O CASO SELENA (RIBEIRÃO PRETO): A JOVEM DO BAR E A BEBIDA QUE NINGUÉM EXPLICOU
O resto
Sebastião dificilmente era visto nas ruas após o término da jornada no mercado, optando pela tranquilidade de seu lar e pelas transmissões de seu aparelho de rádio Philips, que considerava seu maior tesouro. Dona Conceição repartia suas horas entre as encomendas na máquina de costura e o cuidado com a residência. No que diz respeito a Selena, todos a tinham como uma jovem recatada, dedicada e laboriosa. Ninguém poderia supor que aquele núcleo familiar de feições tão comuns abrigava mistérios que a sociedade local preferiria manter no esquecimento. E tudo começou a ruir justamente naquela noite de 14 de fevereiro, diante de um acontecimento fora do comum no interior do bar Riviera. Conforme as declarações prestadas por Antônio Ferreira, frequentador assíduo do local, Selena demonstrava um comportamento ligeiramente atípico naquele expediente. Ela se mantinha bem mais retraída do que o habitual, nem sequer respondeu quando indaguei sobre o estado de saúde de seu pai, que eu sabia estar acamado”, relatou Antônio em testemunho colhido dias depois.
Outro cliente, sob a condição de anonimato, pontuou que a atendente parecia desviar a atenção e evitar o atendimento a uma mesa específica, onde se acomodavam três homens recém-chegados, nunca antes vistos no recinto. Investigações policiais posteriores identificaram que os três forasteiros eram oriundos da capital paulista. Um deles, Eugênio Matarazzo, pertencia a uma ramificação secundária da tradicional linhagem de industriais e visitava Ribeirão Preto com o objetivo de prospectar negócios no município. Seus acompanhantes eram Paulo Brenner e Renato Aguiar, parceiros comerciais de Eugênio em diferentes frentes mercantis. Aparentemente, nenhum deles mantinha qualquer elo prévio com Selena ou seus parentes. Próximo das 22h30, segundo informaram presentes, Eugênio chamou Selena e fez uma encomenda reservada. Não há registro exato das palavras trocadas, contudo a funcionária demonstrou hesitação antes de caminhar em direção à copa. Instantes mais tarde, ela reapareceu equilibrando uma bandeja com três taças perfeitamente iguais às que já compunham a mesa.
A bebida, que aparentava ser uísque, exibia a mesma tonalidade das doses servidas anteriormente. Os fatos transcorridos nos quarenta minutos seguintes permanecem cercados de desencontros e contradições nos relatos oficiais. A única certeza, documentada na ocorrência policial número 876 de 1952, é que por volta das 23h12 Eugênio Matarazzo começou a apresentar um quadro súbito de agonia física. Conforme declarações de Paulo Brenner aos investigadores, Eugênio reclamou de uma sensação estranha de dormência na boca, acompanhada de vertigem severa e insuficiência respiratória aguda. Antenor Correia, o dono do estabelecimento, deu ordens imediatas para que localizassem um socorro médico. O Dr. Francisco Junqueira, que por acaso jantava em um restaurante nos arredores, chegou em cerca de quinze minutos, mas encontrou Eugênio já tomado por fortes espasmos convulsivos. A despeito das tentativas do profissional, a vítima veio a óbito ainda no chão do salão. A causa da morte seria atestada depois como intoxicação letal por um composto que a precária estrutura pericial da época não logrou determinar com exatidão. Os olhares de suspeita recaíram de imediato sobre Selena. Segundo Antenor, a moça havia sumido das dependências do bar pouco antes de Eugênio manifestar o mal-estar repentino.
Imaginei que ela tivesse ido ao toalete, como de hábito em seus momentos de descanso”, relatou o comerciante. Quando a guarnição policial atendeu à ocorrência, perto da meia-noite, não havia vestígio da atendente no local. Uma diligência foi enviada à residência da família Nogueira, encontrando apenas dona Conceição, atônita diante da presença das autoridades à sua porta. A mãe afirmou sob juramento ignorar o paradeiro da filha, reiterando a convicção de que ela continuava no posto de trabalho. Sebastião, de acordo com o relato materno, havia partido horas antes para visitar um irmão no município vizinho de Sertãozinho e ainda não retornara. Naquela mesma madrugada, três policiais foram mobilizados para localizar Selena, enquanto dois agentes permaneceram no Riviera colhendo depoimentos das testemunhas presentes. Os copos recolhidos da mesa de Eugênio foram apreendidos para perícia, bem como o vasilhame de uísque usado para abastecer a rodada. O corpo da vítima foi encaminhado ao necrotério local para a realização do exame cadavérico. Na manhã seguinte, os restos mortais de Selena foram avistados flutuando nas águas do rio Pardo, a cerca de 15 quilômetros do centro urbano de Ribeirão Preto.
O achado deu-se por iniciativa de um pescador ribeirinho, José Clementino, que notou um volume estranho derivando rente à barranca. De início, segundo declarou à reportagem do periódico A Cidade, em edição de 16 de fevereiro de 1952, acreditou tratar-se de um saco de tecidos descartados, até perceber mechas de cabelo emergindo na correnteza. A necropsia conduzida pelo legista Dr. Paulo Meirelles indicou afogamento como causa mortis de Selena. Contudo, havia marcas lineares em seus punhos, evidenciando que ela provavelmente fora amarrada antes de submergir. Não se constataram vestígios de agressão sexual, mas foram descritos hematomas faciais e na região abdominal compatíveis com contusões físicas deliberadas.
O laudo pericial registrou ainda a presença de substância alcoólica em seu organismo, em descompasso com os depoimentos de amigos e familiares, unânimes em afirmar que Selena jamais bebia. Sebastião Nogueira regressou a Ribeirão Preto na tarde do dia 15, em visível estado de desespero com a confirmação do falecimento da jovem. Seu álibi acabou corroborado pelo testemunho do irmão e de vizinhos em Sertãozinho, que confirmaram sua permanência naquela localidade ao longo da noite anterior. Dona Conceição, por sua vez, mergulhou em profundo torpor psicológico após tomar ciência do trágico destino de Selena, demandando assistência médica sob internação no Hospital Santa Teresa. O rumo do inquérito sofreu uma guinada vertiginosa quando Paulo Brenner, um dos companheiros de mesa de Eugênio Matarazzo, foi localizado sem vida em seu aposento de hotel na manhã de 16 de fevereiro.
A causa atribuída ao óbito foi suicídio por overdose de barbitúricos, acompanhado de um bilhete manuscrito onde ele admitia a autoria do envenenamento de Eugênio em razão de disputas comerciais. O texto não fazia qualquer menção a Selena. Renato Aguiar, o terceiro homem do grupo, foi conduzido sob custódia para prestar esclarecimentos. Rrechaçou de pronto qualquer participação nos fatos, assegurando desconhecer Selena antes daquela noite e alegando que sua relação com Paulo e Eugênio limitava-se estritamente ao ambiente profissional. Documentos contábeis examinados posteriormente indicavam que Renato havia transferido recentemente sua cota em uma companhia de importações a Eugênio por uma quantia bastante defasada em relação ao valor de mercado. Os investigadores viram a negociação com estranheza, porém consideraram o elemento insuficiente para justificar sua prisão preventiva. A apuração parecia caminhar para uma solução bastante conveniente: Paulo Brenner eliminara o sócio movido por interesses econômicos e, consumido pela culpa ou acuado pelas consequências penais, dera fim à própria existência.
No tocante a Selena, a versão sustentada pelas autoridades sugeria que ela, ao notar a tragédia, fora tomada pelo pânico e fugira, acabando emboscada e silenciada definitivamente por indivíduos não identificados. Essa narrativa acomodou a opinião pública e estampou as manchetes dos jornais por cerca de dez anos. Os procedimentos policiais foram formalmente arquivados em junho de 1952, definindo a morte de Paulo Brenner como autoextermínio e a de Selena como homicídio de autoria desconhecida. O envenenamento de Eugênio Matarazzo foi atribuído exclusivamente à conduta de Paulo, mas a realidade dos fatos não se encerraria ali. O silêncio que se estabeleceu carregava uma densidade anormal. Sobrenomes de peso desapareceram das conversas de rua. Certas indagações passaram a ser repelidas com evasivas e, surpreendentemente, a família Nogueira apresentou um salto patrimonial notável, ainda que discreto, nos anos subsequentes. Sebastião deixou o balcão no mercado municipal para inaugurar um comércio de ferragens que se expandiu de maneira incomum.
Dona Conceição, recuperada do colapso nervoso, abandonou o ofício de costura para terceiros e dedicou-se plenamente ao novo lar: uma residência consideravelmente mais espaçosa no bairro recém-erguido dos Campos Elísios, reduto voltado à classe média em ascensão. Em 1961, praticamente dez anos depois dos eventos no bar Riviera, a jovem repórter Clara Mendonça, recém-saída dos bancos da Universidade de São Paulo, retornou à terra natal, Ribeirão Preto, passando a atuar na redação de A Cidade. Dona de um perfil questionador e idealista, Clara dedicava-se a pesquisar episódios adormecidos que trouxessem à tona as engrenagens ocultas da sociedade local. Foi num diálogo despretensioso com seu tio Jaime Mendonça, veterano dos quadros da delegacia central, que Clara tomou conhecimento dos acontecimentos que vitimaram Selena. A entonação contida do tio ao abordar o tema, abaixando a voz com o receio característico de quem se sabe vigiado, despertou seu ímpeto investigativo. “Existem pormenores daquele episódio que jamais chegaram às páginas dos jornais”, declarou Jaime, esquivando-se de fornecer detalhes adicionais. Clara mergulhou em diligências autônomas, vasculhando nos arquivos do jornal cada linha impressa a respeito da ocorrência. Ficou surpresa ao notar como a cobertura da imprensa havia sido abreviada diante de uma tragédia daquela magnitude.
Havia apenas notas ligeiras veiculadas nos primeiros dias após os óbitos, sucedidas por uma calmaria total de publicações. Nenhuma apuração paralela fora desenvolvida, tampouco foram colhidas declarações com familiares ou amigos da vítima, sem qualquer questionamento às pontas soltas deixadas pelas autoridades. Sua parada seguinte foram as dependências do arquivo policial. Valendo-se de suas credenciais de imprensa e do prestígio de seu tio, Clara obteve autorização para manusear o inquérito policial da época. Para seu espanto, o conjunto documental era espantosamente exíguo. Folhas haviam sido arrancadas, fotografias periciais foram suprimidas e determinados depoimentos listados na abertura do índice simplesmente não constavam no interior da pasta. Ficava a impressão de uma expurgação intencional de partes substanciais da documentação. Dentre os raros registros fotográficos preservados, constava uma tomada externa do terreno ribeirinho onde o corpo de Selena fora encontrado. Clara identificou uma particularidade instigante.
No segundo plano da imagem, rente à margem da fotografia, avistava-se um veículo parado na estrada de terra vicinal próxima ao leito do rio. O automóvel aparentava ser um modelo Cadillac, peça raríssima no cenário rodoviário brasileiro daquele período, sobretudo em uma cidade do interior. Clara decidiu refazer o caminho dos antigos depoentes, iniciando a busca por Antenor Correia, o antigo titular do Riviera. Soube que ele repassara o ponto comercial no decorrer de 1954 e transferira residência para o litoral, fixando-se em Santos. Recorrendo a contatos na Baixada Santista, localizou o atual endereço de Antenor. Já sexagenário, o homem transpareceu grande constrangimento diante da chegada da repórter. “Qual o sentido de revolver essa terra agora? Já se passaram tantos anos?”, reagiu ele logo nos primeiros minutos da abordagem.

Reticente a princípio, Antenor finalmente aceitou dialogar sob a garantia expressa de que sua identidade seria resguardada. Segundo suas palavras, havia circunstâncias cruciais daquela madrugada que jamais foram registradas em documentos públicos. Selena não se limitava a exercer o papel corriqueiro de atendente de bar. O Riviera, à semelhança de outros estabelecimentos noturnos do período, promovia com discrição encontros de outra natureza para frequentadores seletos. Não se tratava de uma casa de tolerância aberta, porém certas colaboradoras, e Selena entre elas, aceitavam sair na companhia de clientes após o expediente, mediante ajustes prévios intermediados por Antenor. “Ela destoava das demais, mantinha postura reservada, era muito criteriosa. Apenas acatava determinados clientes e quando a premência por dinheiro se tornava inadiável”, explicou Antenor. Conforme detalhou o ex-proprietário, Selena destinava esses ganhos complementares para custear o tratamento do pai, que enfrentava problemas cardíacos mantidos em estrito sigilo doméstico. O dado mais contundente, no entanto, foi a revelação de que Eugênio Matarazzo não era uma figura alheia a Ribeirão Preto, ao contrário do que noticiara a imprensa. Ele frequentava o município com regularidade por pelo menos dois anos antes do ocorrido, sempre pernoitando no mesmo hotel, visitando o Riviera e exigindo com exclusividade a presença de Selena. Era um esquema de total reserva. Ele aportava na cidade a cada dois ou três meses, emitia um aviso com antecedência e eu repassava o comunicado a Selena. Ela nunca demonstrava entusiasmo com essas ocasiões, mas também não recusava o chamado”, recordou Antenor.
Na noite daquele 14 de fevereiro, contudo, a rotina foi quebrada. Eugênio surgiu no bar acompanhado de terceiros, fato absolutamente inédito. Segundo Antenor, foi nítida a perturbação de Selena ao deparar com os três homens reunidos, embora ele tenha interpretado a tensão como zelo para preservar a discrição habitual do trato. Clara indagou a respeito dos recipientes servidos e do coquetel envenenado. Antenor silenciou por alguns instantes antes de externar sua visão. “Não passa pela minha cabeça que Selena tenha atentado deliberadamente contra alguém. Isso não cabia em sua índole. Ademais, ela tinha plena consciência de que eu inspecionava tudo que saía do balcão, principalmente os pedidos destinados a personalidades como Matarazzo. O que posso assegurar é que, minutos antes de levar as bebidas à mesa, Selena atendeu a um telefonema na linha fixa da casa. Ao pousar o fone, apresentava uma palidez assustadora. Foi logo em seguida que conduziu os copos à mesa.” O registro dessa comunicação telefônica não constava em nenhum dos autos oficiais compulsados por Clara. Quando questionado sobre essa lacuna, Antenor encolheu os ombros, informando que relatara o fato ao titular da delegacia na ocasião, mas a informação fora tratada como irrelevante.
Com o faro investigativo aguçado, Clara ampliou os passos de sua apuração, empenhando-se em identificar outras pessoas cientes da relação mantida entre Selena e Eugênio Matarazzo. O rastreamento a conduziu a Maria Silveira, antiga colega de trabalho de Selena no Riviera, então domiciliada em Franca, localidade vizinha a Ribeirão Preto. Maria, de início esquiva em remexer no passado, aceitou abrir-se perante o compromisso de sigilo absoluto firmado pela jornalista. Segundo suas confissões, Selena havia revelado em particular, poucas semanas antes de sua morte, que se encontrava em estado de gravidez. “Ela estava em pânico. Contou que a paternidade era de um homem influente, casado, radicado em São Paulo. Queria evitar qualquer escândalo público, porém se recusava a interromper a gestação. Pretendia transferir-se para a capital fluminense, onde contava com o apoio de uma prima, a fim de recomeçar a vida distante daqui”, narrou Maria. Quando Clara indagou se essa figura de relevo poderia ser Eugênio Matarazzo, Maria demonstrou hesitação. “Ela nunca proferiu o nome abertamente, mas certa ocasião presenciei quando ela entrou no veículo de um homem que os outros garçons identificaram como um industrial paulista. Era um modelo Cadillac escuro.” O mesmo automóvel cuja traseira figurava de forma marginal na fotografia pericial do leito do rio Pardo. Clara deliberou então reconstituir a biografia e os passos de Eugênio Matarazzo. Apurou que, paralelamente às empresas registradas, circulavam fortes boatos acerca de seu envolvimento com remessas clandestinas e operações escusas. Mantinha casamento formal com Eleonora Matarazzo, membro da mais alta linhagem paulistana, com quem tivera três filhos.
O falecimento do industrial fora reportado pelos diários paulistas como um episódio trágico em viagem de representação, quase sem tocar no hipótese de substâncias venenosas. Mais intrigante ainda foi o achado de Clara: o procurador jurídico do clã Matarazzo desembarcara em Ribeirão Preto por três ocasiões nas semanas posteriores ao falecimento de Eugênio. Não havia rastro oficial daquelas presenças, entretanto um recepcionista aposentado do hotel central recordava-se perfeitamente das reuniões mantidas pelo advogado com o titular da delegacia na época, Otávio Junqueira. A menção ao delegado Junqueira abriu uma nova trilha para a apuração da repórter. Otávio era primo de primeiro grau de Francisco Junqueira, justamente o clínico que fora chamado às pressas para socorrer Eugênio no Riviera. A linhagem Junqueira figurava entre as famílias de maior antiguidade e poderio no município, com raízes cravadas na cafeicultura e na posterior modernização açucareira.
Clara identificou, vasculhando o cartório municipal, que membros do clã Junqueira haviam alienado um imóvel residencial expressivo para Sebastião Nogueira, genitor de Selena, em 1953, por uma soma irrisória, bastante inferior às avaliações da região. Era exatamente o endereço para onde os Nogueira se mudaram pouco depois do falecimento da moça. Conforme Clara aprofundava os cruzamentos de informações, o cerco à sua volta começou a se fechar. A chefia da redação do jornal A Cidade demonstrou esfriamento crescente em relação ao assunto, redirecionando seu trabalho para temas banais com o intuito evidente de afastá-la das apurações do caso. Informantes que haviam pré-agendado conversas desmarcaram os encontros sem explicações convincentes. O próprio tio Jaime, mentor inicial da investigação, passou a esquivar-se de qualquer menção ao caso. Obstinada, Clara continuou a apurar os fatos de modo clandestino.
Traçou a rota para localizar Renato Aguiar, o único membro sobrevivente daquela mesa trágica de Eugênio Matarazzo. Depois de sucessivas consultas, localizou-o habitando uma propriedade rural em local ermo na periferia de Campinas. A aproximação com Renato foi tensa. O sujeito, beirando os cinquenta anos, aparentava um desgaste físico que não correspondia à sua idade real. Atendeu a jornalista na área externa, mantendo a porta trancada às suas costas. Suas mãos tremiam sutilmente enquanto segurava um copo de água. “Nada resta a ser esclarecido sobre aquela madrugada além daquilo que já se encontra concluído”, proferiu em tom seco, mascarando a própria instabilidade. Clara pôs as cartas na mesa: os vínculos prévios entre Selena e Eugênio, a gestação confirmada, o telefonema enigmático recebido no bar, a presença do Cadillac na cena do crime e o súbito enriquecimento da família Nogueira. “Elucubrações fantasiosas de uma jornalista ávida por manchetes apelativas”, rebateu Renato.
Nada obstante, Clara percebeu como o interlocutor desviava o contato visual e como sua respiração tornara-se acelerada e ruidosa. “O que continha de fato a taça entregue ao senhor Matarazzo?”, disparou Clara, sem rodeios. Renato permaneceu em absoluto silêncio durante longos segundos. “Sabe o motivo pelo qual permaneci vivo naquela noite, senhorita Mendonça? Porque me abstive de beber. Jamais consumo álcool durante acordos comerciais. Paulo praticamente não tocou na taça, apenas molhou os lábios. Eugênio, por sua vez, ingeriu a dose de um único fôlego. Então, tratava-se de veneno deliberado? Não saberia precisar a composição. O que posso lhe afiançar é que Paulo nada teve com a morte dele. Não houve suicídio. Paulo foi calado para sempre, exatamente como fizeram com a garota. Por determinação de quem e com qual propósito?, inquiriu Clara com insistência. Por que certos sobrenomes não podem ser manchados? Por que determinadas dinastias estão colocadas acima do alcance das leis? Por que certas realidades são perigosas demais para vir a público? Renato colocou-se em pé, sinalizando o término irrevogável da conversa. Se tem apreço pela sua integridade e pela sua profissão, senhorita, cesse esta empreitada. Ela já provocou ruína suficiente ao seu redor. Ao longo dos dias subsequentes, Clara passou a sentir-se vigiada em seus passos rotineiros. Identificou um carro escuro estacionado sistematicamente em frente ao edifício em que residia. Atendia ao telefone e deparava apenas com uma respiração muda do outro lado da linha.
Em certa ocasião, seu apartamento foi revirado durante seu turno na redação, sem que nenhum objeto de valor fosse subtraído. Ainda assim, manteve a busca. Uma nova peça de valor incalculável veio de uma fonte inesperada. Dona Conceição, a genitora de Selena, já em idade avançada, continuava habitando o casarão nos Campos Elísios. Clara abordou-a na saída da celebração dominical, na igreja que a senhora frequentava com pontualidade. De pronto, dona Conceição esquivou-se de resgatar memórias da filha. “Certas chagas da alma não devem ser reabertas”, ponderou com olhos marejados. Todavia, quando a jornalista mencionou haver estado pessoalmente com Renato Aguiar, uma alteração repentina abateu-se sobre o semblante da idosa. “Aquele homem ainda respira neste mundo depois de tudo o que causou?”, sussurrou ela, quase inaudível. Clara percebeu a brecha. “O que ele de fato fez, dona Conceição?” A senhora olhou ao redor, temerosa de qualquer presença próxima. “Esteja na minha residência amanhã. Sebastião passará a tarde inteira nos torneios do clube de xadrez. Há documentos guardados que a senhorita deve conhecer.” No dia aprazado, dona Conceição recebeu a repórter com ar austero. Conduziu-a a um aposento nos fundos da construção que aparentava estar trancado há décadas. De uma arca rústica, retirou uma caixa de calçados gasta pelo tempo. “Aqui estão as derradeiras correspondências de Helena.
Ela as redigiu semanas antes da tragédia, mas não teve tempo de postá-las. Encontrei-as misturadas aos pertences pessoais restituídos pela polícia.” O material, traçado com caligrafia caprichada em folhas de bloco escolar, era destinado a uma prima radicada no Rio de Janeiro. Nas cartas, Selena ratificava a gravidez e detalhava o pânico decorrente da postura do homem responsável pela situação. “Ele asseverou que sua vida estaria arruinada caso o fato se tornasse público”, relatava um trecho. “Propôs quantias para que eu sumisse com a gravidez, como ele costuma dizer. Ao me recusar, enxerguei um brilho assustador em seu olhar. Estou apavorada, Maria, não apenas pela minha vida, mas pela do ser que carrego.” Em outro documento, datado de 10 de fevereiro, escassos quatro dias antes do crime, Selena anotava: “Ele avisou que virá acompanhado dos amigos nesta sexta-feira. Garante que fecharam um trato e me providenciarão auxílio financeiro para a mudança definitiva ao Rio. Não tenho confiança neles, em especial no conhecido mais novo, que vem da região de Campinas. Há algo em sua conduta que me gela a espinha. Porém, qual alternativa me resta?” Clara fitou dona Conceição, que chorava sem emitir sons. “Qual o motivo para a senhora não haver entregue este material às autoridades naquela época?” “Eles não estavam comigo. A autoridade policial demorou quase trinta dias para devolver as roupas e objetos de Helena. Quando li os papéis e juntei os acontecimentos, fui direta à sala do delegado Junqueira.
Ele colheu meu relato, recolheu as cartas e garantiu que procederia às averiguações. No dia posterior, Sebastião foi intimado para um encontro reservado. Ao regressar, trazia nas mãos as escrituras desta propriedade. Afirmou que tínhamos de demonstrar apreço à beneficência do clã Junqueira e jamais voltar a tocar no nome de Helena. Estes papéis aqui são reproduções que providenciei antes de entregar os originais ao delegado.” “A senhora tem convicção de que sua filha foi eliminada por causa da gestação?” “Estou certa de que minha menina foi executada para resguardar a honra pública de um magnata. E tenho certeza de que meu marido e eu fomos comprados com a posse deste teto e a conveniência de um silêncio garantido.” Os relatos prestados por dona Conceição fecharam as lacunas que ainda restavam na montagem do caso. Selena, esperando um filho de Eugênio Matarazzo, representava a destruição iminente de seu nome social e de seu matrimônio aristocrático. A reunião no bar Riviera não fora uma coincidência de viagem, mas uma armadilha friamente arquitetada. O telefonema misterioso que Selena recebera na copa correspondia, com alta probabilidade, a um recado de advertência, emitido por alguém ciente do desfecho que tentara alertá-la a tempo. No tocante ao veneno no copo, Clara concluiu que a manobra não partira das mãos de Selena — conforme pretendiam as versões superficiais —, nem tivera origem no sócio Paulo Brenner, a despeito do falso bilhete de autoextermínio. Sua convicção apontava que Renato Aguiar, o único a sair ileso, orquestrara a eliminação, agindo por encomenda direta dos Matarazzo ou por projeto financeiro próprio, visando afastar o sócio inconveniente e as pendências das quotas empresariais.
A morte de Selena derivara da necessidade absoluta de exterminar a testemunha viva. Os sinais em seus pulsos sugeriam que ela fora aprisionada no trajeto, posta no interior daquele mesmo Cadillac registrado na margem do rio e afogada nas águas do Pardo. Paulo Brenner, ciente do mecanismo criminoso e tornando-se um peso para os conspiradores, foi o alvo subsequente, com seu assassinato simulado como suicídio por remédios. A blindagem institucional ergueu-se de pronto, apoiada no prestígio descomunal da dinastia Matarazzo e na docilidade das autoridades locais, que receberam compensações valiosas pelo abafamento, assim como ocorrera com os pais de Selena. Clara estruturou uma minuciosa reportagem em que compilava todos os dados, os nomes envolvidos e as falhas deliberadas dos autos judiciais. Deu ao trabalho o título de Selena de Ribeirão Preto: a verdade silenciada, entregando o material ao editor do jornal. Conforme antecipara, o texto foi vetado sumariamente, sob o pretexto de precariedade de provas cabais e perigo de retaliações jurídicas. Determinada a não admitir o esquecimento daquela história, Clara despachou vias do original para redações influentes no eixo Rio-São Paulo.
Depois de semanas de espera, veio a manifestação de um dos chefes de redação do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, com o plano de veicular uma matéria especial sintetizada dentro de uma série sobre crimes não desvendados da crônica nacional. Na data exata em que o conteúdo deveria ir a público, Clara não compareceu às suas atividades cotidianas. Intrigados, colegas de trabalho deslocaram-se ao seu endereço, encontrando a habitação aberta, com indícios evidentes de abandono repentino. A escova de higiene bucal permanecia na pia, os trajes pendiam dos armários e laudas de rascunho achavam-se espalhadas sobre a escrivaninha. Seu veículo achava-se estacionado na via pública. Um boletim policial sobre seu paradeiro chegou a ser instaurado, porém rascunhado e encerrado com rapidez por falta de vestígios.
A matéria no Diário de Notícias foi cancelada e retirada da edição final, sem qualquer justificativa aos leitores. Os cadernos e papéis reunidos pela jornalista sumiram inexplicavelmente do acervo do periódico A Cidade. A sensação era de que ela, juntamente com a denúncia que levantara, havia se dissolvido sem deixar pistas. Em 1968, sete anos após o sumiço sem respostas de Clara, um acadêmico do curso de jornalismo da Universidade de São Paulo, Victor Almeida, deu início a um levantamento acadêmico a respeito do desaparecimento de profissionais de imprensa no Brasil. Ao compulsar as referências sobre Clara Mendonça, deparou com um maço arquivado no setor de documentos esquecidos da Biblioteca Municipal de Ribeirão Preto. A pasta guardava pedaços datilografados do rascunho produzido sobre Selena Nogueira. Em meio ao acervo, Victor localizou uma fotografia ausente dos procedimentos policiais. A imagem trazia em nitidez o Cadillac escuro estacionado nas imediações do trecho do rio Pardo onde recolheram o corpo da moça.
O enquadramento permitia identificar parte da identificação da placa, o bastante para que o estudante requeresse checagens perante os registros veiculares. Recorrendo a intermediários na repartição de trânsito de São Paulo, logrou comprovar que a titularidade do veículo pertencia a Ricardo Matarazzo, irmão caçula de Eugênio. Outro detalhe curioso dava conta de que o automóvel tivera queixa de furto lavrada dois dias após a localização de Selena, reaparecendo misteriosamente abandonado uma semana adiante em um ramal vicinal nos arredores de Campinas. Não distante, curiosamente, dos limites da propriedade particular de Renato Aguiar. Victor também teve acesso ao histórico médico de Sebastião Nogueira junto ao Hospital Santa Teresa. Os prontuários confirmavam o quadro crônico do coração, contudo revelavam um detalhe aterrador: em janeiro de 1952, exatamente um mês antes da tragédia no Riviera, Sebastião havia sido hospitalizado com severos indícios de envenenamento. O atestado apontava intoxicação por alimentos estragados, porém o parecer médico anotava a suspeita evidente de veneno de origem indeterminada. Aquele registro médico despertou uma tese inédita nas apurações de Victor: e se o plano inicial de envenenamento visasse, originariamente, não ao industrial Eugênio Matarazzo, mas sim ao pai de Selena? A internação hospitalar de Sebastião dera-se no mesmo intervalo em que, consoante as cartas achadas por Clara, Selena informara a paternidade da gestação ao amante.
Os registros do estabelecimento de saúde anotavam ademais que, durante o período de leito de Sebastião, este recebera a visita de Otávio Junqueira, justamente a autoridade policial que assumiria o inquérito sobre as mortes no Riviera. Uma aproximação altamente suspeita, considerando a completa ausência de vínculos anteriores entre o clã Junqueira e a família Nogueira. Victor procurou refazer contato com dona Conceição. Descobriu que a genitora havia falecido em 1965, aparentemente em razão do desgaste da idade. Sebastião Nogueira continuava recolhido no casarão dos Campos Elísios, tornando-se uma figura arredia e solitária. Qualquer investida de Victor para dialogar com ele esbarrava em explosões de cólera e avisos de acionamento das forças policiais. Uma pista concreta surgiu quando o pesquisador conseguiu localizar Antônio Ferreira, o cliente assíduo do Riviera que presenciara os fatos daquele 14 de fevereiro. Antônio, beirando as sete décadas de vida, residia em um asilo de idosos no município de Batatais, próximo a Ribeirão Preto.
Embora sofresse lapsos de memória decorrentes dos anos, Antônio recompôs aos poucos os detalhes daquela noite ao ser confrontado pelas perguntas de Victor. “A moça destoava, demonstrava sobressalto. Contudo, houve outro detalhe. Pouco antes de carregar a bandeja com as bebidas, vi perfeitamente quando ela despejou um pó no interior de um dos copos.” “O senhor tem convicção do que observou?”, indagou Victor, atônito. Aquela descrição colocava em xeque o depoimento judicial arquivado de Antônio, no qual ele sustentava não ter notado qualquer conduta atípica. “Plena certeza. No entanto, quando comuniquei a cena ao delegado, fui advertido de que estava equivocado, que o bar tinha pouca luz e que eu havia exagerado na bebida. Logo depois, um policial à paisana me procurou, avisando que seria prudente não repetir aquela conversa com mais ninguém.” “Chegou a verificar em qual copo ela mexeu?” Antônio cerrou as pálpebras, forçando a lembrança. “Não conseguiria precisar com certeza, mas me recordo de que ela parecia decidida, não agia com hesitação. Quando o sujeito começou a passar mal, ela não demonstrou surpresa; simplesmente deu as costas e sumiu.” Esse testemunho acrescentava uma nova camada de perplexidade ao caso. Teria sido Selena, afinal, a executora material da morte de Eugênio Matarazzo? Com qual intuito? Represália pela imposição para que realizasse o aborto? Desespero diante de ameaças para que calasse? Ou haveria outra pressão não confessada nas cartas de desabafo resgatadas por Clara?
Uma evidência adicional apareceu quando Victor obteve franquia aos registros reservados da antiga estação de trens de Ribeirão Preto. A documentação revelava que, na mesma data de 14 de fevereiro de 1952, fora adquirido um bilhete de trem com destino ao Rio de Janeiro em nome de Helena Nogueira. A passagem jamais fora utilizada. O dado indicava que o plano original de Selena contemplava uma fuga imediata logo após o atendimento no Riviera. O objetivo poderia ser eliminar Eugênio e escapar no trem noturno antes do despertar das suspeitas. Caso esse fosse o desenho da trama, o plano ruiu. Alguém a deteve antes que pudesse alcançar os trilhos da ferrovia. Victor empenhou-se em checar os passos do último elemento vivo do grupo: Renato Aguiar. Constatou que o empresário viera a falecer em 1967, em decorrência de parada cardíaca. Seu registro de óbito, contudo, apontava que em seus anos derradeiros Renato vivia em isolamento obsessivo, contratando guarda-costas armados e trancando-se em sua propriedade rural. No espólio de Renato arrematado em leilão, Victor conseguiu resgatar uma caderneta pessoal encapada em couro. Suas anotações eram telegráficas e cifradas, porém uma delas, datada de 10 de fevereiro de 1961 — exatamente nove anos após os fatos do bar Riviera —, saltava aos olhos: “Data do pacto. Mais um ciclo carregando este peso. Eugênio agiu como estúpido. Paulo revelou-se covarde. A garota mostrou mais astúcia do que supúnhamos.
No desfecho, todos foram cobrados, à exceção de mim. Persigo-me imaginando se ela detinha consciência plena do que adicionava à bebida. Se soubesse que o veneno se destinaria a ela própria, teria procedido da mesma forma? Por vezes acordo com o eco daquela fala desesperada: ‘Eu desconhecia o que havia no copo’. Se mentira ou verdade, jamais saberemos.” Essa confissão hermética redesenhava o cenário. E se Selena de fato introduzira o composto na bebida, contudo sob o engano de que manipulava um simples sedativo para dopar Eugênio e facilitar sua fuga aos trilhos, quando se tratava de veneno mortal? Ou a frase da caderneta de Renato aludia a um copo distinto? Não o líquido ingerido por Eugênio, mas a bebida que ela própria consumira instantes depois, retirando-lhe os sentidos para que fosse arrebatada até o rio Pardo. A caderneta registrava ainda pagamentos sucessivos a recipientes designados por iniciais. Um deles, registrado sob a sigla SN, recebia quantias expressivas com periodicidade trimestral. Os lançamentos tinham início em março de 1952, um mês após o crime, e estendiam-se ininterruptamente até 1966. Victor deduziu que a sigla correspondia a Sebastião Nogueira. Comprovada essa relação, significaria que o genitor de Selena não apenas aceitara o silêncio em troca de bens materiais, mas recebia proventos regulares de um dos mentores da execução de sua própria filha.
Frente a esse acervo inédito, Victor buscou a assistência do delegado Roberto Meirelles, sobrinho do legista Paulo Meirelles, responsável pelos laudos de Selena em 1952. Roberto desfrutava de respeito público como profissional idôneo, imune aos arranjos que historicamente moldavam os bastidores da cidade. O acadêmico detalhou as peças coletadas: o registro fotográfico com o Cadillac, os laudos de internação de Sebastião, a retificação do testemunho de Antônio Ferreira, o bilhete ferroviário sem uso e os trechos da caderneta de Renato Aguiar. Roberto acompanhou a exposição anotando cada detalhe em silêncio. “Reunimos base bastante para provocar a reabertura do inquérito?”, questionou Victor. Roberto soltou o ar demoradamente. “Pelo rito formal, dificilmente. Todos os agentes principais já se encontram mortos. O acervo compõe-se de fortes indícios indiretos e, com franqueza, ainda operam na cidade interesses empenhados em manter esses episódios sob a terra.” “Significa que tudo continuará soterrado? A realidade sobre Selena nunca será revelada?” “Não declarei isso”, retrucou o delegado, compenetrado. “Não disponho de meios para reabrir oficialmente o procedimento policial, porém posso dar curso a averiguações paralelas e discretas.
E você, na condição de jornalista, tem a chance de concretizar o que Clara Mendonça tentou: trazer a narrativa à tona.” “E ter o mesmo paradeiro que ela?”, indagou Victor, visivelmente apreensivo. “O cenário político e as forças mudaram. As dinastias que concentravam poder total em 1952 já não ditam as mesmas ordens. Além disso, contamos com o que Clara não dispunha: retaguarda institucional. Assumirei seu respaldo dentro da corporação. Tenho conexões seguras na capital que nos darão blindagem.” Ao longo dos meses seguintes, Victor e o policial trabalharam sem descanso, alinhando informações e recompondo conexões que jaziam dispersas por mais de uma década e meia. Apuraram que Paulo Brenner, antes do desfecho que o vitimou, confiara um envelope sigiloso a seu patrono legal, com instruções para abertura restrita à hipótese de morte por causas violentas. O advogado, temendo represálias diretas à sua vida, jamais entregou os documentos à Justiça, conservando-os em sigilo até o fim de seus dias. Anos mais tarde, Victor conseguiu localizar a descendente do falecido operador do Direito, residente em Curitiba, que ainda mantinha o maço de documentos guardado na herança do pai. O conteúdo trazia uma confissão manuscrita de Paulo, onde ele relatava o pavor por haver tomado parte nos arranjos obscuros de Eugênio e, essencialmente, na trama arquitetada para calar a atendente do Riviera.
Apontava de modo categórico o nome de Renato Aguiar como o cérebro da operação, asseverando que este ludibriara tanto o sócio quanto a jovem, operando para eliminar um sócio indigesto e uma testemunha inconveniente em um mesmo lance. O texto não descrevia todos os detalhes da mecânica executiva, contudo deixava claro que Selena fora persuadida a introduzir uma substância na dose de Eugênio sob a convicção de que ministrava um sedativo leve, suficiente para dopá-lo e assegurar seu embarque ferroviário. Em verdade, tratava-se de composto fulminante, e a própria Selena fora manipulada como instrumento cego para a execução de um homicídio planejado. Ao ver Eugênio debater-se em colapso violento, a moça entrou em pânico e fugiu. Acabou interceptada na saída, provavelmente pelo próprio Renato ou comparsas contratados, sendo arrastada no interior do Cadillac até o rio Pardo, onde foi executada por afogamento para eliminação de pistas. Paulo, apavorado com o desfecho e demonstrando relutância em manter o pacto, converteu-se no alvo seguinte, tendo sua morte maquiada como autoextermínio induzido. Os familiares de Selena, acuados pelo medo ou cooptados pela vantagem patrimonial, compraram o silêncio mediante o recebimento da moradia nova e de pensões contínuas. A autoridade policial da época, amarrada por laços de conveniência à linhagem dos Matarazzo, encarregou-se de dar ao inquérito o rumo mais cômodo para todos. Victor produziu uma detalhada série de reportagens esmiuçando cada aspecto da trama, veiculada a princípio na imprensa universitária e replicada logo adiante por veículos de grande porte. Ao contrário da repórter Clara, o estudante não foi vítima de sumiço repentino.
Nada obstante, enfrentou intimações, interpelações judiciais — afinal indeferidas — e tentativas calculadas de desqualificação moral. O procedimento policial sobre a tragédia de Selena jamais teve sua reabertura homologada. Os dados coletados, conquanto robustos, apoiavam-se em sua maioria em provas indiciárias, e o tempo corrido destruíra grande parte dos rastros exigidos para um pronunciamento formal de culpa. Todavia, a história recobrou força na memória popular, convertendo-se em lenda urbana e patrimônio da crônica de Ribeirão Preto. O imóvel onde operava o Riviera acabou demolido anos depois, cedendo espaço a uma moderna galeria de escritórios. Trabalhadores que permanecem no prédio relatam, contudo, a audição de ruídos inexplicáveis na calada das noites: o choque de copos, passos apressados no piso e, não raro, um sussurro suave de mulher dizendo: “Eu desconhecia o que havia no copo”. No ano de 2001, quase meio século decorrido desde a tragédia, uma placa alusiva foi instalada na margem do rio Pardo, nas imediações do local em que os restos mortais de Selena emergiram.
O memorial, erguido por um coletivo de defesa dos direitos femininos, ostenta uma inscrição austera em homenagem a Helena Maria Nogueira, cujas verdades foram sepultadas sob aquelas águas. A cada dia 14 de fevereiro, homenagens com flores frescas surgem sem autoria junto àquela placa. Ninguém identifica quem as deposita ali. Sugere-se que sejam remanescentes distantes da família Nogueira, admiradores da persistência de Clara Mendonça ou leitores dos artigos de Victor Almeida. Há quem chegue a sugerir que partem do filho que Selena jamais teve a chance de carregar nos braços, em uma construção imaginativa típica do folclore local. O registro irrefutável nos anais do município é que três vidas foram ceifadas naqueles dias de fevereiro de 1952, e uma quarta pessoa desvaneceu anos adiante por buscar a verdade do caso. As nuances exatas do desenrolar daquela madrugada, as motivações íntimas dos agentes envolvidos, a rede de pactos de conveniência e as traições recíprocas permanecem em parte na penumbra, como peças de um mosaico deliberadamente fragmentadas. O caso de Selena em Ribeirão Preto perdura como um retrato sombrio de um tempo em que conveniências de casta e fortuna sobrepunham-se à aplicação da justiça. Um período no qual segredos eram sepultados no mesmo jazigo de suas vítimas, e onde o silêncio era transacionado por cifras consideradas razoáveis pelos cúmplices. Assim, o drama da atendente do Riviera, que asseverava ignorar o conteúdo da taça servida, ultrapassou a dimensão de uma pendência criminal não resolvida.
Ergueu-se como uma alegoria sobre a fragilidade dos fatos, a vulnerabilidade das cortes e a força sufocante de episódios que não deveriam vir à tona, mas que, à semelhança de corpos submersos na calha de um rio, acabam emergindo, mesmo com o passar de décadas. A verdadeira chaga repousa no pacto de conivência de toda uma estrutura social, na frieza com que existências foram descartadas para resguardar posições de prestígio. E na perturbadora constatação de que, ao entregar aquela bebida fatally adulterada, Selena de fato ignorava a natureza do que continha o copo, convertida em ferramenta da própria eliminação pelas mesmas mãos que deveriam assegurar sua proteção. Uma constatação implacável de que a degradação humana mais profunda quase nunca se anuncia por berros ou sangue aparente, mas por cochichos de corredor, acertos de bastidor e portas que se cerram sem ruído sobre pessoas que, à semelhança de Selena, têm seu grito eternamente silenciado. Nas linhas derradeiras da matéria assinada por Victor Almeida, o horror mais autêntico na narrativa de Selena não repousa na crueldade física nem nas incertezas de sua morte, mas na reverberação do que teria sido seu derradeiro desabafo: Eu desconhecia o que havia no copo. Juro por tudo que desconhecia. Eu desconhecia o que havia no copo. Juro por tudo que desconhecia.