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OS BASTIDORES OCULTOS DE REGINALDO ROSSI: O SEGREDO CHOCANTE QUE O REI DO BREGA GUARDOU ATÉ O FIM…

O resto

Pedro afirmou que a empresa não obrigava os funcionários a trabalhar além da jornada regular. Depois de prestar contas, ele foi para casa. No caso de Aluísio, porém, a jornada continuou. E aqui começa uma das divergências que acompanhariam o processo: existem versões diferentes sobre quantas horas Aluísio efetivamente trabalhou naquele dia e se houve ou não excesso de jornada.

A Guanabara sustentaria posteriormente que o motorista não havia ultrapassado a carga normal de trabalho. Outros depoimentos, entretanto, indicavam que ele recebeu diversas viagens adicionais ao longo do dia. O próprio relato do cobrador Pedro descrevia uma extensão da jornada. Já havia passado da meia-noite quando Aluísio chegou novamente a um ponto final, acreditando que finalmente encerraria o expediente.

Ele desceu do ônibus de número 80037, imaginando que poderia ir embora. Foi então informado de que ainda teria trabalho. O fiscal Henrique Eduardo comunicou que Aluísio precisaria realizar transportes ligados à programação carnavalesca. A empresa possuía um acordo com a prefeitura de Natal para levar participantes das festividades após os desfiles.

O combinado teria incluído inicialmente outras viagens que Aluísio já havia realizado, mas surgiu uma nova determinação. Ele teria de transportar integrantes da Malandros do Samba até o bairro das Rocas, onde ficava o barracão da escola. Aluísio protestou, disse que aquela nova viagem não fazia parte do que havia sido combinado e que deveria ser dispensado depois dos serviços anteriores.

Estava cansado e não queria continuar. Ainda assim, acabou aceitando. O desfile da Malandros do Samba havia terminado por volta das 23h30 da noite, durante uma prévia carnavalesca promovida pela prefeitura e conhecida como “Corredor da Alegria”. Aluísio, então, seguiu até a avenida Interventor Mário Câmara, nas proximidades do Mercado Público do Alecrim e da antiga casa mortuária São Francisco.

Ali, os passageiros começaram a embarcar, e não eram apenas integrantes da escola. Outros foliões perceberam a oportunidade e entraram no ônibus para conseguir uma carona. Alguns estariam visivelmente alcoolizados. Estimativas feitas posteriormente falam em algo entre 70 e 100 pessoas dentro do coletivo.

Enquanto o embarque acontecia, Aluísio demonstrava sinais de cansaço e impaciência. Passava repetidamente a mão pelo rosto. O barulho no interior do ônibus aumentava. Havia pessoas cantando, pulando e brincando. Alguns passageiros começaram a acionar repetidamente a cigarra. Aluísio teria reagido com irritação e dirigido palavras ofensivas a algumas pessoas. Segundo os relatos, ele estava incomodado tanto com o tumulto quanto com o fato de continuar trabalhando depois de uma jornada que já considerava encerrada, e ainda havia a possibilidade de precisar retornar ao Alecrim para buscar outros integrantes da escola.

Quando o ônibus finalmente começou a circular, a tensão aumentou. A partir das proximidades da antiga Legião Brasileira de Assistência (LBA), na avenida Alexandrino de Alencar, testemunhas disseram que o coletivo começou a ganhar velocidade. Passageiros afirmaram que Aluísio passou a fazer manobras bruscas e instáveis.

Uma jovem que estava próxima a uma das janelas quase teria sido lançada para fora do veículo. Algumas pessoas começaram então a pedir que ele diminuísse a velocidade. Um passageiro teria dito: “Faz favor, diminui essa marcha, motorista”. O pedido não teria surtido efeito. Outros passageiros também reclamaram. Segundo os depoimentos, alguém teria dito: “Motorista, vai mais devagar, assim a gente vai sofrer um acidente.”

Outra pessoa teria reforçado: “Motorista, reduz a velocidade, pelo amor de Deus, tem mulheres grávidas e crianças aqui dentro.” Foi nesse contexto que Aluísio teria respondido uma frase que anos depois se tornaria uma das peças mais marcantes da acusação: “Se tiver que morrer, morre todo mundo.” Segundo algumas testemunhas, ao passar pelas avenidas Coronel Estevam e Coronel José Bernardo, o ônibus estaria a aproximadamente 60 ou 70 km/h, talvez até mais.

Ainda segundo algumas testemunhas, Aluísio avançava semáforos e realizava curvas de maneira brusca. Dentro do coletivo, as brincadeiras, os gritos e a cigarra acionada repetidamente continuavam. Aluísio também teria se voltado em direção aos passageiros em determinados momentos, gesticulando e reclamando do tumulto.

Enquanto aquela situação se desenvolvia dentro do ônibus, a poucos quilômetros dali, o Puxa-Saco avançava pelas ruas. Entre as pessoas que acompanhavam o cordão estava um grupo de amigos. Ricardo, de 25 anos, havia saído por volta das 23 horas, acompanhado de Valmir, Fernando, Henrique, José Luiz, Silvana e outros conhecidos. Quando chegaram às proximidades da Igreja de São Pedro, decidiram parar para esperar o bloco.

Cerca de 5 minutos depois, a banda apareceu. O grupo utilizava dois Fuscas. Um deles era verde e conduzido por Valmir, estudante de odontologia, então com 23 anos. O outro era um Fusca azul. O automóvel pertencia a Fernando, mas era conduzido naquela noite por Ricardo, porque outros integrantes do grupo de amigos haviam ingerido bebida alcoólica.

Quando o Puxa-Saco avançou, o grupo seguiu um pouco mais adiante. O Fusca azul acabou estacionado sob ou nas proximidades do viaduto do Baldo, junto à Praça Carlos Gomes, no lado direito da Avenida Rio Branco. A banda ultrapassou o automóvel e continuou. Ricardo permaneceu por alguns momentos próximo ao local, em pé na calçada, conversando com Fernando e observando o movimento.

Na região, a iluminação era precária. Não havia isolamento suficiente da via alertando os motoristas de que uma grande concentração de foliões estava ocupando aquele trecho. Segundo informações reunidas posteriormente, os órgãos responsáveis pelo trânsito não teriam sido formalmente comunicados daquela parada específica do bloco.

Ao mesmo tempo, organizadores sustentavam que o desfile do Puxa-Saco era de conhecimento público. Milhares de panfletos teriam sido distribuídos e a programação havia sido divulgada por emissoras de rádio. Essa discussão sobre se as autoridades sabiam ou deveriam saber exatamente por onde o grupo passaria também apareceria depois, quando começou a disputa sobre as responsabilidades pela tragédia.

Outro problema era que, atrás da banda, seguiam veículos em duas fileiras, alguns usados para transportar e vender bebidas durante o percurso. Isso ocupava ainda mais espaço na via. Foi então que o ônibus da Guanabara apareceu. Segundo testemunhas, vinha rápido. Ao entrar na curva de acesso à região do Baldo, o coletivo se inclinou de maneira acentuada.

Alguns relatos afirmam que o ônibus chegou a se apoiar momentaneamente sobre as rodas de um dos lados. Por pouco, não atingiu uma das estruturas do viaduto. Na sequência, a parte traseira do ônibus atingiu lateralmente o Fusca azul. O automóvel sofreu danos importantes: o pneu estourou, o para-lama ficou amassado, a caixa de câmbio foi danificada.

O impacto projetou o Fusca para a frente, fazendo com que ele atingisse o outro veículo do grupo. A colisão também alterou a trajetória do ônibus. O coletivo atravessou a avenida e seguiu em direção ao Puxa-Saco. Tudo aconteceu muito rápido. Alguns passageiros perceberam a concentração de pessoas e tentaram alertar o motorista.

As testemunhas divergem sobre quando, exatamente, Aluísio acionou os freios. Alguns relatos sustentaram que não houve frenagem antes de o coletivo atingir os foliões. Outros indicaram que os freios foram acionados quando o atropelamento já havia começado. Uma informação usada posteriormente como comparação foi a de que outro ônibus, também lotado, havia passado pouco antes pelo mesmo local.

Esse veículo teria utilizado a buzina intensamente para advertir os foliões e conseguiu atravessar a região sem provocar um acidente. O ônibus de Aluísio não teria utilizado o sinal sonoro antes de entrar no grupo. Algumas testemunhas chegaram a estimar que, já na Avenida Rio Branco, o veículo alcançava a velocidade aproximada de 80 km/h.

Mais uma vez, essa velocidade não foi tecnicamente confirmada pela perícia. O que os depoimentos descrevem é a imagem de um coletivo pesado, lotado e entrando no meio de uma multidão. O ônibus começou a atingir pessoas sucessivamente enquanto subia a ladeira. Dentro dele, os próprios passageiros eram lançados de um lado para o outro em razão dos impactos.

Há testemunhas que afirmaram que Aluísio ainda engatou outra marcha e continuou. Outras disseram que, em alguns momentos, houve redução de velocidade. A perícia encontraria dificuldades para reconstruir cada segundo daquela sequência. Não havia marcas de frenagem suficientes no asfalto que permitissem estabelecer de maneira incontestável toda a dinâmica.

Também surgiu uma versão segundo a qual o ônibus estaria disputando corrida com um Fusca. A hipótese foi aventada durante a investigação, mas não se consolidou como fato comprovado. Paralelamente, espalhou-se um boato ainda mais grave: o de que Ricardo teria efetuado um disparo contra o motorista do ônibus. A história ganhou repercussão suficiente para que Fernando, Ricardo e Valmir procurassem a redação do jornal Diário de Natal.

Eles foram até o jornal justamente para contestar a versão e evitar que aquela informação continuasse circulando como se estivesse confirmada. A existência desses rumores mostra o nível de confusão que tomou conta da cidade nos dias seguintes ao acidente. Entre as pessoas que estavam dentro do ônibus e depois prestaram depoimento, estava Aurino Batista, mestre-sala da Malandros do Samba.

Segundo Aurino, os freios do ônibus funcionavam e Aluísio não demonstrava sinais de embriaguez. Na visão dele, o fator determinante havia sido a combinação de velocidade elevada com grande número de passageiros. Aurino também afirmou que estava no coletivo acompanhado da esposa e de duas filhas. Depois do atropelamento e da reação da multidão, ele só deixou o ônibus após conseguir retirar as três.

Segundo seu relato, quando o coletivo finalmente parou, os integrantes da escola de samba seguiram a pé em direção às Rocas. Muitos choravam e estavam profundamente abalados com aquilo que haviam acabado de presenciar. Do lado de fora, a reação dos foliões foi imediata. As pessoas tinham acabado de ver amigos, parentes e desconhecidos serem atingidos.

A multidão passou a atacar o ônibus. Pedras, paus, garrafas e outros objetos foram lançados. Algumas pessoas quebravam os vidros com as próprias mãos. Dentro do coletivo, os integrantes da Malandros do Samba também estavam desesperados. Muitos começaram a quebrar as janelas pelo lado de dentro para conseguir sair.

Foi nesse momento que Aluísio abandonou o veículo. As versões sobre a forma exata como isso aconteceu também variam. Algumas pessoas disseram que ele saiu pela porta. Outra testemunha afirmou que ele teria pulado pela janela. Segundo uma das reconstruções, Aluísio chegou a abrir a porta dianteira para observar a dimensão do que havia acontecido.

Ele teria colocado as mãos na cabeça, estando apenas com ferimentos leves. Em seguida, pessoas se aproximaram e o seguraram pelo colarinho. Sua camisa chegou a rasgar. Um integrante da escola de samba chamado Flávio tentou contê-lo. Aluísio teria reagido com uma cotovelada no estômago e conseguido escapar. Temendo ser linchado, correu. Ainda vestia a farda, embora suada e danificada.

Misturou-se à movimentação e desapareceu pelas ruas naquela madrugada. Mas o perigo não havia terminado. O ônibus, que havia sido deixado numa ladeira sem motorista, começou a se deslocar novamente, desta vez de ré. Pessoas que estavam prestando socorro às primeiras vítimas tiveram de correr. Segundo relatos de testemunhas, algumas pessoas que já haviam sido atingidas no primeiro momento foram alcançadas novamente pelo coletivo.

Há depoimentos ainda mais dramáticos, segundo os quais algumas vítimas que inicialmente haviam sobrevivido sofreram lesões fatais nessa segunda movimentação. Algumas testemunhas chegaram a afirmar que o número de pessoas alcançadas enquanto o ônibus descia de ré pode ter sido superior ao da primeira passagem. Esse dado, porém, não aparece consolidado de maneira suficiente para determinar quantas das 19 mortes ocorreram em cada etapa do atropelamento.

O ponto comum nos relatos é que o deslocamento de ré agravou a tragédia, e foi nesse momento que apareceu uma figura fundamental naquela madrugada. Seu nome era Daíson Pereira de Oliveira, conhecido como Mico. Mico era vice-presidente do Puxa-Saco. Quando percebeu que o ônibus descia a ladeira sem motorista, entrou no veículo.

O freio de mão já estava puxado, mas sozinho não havia sido suficiente para conter o peso do coletivo. Mico conseguiu acionar o sistema de frenagem e deter o ônibus nas proximidades da Rua Apodi, diante do imóvel de número 874, conhecido como casarão da família Mota. Por alguns instantes, porém, a própria multidão o confundiu com o motorista.

Mico chegou a ser ameaçado. Só depois algumas pessoas perceberam que ele havia entrado no veículo justamente para pará-lo. Sua intervenção evitou que o coletivo continuasse descendo e provocasse ainda mais vítimas. Em meio à confusão, houve ainda relatos de disparos de arma de fogo. Segundo algumas testemunhas, pelo menos três tiros teriam sido efetuados.

Um homem que acompanhava a banda estaria armado com um revólver. As versões sobre os disparos, porém, são contraditórias. Algumas pessoas disseram que os tiros foram feitos em direção à multidão. Outras afirmaram que o alvo seria Aluísio. Há ainda relatos de que os disparos foram feitos de maneira desordenada e que não seria possível determinar um alvo específico.

Por isso, esse episódio deve permanecer como aquilo que efetivamente é nos registros: uma versão testemunhal surgida em meio ao caos, e não um fato cuja dinâmica tenha sido plenamente esclarecida. Quando, finalmente, o ônibus parou, a dimensão da tragédia começou a aparecer. Um dos relatos utilizados na reconstrução estimava que aproximadamente 500 pessoas estivessem espalhadas naquela região da avenida quando ocorreu o atropelamento.

Esse número não deve ser confundido com a estimativa de cerca de 1.500 pessoas que acompanhavam o deslocamento do Puxa-Saco, ou com números ainda maiores usados para descrever o total de foliões espalhados pela cidade naquela noite. As estimativas se referem a recortes diferentes da movimentação do carnaval.

O cenário no Baldo era devastador. Pessoas estavam caídas ao longo da avenida. Algumas gritavam e pediam socorro. Outras já não apresentavam sinais de vida. Havia sangue, cacos de vidro, sapatos, roupas e pertences espalhados pelo chão. Viaturas da Delegacia de Furtos e Roubos, da Delegacia de Plantão e outros veículos foram mobilizados nas proximidades da Rua Mermoz.

Peritos do ITEP encontraram dois corpos masculinos ainda sem identificação. A avenida precisou começar a ser esvaziada e isolada, enquanto as equipes tentavam organizar um resgate em uma situação de absoluto descontrole. Por volta da 1 hora da madrugada, o Corpo de Bombeiros recebeu uma ligação pelo número 193. Segundo o relato posterior, a pessoa do outro lado da linha estava tão desesperada que tinha dificuldade até mesmo para explicar o que havia acontecido. Naquela época, Natal ainda não possuía SAMU. As possibilidades de transporte de vítimas eram muito mais limitadas. Foram usados carros particulares, viaturas policiais, táxis e Kombis. As ambulâncias disponíveis naquele período eram, muitas vezes, veículos adaptados. Ao avançarem pela Avenida Rio Branco, as equipes encontravam vítimas em diferentes pontos.

Algumas ainda estavam conscientes, outras já estavam mortas. Seis integrantes da banda morreram, entre eles policiais militares e integrantes do Exército, que tocavam como forma de complementar a renda. A maior parte dos feridos foi encaminhada ao Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. No primeiro momento, havia poucos médicos de plantão.

À medida que a notícia se espalhava, profissionais que nem sequer estavam escalados começaram a aparecer espontaneamente. Cerca de 40 médicos participaram dos atendimentos. Mortos e feridos chegavam praticamente ao mesmo tempo. A quantidade de pacientes rapidamente superou a estrutura disponível. Houve pessoas acomodadas no chão.

Além dos casos mais graves, muitos feridos leves também procuraram assistência. Alguns pacientes também foram levados para o Hospital dos Pescadores. A Marinha mobilizou pessoal para ajudar na doação de sangue. Mesmo assim, muitos compareceram voluntariamente ao hospital, mas as condições do Walfredo Gurgel provocariam uma discussão pública.

O então governador José Agripino Maia visitou o hospital depois da tragédia. O socorro às vítimas ainda seria marcado por outro acidente. Uma Kombi da Polícia Militar, que deixava a região do Baldo, transportava um militar gravemente ferido. Dois policiais haviam sido enviados para auxiliar no resgate depois que a corporação recebeu a notícia do atropelamento.

Por volta da 0h55, eles seguiram em direção ao Baldo. Depois de colocar um sargento do Exército ferido no compartimento traseiro da Kombi, partiram em direção ao hospital. O militar não resistiu e morreu durante o trajeto. Na tentativa de chegar rapidamente ao Walfredo Gurgel, a Kombi avançou um sinal no cruzamento das avenidas Alexandrino de Alencar e Hermes da Fonseca.

Nas proximidades do antigo hotel Tirol, um Fusca cruzava o local. Houve uma colisão. A Kombi capotou. O corpo do sargento foi lançado para fora do veículo e ficou sobre a faixa de pedestres. O policial que dirigia a Kombi sofreu um corte na região da nádega e fortes contusões no tórax e nas costas.

O outro policial sofreu uma ruptura no menisco e precisou ser internado no hospital da Polícia Militar. O motorista do Fusca apresentou sua própria versão, dizendo que aguardava a abertura do sinal quando seu carro foi atingido. O veículo, que pertencia a um amigo, teve a parte da frente destruída. Enquanto hospitais tentavam atender os feridos.

No Baldo, começava outro trabalho: a remoção do sangue e dos destroços. Depois que as vítimas e corpos foram retirados, o Corpo de Bombeiros precisou lavar a avenida. O sangue havia coagulado e impregnado partes do asfalto. Além dele, havia óleo derramado pelo ônibus. Isso provocava outro risco: em meio a cigarros, pessoas nervosas e materiais espalhados pela pista, uma fonte de ignição poderia provocar um incêndio.

O chão estava tomado por cacos de vidro, calçados, roupas e objetos pessoais abandonados. Curiosos continuavam no local. Muitas pessoas estavam em choque e não conseguiam sequer voltar para casa. Outras chegavam de diferentes bairros para tentar compreender o que havia acontecido ou oferecer ajuda. O trabalho continuou até quase o amanhecer, exatamente o horário em que, em uma madrugada normal, o Puxa-Saco estaria chegando à praia ao som de música.

Naquele 25 de fevereiro, o nascer do sol encontrou bombeiros lavando uma avenida marcada por sangue. O ônibus da Guanabara, completamente depredado, foi posteriormente rebocado. Permaneceu durante alguns dias sob análise antes de ser devolvido à empresa. No final, 19 pessoas morreram. As vítimas tinham entre 18 e 59 anos.

Entre elas estavam músicos, foliões e militares. Uma delas era Simone Banhos Teixeira, estudante de psicologia. Ela foi uma das primeiras vítimas levadas ao Walfredo Gurgel, socorrida pelo presidente do bloco, Memeia, mas já chegou ao hospital sem vida. Outra vítima era Dinarte de Medeiros Mariz Neto, estudante e neto do ex-senador Dinarte Mariz.

A identificação dos mortos foi caótica. Algumas vítimas não carregavam documentos. Em outros casos, a condição dos corpos dificultava o reconhecimento. Familiares começaram a percorrer hospitais, delegacias e o ITEP atrás de notícias. Velórios e sepultamentos aconteciam simultaneamente em vários pontos de Natal.

A cidade entrou em luto coletivo. O governador decretou três dias de luto oficial. A programação carnavalesca foi profundamente afetada. O Puxa-Saco não voltaria às ruas naquele carnaval, e a ideia de transformá-lo em banda no ano seguinte jamais seria concretizada. A prefeitura decidiu suspender parte da programação oficial já organizada.

Também houve dúvidas sobre os desfiles das escolas de samba e outros eventos. Dirigentes e autoridades passaram a discutir se seria aceitável continuar celebrando enquanto tantas famílias enterravam seus mortos. Alguns defendiam o cancelamento completo, outros entendiam que o carnaval deveria continuar como expressão cultural e até como homenagem aos músicos mortos.

O impacto chegou ao comércio. A venda de adereços carnavalescos caiu. O clima de festa havia desaparecido. Posteriormente, algumas bandas decidiram retomar as atividades. Também foram discutidas medidas educativas para tentar evitar que algo semelhante voltasse a acontecer. A tragédia abriu ainda mais um debate intenso sobre quem deveria ser responsabilizado.

O diretor da banda Galo, Eugênio Cunha, criticou a falta de organização e segurança. Segundo ele, havia falhas no planejamento do carnaval e na comunicação entre organizadores e autoridades. Eugênio dizia que as bandas já enfrentavam dificuldades para manter o carnaval de rua vivo. Para ele, a tragédia evidenciava uma estrutura insuficiente para proteger os foliões.

Ele também lamentava a perda dos músicos, que descreveu como pessoas extremamente unidas. Na visão de Eugênio, não seria justo atribuir toda a responsabilidade apenas a um motorista. Para ele, havia problemas mais amplos de estrutura, fiscalização e comunicação. Outros naturalmente discordavam dessa interpretação.

Também existia uma discussão sobre a legalidade e a organização dos próprios blocos. Àquela época, não havia a mesma estrutura de alvarás e regulamentações específicas existente atualmente. Segundo avaliações posteriores, uma dispersão do grupo logo após a prévia oficial poderia ter evitado que o Puxa-Saco chegasse àquele trecho.

Por outro lado, organizadores afirmaram que o percurso havia sido divulgado e que as autoridades tinham conhecimento da movimentação carnavalesca. A Ordem dos Músicos do Brasil também se pronunciou. A entidade declarou que buscaria indenizações para as famílias dos músicos mortos. Houve ainda auxílio financeiro para custear os funerais de algumas vítimas cujas famílias enfrentavam dificuldades econômicas.

A prefeitura chegou a discutir medidas contra a Guanabara. Falou-se em multa, suspensão e até na possibilidade de cassação da concessão da empresa. A Guanabara, porém, sustentava que não havia responsabilidade criminal da companhia. A empresa também negava que tivesse imposto ao motorista uma jornada excessiva.

Segundo representantes da concessionária, Aluísio havia cumprido apenas sua carga normal. Essa versão entrava em conflito com depoimentos sobre viagens extras e com relatos do próprio dia de trabalho. A seguradora SulAmérica ficou responsável pelo pagamento das indenizações. O valor total previsto para as famílias das 19 vítimas fatais era de aproximadamente 28.600.000 cruzeiros. Cada apólice, por morte, correspondia a cerca de 1.300.000 cruzeiros. O processo de indenização teria sido agilizado a pedido da empresa. Os parentes, porém, deixaram claro que qualquer valor era incapaz de compensar as perdas. O advogado da Guanabara, José Rocha, também saiu em defesa da empresa.

Segundo ele, Aluísio possuía uma ficha profissional considerada satisfatória. A concessionária afirmou que seus motoristas passavam por um processo de seleção envolvendo médicos, psicólogos e assistentes sociais. Haveria ainda um estágio que poderia durar entre 15 e 20 dias, além de treinamento sobre relacionamento com passageiros e comportamento profissional.

Mas essa explicação levantou outra pergunta: Como uma avaliação tão cuidadosa teria lidado com um episódio grave envolvendo Aluísio, ocorrido antes mesmo de sua contratação pela Guanabara? Porque aquela não era a primeira morte envolvendo Aluísio ao volante. Quatro anos antes, em 4 de maio de 1980, Aluísio havia atropelado uma jovem de apenas 19 anos.

Seu nome era Maria Salete. Ela trabalhava como empregada doméstica e atravessava a Avenida Bernardo Vieira quando foi atingida. Testemunhas disseram que Aluísio dirigia em alta velocidade. Uma delas afirmou, inclusive, que ele estaria disputando corrida com um Chevette. Depois do atropelamento, Aluísio não fugiu. Ele socorreu Maria Salete e a levou ao hospital Walfredo Gurgel.

A jovem, porém, não resistiu. Morreu por volta das 21 horas daquele mesmo dia. Aluísio foi processado e condenado a 2 anos de detenção, mas não chegou a cumprir a pena preso. Como havia prestado socorro à vítima, recebeu a suspensão condicional da pena. Na prática, o benefício permitia que permanecesse em liberdade, desde que cumprisse determinadas condições: entre elas, não consumir bebidas alcoólicas, não frequentar bares, não portar armas, apresentar-se periodicamente à justiça, não deixar Natal sem autorização e pagar as custas processuais. Enquanto Natal ainda enterrava as vítimas, a polícia procurava o motorista. Aluísio havia conseguido fugir da região do Baldo. A investigação chegou a ir à terra, em Riachuelo, por causa de informações sobre familiares. Em Natal, policiais cercaram um quarteirão onde ficava sua casa. O advogado do sindicato dos motoristas chegou a dizer que apresentaria Aluísio às autoridades, porém isso não aconteceu.

Segundo a versão que o próprio Aluísio apresentaria depois, sua fuga havia começado logo após deixar o ônibus. Ele pensou em ir para Parnamirim, onde um primo morava, mas sua camisa havia sido rasgada. Antes de seguir viagem, passou pela casa da mãe, disse que estava chorando e que não conseguiu sequer entrar. Sua mãe lhe deu outra camisa.

Aluísio, então, seguiu para Parnamirim. Ficou na casa do primo. Segundo ele, aguardava notícias do advogado do sindicato dos motoristas e não pretendia se apresentar sozinho. A polícia chegou primeiro. Na manhã de uma quarta-feira, uma denúncia levou os investigadores ao endereço. Por volta das 11h30, Aluísio foi encontrado. Estava isolado em um quarto.

Segundo os relatos, havia se alimentado muito pouco naqueles dias. A polícia deu voz de prisão. Ele foi levado à Secretaria de Segurança Pública. O delegado Pedro Avelino Neto o aguardava. O interrogatório começou aproximadamente ao meio-dia e terminou por volta das 14 horas. Aluísio estava acompanhado pelo advogado do sindicato dos motoristas, José Antônio Duda da Rocha.

A imprensa acompanhou sua chegada. Aluísio aparecia visivelmente abatido. Tentava evitar as câmeras e os flashes. Depois do interrogatório, foi levado ao ITEP para identificação criminal. A escolta foi reforçada porque havia receio de represálias. Uma pequena multidão se reuniu para tentar ver o rosto do motorista.

Seu antigo colega, Pedro Marcelo, descreveu um lado completamente diferente da personalidade de Aluísio. Segundo Pedro, ele costumava ser uma pessoa calma, simpática, tímida, brincalhona e sorridente. Era considerado dedicado à família e religioso. Morava ao lado da residência dos pais em um terreno cedido pela própria família.

O depoimento de Pedro é importante justamente porque mostra como as pessoas próximas a Aluísio o enxergavam antes da tragédia. Uma descrição que contrastava profundamente com os relatos feitos por passageiros naquela madrugada. Durante o interrogatório, Aluísio apresentou sua própria reconstrução dos acontecimentos. Disse que havia chegado à empresa naquela tarde ou noite para aguardar novas ordens.

Segundo ele, recebeu inicialmente serviços relacionados a outros grupos e depois uma nova determinação para transportar a Malandros do Samba até as Rocas. Afirmou que questionou a ordem por acreditar que suas viagens extras já haviam terminado, mas acabou obedecendo. Aluísio relatou que seguiu pela Coronel Estevam. Afirmou que, ao passar por determinados semáforos, eles estavam abertos.

Disse que reduziu a velocidade ao se aproximar da Praça Tamandaré e estimou que estaria entre 30 e 40 km/h nesse momento. Ele afirmou também que não viu o Fusca antes do impacto. Negou ter discutido com funcionários da empresa. Reconheceu que havia algazarra dentro do ônibus e que a cigarra havia sido acionada. Disse, porém, que não ouviu pedidos para diminuir a velocidade.

Aluísio declarou ainda que conversava com alguém enquanto dirigia. Segundo ele, ouviu gritos quando realizou uma mudança de faixa, mas não conseguiu compreender o que as pessoas diziam. Também afirmou que não buzinou e sustentou que o trecho sobre o viaduto do Baldo estava muito escuro, impedindo que percebesse a presença do Puxa-Saco a tempo.

Posteriormente, em entrevista à Rádio Poti, Aluísio ofereceu uma versão ainda mais detalhada. Disse que trafegava pela Rua Coronel Estevam e que chegou a atingir aproximadamente 70 ou 80 km/h em determinado trecho. Segundo ele, ao se aproximar de um semáforo, reduziu a velocidade e engatou uma marcha mais baixa.

Afirmou que um carro pequeno surgiu à sua frente e teria provocado ofuscamento. Para evitar esse automóvel, puxou o ônibus para um lado. Depois percebeu outro veículo ou caminhão parado e precisou corrigir novamente a trajetória. Foi somente então, segundo sua versão, que enxergou as pessoas à frente. Pisou no freio, mas dizia que o sistema não correspondeu completamente.

Segundo Aluísio, os freios funcionaram em cerca de 70% da capacidade. Chegou a dizer que isso poderia ser comprovado por perícia. Afirmou que o pedal havia descido quase completamente. Também alegou que tentou reduzir o impacto mudando a marcha. Negou que estivesse dirigindo daquele modo por causa de provocações na Malandros do Samba.

Depois do atropelamento, teria engatado a ré para olhar o que acontecera. Só então, segundo ele, compreendeu a dimensão da tragédia. Quando pessoas tentaram agredi-lo, fugiu. A tese de falha nos freios passaria a ocupar um lugar importante na defesa de Aluísio. O sistema utilizado em ônibus daquele período funcionava por meio pneumático, com ar comprimido distribuído entre diferentes circuitos.

A defesa procurava sustentar que uma falha poderia comprometer a capacidade de frenagem sem necessariamente eliminar completamente a resposta do pedal. Mas o problema para essa tese estava na perícia. Os exames realizados no ônibus não encontraram defeito mecânico capaz de explicar a tragédia. Em 28 de fevereiro, o laudo pericial do ITEP foi entregue à delegacia especializada de acidentes.

Os peritos não constataram falha no sistema de direção e segurança. Também não conseguiram determinar tecnicamente a velocidade do coletivo no momento do atropelamento. Havia poucas ou nenhuma marca de frenagem útil no asfalto para estabelecer com precisão toda a sequência. A enorme quantidade de sangue e a movimentação posterior no local também dificultavam a análise.

Os exames igualmente não sustentaram a hipótese de embriaguez do motorista. No dia 2 de março, a juíza da primeira vara criminal de Natal negou um pedido de prisão preventiva contra Aluísio. Naquele estágio, a magistrada considerou que os elementos existentes ainda não eram suficientes para caracterizar dolo eventual.

O caso ainda era tratado naquele momento dentro de uma discussão mais próxima do homicídio culposo. O delegado responsável, originalmente pela delegacia de acidentes, José Reinaldo Cavalcante, tinha limitações para continuar conduzindo toda a investigação. Pedro Avelino Neto foi então designado especialmente para aprofundar o inquérito.

Depois de ouvir várias testemunhas, Pedro defendia uma análise mais rigorosa sobre a conduta de Aluísio. Os advogados do motorista, por sua vez, contestaram inclusive aspectos formais do interrogatório realizado pela polícia. No dia seguinte, 3 de março, Aluísio foi libertado, mas a investigação estava longe de terminar. Em 30 de março, Pedro Avelino manifestou discordância de alguns pontos do laudo pericial inicial e solicitou uma revisão.

Também determinou que Aluísio fosse submetido a um teste psicotécnico. Uma das hipóteses estudadas pelos peritos foi a chamada percepção. A ideia era avaliar se o cansaço poderia ter comprometido a rapidez com que Aluísio percebia uma situação de perigo e reagia a ela. O laudo discutiu um processo composto por percepção, interpretação, emoção e decisão.

Segundo os técnicos, fatores como fadiga, falta de sono, álcool, drogas e condições individuais poderiam aumentar o tempo necessário para reagir. Esse tempo deveria ainda ser somado ao período necessário para executar uma ação física, como retirar o pé do acelerador e acionar o freio. Ou seja, o cansaço poderia interferir na reação, mas isso não significava que os freios estivessem mecanicamente defeituosos.

Em 26 de maio, o inquérito foi encaminhado ao juiz da primeira vara criminal. O relatório policial apontava falhas e divergências entre algumas conclusões periciais e depoimentos. A investigação considerava a condução em velocidade elevada, a lotação do ônibus, o estado de irritação do motorista e seu histórico anterior.

Também foi recomendada a cassação da carteira de habilitação. A discussão jurídica começou então a se concentrar em uma pergunta fundamental: o que Aluísio havia feito era apenas imprudência ou ele havia continuado dirigindo de uma forma tão perigosa que, mesmo sem desejar diretamente a morte de alguém, teria aceitado conscientemente o risco de matar?

Essa segunda possibilidade é aquilo que o direito chama de dolo eventual. Em 16 de agosto de 1984, Aluísio compareceu perante o juiz da primeira vara criminal. Naquela época, já estava vivendo e trabalhando no Ceará. Foi acompanhado pelo advogado do sindicato dos motoristas. Durante o interrogatório judicial, manteve essencialmente a mesma versão.

Negou qualquer intenção de provocar a tragédia. Insistiu na tese dos freios e continuou respondendo ao processo em liberdade. Pouco depois da tragédia, Aluísio deixou também o trabalho na Guanabara. Segundo relatos, estava profundamente abalado. Cerca de 45 dias depois do acidente, mudou-se para o Ceará, onde recebeu o apoio do sogro.

Pedro Marcelo ainda tentou encontrá-lo. Foi até a casa dos pais de Aluísio. O pai, Manoel, estaria profundamente abalado e disse não saber onde o filho estava. A mãe, Hilda, também evitou falar. Uma nova tentativa de visita, cerca de um ano depois, novamente não resultou em contato. Em 30 de julho de 1984, o promotor José Maria Alves apresentou denúncia contra Aluísio.

Para o Ministério Público, a versão do motorista não se ajustava ao conjunto de provas. A acusação considerava os laudos, depoimentos, exames das vítimas e o comportamento descrito pelas testemunhas. Segundo a promotoria, não havia falha mecânica. Aluísio estaria irritado. O ônibus estava lotado e ele teria continuado conduzindo em velocidade elevada, mesmo diante dos alertas.

A frase atribuída a ele, “Se tiver que morrer, morre todo mundo”, foi utilizada para reforçar a tese de que o motorista demonstrava indiferença ao risco. O Ministério Público passou a sustentar que Aluísio havia assumido o risco de produzir o resultado. O caso caminhava, portanto, para uma acusação de homicídio doloso na modalidade de dolo eventual.

A defesa apresentava outro cenário. Em manifestações posteriores, o Sindicato dos Rodoviários sustentou que Aluísio não poderia prever a presença de uma enorme concentração de pessoas sob um viaduto mal iluminado. Destacou a falta de policiamento, de sinalização, de isolamento e de comunicação. Também argumentou que os relatos de passageiros estavam emocionalmente contaminados pela dimensão da tragédia.

Para a defesa, o caso deveria ser tratado como homicídio culposo, causado por imprudência, e não como homicídio doloso. O processo, porém, começou a se arrastar. Audiências eram marcadas e adiadas. Aluísio aparecia cada vez menos. Sua defesa continuava atuando, mas o próprio acusado se tornava difícil de localizar. Em 1996, Aluísio chegou a estar em Natal e assinou uma procuração em favor do advogado Cleófas Coelho de Araújo.

No documento, aparecia como casado, motorista e residente em Natal. Sua assinatura constava no papel. Em outubro daquele ano, a defesa voltou a pedir uma reconsideração, argumentando que não havia prova de que Aluísio tivesse querido o resultado ou assumido conscientemente o risco. O Ministério Público respondeu em dezembro com uma crítica dura.

Segundo o órgão, o processo havia praticamente caído no esquecimento, permitindo que Aluísio permanecesse em liberdade enquanto a tragédia continuava sem um desfecho judicial. Em 13 de novembro de 1997, um oficial de justiça foi até a residência da família para intimar Aluísio. Sua irmã, Solange, informou que ele não estava em Natal.

Solange assinou a documentação e se comprometeu a apresentá-lo na data marcada para o julgamento. Isso não aconteceu. Poucos dias depois, em 26 de novembro, houve uma mudança na defesa. O advogado Francisco da Silva Fernandes substituiu Cleófas. Francisco afirmou que nem ele sabia onde Aluísio estava. Tinha tido apenas um contato breve com familiares e precisava estudar um processo enorme antes do julgamento.

A sessão marcada para 27 de novembro de 1997 foi retirada da pauta. Uma nova data foi prevista para 3 de dezembro, mas Aluísio continuava desaparecido. Em primeiro de dezembro, o juiz Alceu Medeiros determinou a expedição de um mandado de captura pela Polinter. A ordem previa que Aluísio fosse localizado e levado à penitenciária João Chaves para a realização do julgamento.

Agora, havia uma determinação formal de captura, mas ela não seria cumprida tão cedo. No início dos anos 2000, oficiais de justiça voltaram a procurar a família. Quando chegaram à antiga casa dos pais de Aluísio, encontraram outra moradora. O imóvel havia sido vendido. A mulher disse ter ouvido que a família tinha se mudado para Mato Grosso.

Era uma pista importante, mas naquele momento não levou à localização do motorista. Segundo o delegado Maurílio Pinto de Medeiros, havia uma grande pressão da sociedade pela captura. Sempre que surgia uma informação, policiais tentavam verificá-la. Em determinado momento, uma pista indicou que Aluísio estaria em uma casa na zona norte de Natal.

Era um endereço antigo que ele havia ocupado muitos anos antes, mas nada foi encontrado. O delegado posteriormente reconheceria que a demora na expedição do mandado dificultou a investigação. Durante esse período, Aluísio teria circulado por outros estados e utilizado documentação falsa. Em 8 de dezembro de 2005, o desaparecimento ganhou repercussão nacional.

O programa Linha Direta, da Rede Globo, exibiu a tragédia do Baldo. O episódio recebeu o título Corrida Alucinada. Fotografias de Aluísio apareceram na televisão. A história das 19 mortes voltou a ser contada para todo o país. Ainda assim, nenhuma denúncia resultou imediatamente em sua prisão. Em março de 2007, surgiu uma nova pista.

Uma parente de uma das vítimas procurou a justiça depois de receber uma informação sobre um homem muito parecido com Aluísio. Ele teria sido visto em uma borracharia na saída de Canguaretama, ajudando a empurrar um carro quebrado. O mecânico achou que o homem lembrava o motorista procurado havia décadas. A informação foi checada, mas não era Aluísio. Enquanto isso, um problema jurídico ainda impedia o desfecho do processo. Durante muitos anos, a legislação dificultava a realização do Tribunal do Júri sem a presença física do acusado.

Uma alteração no Código de Processo Penal que entrou em vigor em 2008 permitiu que o julgamento acontecesse mesmo sem Aluísio. E finalmente, 25 anos depois da tragédia do Baldo, o caso chegou ao Tribunal do Júri. Em 13 de abril de 2009, Aluísio Farias Batista foi julgado à revelia. Ele não estava presente. A sessão foi presidida pela juíza Ticiana Maria Delgado Nobre.

O Ministério Público foi representado pelo promotor Augusto Flávio de Araújo Azevedo. A defesa ficou a cargo de Geraldo Gonzaga de Oliveira. Durante os debates, o Ministério Público pediu a condenação de Aluísio pelos homicídios. A defesa voltou a sustentar que o ocorrido deveria ser considerado homicídio culposo por imprudência. Alternativamente, pediu reconhecimento de homicídio simples.

Os jurados, porém, aceitaram a tese do dolo eventual. Ou seja, o júrio entendeu que Aluísio não precisava ter desejado diretamente matar aquelas pessoas. Mas ao dirigir daquela maneira, nas condições descritas pela acusação, teria assumido conscientemente o risco de produzir mortes. A pena final foi estabelecida em 21 anos de reclusão em regime fechado.

A sentença levou em consideração que uma única conduta havia provocado a morte de 19 pessoas. As acusações referentes às lesões corporais sofridas por outras vítimas, entretanto, já haviam sido alcançadas pela prescrição. Aluísio também foi considerado inabilitado para dirigir veículos. A justiça considerava especialmente grave o fato de um homem condenado pelos homicídios continuar, segundo as informações disponíveis, exercendo justamente a profissão de motorista.

O promotor Augusto Flávio Azevedo conhecia a tragédia do Baldo não apenas pelo processo. Ele estava na cidade naquela época e havia perdido amigos. Ao comentar a pena, explicou que o caso envolvia uma única ação, produzindo diversas mortes. A defesa anunciou que pretendia recorrer. A própria juíza reconheceu que realizar um julgamento sem o réu presente trazia dificuldades.

Aluísio não poderia ser interrogado diante dos jurados. Não seria possível observar diretamente suas respostas e confrontá-lo com questões discutidas durante a sessão. Mesmo assim, todas as garantias de defesa precisavam ser preservadas. Mas havia um problema. O condenado continuava desaparecido. E com o passar dos anos, uma pergunta começaria naturalmente a surgir.

Como um crime cometido em 1984 ainda poderia resultar em prisão décadas depois? A resposta está na prescrição. Não se tratava de simplesmente contar 20 anos desde a madrugada do acidente e considerar tudo encerrado. O processo teve diversos marcos capazes de interromper a contagem e fazer o prazo começar novamente. Segundo explicação posteriormente dada pelo promotor Augusto Azevedo, para uma pena entre 12 e 30 anos, o prazo prescricional aplicável era de 20 anos, mas determinados acontecimentos processuais interrompiam essa contagem. Por isso, mesmo décadas depois do carnaval de 1984, o mandado contra Aluísio continuava válido. Em 2021, sua validade alcançava 2029. E foi justamente em 26 de janeiro de 2001 que pareceu por algumas horas que a fuga finalmente tinha terminado. No fim daquela manhã, policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) prenderam um homem em situação de rua no bairro de Neópolis, zona sul de Natal.

Uma denúncia anônima indicava que ele poderia ser Aluísio. O homem não portava documentos. Inicialmente, disse chamar-se João, negou ser um motorista. Depois, segundo as autoridades, teria afirmado que era. A notícia se espalhou rapidamente. O homem foi levado ao ITEP, as digitais foram comparadas com as existentes nos registros, mas o resultado foi negativo.

Aquele homem não era Aluísio. Segundo as autoridades, ele apresentava problemas mentais e poderia ter fornecido informações falsas durante o depoimento. Ele foi libertado naquela mesma noite. A busca por Aluísio continuava, mas aquilo que investigadores em Natal não sabiam durante boa parte dessas décadas era que Aluísio havia conseguido reconstruir a vida muito longe dali, em Mato Grosso.

Segundo a investigação que acabaria localizando-o, Aluísio passou a utilizar outra identidade. Conseguiu documentos naquele estado. Depois teria utilizado dados pertencentes a outra pessoa. Com essa identidade, viveu durante anos, construiu outra família e existe um detalhe especialmente impressionante: continuou trabalhando como motorista.

Para encontrá-lo, mais de 40 anos depois, os investigadores precisaram praticamente reconstruir sua vida. Utilizaram fotografias antigas, cruzaram dados, investigaram vínculos familiares, analisaram documentos, recorreram à comparação facial. A morte do pai de Aluísio em Mato Grosso também ajudou a reconstruir as conexões da família.

Pouco a pouco, a identidade que ele utilizava começou a ser ligada ao homem procurado no Rio Grande do Norte, até que, em 26 de junho de 2026, a polícia chegou a Cuiabá. 42 anos haviam se passado desde a tragédia do Baldo. Aluísio agora tinha 68 anos. Quando foi abordado, ainda teria apresentado aos policiais o nome que utilizava naquela nova vida.

Mas os investigadores já sabiam quem procuravam. A verdadeira identidade foi confirmada. Depois de 42 anos, Aluísio Farias Batista estava preso. A partir da captura, a justiça do Rio Grande do Norte tomou as providências necessárias para iniciar formalmente a execução da pena. Foi determinada, em caráter de urgência, a expedição da guia de recolhimento definitiva, documento necessário para oficializar o cumprimento da condenação.

Como ele vivia em Mato Grosso, assim como sua família, a defesa pediu que Aluísio pudesse cumprir a condenação ali e não no Rio Grande do Norte. Até o estágio das informações disponíveis no processo, esse pedido ainda não havia sido definitivamente deferido. O juiz responsável determinou que o juízo de execuções penais de Cuiabá fosse consultado para informar se havia a possibilidade de Aluísio cumprir a pena naquela comarca.

Assim, a informação mais recente é que ele permanece custodiado em Mato Grosso enquanto a justiça define onde deverá cumprir definitivamente a condenação. Você já conhecia a tragédia do Baldo? Siga a página.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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