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Uma Câmera Subaquática Foi Achada No Fundo Do Pantanal Em 2021

O resto

Disse que a câmera parecia pertencer a alguém que estava esperando por ela em algum lugar. Terminou a pescaria, remou de volta para Porto da Manga com o saco de peixes no banco de trás e a câmera no bolso da calça. Naquela tarde, foi até a casa do vizinho Gilmar Tobias dos Santos, que tinha um carregador universal comprado numa feira em Corumbá.

Tentaram por 40 minutos fazer o aparelho ligar. Quando conseguiram, a tela acendeu com um ícone de pasta mostrando arquivos de vídeo no canto superior. Gilmar disse que eram 18. Benedito disse que não tocou em nenhum. Dois dias depois, levou a câmera à Delegacia de Polícia Civil de Corumbá, num prédio de fachada bege na rua América, a três quarteirões do Porto Geral e do rio Paraguai.

Entregou-a ao escrivão de plantão, explicou o que havia encontrado, onde e quando. O escrivão registrou num boletim de ocorrência e colocou a câmera numa sacola plástica transparente com etiqueta numerada. Era o primeiro passo de uma investigação que não chegaria a nenhum nome. Os quatro rostos que ninguém conhecia. A câmera chegou ao setor técnico da delegacia em 29 de agosto.

O agente responsável pela análise era Jonas Aparecido Freitas, 41 anos, que havia trabalhado 2 anos no DEIC de Campo Grande antes da transferência para Corumbá. Era acostumado com celulares apreendidos em flagrante, discos rígidos de investigados, câmeras de segurança borradas de mercadinhos de beira de rodovia. O que estava prestes a assistir era diferente de tudo isso.

Os 18 arquivos foram transferidos para um notebook e reproduzidos em ordem cronológica. Jonas fez isso sozinho, numa sala pequena com uma janela de veneziana que batia com o vento que vinha do rio Paraguai. Mais tarde ele disse à delegada que parou de digitar assim que o primeiro rosto apareceu na tela. O primeiro vídeo tinha 2 minutos e 18 segundos.

Mostrava o interior de uma embarcação de alumínio do tipo que guias turísticos do Pantanal usam em expedições de quatro a seis pessoas. A câmera estava apoiada em alguma superfície — provavelmente uma caixa ou mochila —, num ângulo que pegava a dianteira da embarcação e um trecho de margem arborizada ao fundo. Sentados

nessa dianteira, havia um homem de aproximadamente 45 anos, com barba cheia e um boné azul desbotado, e uma mulher de uns 40 anos, cabelo escuro comprido, preso num rabo de cavalo. Eles conversavam em voz baixa. A mulher ria de algo. O homem apontava para um ponto da margem com o dedo. O segundo arquivo, gravado horas depois, aparecia o segundo homem, mais jovem, talvez entre 25 e 30 anos, cabelo curto, camiseta amarela de manga curta.

Estava de pé na popa da embarcação, segurando uma vara de pesca, olhando para a água com a atenção de quem está lendo o rio. Ao fundo, numa clareira entre as árvores da margem, uma barraca azul armada e volumes empilhados ao lado. A segunda mulher apareceu no terceiro arquivo, sentada à beira do rio, lavando um utensílio de cozinha com areia molhada, do jeito que as pessoas mais velhas do interior sabem fazer desde criança.

Cabelos crespos curtos, pele mais clara que a dos outros, calça cargo verde com os joelhos sujos da lama da margem. Ela olhou para a câmera uma vez, sorriu rápido e voltou ao que estava fazendo. Quatro pessoas: dois homens e duas mulheres, adultos, com aparência saudável e equipamento de qualidade. Dois casais, talvez; ou quatro amigos que haviam combinado uma expedição; ou quatro pessoas que se conheceram de outra forma e que foram juntas ao Pantanal por razões que as imagens não revelavam.

Jonas assistiu aos 18 arquivos sem interrupção; levou 2 horas. No final, foi até a sala da delegada Rosária Conceição da Silva e pediu que ela viesse ver. Ela foi, ficou de pé ao lado da mesa de Jonas, com os braços cruzados; assistiu a trechos em silêncio por 20 minutos. Então pediu que Jonas extraísse capturas dos quatro rostos com a melhor resolução disponível.

Naquela mesma tarde, Rosária enviou as quatro imagens ao SINALID com pedido de verificação urgente. Descreveu cada indivíduo: sexo, faixa etária estimada, características físicas visíveis. Aguardou resposta. A resposta chegou dois dias depois. Um e-mail curto e direto: “Nenhuma correspondência encontrada nos registros de desaparecidos ativos ou encerrados para os perfis enviados”.

Rosária imprimiu o e-mail, dobrou e colocou na pasta do caso. Depois, ficou um momento olhando para as quatro capturas impressas em papel sulfite, tamanho ofício, em preto e branco, porque a impressora colorida da delegacia estava quebrada desde junho. Quatro rostos em preto e branco, nenhum nome embaixo. E ainda faltava descobrir o que os arquivos mostravam depois do primeiro dia, o que havia nas restantes 18 gravações e o que mudava entre o primeiro arquivo e o último.

O que os primeiros dias mostraram? Os 18 arquivos foram organizados por Jonas numa linha do tempo a partir dos metadados internos da câmera. O registro indicava que as gravações começaram na manhã de sábado, 6 de fevereiro de 2021, e terminaram na manhã de terça-feira, 9 de fevereiro: quatro dias, três noites dentro do Pantanal.

A câmera mostrava que eles chegaram por rio. O primeiro arquivo começava com a embarcação já em movimento num canal de campo alagado, com capins altos nas margens e árvores de grande porte espaçadas ao fundo, galhos curvados sobre a água como pontes que não terminam. A paisagem era compatível com trechos do rio Negro entre Miranda e a região de amortecimento da Área de Proteção Ambiental do Rio Negro, mas os peritos não conseguiram determinar o ponto exato com as imagens disponíveis.

Nos primeiros dois dias de gravação, os vídeos mostravam uma expedição organizada e tranquila. Os homens pescavam de vara e de tarrafa em diferentes trechos da margem com a paciência de quem sabe esperar a água. As mulheres organizavam mantimentos, controlavam o fogareiro portátil de camping e preparavam as refeições com ingredientes que vinham numa caixa de isopor grande, amarrada à proa.

Em vários momentos, os quatro apareciam juntos, sentados à margem ou dentro da embarcação, comendo ou descansando. Havia silêncios entre eles que não eram constrangidos: o tipo de silêncio que existe entre pessoas que já passaram tempo junto e que não precisam preencher cada pausa com palavra. No quarto arquivo, que durava 6 minutos, o homem do boné azul filmava a si mesmo enquanto descrevia o local onde estavam.

Falava em tom calmo, olhando para a câmera, dizendo que a pescaria havia sido boa, que o rio estava limpo para a época, que avistaram uma ariranha deslizando entre os aguapés cedo naquela manhã, antes que o sol esquentasse a água da superfície. Sua voz era pausada e articulada, mas ele não disse seu próprio nome, não disse o nome de nenhuma das outras pessoas. Em 6 minutos de vídeo narrado diretamente para a câmera, nenhum nome. A delegada Rosária registrou isso no relatório como um detalhe que merecia atenção. Em gravações de viagem, as pessoas usam os nomes umas das outras; chamam pelo nome para pedir algo, para apontar algo, para se identificar numa filmagem que pretendem guardar como memória.

Nestes vídeos, a comunicação acontecia por gestos, por pronomes, por olhares que a câmera às vezes capturava e às vezes, não. Rosária não pôde determinar se era coincidência, hábito de quem filma muito ou outra coisa. Mas anotou. No quinto arquivo, havia uma cena gravada à noite com a lanterna frontal de um dos homens como única fonte de luz.

Ele caminhava por um trecho de mata baixa às margens do rio, provavelmente para buscar lenha ou verificar algo próximo à água. A câmera estava na mão dele, apontada para o chão, e por isso só se via um raio de luz sobre areia úmida e raízes expostas das árvores da beira. Ao fundo, fora do enquadramento, uma voz feminina chamava.

Não dava para entender o que dizia. E a gravação terminava de forma abrupta, como quando alguém esquece que a câmera está ligada. Você conhece esse tipo de viagem? Talvez você mesmo já tenha feito algo parecido, ou tenha filho ou sobrinho que foi pescar por alguns dias no interior e voltou com histórias de dias sem sinal de celular e noites com muitos insetos e muito silêncio.

O Pantanal tem esse efeito. Ele apaga o barulho do que ficou para trás e coloca no lugar só o que está na frente: o rio, o capim, os pássaros e o calor. Os primeiros dois dias dos vídeos mostravam, acima de tudo, consistência, uma rotina que funcionava, que se repetia com ajustes naturais de dia para dia. Quatro pessoas que sabiam o que estavam fazendo lá, que conheciam aquele lugar ou, ao menos, aquela parte do Pantanal, de uma forma que não era de principiante.

Isso tornava o que veio depois ainda mais difícil de entender. A mudança que aparece no terceiro dia: o terceiro dia das gravações começava com um vídeo de 45 segundos feito ao amanhecer. A câmera estava apoiada em alguma superfície e mostrava a embarcação parada numa margem com vegetação densa, árvores de porte médio inclinadas sobre a água, galhos arranhando a superfície do rio com a brisa de cedo.

Ninguém das quatro pessoas aparecia no enquadramento. O rio Negro corria calmo ao fundo, escuro e quieto. Uma garça pousou na proa da embarcação, ficou alguns segundos, levantou voo; a gravação terminou sem narração. O próximo arquivo foi gravado 3 horas depois, segundo os metadados, e algo havia mudado.

Não era nada que se pudesse chamar de “sinal claro”. Não havia acidente visível, não havia discussão registrada, não havia nenhum evento identificável, mas quem assistia com atenção percebia que o clima entre as quatro pessoas era outro. A mulher de cabelo comprido não tinha mais o sorriso fácil dos dois dias anteriores.

Ela estava sentada na proa com os joelhos dobrados, olhando para a água quieta. O homem mais jovem estava de costas para os outros na popa, imóvel por longos minutos com as mãos nos joelhos. O homem do boné azul conversava com a mulher de cabelo crespo em voz baixa, com gestos contidos, como quem está pesando o que vai dizer antes de dizer.

Jonas usou a expressão “tensão não explicada” no relatório. Era a mais honesta que encontrou para descrever o que via. O que havia acontecido naquelas três horas entre o primeiro e o segundo arquivo daquele dia não estava registrado em nenhum lugar. A câmera havia ficado desligada e, quando voltou a gravar, o grupo estava diferente, de uma forma que as imagens registravam mas não explicavam.

No sétimo arquivo daquela tarde, que durou 3 minutos e meio, o homem do boné azul voltou a filmar o entorno. Desta vez, a câmera ficava parada num ponto da margem por longos segundos, sem narração, sem comentário. Era uma área de mata de galeria, com raízes de figueiras centenárias descendo até a beira d’água, enroladas em si mesmas como cabos de aço vegetal,

espessas e cobertas de musgo escuro. O homem respirava de forma audível no áudio. Em certo momento, ele girou a câmera rapidamente para o interior da embarcação, como se quisesse verificar algo, e desligou o aparelho antes que a imagem se estabilizasse. Rosária pediu que Jonas fizesse a análise quadro a quadro daquele trecho específico.

Via-se, por uma fração de segundo antes do corte, uma imagem do interior da embarcação. Dava para ver as duas mulheres sentadas próximas uma da outra, com a cabeça baixa. A expressão de nenhuma das duas estava visível. No oitavo arquivo, gravado na mesma tarde, o homem mais jovem aparecia sozinho num banco de areia à beira do rio.

Ele olhava para o chão. A câmera o registrou por 2 minutos e 18 segundos sem que ele se movesse de forma significativa. Então se levantou, entrou na água até a cintura, ficou parado com as palmas abertas sobre a superfície por alguns instantes e voltou para a margem. A gravação terminou. Jonas descreveu o gesto como “comportamento de difícil interpretação” e passou para o próximo arquivo.

O Pantanal, naquele fevereiro de 2021, estava saindo de um período de cheia moderada. Os registros do INMET para aquela região indicavam tempo estável na semana de 6 a 9 de fevereiro, com algumas nuvens no período da tarde, sem chuva expressiva e sem vento forte. Nenhuma ocorrência climática que justificasse uma mudança de estado de um grupo inteiro em poucas horas.

Seja lá o que tivesse acontecido naquelas 3 horas sem gravação, não havia sido tempo. E você que está lendo isso sabe que, quando quatro pessoas mudam ao mesmo tempo num Pantanal fechado, sem testemunha e sem câmera para registrar o intervalo, o que ficou fora da gravação conta tanto quanto o que ficou dentro.

A última. O 18º arquivo, o último que a câmera guardava, foi gravado na manhã de terça-feira, 9 de fevereiro de 2021. A câmera estava posicionada de forma fixa num suporte ou apoiada sobre uma caixa, com o enquadramento aberto para a parte central da embarcação e a margem arborizada ao fundo.

Todos os quatro estavam presentes naquele plano. Era a única das 18 gravações em que os quatro apareciam juntos no mesmo enquadramento ao mesmo tempo, por um período prolongado, claramente visíveis. Eles estavam desmontando o acampamento. A barraca azul já estava dobrada e ensacada. As mochilas estavam fechadas e empilhadas.

Os utensílios de cozinha estavam embalados em pano. As caixas de mantimento — mais leves do que no início da expedição porque boa parte do alimento havia sido consumida — estavam organizadas na proa da embarcação. Era uma cena de encerramento organizado, uma expedição chegando ao fim da forma que expedições chegam ao fim, com cada coisa no seu lugar e cada volume pronto para o transporte de volta.

A câmera registrou 19 minutos dessa movimentação. Os quatro circulavam entre a margem e a embarcação, carregando e encaixando volumes com paradas curtas para beber a água de um caneco ou verificar algum nó de amarra. A conversa existia, mas era mínima. Frases curtas. Confirmações de uma palavra. Havia um senso de conclusão nos movimentos de tarefa chegando ao fim, como quando se guarda a casa depois de uma visita longa e cansativa.

No 17º minuto, o homem do boné azul parou o que estava fazendo, foi até onde a câmera estava apoiada e olhou diretamente para a lente. Ficou com o dedo sobre o botão de desligar, mas não desligou imediatamente; ficou olhando para a tela por uns 5 segundos. A expressão no seu rosto Jonas descreveu no relatório como “difícil de classificar”.

Havia algo naquele rosto que não era angústia e não era satisfação. Era o rosto de alguém que está terminando algo e que ainda não decidiu o que sente em relação a esse fim. Então ele desligou a câmera. Esse foi o último registro. 18 arquivos, 2 dias e 46 minutos de imagem. Quatro pessoas que passaram aqueles dias no Pantanal e que depois não apareceram em nenhum cadastro, em nenhuma delegacia, em nenhuma família que tivesse ido atrás delas.

Quando Benedito encontrou a câmera, seis meses depois, ela estava presa a 4 m de profundidade, com o cordão de borracha intacto e a carcaça amarela ainda vedada. A embarcação de alumínio não foi encontrada nas buscas subsequentes. As mochilas não foram encontradas. As caixas plásticas de mantimento não foram encontradas.

Nenhum corpo foi localizado nas águas ou nas margens do rio Negro naquele trecho, naquele período. O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul realizou, em setembro de 2021, uma operação de varredura subaquática na área aproximada onde a câmera havia sido localizada por Benedito: dois dias de mergulho e rastreamento por equipes especializadas.

Encontraram ferramentas enferrujadas, uma grade de motor de barco antiga, pedaços de rede de pesca que haviam afundado há muitos anos; nada que pertencesse às quatro pessoas dos vídeos. Como a câmera foi ao fundo se a última gravação mostrava quatro pessoas organizando o encerramento de uma expedição, com cada coisa no lugar, prontas para partir de volta?

Essa pergunta não está respondida no relatório da delegacia. Não existe resposta disponível para ela nos documentos do caso. O que existe é o fato: a câmera estava a 4 m de profundidade e as quatro pessoas que apareciam nela estavam em nenhum lugar que a investigação pudesse alcançar. Você já esperou notícia de alguém e o silêncio foi chegando devagar, sem que você conseguisse definir o momento exato em que parou de ser atraso e virou outra coisa? É isso o que o caso daquela câmera produzia nas pessoas que trabalharam nele: uma estranheza que ia

crescendo com o tempo, que não tinha início preciso nem nome certo. Quando a polícia a levou para Corumbá, a delegada Rosária Conceição da Silva tinha 38 anos quando o caso chegou à sua mesa. Natural de Três Lagoas, no leste do Mato Grosso do Sul, havia escolhido a carreira de delegada depois de acompanhar de perto, ainda adolescente, a investigação de um desaparecimento na sua cidade.

Um caso que a polícia demorou meses para concluir e que a família da vítima resolveu com informação de vizinho. Ela costumava dizer que a Polícia Civil não era o que havia imaginado quando entrou na academia, mas era o que ela tinha para trabalhar. O “caso da Câmera do Pantanal”, como passou a chamá-lo internamente, foi o que mais a ocupou num período já exigente.

Fevereiro de 2021 havia sido um mês de intenso trânsito no Pantanal, com pescadores e turistas aproveitando o fim da cheia moderada para entrar nas áreas remotas do rio Negro e de seus afluentes. Não havia controle sistemático de acesso para expedições de pesca esportiva naquele trecho do bioma. Rosária fez o caminho lógico:

Verificou com guias turísticos e operadores de barco de Corumbá, Miranda e Aquidauana se alguém havia alugado embarcação para quatro pessoas em fevereiro de 2021. Encontrou 12 empresas ativas na região: nove responderam, três não responderam e duas delas já haviam encerrado as atividades. Das nove que responderam, nenhuma tinha registro de um grupo de quatro pessoas compatível com a descrição visual dos vídeos para aquele período.

Isso não significava que nenhum grupo havia contratado; significava que não havia registro formal. No Pantanal, especialmente nos trechos mais afastados da margem urbana, parte das expedições ainda funciona no “boca a boca”. Um pescador local cede a canoa por um valor combinado na hora, sem papel assinado, sem nota fiscal, sem nome registrado em lugar nenhum.

É uma prática anterior a qualquer sistema digital e que persiste porque o Pantanal ainda tem regiões onde “o formal” não chegou de verdade. Rosária sabia disso. Percorreu o caminho mesmo assim, porque era o caminho que existia. Em outubro de 2021, enviou as capturas de imagem ao Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul, pedindo apoio para ampliar a circulação do caso.

O MP encaminhou para a Defensoria Pública e para a Secretaria de Segurança Pública. O caso foi mencionado numa reunião do comitê de identificação de desaparecidos do estado em Campo Grande, em novembro daquele ano. As imagens circularam: passaram por delegacias de Campo Grande, Aquidauana, Miranda, Coxim, Bonito, Porto Murtinho;

foram enviadas para cidades de Mato Grosso, como Cuiabá, Rondonópolis e Poconé, que também fazem fronteira com o Pantanal pelo outro lado. Nenhum delegado, nenhum escrivão, nenhum investigador reconheceu nenhuma das quatro pessoas. O caso foi mencionado uma vez num site de notícias local de Corumbá, sem publicação das fotos, porque a delegacia havia decidido aguardar antes de divulgar as imagens abertamente.

A nota era pequena no final de uma página de notícias locais. Dizia apenas que uma câmera havia sido encontrada no rio Negro com imagens de pessoas não identificadas e que a polícia solicitava informações de quem pudesse ajudar. Ninguém entrou em contato. Corumbá é uma cidade de quase 100.000 habitantes de fronteira que convive diariamente com o vai e vem entre o Brasil e a Bolívia, com o Pantanal de um lado e o rio Paraguai do outro.

Uma cidade que já viu muita coisa aparecer e desaparecer de formas que o papel não captura. Mas aquele caso, segundo Rosária, tinha algo diferente de tudo em que havia trabalhado. Era a combinação de evidência visual clara com a ausência total de qualquer ponto de partida. Como ter uma resposta que não se encaixa em nenhuma pergunta conhecida? Os nomes que não existiam em nenhum cadastro: o SINALID foi criado pelo governo federal em 2006 como um sistema para centralizar os registros de pessoas desaparecidas no Brasil. Cada estado alimenta o banco de dados com informações de boletins de ocorrência por desaparecimento registrados nas delegacias. Em teoria, qualquer policial no país pode cruzar dados e encontrar correspondências entre casos abertos em regiões diferentes. Na prática, o sistema tem lacunas que qualquer delegado do interior conhece bem.

Estados alimentam o banco de forma irregular ou incompleta: registro sem foto ou com foto de câmera velha de delegacia, escura e desfocada; descrições físicas vagas porque o escrivão estava com pressa naquele dia; casos encerrados administrativamente porque o prazo de arquivo expirou e ninguém havia dado seguimento.

Rosária sabia de tudo isso, mas consultou o SINALID três vezes, com variações nas descrições físicas dos quatro indivíduos dos vídeos, para cobrir possíveis imprecisões de cadastro em outras delegacias do país. Nenhuma das três consultas retornou resultado. Havia outra possibilidade que Rosária havia levantado desde o início e que o relatório registra com cuidado:

as quatro pessoas não serem brasileiras. O Pantanal faz fronteira direta com a Bolívia e, ao sul, com o Paraguai. Corumbá fica a menos de 5 km da fronteira boliviana com a cidade de Puerto Quijarro, do outro lado do limite. O trânsito de pessoas entre os dois países é intenso e diário. Pescadores bolivianos às vezes cruzam para o lado brasileiro em embarcações pequenas, sem registro formal.

Rosária enviou as imagens para a Polícia Nacional da Bolívia através do canal de cooperação da Polícia Federal. Recebeu resposta genérica três semanas depois: “nenhuma correspondência em registros bolivianos de desaparecidos”. O ofício enviado à Polícia Nacional do Paraguai não recebeu resposta. Jonas havia feito, paralelamente, uma análise dos objetos visíveis nos vídeos.

Buscou marcas de produtos, embalagens, qualquer elemento que pudesse indicar a origem regional ou nacional dos quatro indivíduos. Encontrou em dois vídeos distintos embalagens de alimentos compatíveis com produtos vendidos em supermercados do Brasil Central. Isso inclinava levemente para origem brasileira, mas não excluía estrangeiros, porque esses mesmos produtos são encontrados nos mercados de Corumbá e nas cidades bolivianas próximas da fronteira.

O português falado nas gravações também foi analisado. Um professor de linguística do campus da UFMS em Campo Grande ouviu os trechos de áudio inteligíveis e concluiu que o dialeto era o português brasileiro padrão, sem traços regionais marcados, compatível com pessoas de qualquer estado brasileiro que tivessem tido escolaridade média ou superior.

Em dezembro de 2021, Rosária tentou outro caminho. Pediu ao ICMBio, responsável pela gestão das unidades de conservação do Pantanal, registros de expedições autorizadas na área de influência do rio Negro para o período de janeiro a março de 2021. O ICMBio informou que não havia sistema de controle de entradas para embarcações pequenas naquela área, naquele período.

O Pantanal tem 150.000 km². A maior parte desse território não tem posto de controle, não tem câmera de monitoramento, não tem registro de quem entra e de quem sai. Tem água que avança e recua conforme a estação. Tem capivaras nas margens, jacarés sob a superfície e tuiuiús voando baixo sobre os campos alagados.

E tem um silêncio que engole muito mais do que qualquer pessoa costuma imaginar antes de entrar nele. Quatro pessoas podiam entrar no Pantanal, passar quatro dias e não deixar nenhum papel assinado em lugar nenhum. Era exatamente isso que havia acontecido. A pergunta que esse fato colocava e que o sistema não conseguia responder era simples:

se elas não quiseram deixar rastro, foi escolha; se o rastro sumiu por acidente, foi circunstância. Mas a ausência era a mesma de qualquer forma, e o resultado para a investigação era o mesmo. As famílias, que podem não saber até hoje, em algum lugar do Brasil, que há pessoas que conhecem esses quatro rostos. Essa é a parte do caso que não cabe em relatório policial, que não tem protocolo, que o sistema de identificação de desaparecidos do país não foi construído para resolver.

Para uma família entrar numa delegacia e registrar um desaparecimento, ela precisa saber que alguém sumiu. E, para saber isso, precisa ter sentido a falta em tempo suficiente para transformar a preocupação em ação. Há situações em que esse processo demora mais do que se imagina. Uma família que não tem contato frequente com um filho adulto pode passar meses sem se alarmar com o silêncio.

Especialmente se esse filho mora longe, é independente, viaja com frequência ou tem hábito de ficar fora do ar por períodos sem dar satisfação; especialmente se o relacionamento tem distância emocional, que é uma coisa mais comum nas famílias do que se fala abertamente em qualquer conversa. Uma mãe que liga uma vez por mês e que acostumou a não receber resposta imediata pode não perceber a diferença entre o silêncio habitual e um silêncio diferente, até que já se passaram muitas semanas.

Esse é um tipo de dor que não tem alarme, que vai chegando devagar, em camadas, sem data precisa de início e sem aviso de que chegou. Não há nada nos vídeos que indique que as quatro pessoas estivessem em fuga de algo ou de alguém. Não há nenhum dado que permita dizer que escolheram sumir de propósito, mas também não há nada que permita descartar essa possibilidade com certeza.

O que há é o silêncio das famílias. Um silêncio que pode significar muitas coisas. Pode significar que as famílias não souberam aonde ir ou a quem recorrer; que um boletim de ocorrência foi registrado em outra cidade e nunca cruzou com Corumbá por falha de sistema; que as pessoas estão em outro país; que estão vivas e simplesmente não sabem que uma câmera com as imagens delas está guardada numa delegacia de Mato Grosso do Sul. Mas pode significar também que há filhos, irmãos, maridos, mães que estão esperando um contato que não chega; que fizeram aniversário de alguém que não apareceu; que guardam uma cadeira vazia à mesa nas datas de festa; que perguntam para si mesmas, no silêncio das 3 da madrugada, se foi algo que disseram ou que deixaram de dizer. Se você tem mais de 50 anos e viveu no Brasil de cidades médias, de família grande, de parente que foi embora para outro estado e que ficou nessa fronteira entre o contato que existe e o contato que vai rareando, você conhece esse tipo de espera? A espera que não tem nome oficial, que não é luto porque não há confirmação, que não é esperança inteira porque o tempo continua passando. As quatro pessoas dos vídeos tinham vida antes daquela câmera. Tinham endereço, tinham nome, tinham pessoas que haviam aprendido a reconhecer o som dos seus passos. O Pantanal não as apagou; elas existiram. Continuam existindo de alguma forma, em algum lugar, com história e com nome que ninguém na delegacia de Corumbá conseguiu alcançar.

Em março de 2022, Rosária publicou as capturas de rosto das quatro pessoas nas redes sociais da delegacia, desta vez com autorização formal da Secretaria de Segurança Pública. A publicação teve alcance modesto: alguns compartilhamentos, alguns comentários de pessoas dizendo que não as reconheciam, mas que iam repassar para os conhecidos.

Ninguém que conhecesse as quatro pessoas entrou em contato. O post ainda está no ar, com a data de março de 2022 acima do texto e os comentários vazios abaixo. Uma câmera, quatro vidas e nenhuma resposta. O relatório final foi assinado pela delegada Rosária Conceição da Silva em 22 de março de 2022:

38 páginas com anexos. Capturas de imagem dos quatro rostos, numeradas e identificadas por arquivo de origem. Transcrições parciais dos trechos de áudio inteligíveis com indicação de tempo e de arquivo correspondente. Laudo pericial da câmera e da carcaça protetora, atestando que o aparelho havia ficado submerso entre 3 e 8 meses antes de ser encontrado.

Cópia de todos os ofícios enviados e das respostas recebidas. A câmera foi catalogada como material não reclamado e mantida no depósito da delegacia de Corumbá. Jonas preservou cópias dos 18 arquivos de vídeo em dois pendrives identificados e arquivados junto com o processo físico. Era uma precaução simples, do tipo que não consta em nenhum manual oficial, mas que alguém com bom senso faz quando não quer que uma evidência desapareça num depósito ao longo dos anos.

O caso foi classificado como “verificação de situação com resultado inconclusivo” — uma categoria administrativa que significa que houve investigação, que não foi identificado crime formalmente e que os elementos disponíveis não permitiram avanço. É a categoria de arquivo menos dramática que existe.

Na prática, é um encerramento. Rosária disse, em conversa com um colega que acompanhou o caso de perto, que aquele era o processo que ela levava para casa com mais frequência: não porque fosse o mais grave em que havia trabalhado, mas porque era o que menos “fechava”. Um crime tem começo e, muitas vezes, suspeito.

Um acidente tem local e geralmente causa. O caso da câmera não tinha nenhum ponto de entrada além das imagens e as imagens, por mais que mostrassem, não entregavam o essencial. Jonas saiu da delegacia de Corumbá em julho de 2022, transferido para o DEIC em Campo Grande. Antes de partir, assistiu aos 18 vídeos uma última vez. Disse que fez isso sem motivo específico, apenas porque queria.

Depois fechou o notebook e apagou a luz da sala pequena com a janela de veneziana. No Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 82.000 casos de desaparecimento são registrados por ano. A grande maioria é resolvida ou encerrada dentro de prazos razoáveis: porque a família bate na porta, porque há nome registrado em algum lugar, porque há alguém que percebeu a ausência e foi até a delegacia.

Mas uma parcela permanece em aberto. Pessoas que entram em áreas remotas e não deixam rastro suficiente para que o sistema as encontre. Pessoas que aparecem num vídeo achado no fundo de um rio e que não têm vínculo que as alcance de volta. O sistema funciona quando há ponto de partida. O caso da Câmera do Pantanal não tinha onde começar de verdade.

Você se lembra do que foi dito no início? Da última gravação do homem do boné azul olhando para a câmera por uns 5 segundos antes de desligá-la, com aquela expressão que Jonas não conseguiu classificar? O que este homem estava pensando naquele momento, só ele sabe. E se ele está em algum lugar hoje, vivo e com nome e com história, talvez nem saiba que uma câmera com seu rosto está guardada numa sala em Corumbá, esperando que alguém chegue com a chave.

O fundo do rio guarda mais do que água. Há uma pergunta que quem conhece o Pantanal faz quando ouve essa história. Não é sobre a câmera, é sobre o que não aparece nos vídeos. Uma expedição de 4 dias num rio como o rio Negro implica planejamento: mantimento calculado para o período com margem para imprevisto; combustível para a embarcação; equipamento de pesca adequado para o tipo de pescaria que queriam fazer nos canais e nas lagoas do Pantanal sul-mato-grossense;

material de camping para três noites ao relento, com as temperaturas de fevereiro, que podem passar dos 35º C durante o dia e cair para 20º C à noite, quando o vento vem do sul. Esses itens juntos representam uma preparação que não é feita de última hora. Quem vai para o Pantanal assim fez a escolha com antecedência.

E quem faz escolha com antecedência geralmente tem alguém que sabe que saiu. A ausência de qualquer registro familiar é o elemento que mais incomoda quem examina o caso com calma. Não é impossível; é improvável que nenhuma das quatro pessoas tivesse familiar ou amigo próximo que percebesse a falta no tempo necessário para registrar um boletim de ocorrência em alguma delegacia do país.

O relatório da delegacia menciona essa questão num parágrafo curto nos capítulos finais. Há duas interpretações possíveis, ambas registradas sem julgamento. A primeira é que algo aconteceu depois da última gravação, naquela manhã de terça-feira, naquele trecho do rio Negro, e que esse “algo” não foi encontrado por ninguém que buscou depois.

A segunda é que as quatro pessoas estão vivas; que voltaram da expedição sem problema; que a câmera caiu na água por algum acidente banal durante a partida — o cordão se soltando de um gancho, a câmera escorregando de cima da caixa enquanto a embarcação pegava velocidade — e que elas simplesmente não sabem que uma câmera com as imagens delas está arquivada numa delegacia de Corumbá.

As duas interpretações existem. Nenhuma pode ser descartada com o que está disponível. Se a segunda for verdadeira, não há vítima. Há apenas um acidente com um objeto pequeno num rio grande e um processo policial aberto sem necessidade. As quatro pessoas estão em alguma cidade brasileira com suas rotinas e seus trabalhos, sem saber que seus rostos estão impressos num papel numa prateleira de delegacia.

Se a primeira for verdadeira, então o rio Negro guarda algo que o Corpo de Bombeiros não encontrou. Há famílias que nunca souberam. E há uma câmera que foi o único testemunho de quatro dias que terminaram de uma forma que ninguém além dos quatro presentes foi capaz de ver. O rio Negro do Pantanal continua correndo entre as margens de capim e as figueiras centenárias, da mesma forma que corria em fevereiro de 2021.

As garças continuam pousando na proa das embarcações paradas. Os dourados continuam migrando pelos canais nos meses certos. Os pescadores continuam saindo antes do sol em canoas de alumínio, com tarrafas dobradas no banco de trás e décadas de memória sobre cada curva do rio. Benedito Soares Leal ainda mora em Porto da Manga, ainda pesca na Curva do Barreiro.

Num breve depoimento dado a um jornalista local em 2022, ele disse que às vezes, quando está naquele trecho do rio, pensa nas quatro pessoas. Diz que o Pantanal parece o mesmo todos os dias, mas nunca é o mesmo por dentro; que a água que passa nunca volta e que o que fica no fundo um dia sobe, mas nem sempre chega inteiro.

A câmera subiu; as quatro pessoas não. E a câmera continua num depósito em Corumbá, com 18 arquivos de vídeo, com 2 dias e 46 minutos de imagem, com quatro rostos que alguém em algum lugar reconhece, esperando por um nome que ainda não chegou. Há casos que a investigação resolve, há casos que o tempo resolve e há casos que ficam numa prateleira de depósito policial dentro de um envelope plástico numerado, esperando por algo que não tem previsão de chegar.

O caso da Câmera do Pantanal pertence a essa terceira categoria. A delegada Rosária trabalhou o processo com rigor dentro dos limites do que o sistema permitia. O agente Jonas foi além do protocolo em cada etapa, preservando evidências e percorrendo caminhos que ninguém havia pedido que percorresse. Mas o ponto de partida estava ausente desde o início.

Não havia família que batesse na porta, não havia nome que funcionasse como chave. Havia imagens; e imagens, por si sós, não são suficientes para encontrar alguém que o sistema não sabe que está procurando. Quatro pessoas passaram quatro dias num dos lugares mais quietos do Brasil. Pescaram, acamparam, tiveram uma mudança de estado que a câmera registrou, mas não explicou, e se organizaram para partir numa manhã de terça-feira de fevereiro, com as mochilas fechadas, a barraca dobrada, o acampamento desmontado.

O que aconteceu depois dessa manhã, ninguém sabe. O Brasil tem muitas histórias assim. Histórias que não chegam ao jornal porque não têm resolução suficiente para virar notícia, que não chegam às famílias porque as famílias não sabem que há algo para buscar; que ficam no intervalo entre o que foi registrado e o que nunca será explicado.

A câmera foi encontrada. Os vídeos foram preservados. A investigação foi conduzida com seriedade por duas pessoas que trataram aqueles quatro rostos em preto e branco como pessoas reais, com história e com nome que apenas ainda não havia chegado até elas. O resto depende de algo que o sistema não controla: de alguém em algum lugar reconhecer um rosto; de alguém se lembrar de uma conversa sobre uma viagem marcada para o Pantanal num fevereiro de 2021;

de uma memória que ainda não foi conectada com a informação certa. O Pantanal vai continuar existindo como sempre existiu: imenso, sem pressa, indiferente ao que os humanos fazem e deixam de fazer dentro dele. Siga a página.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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