeitou o travesseiro. Luzia ficou olhando da porta, sem entender por que um estranho fazia aquilo com tanto jeito. Na varanda, ele perguntou com uma seriedade estranha: “Qual é o nome completo dele?” “Benedito Ferreira da Silva. Por quê?” Ele ficou olhando para a porta do quarto, onde o velho já roncava.
Alguma coisa passou pelo rosto dele, como um susto que ele tratou de esconder. “Por nada. Boa noite, moça. Tranca o portão.” E foi embora sem dizer o próprio nome. A sede da fazenda de Tomás ficava a 20 minutos dali, no alto de um morro, de onde se via o cerrado inteiro. Era um casarão branco de 20 quartos que ele tinha comprado 8 meses antes, depois de vender a fazenda antiga em Goianésia, onde tudo lembrava a mulher.
Quando entrou naquela madrugada, a casa estava escura e silenciosa. O único barulho era o relógio de parede da sala, batendo os segundos para ninguém. Foi até o escritório e tirou da gaveta um caderninho de capa preta gasto nas pontas. Eram anotações de muitos anos. Nomes de violeiros, nomes de fazendas onde houve casamento na década de 70, cidades inteiras riscadas.
Ao lado de alguns nomes, ele tinha escrito: “falecido”, “mudou pro Pará”, “ninguém conhece”. Na última página havia uma única linha escrita oito meses antes, quando um peão velho jurou ter conhecido o violeiro do Bom Pouso. “Santa Cruz do Bom Pouso, Benedito.” Tomás pegou a caneta e embaixo escreveu com a letra tremendo um pouco.
“Benedito Ferreira da Silva, Rua do Rosário. VIVO.” Ficou olhando aquela palavra por muito tempo. Vivo. 48 anos de procura cabiam ali em quatro letras. Depois cobriu o rosto com as mãos. Pensou na moça de trança, ajoelhada na capela, pedindo a Deus para encontrar alguém. Pensou que ele tinha passado a vida inteira fazendo a mesma oração, só que com outras palavras, e pensou, com um medo que não sentia desde menino, que talvez tivesse chegado tarde demais.
O homem que ele procurava estava vivo, mas já não lembrava nem o nome da própria neta. Como é que ia lembrar de um moleque descalço que só conheceu por três dias? Luzia não dormiu mais. Quando o dia clareou, já estava com o tacho no fogo. A vida dela começava às 4 da manhã.
Doce de leite em barra, doce de mamão verde ralado, cidra cristalizada, licor de jenipapo em garrafinhas de vidro com rolha. Tudo pela receita da mãe, Dona Rosa, anotada num caderno de capa dura com as páginas manchadas de calda. A mãe tinha sido a doceira de todos os casamentos da região por 30 anos.
E Luzia, a menina, cantava ao lado dela nas cerimônias da capelinha, enquanto o avô tocava a viola. Às 9 saía com as cestas pela cidade, enquanto Dona Firmina, a vizinha do muro de bambu, olhava seu Benedito. Vendia na padaria, no posto, na farmácia, na porta da escola. Às 5, a capela. À noite, as contas. As contas eram a pior hora do dia.
Farmácia, três meses atrasada. Luz com aviso de corte. O remédio novo da memória custava quase metade do que ela ganhava no mês. Naquela manhã, o telefone tocou. Era Marcos, o irmão. “Luzia, eu vou aí no mês que vem. A gente precisa resolver a casa. Tem uma casa de repouso boa aqui em Goiânia.”
“E a casa aí vale um dinheirinho. Já tem gente interessada.” “Você não pisa aqui faz dois anos, Marcos.” “Eu trabalho, Luzia. Tenho mulher, tenho filho. Eu tenho o quê?” Ficou um silêncio do outro lado. Depois ele desligou cansado, prometendo vir. Na padaria do seu Geraldo, enquanto contava as barras, ela ouviu a conversa no balcão.
“É o tal do Arantes”, dizia um homem de boné. “Chegou faz uns 8 meses, comprou a fazenda do finado Teodoro. Dizem que é o homem mais rico daqui até Goiânia e anda pela cidade feito quem procura alguma coisa.” “Rico só procura terra”, disse outro rindo. “Rico só procura terra.” Na volta, passando pela capela, Luzia viu a mesma caminhonete na sombra do ipê amarelo, e à tarde encontrou um embrulho de papel pardo em cima da cadeira de fio.
Dentro, um jogo completo de cordas de viola, das boas, ainda lacrado, sem bilhete. Ela não precisou de bilhete para saber de quem era. Na sexta-feira, a caminhonete parou no portão. Tomás desceu sem chapéu e ficou do lado de fora esperando como quem pede licença sem abrir a boca.
Mostrou uma folha de caderno dobrada. “É encomenda. Daqui três semanas tem a festa dos peões lá na fazenda. 120 pessoas me disseram que o melhor doce de leite da região é o seu.” Ela leu a folha devagar. 40 barras de doce de leite, 20 potes de doce de mamão, 30 garrafinhas de licor. Era mais do que vendia num mês.
Disse o preço, o mesmo que cobrava da padaria, e esperou que ele oferecesse mais só para ter o gosto de recusar. Ele não ofereceu. Contou metade do valor, nota por nota. “Metade agora, metade na entrega. Do jeito que a senhora trabalha com todo mundo, imagino.” Ela tinha se preparado para a caridade e recebeu o negócio.
Seu Benedito apareceu na porta de cabelo molhado do banho. “Eu te conheço, moço. A gente se viu na estrada.” “Seu Benedito. Ah, foi você que me emprestou o paletó. Entra, toma um café.” E o fazendeiro mais rico da região tomou café de coador num copo de requeijão, como se não existisse nada mais natural no mundo.
Ficou duas horas ouvindo o velho falar de casamentos de roça, de noivas que chegavam a cavalo, de festas que duravam três dias. Ouviu tudo duas vezes, sem olhar o relógio. Às vezes fazia uma pergunta e o velho se acendia inteiro para responder. Luzia fingia trabalhar de olho nos dois.
Ninguém tinha aquela paciência com o avô. Os médicos falavam rápido demais. Os vizinhos visitavam com pena. Aquele homem não tinha pena, tinha atenção. Quando ele se levantou, seu Benedito segurou a mão dele com as duas mãos. “Volta amanhã, moço. Amanhã eu te conto do casamento de 78. Foi o mais bonito de todos.”
Tomás ficou imóvel por um instante. “Eu volto.” Antes de ir, já no portão, ele se virou para Luzia, que estava enrolando rolha nas garrafinhas. “Posso fazer uma pergunta, moça?” “Depende.” “Como foi o seu dia?” Ela parou com a garrafinha na mão, lembrou da capela, do que tinha pedido. Ninguém fazia aquela pergunta para ela havia três anos e aquele homem tinha escutado.
“Foi cansado”, respondeu depois de um tempo. “Acordei às 4, fiz doce, vendi doce, contei dinheiro que não dava, igual todo dia.” “E o que foi bom?”, ela pensou. Olhou para o avô cochilando na cadeira de fio com a viola no colo. “Ele riu hoje contando história para o senhor. Fazia tempo que eu não via ele rir assim.”
Tomás balançou a cabeça devagar, como quem guarda uma coisa importante, e foi embora. Luzia ficou um bom tempo olhando a poeira que a caminhonete deixou na rua, e ele voltou sempre às duas da tarde, sempre esperando no portão até ser chamado. Às vezes trazia um saco de pequi, uma rapadura de Goiás Velho, nunca nada que parecesse esmola.

Na terça, trocou as cordas da viola na varanda, afinando uma por uma de ouvido. E seu Benedito tocou pela primeira vez em meses, uma moda inteira sem perder o fio. Mas nem todo dia era bom. Na quinta-feira, Luzia foi à farmácia buscar o remédio e o farmacêutico, sem graça, disse que não podia mais vender fiado.
A dívida estava grande demais. Ela saiu de lá com a receita na mão e o rosto queimando de vergonha, passando entre as pessoas da fila que fingiam não ter ouvido. Quando chegou em casa, o avô estava num dia ruim. Olhou para ela da porta como quem olha uma estranha. “Quem é você? Sai da minha casa.” “Vô, sou eu, a Luzia.”
“Eu não conheço nenhuma Luzia. Sai daqui.” Ele tremia, agarrado ao batente, com os olhos cheios de medo. Luzia ficou parada no meio da varanda, sem saber se chorava ou se entrava. Era a primeira vez que ele não a reconhecia de jeito nenhum, nem como Iracema, nem como ninguém. Foi aí que a caminhonete parou no portão.
Tomás entendeu a cena sem ninguém explicar. Não entrou. Sentou no degrau da varanda, pegou a viola que estava encostada na parede e começou a tocar baixinho uma moda antiga. Uma vez, duas, na terceira, seu Benedito largou o batente, sentou na cadeira de fio e começou a bater o pé no ritmo.
O medo foi saindo do rosto dele, como água escorrendo. No fim da moda, o velho olhou para Luzia e disse como se nada tivesse acontecido: “Iracema, cadê o café?” Ela foi para a cozinha e chorou encostada na pia em silêncio para ninguém ver. Quando voltou com o café, Tomás olhou para a receita amassada na mão dela, mas não perguntou nada.
E ela agradeceu por isso mais do que por qualquer outra coisa. Naquela noite na cama, ela se pegou pensando nele, no jeito que ele sentou no degrau sem invadir, no silêncio que sabia guardar, e percebeu, assustada, que estava contando as horas até as duas da tarde do dia seguinte. “Rico só procura a terra”, repetiu para si mesma, mas a frase já não convencia tanto.
Na quarta-feira seguinte, ela voltou da padaria antes do costume e viu Tomás sentado no chão da varanda sozinho, com a caixa de lembranças de seu Benedito aberta no colo. Era uma caixa de sapato velha, onde o avô guardava fotos, santinhos e recortes de jornal. Luzia nunca deixava ninguém mexer ali.
Tomás segurava uma fita vermelha de cetim desbotada com a ponta rasgada, uma daquelas fitas que os violeiros amarram no braço da viola. E chorava. Luzia atravessou o quintal em três passos e tirou a fita da mão dele. “Quem deixou o senhor mexer nisso?” “Ele me deu a caixa, pediu para eu achar a foto do casamento. Eu não devia ter…”
“Não devia mesmo.” Ela fechou a tampa com força. “Fala a verdade, seu Tomás. A cidade inteira diz que o senhor tá comprando terra. Meu irmão diz que tem gente interessada na casa. E o senhor aparece todo santo dia com presente, com paciência, com conversa. O senhor tá procurando o que aqui?” Ele ficou calado um tempo. “Eu não quero a sua casa.”
“Eu tô procurando um violeiro, um homem que fez uma coisa por mim faz muito tempo e eu nunca agradeci. Quando eu vejo o seu Benedito, eu lembro dele.” Era meia verdade e Luzia sentiu que era meia. “E faz quanto tempo que o senhor procura esse homem?” “48 anos.” Ele pegou o chapéu e saiu no portão.
Parou sem se virar. “A encomenda tá de pé. Se a senhora ainda quiser fazer.” Luzia passou a noite em claro, sem saber se tinha sido injusta. E quando a encomenda ficou pronta, foi ela mesma entregar na fazenda, de carona com o caminhão do leite. Disse para si mesma que era só para receber a outra metade do dinheiro. Sabia que não era.
O casarão branco no alto do morro era ainda maior visto de perto. Varanda em volta inteira, 20 janelas, um jardim bem cuidado que ninguém olhava. Um peão a levou até a cozinha, onde as panelas brilhavam penduradas na parede, limpas demais como panela que não cozinha para ninguém. Tomás apareceu na porta surpreso de botina suja de curral. “A senhora veio.”
“Vim entregar. Negócio é negócio.” Ele pagou a outra metade, nota por nota. Depois, sem jeito, perguntou se ela aceitava um café. Ela aceitou. Sentaram na ponta de uma mesa de 12 lugares e o barulho das xícaras no pires parecia alto demais naquela casa. “O senhor mora aqui sozinho?”, perguntou ela, olhando em volta.
“Eu e o relógio da sala.” Ela quase riu, mas viu no canto da parede uma única foto. Uma mulher de cabelo curto sorrindo na varanda de outra casa. “Helena”, disse ele antes que ela perguntasse, “30 anos de casados. Ela morreu do coração faz 3 anos. Depois disso, eu vendi tudo e vim para cá. Lá tudo tinha o cheiro dela.”
“Aqui nada tem cheiro de ninguém.” Luzia ficou olhando a foto. Pela primeira vez entendeu que aquele homem rico era tão sozinho quanto ela. Talvez mais. Ela tinha um avô que às vezes a confundia com a avó. Ele não tinha ninguém para confundir com ninguém. Na volta no caminhão do leite, ela não pensou em mais nada. Dias depois, o padre Anselmo passou na porta dela de bicicleta com os óculos escorregando pelo nariz.
Trazia uma notícia. “A Mariana, neta do seu Geraldo da padaria, vai casar daqui a um mês. 300 convidados, festa no salão da cidade. A família quer os doces de casamento do jeito antigo, do jeito que a sua mãe fazia. Vão fazer uma degustação para escolher a doceira e paga bem, Luzia.” “Isso não é para mim, padre, é para a Dona Cotinha, pras meninas da cooperativa.”
“Isso é para quem faz o melhor doce. E o melhor doce de casamento dessa região saiu desse tacho por 30 anos.” Dona Firmina, que escutava tudo por cima do muro, enfiou a cabeça pela cerca de bambu. “Ela vai, padre. Se não for, eu vou no lugar e digo que fui eu que fiz.” Naquela tarde, Luzia abriu o caderno da mãe numa página que não abria fazia anos.
Doce de leite com laranja e cravo para noivas. Embaixo com a letra redonda de Dona Rosa: “Mexer com amor, porque é o primeiro doce da vida nova de alguém”. Errou a primeira, que açucarou, errou a segunda que passou do ponto. Na terceira, o cheiro que subiu do tacho era o cheiro da infância. E sem perceber, ela começou a cantarolar baixinho a moda que cantava com a mãe nas cerimônias da capela.
Do outro lado do muro, Dona Firmina parou a vassoura e ficou escutando com a mão no peito. Fazia três anos que ninguém naquela rua ouvia a voz da Luzia. No domingo, depois da missa, o padre a chamou na sacristia. “Vou te contar uma coisa que eu não devia. Quando o Tomás Arantes chegou aqui 8 meses atrás, a primeira coisa que ele fez foi me pedir para ver o livro de casamentos da capela, o de 78.”
“Passou uma tarde inteira lendo nome por nome. Perguntou de cada violeiro, de cada padrinho.” Luzia ficou quieta. “A mulher dele morreu faz três anos. Não tiveram filhos. Ele vendeu tudo que tinha em Goianésia e veio para cá sozinho. Não sei o que ele procura, minha filha, mas sei que não é terra.” Às 5, ela foi à capela orar, como sempre, e pela primeira vez em três anos, quando pediu a Deus para encontrar alguém, esse alguém pareceu ter um rosto.
Isso lhe deu mais medo do que tudo. A mãe tinha esperado o pai na janela a vida inteira até o dia de morrer. E no enterro, Luzia prometeu para si mesma que nunca mais ia esperar ninguém. Na segunda-feira, chegou em casa e encontrou um carro prata, placa de Goiânia, parado no portão. Marcos estava na varanda de camisa social.
Ao lado dele, um homem de terno barato com uma pasta de couro e um dente de ouro. “Esse é o seu Valdir, corretor”, disse Marcos. “Já tem comprador para a casa. Pagam à vista. Gente séria.” O corretor sorriu. “Da Serra Alta. Estão juntando as terras daqui até o córrego, o pessoal do Arantes.” O chão sumiu debaixo dos pés dela.
Viu como num filme o homem na porta da capela, o homem na estrada escura, o homem sentado no degrau tocando viola para acalmar o avô. Pensou em como tinha começado a esperar por ele e a vergonha doeu no corpo inteiro. “Sai da minha varanda”, disse ao corretor. “A casa é do vô e o vô não sai daqui enquanto eu tiver duas mãos.”
Entrou e bateu a porta. Marcos ficou mais um tempo na varanda e depois foi para a pensão da cidade. Às 2 da tarde, a caminhonete parou no portão. Luzia saiu antes que ele descesse e falou alto, sem se importar com a rua inteira ouvindo. “Pode ir embora, seu Tomás. Seu corretor já passou aqui.”
“Agora eu sei o que o senhor estava procurando. Ficar amigo do velho, ganhar a confiança da neta boba e comprar a casa barato. Parabéns. Achou.” Ele ficou pálido. “Que corretor, Luzia? Eu não…” “Vai embora e não volta!” Ela bateu o portão. Lá fora, o motor ficou ligado por muito tempo. Depois o barulho foi sumindo na estrada. Da sala…
Seu Benedito perguntou com voz de criança assustada: “Cadê o moço? Ele não vem hoje?” Luzia não teve coragem de responder. Naquela tarde, pela primeira vez em 3 anos, Luzia não foi à capela orar. Já passava das 9 da noite quando alguém bateu palmas no portão. Era ele a pé sem chapéu, com a calça empoeirada de quem tinha andado muito.
“Eu vou embora se a senhora mandar, mas antes eu preciso que a senhora me escute. Uma vez só.” Ela pensou em fechar a janela. Não fechou. Saiu na varanda de braços cruzados. “A Serra Alta não é minha”, começou ele. “É a fazenda que faz divisa com a minha. São uns empresários de Brasília comprando tudo para plantar soja.”
“Eu arrendei um pasto para eles no ano passado e desde então eles usam meu nome para abrir porta. Hoje eu fui no escritório deles e avisei: ‘Se usarem meu nome de novo, a gente se encontra na justiça’.” “E por que eu ia acreditar no senhor?” “Pergunta pra Dona Firmina. O sobrinho dela trabalha de tratorista na Serra Alta. Ele sabe quem é o dono.”
Luzia olhou para o muro de bambu. A luz da cozinha da vizinha ainda estava acesa e ela sabia que Dona Firmina estava ouvindo cada palavra. Do outro lado do muro veio a voz da velha sem nenhuma vergonha. “É verdade, Luzia. O Tiãozinho trabalha lá faz dois anos. Os donos são os paulistas de Brasília. Esse homem aí não tem nada com aquilo.” Luzia baixou os braços devagar.
“Então o senhor quer o que da gente?” Tomás olhou para o chão. Quando levantou os olhos, eles brilhavam no escuro. “Eu nasci em Goianésia. Minha mãe morreu quando eu tinha 6 anos. Aos 9, eu já vivia na rua. Em maio de 78, teve um casamento grande numa fazenda aqui perto. Três dias de festa, eu fui atrás do cheiro da comida.”
“Na Fazenda Bom Pouso”, disse ela baixinho. “A foto da capela.” Ele confirmou com a cabeça. “Eu fiquei na janela, olhando a mesa, descalço, sujo. Me enxotaram duas vezes. Disseram que eu ia roubar.” Luzia não disse nada, só desceu um degrau da varanda. “Na terceira vez, o violeiro da festa parou de tocar, saiu lá de dentro, me pegou pela mão e me sentou do lado dele, no banco dos músicos, na frente de todo mundo.” “O vô?”, sussurrou ela.
“Tonico não me deu o resto. Dividiu o prato dele comigo, garfada por garfada. De noite me emprestou a rede e dormiu no chão. Nos três dias de festa, me deixou carregar a viola dele para todo lado. Me ensinou uma moda, a única que eu sei até hoje.” Ele parou. A voz não aguentou.
Luzia esperou em silêncio, sem apressar. “No fim da festa”, continuou ele, “ele me levou até o orfanato de Anápolis e disse pras freiras que eu era um menino bom. Ninguém nunca tinha dito isso de mim. E a fita fui eu que rasguei. No último dia, puxei sem querer o laço do braço da viola.”
“Ele não brigou, guardou o pedaço no bolso e disse que ia ficar de lembrança do menino que carregou a viola dele.” Luzia cobriu a boca com a mão. “Eu cresci”, disse Tomás. “Fui peão, tratorista, capataz. Comprei a primeira terra com 30 anos. Fiquei rico e a vida inteira eu quis encontrar aquele homem para dizer obrigado.”
“Quando minha mulher morreu, eu vendi tudo e vim procurar. E no dia que eu achei a foto na capela, ouvi a senhora pedindo a Deus para encontrar alguém.” “Por que não contou antes?” “Medo. Medo de chegar na frente dele e ele não lembrar de mim. Eu tinha pavor de ser só mais um rosto que ele esqueceu.” Ficaram os dois em silêncio no portão.
Foi ela quem falou, sem saber de onde tirou coragem. “Eu parei de cantar quando minha mãe morreu. A gente cantava junto nos casamentos da capela desde que eu era pequena. No enterro me pediram para cantar e eu abri a boca e não saiu nada. Desde então, eu acho que se eu cantar, vou lembrar que ela não tá mais aqui. E eu não aguento lembrar.” Tomás não disse nada.
Ficou ao lado dela perto sem encostar, do mesmo jeito que Benedito tinha ficado ao lado dele 48 anos antes. “Entra”, disse ela. “Ele ainda tá acordado.” Seu Benedito estava sentado na cama com a viola no colo. Tomás pediu licença, sentou na beirada e estendeu as mãos.
O velho entregou a viola sem perguntar nada. Tomás fechou os olhos e tocou. Era uma moda simples de quatro acordes, meio desafinada no meio. A moda que um violeiro de bigode fino tinha ensinado a um menino descalço numa festa de casamento em maio de 1978. Na segunda volta, seu Benedito começou a mexer os lábios.
Na terceira cantou, a voz rouca falhando, mas certa em cada palavra. Quando a moda acabou, o velho ficou olhando para Tomás. Olhou de perto, devagar, como quem procura uma coisa perdida no fundo de uma gaveta antiga. Depois levantou a mão trêmula e encostou no rosto dele. “Tonico”, disse baixinho. “Você cresceu, menino.”
Tomás desabou, baixou a cabeça no colo do velho e chorou como criança. Seu Benedito passou a mão no cabelo dele devagar. “Eu sabia que você ia me encontrar. Guardei o pedaço da fita para você.” Tomás levantou o rosto molhado, segurou as duas mãos do velho entre as dele, aquelas mãos grandes que um dia tinham puxado um menino descalço para dentro de uma festa.
“Obrigado, seu Benedito”, disse com a voz quebrada. “Eu atravessei a vida inteira para dizer essa palavra. Obrigado por ter me sentado do seu lado.” O velho sorriu com os olhos marejados e balançou a cabeça devagar. “Não precisava, menino. Prato dividido não se cobra.”
“A gente divide porque a fome do outro dói na gente também.” Na porta, Luzia escorregou pela parede até sentar no chão com as mãos no rosto. Mais tarde, quando o avô cochilou, os dois ficaram na varanda. Ela passou o café no coador de pano e serviu nos copos de requeijão. A rua estava escura, só com a luz amarela do poste da esquina e o cheiro de dama-da-noite vindo do quintal de Dona Firmina.
“Me desculpa pelo que eu disse no portão”, falou ela sem olhar para ele. “Eu chamei o senhor de esperto, de interesseiro. Você tinha motivo?” “Não tinha.” “Eu tinha medo. É diferente.” Ele girou o copo nas mãos. “Medo de quê?” Luzia demorou. Depois falou baixinho, como quem confessa um pecado.
“De gostar de alguém que vai embora. Meu pai foi, meu irmão foi, minha mãe foi do jeito que ninguém volta. E o vô tá indo um pouquinho por dia. Eu achei que se eu não esperasse nada de ninguém, ninguém ia me machucar de novo.” Tomás ficou um tempo em silêncio, depois disse devagar: “Eu passei 48 anos procurando um homem que ficou comigo três dias.”
“Três dias, Luzia, e foi o suficiente para eu virar gente. Imagina o que é alguém ficar a vida inteira.” Ela olhou para ele e não respondeu porque não precisava. Antes de dormir, num dos raros momentos em que a cabeça clareava por inteiro, seu Benedito segurou a mão da neta e disse uma coisa que ela nunca mais esqueceu.
“Luzia, eu toquei em casamento a vida inteira. Só falta um, o seu. Eu queria ver você de noiva antes de esquecer tudo de vez.” Ela riu chorando e mandou o avô dormir. Mas Tomás, parado na porta do quarto, ouviu. No dia seguinte, Luzia acordou às 4, como sempre, mas acordou outra.
Antes das 6, bateu na porta do quarto do irmão na pensão. “Eu não vou vender a casa e não vou te pedir dinheiro. Me dá dois meses. Se eu não mostrar que dou conta do vô, aí a gente conversa.” Marcos olhou para ela um bom tempo e concordou com a cabeça. Voltou para Goiânia naquela manhã. Depois ela pegou o ônibus até a cidade vizinha e passou a manhã inteira numa fila da Defensoria Pública, aprendendo como pedir a curatela do avô.
Saiu com uma lista de documentos e uma data marcada. Na mesma semana se formalizou como microempreendedora, com nota fiscal pela primeira vez na vida, e recusou uma ajuda. Tomás ofereceu pagar a farmácia e ela disse: “Não”, com firmeza, mas sem raiva. “Se o senhor pagar, eu vou passar a vida achando que o senhor ficou por pena. Me deixa resolver do meu jeito.”
Ele entendeu. A primeira metade da encomenda dos peões tinha ido toda em leite, açúcar e lenha, mas a segunda metade ela tinha guardado intacta numa lata de biscoito. Com ela, Luzia quitou a farmácia e a luz, comprou o remédio do avô e ainda sobrou para o açúcar da degustação.
A degustação foi no salão paroquial. 11 doceiras, cada prato com um número e sem nome. Quem provava era a família da noiva e a última a provar foi Dona Hilda, a avó da Mariana, uma senhora de 80 anos com fama de nunca gostar de nada. Ela provou o prato número sete, fechou os olhos e ficou calada um tempo. “Esse aqui é o doce da Rosa.”
“Foi esse doce que a Rosa fez pro casamento da minha filha em 90. Eu reconheço o cravo. Não existe outro igual.” O prato sete era o de Luzia. A família escolheu os doces dela por unanimidade. O contrato pagava de uma vez o que ela levaria 4 meses para ganhar. Do lado de fora, encostado na caminhonete, quem esperava era Tomás. Ela não precisou contar.
Abraçou ele ali mesmo na calçada, na frente da cidade inteira, e depois se afastou vermelha, sem saber o que fazer com as mãos. Ele também não sabia. Os dois riram. Mas a alegria durou pouco. Naquela mesma tarde, Dona Hilda mandou chamar Luzia na padaria. A cantora contratada para a cerimônia tinha avisado que não vinha mais.
Arrumou um trabalho em Goiânia e desistiu. Não tinha quem cantasse na entrada da noiva e o casamento era dali a três semanas. “A neta da Rosa cantava nos casamentos da Capela quando era mocinha”, disse Dona Hilda, olhando firme para ela. “Uma voz que parecia de anjo. Eu quero essa voz no casamento da minha neta.”
Todos olharam para Luzia. Ela olhou para o chão e depois, sem querer, olhou para Tomás, que tinha entrado atrás dela. Ele só balançou a cabeça uma vez, devagar, como quem diz: “Só se você quiser.” Ela pensou na mãe, no enterro, na boca aberta, sem som. Pensou no avô, que podia não ter outro casamento para tocar.
“Eu tento”, disse com a voz tremendo. “Mas só se o meu avô tocar a viola.” Saiu de lá sem saber se tinha acabado de fazer a coisa mais corajosa ou a mais burra da vida. Faltavam três semanas e fazia três anos que ela não conseguia cantar uma música inteira na frente de ninguém.
As semanas seguintes viraram um mutirão. Dona Firmina embalava os doces e duas meninas da cooperativa vieram aprender a receita de noiva da Dona Rosa. Luzia ensinou tudo sem esconder segredo nenhum. Tomás aparecia no fim da tarde e ficava mexendo o tacho quando o braço dela cansava. Na primeira vez, deixou o doce grudar no fundo e ela riu tanto que precisou sentar.
“Fazendeiro rico e não sabe mexer um doce.” “Ninguém nunca me ensinou.” Ela pôs a mão por cima da dele na colher de pau e mostrou o movimento devagar, sempre para o mesmo lado. Ficaram assim um tempo maior do que precisava. Nenhum dos dois comentou. À noite, depois que o avô dormia, ela ensaiava baixinho na cozinha com seu Benedito dedilhando a viola nos dias bons.
Na maioria das noites, a voz quebrava no meio e ela desistia com raiva de si mesma. Numa delas, chorou em cima do caderno de receitas da mãe e pensou em ligar para Dona Hilda e desistir de tudo. Não ligou, mas também não teve certeza de que ia conseguir. Numa daquelas tardes, quando o último tacho esfriou, ele a convidou para andar até a capela.
O sol estava baixo, o cerrado inteiro cor de mel e as seriemas gritavam longe. Caminharam devagar pela estrada de terra, ela de vestido rosa, ele de chapéu na mão, como no primeiro dia. “Se a vida deixasse?”, perguntou ele. “O que a senhora queria fazer?” “Para de me chamar de senhora. Eu tenho 34 anos, não 80.” Ele riu.
“Então, se a vida deixasse, Luzia, o que você queria?” Ela demorou a responder. Fazia tanto tempo que ninguém perguntava aquilo que ela precisou procurar a resposta lá no fundo. “Uma doceria pequena, com uma vitrine de vidro onde as noivas pudessem vir escolher os doces do casamento, igual minha mãe sonhava. Ela nunca teve.”
“Fez doce a vida inteira na cozinha de casa.” “E por que não faz?” “Porque sonho não paga a farmácia.” Ele não disse nada, mas na curva do pequizeiro, as mãos dos dois se esbarraram sem querer e na segunda vez nenhum dos dois puxou. Andaram assim até a porta da capela, de mãos dadas, sem falar uma palavra, com o coração dela batendo tão alto que ela teve certeza de que ele estava ouvindo.
No sábado de manhã, tudo quase se perdeu. Seu Benedito acordou num dos piores dias que Luzia já tinha visto. Não sabia onde estava, não sabia quem ela era. E quando ela mostrou a viola, ele olhou o instrumento como quem olha para uma coisa estranha. Pegou nas cordas e não tirou som nenhum.
Os dedos não lembravam mais o caminho. Luzia sentou no chão do quarto com o vestido da cerimônia ainda no cabide e sentiu o mundo inteiro desabar. Sem o avô, ela não ia conseguir. Sabia disso desde o primeiro ensaio. Foi Tomás quem chegou às 9 de camisa passada para levar os dois. Viu a cena da porta e não disse nada.
Sentou na beirada da cama, pegou a viola e começou a tocar devagar. A moda de quatro acordes, a de 78. Tocou uma vez, duas, cinco. Na sexta, os dedos de seu Benedito começaram a se mexer em cima do joelho, acompanhando. Na oitava, ele estendeu as mãos e pediu a viola de volta. “Me dá isso aqui, Tonico. Você tá tocando torto.” Luzia riu chorando.
Faltavam poucas horas para o casamento. À tarde, a capelinha de janelas azuis estava enfeitada de flores do campo e fitas brancas. Os bancos tinham laços de cetim. O chão tinha sido lavado com sabão de coco e, do lado de fora, debaixo do ipê amarelo, os cavalos dos convidados da roça esperavam amarrados à cerca.
O cheiro de flor misturava com o de terra molhada da chuva da madrugada. Seu Benedito estava sentado num banquinho perto do altar, de camisa branca engomada e chapéu novo com a viola de fitas coloridas no colo. Quando a noiva apareceu na porta, ele começou a tocar. Luzia abriu a boca. Por um segundo não saiu nada, igual ao enterro.
Então, do lado dela, o avô começou a cantar junto com a viola. A voz rouca, firme, certa em cada palavra, como tinha cantado em centenas de casamentos. Luzia segurou o ombro dele e cantou. A voz dela subiu limpa e bonita, enchendo a capela inteira. Era a voz da Dona Rosa. Dona Hilda chorava na primeira fila.
Dona Firmina orava de mãos postas. A noiva entrou devagar e ninguém conseguia decidir se olhava para ela ou para a moça de trança que cantava ao lado do avô. No fundo da capela, em pé, no mesmo batente onde tinha ouvido a primeira oração, Tomás chorava sem disfarçar. E na porta alguém chorava mais do que todos. Era Marcos.
Tinha vindo de Goiânia sem avisar e via pela primeira vez em dois anos o avô inteiro, lúcido, tocando e sorrindo. Na festa no salão da cidade, os doces de Luzia acabaram antes das 10. Quatro pessoas pediram o telefone dela para encomendas de casamento. Marcos abraçou o avô e seu Benedito olhou para ele e disse: “Marquinho, tá magro, menino.”
“Tá comendo direito lá na cidade?” Marcos riu e chorou ao mesmo tempo. Depois foi até a irmã. “Esquece a casa, Luzia. Eu tava errado. Você sempre deu conta. Eu é que não dava conta de ver ele assim e ir embora. Agora eu venho todo mês e ajudo com o remédio.” Ela abraçou o irmão como não abraçava desde menina. Mais tarde, quando a sanfona começou a tocar uma moda lenta, Tomás atravessou o salão e estendeu a mão para ela. Luzia hesitou, depois aceitou.
Dançaram devagar, desajeitados no meio dos convidados, e ela encostou a testa no ombro dele, sem pensar. “Obrigada por ter ficado no fundo da capela aquele dia”, disse ela baixinho. Ele não respondeu, só apertou a mão dela um pouco mais. Mais tarde, enquanto Luzia ajudava a embalar as sobras dos doces na cozinha do salão, viu pela porta uma cena que não entendeu.
Tomás estava agachado ao lado da cadeira do avô, num canto mais quieto, de chapéu na mão, falando baixinho. Seu Benedito escutava sério, com a testa franzida. Depois de um tempo, o velho pôs a mão no ombro dele e disse alguma coisa. Tomás abaixou a cabeça. Luzia não ouviu uma palavra. Mas quando a festa acabou e o povo começou a ir embora, Luzia procurou Tomás e não encontrou.
Perguntou para todo mundo. Ninguém sabia. A caminhonete não estava mais lá. Ela sentiu o mesmo frio no estômago da madrugada em que o avô sumiu. O mesmo frio de quando era menina e o pai saiu de casa dizendo que voltava na sexta. Voltou para casa com o avô dormindo no ombro dela. Não dormiu. Passou a madrugada inteira sentada na janela da sala, a mesma janela onde a mãe tinha esperado o pai durante anos.
Olhava a rua de terra vazia, a casa amarela fechada do outro lado, o poste piscando na esquina. Toda vez que ouvia um motor ao longe, o coração disparava e toda vez o motor passava direto. Lá pelas 4, percebeu o que estava fazendo e sentiu raiva de si mesma. Era exatamente aquilo que tinha jurado nunca fazer.
Esperar na janela, igualzinho à mãe. Levantou, foi para a cozinha e acendeu o fogo do tacho. Se ele tivesse ido embora, ela ia continuar fazendo doce, ia continuar cuidando do avô e ia continuar vivendo. Tinha aprendido a sobreviver sozinha uma vez e aprenderia de novo. Mas mexendo o doce com a colher de pau, sempre para o mesmo lado, do jeito que tinha ensinado a ele, Luzia chorou baixinho até o sol nascer.
No domingo não houve caminhonete no portão às 2 da tarde. Às 3, Dona Firmina apareceu toda arrumada e pediu para levar seu Benedito para tomar um ar na casa da comadre dela. Luzia deixou sem desconfiar de nada. Às 5, Luzia foi andando para a capelinha da estrada de vestido rosa e trança, do jeito que ia todos os dias havia 3 anos.
No caminho, foi arrumando o coração. Disse para si mesma que estava tudo bem, que ele tinha feito muito, que o avô tinha encontrado o menino dele, que a farmácia estava paga, que ela tinha voltado a cantar, que era mais do que tinha pedido. Mas quando chegou na curva do pequizeiro e avistou a capela, parou no meio da estrada. O sino estava tocando.
A capela estava cheia. Dona Firmina, o padre Anselmo, Marcos, que ainda não tinha voltado para Goiânia, Dona Hilda, a noiva da véspera ainda de laço no cabelo, as meninas da cooperativa, o seu Geraldo da padaria, todos de pé em silêncio. No primeiro banco, de camisa branca engomada e viola no colo estava seu Benedito, e no meio do corredor, de pé sem chapéu, estava Tomás.
Luzia entrou devagar, sem entender, sem conseguir respirar. As mãos dela tremiam. Seu Benedito começou a tocar a moda de quatro acordes, aquela, a de 78. Tomás esperou que ela chegasse perto. Depois tirou do bolso uma caixinha pequena de veludo e em volta dela, amarrada com um laço, estava a fita vermelha rasgada da viola e ajoelhou.
“Faz três anos que você vem nessa capela pedir para encontrar alguém”, disse ele com a voz embargada. “E faz 48 que eu procuro um lugar para ficar. Eu não sei se Deus me mandou, mas eu sei que no dia que eu ouvi a sua oração, eu parei de procurar. Eu comprei a casa amarela da Rua do Rosário, bem em frente à sua, para ficar perto de quem me encontrou.”
“Luzia, você aceita casar comigo?” A capela inteira prendeu a respiração. A viola de seu Benedito parou no meio do acorde. Por um instante, Luzia não viu a capela. Viu a mãe sentada na janela da casa azul, olhando a estrada por onde o pai nunca voltou. Viu a si mesma no enterro, prometendo nunca mais esperar ninguém. E entendeu ali de pé no corredor que a promessa tinha sido quebrada fazia semanas, que ela já esperava aquele homem todo dia às 2 da tarde e que, mesmo quando ela o mandou embora, ele voltou.
Luzia olhou para a fita vermelha, olhou para o avô com os olhos cheios d’água no primeiro banco, olhou para o homem ajoelhado na frente dela, no mesmo corredor por onde ela tinha passado três anos sozinha. “Aceito”, disse rindo e chorando. “Aceito sim.” A capela explodiu em aplausos. Dona Firmina gritou um viva.
O padre Anselmo tirou os óculos para enxugar os olhos e seu Benedito voltou a tocar mais alto, mais forte. Como nos casamentos de antigamente. Antes de sair, Luzia pediu um minuto. Ajoelhou no mesmo banco onde tinha orado por três anos, juntou as mãos na frente da boca e fez a oração mais curta da vida dela.
Dessa vez não pediu nada pelo avô, que naquele dia lembrava o nome dela, nem pelo alguém que ela tanto tinha pedido para encontrar. Disse só: “Obrigada, Senhor. Eu encontrei.” A festa de noivado foi naquela mesma noite, no meio da Rua do Rosário, entre a casa azul e a casa amarela. Os vizinhos trouxeram mesas, cadeiras e lâmpadas penduradas de um poste ao outro.
Teve galinhada, pamonha e uma mesa inteira com os doces da noiva que ela mesma fez questão de servir. No meio da festa, Luzia sentou do lado do avô e perguntou o que Tomás tinha cochichado com ele na festa da Mariana. O velho riu, todo orgulhoso. “Ele veio pedir sua mão do jeito antigo. Eu falei que dependia. Perguntei se ele ia dividir o prato com você todo dia.”
“Ele disse que ia. Aí eu falei que podia.” Luzia olhou para Tomás do outro lado da mesa. Ele estava vermelho como um menino. Ela atravessou a rua, segurou o rosto dele com as duas mãos e o beijou ali mesmo na frente da Rua do Rosário inteira. Dona Firmina bateu palmas e o avô puxou na viola uma moda de casamento. No fim da noite, seu Benedito chamou a neta e disse, segurando a mão dela: “Agora pode esquecer o resto.”
“Esse aqui eu vou lembrar.” Os meses que vieram foram bons, mas não foram mágicos. Seu Benedito continuou esquecendo algumas coisas. Tinha dia que chamava Luzia de Iracema e Tomás de Tonico, mas nunca mais saiu de madrugada pela estrada. Agora tinha alguém do outro lado da rua que ouvia o portão bater. A doceria Dona Rosa abriu na salinha da frente da casa amarela, com a vitrine voltada para a rua e cheia de doces de casamento.
Luzia pagava o aluguel em dia, porque fez questão. A curatela saiu. As contas fecharam pela primeira vez em anos. Marcos voltou todo mês como tinha prometido. O casamento foi em setembro, na capelinha de janelas azuis. Seu Benedito tocou a entrada da noiva e na festa, no meio da rua, Tomás reparou num menino de uns 9 anos, magrinho, descalço, parado perto da mesa, olhando a comida de longe.
Atravessou a festa, pegou o menino pela mão e o sentou do lado dele, na mesa dos noivos, na frente de todo mundo. Dividiu o prato com ele, garfada por garfada. Seu Benedito viu a cena da cadeira de fio e sorriu. Às vezes, quando a gente pede a Deus para encontrar alguém, Ele manda justamente quem também passou a vida procurando.
Benedito tinha esquecido quase tudo, mas Deus não esqueceu o prato que ele dividiu. A Luzia orou durante três anos naquela capelinha e a resposta chegou de um jeito que ela nunca imaginou. Pela porta dos fundos, de chapéu na mão, ouvindo em silêncio. Agora eu quero te fazer uma pergunta.
Você já teve uma oração respondida de um jeito que nunca imaginou? Alguém que chegou na hora certa quando tudo parecia fechado? Se já aconteceu com você, escreve aqui embaixo: “Eu encontrei”. E se quiser, conta como foi. Sua história pode ser exatamente a esperança que outra pessoa precisa ler hoje. Mas se você ainda está esperando, se ainda tem um pedido guardado no peito, escreve: “Eu ainda espero”.
E eu te peço uma coisa, quem ler um “Eu ainda espero” aqui nos comentários, responde com uma palavra de força, porque às vezes a resposta de Deus chega pela boca de um desconhecido. E hoje esse desconhecido pode ser você. Se essa história tocou o seu coração, deixa o seu like, compartilha com alguém que anda precisando de esperança e segue a página para não perder a próxima.
Eu te espero aqui com mais uma história de gente simples que muda o mundo sem fazer barulho. Fica com Deus e até a próxima.