O BARÃO ORDENOU O CASTIGO FINAL… MAS O SERVIÇAL MAIS FRÁGIL SE ANTECIPOU A TUDO!
O resto
Guardou tudo dentro da cabeça, a parte dele que ninguém media. Quase foi pego uma vez. Estava colado na parede dos fundos do coberto, imóvel, ouvindo o Gemildo combinar a ronda, quando um capanga sentiu o movimento e virou. O Miqueias teve um instante: pegou o balde vazio a seus pés, levantou como quem ia buscar água e passou arrastando o passo, cabeça baixa. “Água pro cavalo, senhor”.
O capanga xingou, mandou-o sumir e voltou para a conversa. Ninguém desconfia de um magrelo com um balde. Agora você já entende por que ele não deixou cair a bota lá na varanda. Ele terminou de lustrar, devolveu as botas no lugar, encostadas na parede, lado a lado, fez a mesura de sempre, saiu andando devagar, no passo de quem não tem pressa de nada. O coração batendo tão alto que ele jurava que dava para ouvir de longe.
O Gemildo guardou a ordem e montou. Esse Gemildo: grande, pescoço de touro, mão que rachava coco no aperto. Capitão do mato que naquele tempo era o pior tipo de gente que tinha. Muitas vezes ele mesmo negro ou mestiço, ganhando a vida caçando outros negros, virando a arma do branco contra a própria carne. Caçava fugido havia 15 anos.
Uma vez trouxe um rapaz de volta, amarrado pelo pescoço na sela. Arrastado légua e meia, largou o corpo na porteira “que nem saco de milho” e fez a senzala inteira olhar. Era o método dele: trazer de um jeito que ensinasse os outros a nem sonhar. Passou o olho pela fila calada, cuspiu no chão, disse: “Não corram, que vocês voltam do mesmo jeito ou pior”, e foi embora assobiando.
Quando o barão falou “o magro e a gorda”, o Gemildo quase riu. Um magrelo que mal levantava saco de café e uma mulher pesada que não corria 30 passos. Serviço de uma noite, ele pensou. O barão pagava bem e o Gemildo não perguntava motivo, nunca perguntava. Se o senhor dizia que dois escravizados precisavam sumir para a terra voltar a dar, para ele tanto fazia a razão.
Dinheiro na mão, cavalo na porteira e o resto era mato. Ele dobrou a ordem de execução, guardou no bolso do colete e foi afiar a faca no coberto, assobiando a mesma cantiga de sempre. Naquela mesma noite, na senzala, o Miqueias chegou perto da Linda com o plano na boca. Ela estava sentada no chão, remendando um pano na réstia de luar que entrava pela fresta.
Mãos grossas, olhos que já tinham chorado tudo o que tinham para chorar e agora só olhavam. “Linda, preciso te contar uma coisa e tu não pode gritar, nem chorar, nem mudar a cara. Promete”. Ela olhou para ele, prometeu no silêncio. “O senhor mandou o Gemildo para nós dois antes da lua cheia”. A mão dela, com a agulha, parou no ar, tremeu uma vez, firmou.
“Por quê? O que nós fizemos, Miqueias?” “Nada.” Ele engoliu. “A gente não fez nada. A gente só ‘é’. Ele acha que a gente é mau agouro, que a gente secou a terra dele, que, nos matando, a lavoura volta.” Ela ficou quieta um tempo e riu, baixo, curto, sem graça nenhuma. “Mau agouro…”, balançou a cabeça. “A vida toda me chamando de aberração por eu ser do tamanho que Deus fez.
E agora quer me matar por isso.” Não tinha lágrima no olho dela, tinha decisão. “Se eu vou morrer de um jeito ou de outro, magrelo, eu prefiro morrer correndo. Qual é o plano?” Ele sorriu. Primeira vez em três semanas. “Então tá.” A Linda pegou o pano de novo, voltou a remendar, como se nada tivesse mudado. “Me acorda quando for a hora.”
E magrelo parou a agulha. “Se der errado, tu corre. Não fica me esperando. Tu corre”. O Miqueias não respondeu. Já sabia que não ia obedecer essa parte. A Linda carregava esse peso havia mais tempo que ele. Desde menina ouvia que “comia por três e rendia por meio”. Puseram nela o nome de “Linda” num leilão, um branco rindo alto para a plateia.
E a piada colou e virou nome. Ela aprendeu cedo a não chorar na frente de ninguém. Foi por isso, quem sabe, que quando o magro se agachou ao lado dela naquela noite, ela não teve medo. Reconheceu ali alguém que sabia o tamanho exato da ferida dela. Naquela mesma noite, os dois combinaram os detalhes, cochichando no chão. A Linda não só ouviu; corrigiu.
“Pela senzala dos fundos? Não, magrelo. Tem o cachorro do capataz amarrado lá. Late para tudo. Sai pela lateral da tulha, que o cachorro não alcança”. O Miqueias não tinha pensado no cachorro; ela tinha. Guardaram um pouco de rapadura e farinha num pano, escondido embaixo de uma telha solta.
A Linda ainda arrumou dois pedaços de couro velho para amarrar nos pés, para a pedra não cortar na fuga. Dois na conversa era melhor que um. Ele percebeu ali que tinha subestimado a Linda do mesmo jeito que o engenho inteiro a subestimava. O plano era para três noites depois, lua nova: a noite em que o Gemildo bebia até cair e a ronda afrouxava.
Sair pela senzala dos fundos, cortar o canavial, chegar no vau raso, atravessar, sumir para o norte seguindo a estrela. Três dias de mata e o Gemildo perdia o rastro. Era um plano bom. Na véspera, o Miqueias quase entregou tudo: foi buscar o pano com a comida embaixo da telha e deu de cara com o capataz, que rondava sem dormir.
O homem perguntou o que ele fazia ali fora àquela hora. O Miqueias mostrou o balde de sempre: “Água, senhor”. E o capataz, meio bêbado, mandou-o encher o cocho e sumir. Deu certo por pouco. O magrelo com o balde salvava-o de novo. Mas os dois entenderam naquela noite que a margem era fina. Qualquer coisa fora do lugar e acabava antes de começar.
Mas o barão teve um pesadelo. Na segunda noite sonhou com a coruja. Sonhou que ela pousava na cabeceira da cama dele e piava três vezes. Acordou encharcado de suor, correu à janela, não viu nada, só a noite e o cafezal doente lá embaixo. Para ele chegou. A “maldição” estava impaciente.
Não dava para esperar a lua cheia, tinha que ser já. Chamou o Gemildo antes de o galo cantar. Antecipou a ordem. O Miqueias dormia de olho aberto fazia semanas. Ouviu no escuro o som que tinha aprendido a temer mais que chicote: os arreios tinindo, o cavalo sendo aprontado no meio da madrugada. Fora de hora… cavalo aprontado àquela hora, naquele engenho, só tinha um significado.

Não deu tempo de pensar. Ele rastejou até o canto onde a Linda dormia. Tapou a boca dela com a mão antes que ela gritasse de susto e falou três palavras no ouvido dela: “É agora. Corre”. Não deu para pegar nada: nem a comida escondida, nem a água, nem o pano com as coisinhas juntadas.
Saíram com a roupa do corpo. Cortaram pela senzala dos fundos, entraram no canavial. A folha da cana cortava o rosto, o braço, as mãos dos dois. E eles corriam cegos no escuro, a própria respiração soando alto demais dentro da cabeça. A Linda tropeçou numa raiz e caiu de joelhos na terra. O Miqueias voltou, puxou ela pelo braço e os dois seguiram sem falar.
A cana não acabava. Parecia que corriam há horas e o canavial não os largava. Num ponto, o Miqueias errou a direção, percebeu pela posição da estrela e teve que virar, perdendo tempo que eles não tinham. O couro amarrado no pé, ideia da Linda, foi o que impediu os dois de rasgar a sola nas raízes cortadas rente ao chão.
Atrás, longe ainda, um relincho. O Gemildo tinha achado a palha morna da senzala vazia mais cedo do que devia. E aconteceu uma coisa que o barão nunca teria previsto. O que salvou os dois nos primeiros minutos foi justo aquilo que o engenho desprezava neles. O Miqueias, magro, passava pelos vãos apertados da cana, quase sem farfalhar.
E a Linda… todo mundo se enganava com a Linda. Ela corria pesado, mas corria firme. Não parava, não caía. Um corpo grande com músculo de verdade embaixo. Chegaram no rio e o rio tinha subido. A chuva da semana tinha engrossado a água. O vau raso que o Miqueias decorou não estava mais raso. A correnteza puxava preta, roncando no escuro.
Atravessar ali era arriscar se afogar. Procurar outro ponto era dar tempo ao Gemildo. “A gente atravessa aqui.” A voz dele saiu firme, o medo trancado atrás. “Dá a mão e escuta. Se a água te levar, tu não solta. Aconteça o que acontecer, não solta a minha mão.” Entraram. Água fria, mordendo a perna, subindo até a cintura. Água fria mordendo a perna, subindo até a cintura, empurrando de lado. O fundo era pedra solta, escorregadia, e cada passo era uma aposta. A Linda escorregou uma vez, se equilibrou na mão dele, seguiu. A água cheirava a barro e a mato podre. Lá longe, atrás, dava para ouvir de novo o cavalo. Mais perto, agora. No meio, no ponto mais fundo, a correnteza agarrou a Linda de vez.
Os pés dela saíram do leito, o corpo virou peso na mão do Miqueias, e ele fincou os pés nas pedras e segurou. Segurou com um braço que não tinha força para segurar aquilo. Rangeu os dentes, sentiu o ombro estalar, puxou. A Linda achou o chão com a ponta do pé, depois com a sola inteira, e os dois cambalearam para fora, na outra margem, encharcados.
Tremendo. Vivos. Por um segundo acharam que tinha acabado. Foi um segundo. Do outro lado do rio, na margem que eles deixaram, um cavalo despontou do canavial. Em cima, imenso contra o breu, o Gemildo. O faro dele não errava. Tinha seguido o rastro até a beira d’água. “Para onde é que vocês vão?”, a voz dele atravessou a água quase mansa.
“Rio fundo na frente, eu atrás. Fica quieto que dói menos”. E esporeou o cavalo para dentro do rio. O Miqueias não correu. Cavalo alcança homem a pé em qualquer chão. Não brigou de corpo também contra aquele “touro”. Era o mesmo que se entregar. Ele olhou o cavalo. Só o cavalo. O bicho estava no meio da correnteza agora e sofria.
As patas escorregavam nas pedras redondas. Ele bufava, jogava a cabeça, lutava para não perder o pé na água funda; grande, forte. E naquele instante, em cima de um chão que não dava firmeza para ninguém, o Miqueias abaixou na margem e pegou o que sempre teve de sobra na vida de quem é pobre: pedra. Pedra de rio, lisa, do tamanho de um punho.
Ele cresceu matando passarinho e preá com pedra. Quem não tem força no braço aprende a acertar de longe. Mirou no cavalo. Na cabeça. Na altura do olho. No exato momento em que o bicho tentava fincar as patas dianteiras numa pedra molhada, ele esperou. Essa foi a parte mais difícil: esperar, com o Gemildo chegando na água.
Esperar o instante certo. Contou no corpo, não na cabeça. Um. Dois. O cavalo ergueu a pata da frente, procurando apoio na pedra. Agora. O braço girou. A pedra cortou o escuro e foi o que você viu lá no começo: o cavalo empinando, cego de dor, as quatro patas perdendo o fundo. Meia tonelada tombando de lado dentro da água, com o Gemildo embaixo. O peso do animal prensando a perna do homem contra as pedras do leito, afundando os dois na correnteza rasa da margem.
O “touro” que caçava gente havia 15 anos ficou preso debaixo do próprio cavalo. Perna quebrada, dobrada, errada; a água batendo no rosto. Gritando, agarrando o pelo do bicho, sem sair debaixo daquele peso. O Miqueias já tinha pegado a mão da Linda. “Corre agora. Corre e não olha para trás.” E correram.
Mata adentro, rumo ao norte, a estrela piscando entre os galhos. O grito do Gemildo ficando para trás, mais fino, mais longe, até o mato engolir. A Linda corria, apertando a mão do Miqueias tão forte que doía. Não olhou para trás nenhuma vez. Ele olhou uma vez só. Viu o vulto do cavalo caído na água, o Gemildo se debatendo.
Nem parou para pensar. A perna é que mandava, e a cabeça já estava lá na frente, na mata. De manhã, no engenho, foi tormenta. Uns capangas foram atrás do relincho e acharam o Gemildo ainda preso na beira do rio, debaixo do cavalo morto, roxo de frio, a perna estraçalhada. Tiveram que cavar embaixo do bicho para tirar o homem.
O capitão do mato, que nunca perdeu uma caçada, foi levado numa maca, gemendo. Nunca mais montou direito. O barão recebeu a notícia na varanda, na mesma varanda, e não entendeu. O magro, a gorda. Aqueles dois corpos “imprestáveis” atravessando um rio cheio e derrubando o Gemildo?
Ele olhou para o céu procurando a coruja, procurando um sinal que explicasse. Não achou nenhum. Na senzala, a notícia correu baixo, de boca em boca nos dias seguintes. O magro e a gorda tinham escapado, tinham derrubado o Gemildo. Ninguém dizia em voz alta, mas, de noite, no escuro, alguns sorriam. A tia Rosa foi uma das que sorriu. Ela nunca contou para ninguém o que tinha avisado ao menino.
Levou o segredo e o sorriso para dentro do próprio silêncio. A fuga não foi limpa. Foram 13 dias de mata, fome, pé rasgado em espinho, sede, medo a cada galho que estalava. O Gemildo, com a perna quebrada, não pôde seguir, mas o Miqueias e a Linda não sabiam disso. Para eles, a morte vinha atrás, em cada árvore.
Andaram de noite, dormiram de dia, escondidos em buraco de barranco, um vigiando o sono do outro. Comeram raiz, palmito, fruta do mato que às vezes fazia mal. Teve um dia que a Linda passou mal de uma fruta e não conseguiu andar. E eles perderam a noite inteira parados num barranco; ela dobrada de dor, ele segurando a testa dela.
No outro dia, acharam um fio de água escorrendo numa pedra e beberam como bicho, de boca na rocha. O Miqueias contava os dias riscando um pauzinho na casca de uma árvore a cada manhã. No sétimo risco, parou de contar. Achou que não fazia diferença. Vivo era vivo, morto era morto. O número não mudava nada. Numa dessas noites quase acabou. Ouviram voz de homem e pisar de cavalo na trilha embaixo do barranco.
Capangas de fazenda vizinha avisados de que tinha “fugido” na região. O Miqueias puxou a Linda para dentro de um oco de árvore caída. Os dois ficaram colados, sem respirar, as tochas passando a poucos metros. Um dos homens parou bem em frente, cuspiu, coçou a cabeça, olhou o mato escuro sem ver nada e seguiu. Os dois ficaram mais uma hora sem se mexer.
Quando enfim saíram do oco da árvore, a Linda tremia tanto que não andava reto, e o Miqueias segurou ela até as pernas voltarem. Nenhum dos dois falou do que quase aconteceu. Dali para a frente, só dormiram em lugar aonde cavalo não chega. E teve outra noite, sentados no escuro, dividindo uma fruta azeda — que era tudo o que tinham —, em que a Linda falou baixinho, olhando as estrelas por entre os galhos.
“Sabe o que é engraçado, magrelo? A vida toda quiseram que eu fosse menor. E foi tu, o menorzinho de todos, que me fez sentir grande”. O Miqueias riu, cansado. Não soube responder; passou o braço fino em volta do ombro largo dela e ficaram assim. Mais de uma vez, ela sentou no chão e disse que não ia mais, que as pernas tinham acabado, que era para ele seguir sozinho.
E mais de uma vez ele a levantou. Não puxando pelo braço, que não tinha força. Falando, fazendo-a acreditar que faltava pouco. “Só mais um dia, só mais aquela serra”. Numa madrugada fria, sem fogo para não entregar a fumaça, os dois se encostaram um no outro para não morrer de frio. A Linda perguntou baixinho se ele achava que “aquele lugar dos tropeiros existia mesmo ou se era conversa fiada”.
O Miqueias demorou para responder. “Não sei”, ele disse. “Mas, se não existir, a gente inventa um”. Ela riu no escuro. Foi a única vez que riram naqueles 13 dias. E, numa manhã, no fim dos 13 dias, subindo a encosta, sentiram cheiro de fumaça. Não de engenho. De fogão, de comida, de gente vivendo lá em cima. Escondido, onde cavalo não sobe, acharam gente negra livre, de enxada e machado na mão, que não era para senhor nenhum.
Casa de barro, roça, galinha no terreiro, criança correndo solta que nunca tinha visto a cara de um feitor. Uma anciã do lugar, cega de um olho, veio devagar até os dois. Passou a mão no rosto encovado do Miqueias, passou a mão no ombro largo da Linda. “Aqui não tem gente de mais, nem de menos. Todo corpo serve. Entrem.”
A Linda perguntou, com a voz rouca de dias sem falar direito, se era verdade que ali não tinha senhor. A anciã riu — um riso sem dente, bom de ouvir. “Aqui o único senhor é a serra, minha filha, e a serra não manda ninguém trabalhar de graça.” Levou os dois para dentro, mancando no cajado, apresentando pelo nome cada um que passava.
Foi a primeira vez que alguém apresentou o Miqueias e a Linda a outra gente, como gente. Naquela primeira noite, deram aos dois um prato de comida quente. Feijão com farinha, coisa simples. O Miqueias comeu devagar, porque era a primeira comida de “gente livre” da vida dele. A Linda comeu chorando, sem se esconder, porque ali ninguém batia em quem chorava.
Deitado num canto seco, sob um teto que não era de senhor nenhum, o Miqueias ficou de olho aberto no escuro. Não de medo; dessa vez, de espanto. Esticou o braço e tocou o chão de terra batida da casa. E dormiu o sono inteiro sem acordar a cada som de cavalo. Os primeiros dias, ele ainda acordava assustado com qualquer barulho, a mão já procurando uma pedra no chão.
Levou tempo para o corpo acreditar. A gente do quilombo não perguntou muito de onde eles vinham. Todo mundo ali vinha de algum lugar parecido e as histórias eram todas a mesma história, com nomes diferentes. Deram ao Miqueias a tarefa de cuidar das armadilhas de caça, que pedia paciência e mira, não força. Era o serviço certo para ele.
E foi a primeira vez na vida que alguém acertou o serviço para o corpo dele. A Linda foi para a roça e para o pilão, e, em uma semana, já mandava mais do que muita gente que estava lá havia anos. Ficaram, levantaram uma casa, plantaram uma roça e a roça deu. A mesma terra que o barão jurava amaldiçoada deu milho, feijão e mandioca fartos na mão dos dois “agouros” que ele quis arrancar do mundo.
O Miqueias, que no engenho não erguia um saco de café, carpia a própria roça do sol nascer ao sol se pôr. A Linda virou a melhor de todas na lida e na partilha; a que sabia esticar o pouco e engordar a mesa de todo o mundo nos meses magros. As crianças do quilombo gostavam do Miqueias.
Ele fazia bodoque para elas e ensinava a acertar fruta no alto do pé, e ria quando erravam. Um dia, uma menininha perguntou por que ele era tão magrinho, sem maldade, do jeito que criança pergunta. Ele disse que era “para correr mais rápido”. A menina acreditou. E o que começou como companheirismo de fuga virou outra coisa. Devagar, duas pessoas que atravessaram um rio de mãos dadas com a morte na cola não desencaixam mais fácil.
Eles se juntaram. Marido e mulher, livres. Não teve festa grande. Teve a comunidade em volta de uma fogueira, a anciã dizendo umas palavras e a Linda de vestido novo, costurado pelas mulheres do quilombo. O primeiro vestido feito para o corpo dela, no tamanho dela, sem sobra nem aperto. Ela passou a mão no tecido a noite inteira, como quem não acredita.
Quase dois anos depois da fuga, numa manhã de sol no alto da serra, a Linda deu à luz. Uma menina: gorda, forte, rechonchuda, de pulmão. Que gritou o primeiro choro de uma vida que nasceu sem senhor, sem corrente, sem preço no pescoço. O Miqueias segurou a filha nos braços finos e chorou. Deram um nome a ela. Chamaram de Fatinha.
A anciã do olho cego, que ainda vivia, pegou a menina no colo enrugado, encostou o rosto no rostinho dela. “Essa aqui não é agouro de ninguém. Essa aqui é promessa.” O Miqueias pegou a filha de volta, desajeitado, com medo de quebrar. A Linda olhou para os dois e disse que a menina tinha “o queixo do pai e o resto todo dela”.
“E ainda bem, porque o pai era magro demais”. Ele riu. A Fatinha dormia alheia a tudo, sem saber de nada, sem precisar saber. O barão passou a vida achando que matar o mau agouro ia trazer fartura para a terra dele. Os dois, que ele chamou de agouro, deram fartura, sim. Mas foi longe dali, no alto da serra, e não para ele.
A lavoura do Bartolomeu continuou fraca até ele morrer endividado, ainda de olho no céu procurando a coruja para botar a culpa. Dizem que os últimos anos dele foram de homem assombrado. Trocou de padre, benzeu a casa três vezes, mandou até derrubar o galpão onde o magro e a gorda dormiam, achando que ali morava a maldição. A terra não voltou.
Morreu devendo, vendendo légua de chão para pagar a dívida, xingando até o último dia os dois escravizados que ele deixou fugir. E é sobre isso que eu queria te perguntar antes de a gente se despedir. Pensa com o peito: Alguém já te olhou e enxergou só o teu defeito? Já te mediram pelo que “falta” em você? Magro demais, gordo demais, fraco demais, pobre demais… sem nunca ver o que você carregava justo embaixo daquilo?
Você já foi, na cabeça de alguém, o corpo que não serve, e provou o contrário com a própria vida? E conta aqui embaixo. Conta qual foi a tua fraqueza que virou, lá na frente, a tua maior força. Eles quiseram matar o magro e a gorda. O magro e a gorda viraram o pai e a mãe de uma menina que nasceu livre.
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