Filha DESAPARECEU em 1998 — 26 Anos Depois, a Neta Viu a Avó Descer ao PORÃO com COMIDA…
O resto
“Já volto.” “Fui ao mercado”, sempre com o beija-flor. Aos domingos, Erlinda fazia caldo de galinha e o servia para Itzel sempre no mesmo prato. Um prato fundo de ágata azul com a borda branca, lascado de um lado. Era o prato da Itzel. Ninguém mais comia nele. No fim de 1997, apareceu na oficina um comprador da capital: Alberto Rentería, que todo mundo chamava de Beto.
Tinha 31 anos, comprava prata para uma joalheria do centro e era casado. Viu os desenhos de Itzel e comprou três. Disse que ela tinha talento, que na capital havia um curso para designers de joias e que ele podia recomendá-la. Erlinda o viu uma vez na porta com a mão no ombro da filha e não gostou do que viu.
No Domingo de Ramos, 5 de abril de 1998, enquanto Itzel tomava banho, Erlinda revistou a bolsa dela. Encontrou duas coisas: uma passagem de ônibus de Taxco para a Cidade do México, para o sábado, 11 de abril, às 6:10 da manhã, e o cartão de Beto. Naquela tarde, na cozinha da casa do Callejón del Minero, mãe e filha gritaram uma com a outra como nunca.
Os vizinhos ouviram o que aconteceu naquela casa entre o domingo e a quinta-feira. Erlinda não contou a ninguém durante 26 anos. A quinta-feira, 9 de abril de 1998, era a Quinta-Feira Santa, a noite mais longa do ano em Taxco. Desde cedo, as ruas se encheram de turistas, de vendedores de velas e de penitentes. Segundo o que Erlinda declarou depois, naquele dia não aconteceu nada de estranho na casa dela.
Às 21:30, ela saiu vestida de ânima, de preto da cabeça aos pés, com as correntes nos tornozelos e uma cruz de madeira nas mãos, para caminhar na procissão. Declarou que Itzel saiu pouco depois para ver passarem os “Cristos”, como todo ano. A procissão começou às 22 horas e durou até o amanhecer. Os “encruzados” (penitentes que carregam enormes feixes de galhos espinhosos de sarça amarrados nas costas nuas), flagelantes com o rosto coberto, ânimas arrastando correntes sobre o calçamento de pedra.
Milhares de pessoas, tambores, rezas e ferro. Numa noite assim, ninguém repara em ninguém. Às 3:10 da madrugada, Erlinda voltou para a casa do Callejón del Minero. Itzel não estava. Naquela semana, a quem tinha perguntado por Itzel, Erlinda tinha dito que ela estava de cama com dor de garganta. Procurou a filha a sexta-feira inteira, de beco em beco, ainda com os pés sangrando por causa das correntes.
Perguntou no mercado, na rodoviária, para as amigas. Ninguém tinha visto Itzel. No sábado, 11 de abril, às 9 horas da manhã, Erlinda se apresentou na Agencia del Ministerio Público de Taxco, a promotoria local, ligada à então Procuraduría General de Justicia del Estado de Guerrero, a Procuradoria-Geral do Estado, e denunciou o desaparecimento da filha.
Assinou uma declaração. Itzel tinha saído para ver a procissão e não tinha voltado. E entregou o que tinha encontrado na bolsa da filha: a passagem para a capital e o cartão de Beto. Para o agente do Ministério Público, aquilo explicava tudo. Uma moça de 19 anos, com passagem de ônibus, com um homem na capital.
A passagem era para um assento só. Ligaram para Beto. Ele disse que mal a conhecia, que a moça vendia desenhos para ele, que não sabia de nada. A averiguação prévia, o inquérito do sistema antigo, ficou registrada como “ausência voluntária”, uma expressão que no México já enterrou milhares de buscas. Erlinda não aceitou essa expressão.
O único consolo dela era o padre Anselmo da Paróquia de Santa Prisca, que a confessava todo sábado desde que ela ficara viúva. Ela repetia a quem quisesse ouvir uma coisa só: “Minha filha não foi embora. Ela não foi sem me deixar o beija-flor dela.” Itzel jamais tinha saído de casa sem o seu bilhetinho, nem uma vez em 19 anos. Quem mais ajudou foi Polo.
Àquela altura, ele já tinha 28 anos e o próprio negócio de prata na Plaza Borda. Ele mesmo desenhou os cartazes no computador da oficina e pagou a impressão de 2.000 cópias. Em cima, a foto de Itzel. Embaixo, os três detalhes: A coroa de prata no canino esquerdo. O anel de beija-flor com olho de turquesa. E o beija-flor no lugar do pingo do “i”.
Colou cartazes em cada poste de Taxco, em Iguala, em Cuernavaca. E, cada vez que aparecia o corpo de uma moça em algum lugar do estado, era Polo quem levava Erlinda no Fusca dele ao Serviço Médico Forense de Iguala, o IML de lá. Uma semana depois do desaparecimento, Erlinda fez uma coisa que ninguém entendeu.
Mandou fechar com tijolos, por dentro, a porta de baixo do porão, a porta de madeira verde que dava para o beco de baixo. E na porta de cima, a que descia da casa, pôs um cadeado novo. A chave ela pendurou no pescoço com um cordão vermelho. Nunca mais desceu aqueles 14 degraus. Quando alguém perguntava, dizia que ali entrava água e que estava cheio de escorpiões.
Em maio de 1999, Erlinda conseguiu que um jornal de Chilpancingo publicasse o caso. Na entrevista, disse que ia pedir à Protección Civil, a Defesa Civil, que vistoriasse as galerias velhas do bairro, uma por uma. “Até a da minha própria casa”, disse, “onde tiver um buraco, é lá que eu vou procurar a minha filha.” Três semanas depois, chegou ao Callejón del Minero um cartão-postal, uma foto do arco de Tijuana, carimbo do correio de 12 de junho de 1999.
Do outro lado, cinco palavras: “Estoy bien, no me busquen”, que quer dizer: “Estou bem, não me procurem”, e a assinatura: “Itzel”, com o beija-flor no lugar do pingo. Erlinda sentou-se na calçada com o postal nas mãos. Alguma coisa não batia e ela não sabia o quê. Levou o postal ao Ministério Público. O agente olhou para ele por segundos e disse: “Senhora, com os anos a letra muda.
Sua filha está viva. Vá para casa.” Com aquele postal, o inquérito foi arquivado. A busca oficial por Itzel Figueroa Luna durou 14 meses. A busca de Erlinda durou 26 anos. Toda Quinta-Feira Santa, ela saía de ânima com a foto de Itzel presa com alfinetes sobre a roupa preta. E, alguns passos à frente, todo ano caminhava um “encruzado” com o feixe de sarças nas costas e o rosto coberto. Era Polo.
Saía de encruzado desde rapaz. Sempre dizia que fazia aquilo por uma promessa, mas nunca contou a ninguém qual era. Marisol casou-se e foi morar em Cuernavaca, onde, em 14 de fevereiro de 2000, nasceu a filha dela, Dulce. Na casa de Taxco, o prato de ágata azul ficou na prateleira da cozinha. Ninguém voltou a usá-lo. Em 2014, Erlinda juntou-se aos coletivos de mães buscadoras com uma faixa que dizia: “Itzel Figueroa Luna, desaparecida em Taxco em 9 de abril de 1998”. E, em 2022, começou a esquecer: primeiro as chaves, depois os nomes, depois em que ano estava vivendo. Em 15 de março de 2022, uma neurologista de Iguala diagnosticou Alzheimer.
Em agosto de 2024, Marisol, exausta de pagar cuidadoras, tomou uma decisão: vender a casa do Callejón Minero. Um hotel boutique vizinho queria a casa para juntá-la ao seu terraço. E a filha dela, Dulce, que tinha acabado de perder o emprego de fotógrafa de casamentos na Cidade do México e de terminar com o namorado, ofereceu-se para cuidar da avó enquanto a casa era vendida.
Chegou a Taxco na segunda-feira, 2 de setembro de 2024. Às vezes a avó a chamava de Itzel. Às vezes perguntava se ela já tinha jantado. E na cozinha começaram a sumir louças. Um prato, depois uma xícara, depois uma panela pequena. Dulce achou que a avó quebrava as peças e escondia os cacos por vergonha.
Até a madrugada de sexta-feira, 4 de outubro, às 2:47, quando Dulce ouviu a chave. Para quem daria comida uma mulher que não pisava naquele porão havia 26 anos? O que aconteceu naquela casa entre o domingo e a quinta-feira de 1998? E quem é o homem de quem era preciso se esconder? Se você quer saber, curta a história e fique, porque o que vem por aí ninguém esperava.
Naquela primeira noite, Dulce reconheceu o prato antes de entender o resto. Era o prato de ágata azul da prateleira, o que a mãe tinha proibido de tocar desde que ela era criança. “Esse é o prato da sua tia Itzel.” Do alto da escada, ela contou os degraus pelo som. No nono, a pedra rangeu. Dulce chegou perto da porta entreaberta e sentou-se no primeiro degrau com o coração na boca.
Lá de baixo, subia a voz da avó, baixa, carinhosa, como quem fala com uma criança doente: “Come, minha filha, come enquanto está quentinho. Não chora. Amanhã eu abro para você, filha. Amanhã passa.” Depois, um silêncio longo, e de novo: “Não faz barulho que ele está por aí.” Vinte minutos depois, a avó subiu de mãos vazias, passou ao lado de Dulce sem vê-la, fechou o cadeado, pendurou a chave no pescoço e foi se deitar.
Às 7 horas da manhã, quando Dulce levou o café, Erlinda perguntou como ela tinha dormido. Não se lembrava de nada. Às 8:15, Dulce ligou para a mãe. Contou tudo, palavra por palavra. Do outro lado da linha, Marisol soltou uma risada nervosa. “Ai, filha, sua avó leva café com leite para o Canelo, e o Canelo morreu em 2009.
Ela conversa com a televisão. Ontem me disse que o seu avô vinha almoçar. É a doença.” Dulce perguntou o que havia no porão. “Nada. Ferro-velho da oficina do seu avô. Está fechado com tijolo embaixo e cheio de escorpiões. Sua avó nunca deixou ninguém descer, nem eu.” E antes de desligar, para mudar de assunto, deu uma boa notícia.
“O Polo me ofereceu mais do que o hotel pela casa. Diz que é para ela não ficar com um estranho. Desde que o seu avô morreu, ele nunca deixou a gente sozinha.” Dulce não sossegou. Procurou na porta da geladeira o número da neurologista de Iguala e ligou. A médica escutou sem interromper. Depois, explicou uma coisa de que Dulce não ia esquecer.
“No Alzheimer avançado, as lembranças com mais carga emocional voltam como se fossem o presente. Sua avó não está inventando, está repetindo algo que viveu. A pergunta não é o que ela vê, moça. A pergunta é o que ela viveu.” Na noite de sexta, às 2:47, de novo a chave. De novo o caldo, agora numa xícara. O prato azul tinha ficado lá embaixo. De novo o nono degrau. De novo a mesma frase.
“Amanhã eu abro para você, filha.” Dulce percebeu que não era a primeira vez. As louças que sumiam da cozinha não estavam quebradas, estavam lá embaixo. Na madrugada de domingo, 6 de outubro, quando a avó subiu e dormiu, Dulce esperou meia hora e entrou descalça no quarto dela. Erlinda dormia de lado, de boca aberta e com o cordão vermelho enrolado entre os dedos. Dulce levou 4 minutos para tirá-lo sem acordá-la. Às 3:40 da manhã, abriu o cadeado e desceu com a lanterna do celular. O primeiro golpe foi o cheiro. Caldo azedo, comida estragada, umidade de morro. O nono degrau rangeu sob o pé dela.
Lá embaixo, a oficina do avô estava como se alguém tivesse saído para almoçar 26 anos atrás e nunca mais tivesse voltado. A bigorna no meio do cômodo coberta de poeira, ferramentas enferrujadas penduradas em pregos, a viga de algaroba tão baixa que ela teve de se abaixar. Junto à parede da esquerda, uma cama de lona com um cobertor cinza dobrado em cima, um balde de plástico e, na parede, preso com uma tachinha, um calendário de uma farmácia de Taxco: abril de 1998.
Dulce aproximou a lanterna. Alguém tinha riscado os dias a lápis: domingo, 5; segunda, 6; terça, 7; quarta, 8. E a quinta, 9, estava cercada por um círculo apertado, como se quem o desenhou tivesse passado o lápis por cima muitas vezes.
Pegou a câmera: era fotógrafa. Quando tinha medo, fotografava. Fotografou a cama de lona, o calendário, a bigorna. E, ao levantar a lanterna para a viga, ficou sem ar. Na madeira de algaroba, riscadas com alguma coisa pontuda, como um buril de ourives, havia umas letras tortas: “Perdóname amá, Itzel”, que quer dizer: “Me perdoa, mãe, Itzel.” E, sobre o “i” de Itzel, no lugar do pingo, um beija-flor pequenininho olhando para a esquerda.
Dulce sabia de cor o que dizia o cartaz que a avó guardava na carteira. Os três detalhes: a coroa de prata no canino esquerdo; o anel de beija-flor com olho de turquesa; e o beija-flor no lugar do pingo do “i”. O terceiro estava bem na frente dela, gravado numa viga no porão da casa da avó. Itzel tinha estado ali trancada em abril de 1998 e o calendário parava justamente no dia em que ela desapareceu.

Então ela baixou a lanterna para o chão e viu as louças. Eram todas as que tinham sumido da cozinha. Pratos, xícaras, a panela pequena, dois copos: mais de 40. Algumas com comida seca, preta, outras com mofo. A última, o prato fundo de ágata azul, com o caldo da primeira noite, frio e coalhado. Estavam enfileiradas, uma ao lado da outra, com uma ordem de ofrenda, o altar do Dia dos Mortos.
E então a garganta de Dulce se fechou. As louças não estavam junto à cama. A cama estava de lado, contra a parede da esquerda. As louças estavam no fundo, em fila, encostadas na parede de adobe que fechava a galeria. A avó não levava a comida para a cama; levava para a parede. Dulce subiu às 4:30, devolveu o cordão vermelho à avó sem acordá-la e não dormiu mais.
Na segunda-feira, 7 de outubro, logo cedo, estava sentada na Agencia del Ministerio Público de Taxco, agora ligada à Fiscalía General del Estado de Guerrero, a promotoria do Estado, com o celular cheio de fotos. Quem a atendeu foi o licenciado Ismael Barrera. Mandou trazer do arquivo a averiguação prévia de 1998, com o postal grampeado na última folha.
Dulce mostrou o calendário, a viga, as louças. Recitou os três detalhes do cartaz: a coroa de prata no canino esquerdo, o anel de beija-flor com olho de turquesa e o beija-flor no lugar do pingo do “i”. Disse que a tia tinha ficado trancada ali. Barrera olhou as fotos com calma. “Moça, aqui está escrito ‘Perdóname amá’. ‘Me perdoa, mãe’.
A senhora sabe quem pede perdão? Quem vai embora. Sua tia estava de castigo, fugiu e pediu perdão à mãe. E, um ano depois, mandou este postal de Tijuana. Isso não é crime. É uma moça que saiu de casa.” Da mesa ao lado, outro agente soltou uma risada. “E a vovozinha? Quantos anos ela tem, com Alzheimer? Leva caldo para uma cama de lona.” Barrera fechou a pasta.
“E se a sua avó trancou a moça, isso de todo modo já prescreveu.” Prometeu mandar um ofício à Comisión de Búsqueda, a comissão de busca. Ninguém nunca ligou. Lá fora, no banco da entrada, uma senhora de 68 anos com a foto do filho estampada na camiseta a segurou pelo braço. “Você é neta da Erlinda?” Chamava-se Brígida Ayala.
Procurava o filho desde 2013, com um coletivo da região norte, e tinha marchado ao lado de Erlinda durante 10 anos. “Sua avó nunca acreditou naquele postal”, disse. “Dizia que tinha alguma coisa estranha e não sabia o quê. Repara, você que é fotógrafa.” Naquela noite, Dulce tirou de debaixo da cama a caixa onde Erlinda guardava tudo.
O postal original estava ali. Dulce o colocou ao lado da foto da viga na tela do celular e ampliou as duas assinaturas. Na viga, o beija-flor olhava para a esquerda, para a letra. No postal, olhava para a direita, para fora. Uma moça que passou a vida inteira assinando do mesmo jeito não vira a assinatura uma única vez.
Quem escreveu aquele postal tinha copiado um beija-flor. E tinha copiado ao contrário. Na mesma caixa, havia uma foto da Feira da Prata de novembro de 1997. Itzel ao lado de uma barraca, sorrindo, com a coroa de prata brilhando. E, ao lado dela, com a mão no seu ombro, Beto, o homem que em 1998 jurou ao Ministério Público que mal a conhecia. No sábado, 12 de outubro,
Dulce voltou a descer ao porão, ao meio-dia, com a chave que tirou da avó durante a sesta. Dessa vez, olhou para o chão. Junto à parede, na poeira de décadas, havia quatro marcas mais claras em retângulo: os pés de uma cama de lona. A cama tinha estado ali encostada na parede; alguém a tinha movido 1 metro. E a avó, ao descer a comida, a deixava onde estava a cama em 1998.
Dulce pegou uma chave de fenda na caixa de ferramentas e começou a raspar o barro entre dois adobes. Não sabia o que estava procurando. Só sabia que a avó falava com aquela parede. Às 14 horas, a porta de cima se abriu. Era Marisol, que tinha vindo dirigindo de Cuernavaca depois de receber três mensagens da filha.
Atrás dela vinha Polo, de 55 anos, camisa branca, a voz tranquila de sempre. Marisol tinha pedido que ele viesse para acalmá-la. Polo desceu os 14 degraus, viu a chave de fenda e a terra no chão e falou devagar, como falam os homens a quem as pessoas escutam. “Filha, esta casa fica dentro da Zona de Monumentos Históricos de Taxco.
Desde 1990, qualquer obra aqui precisa de licença do INAH, o Instituto Nacional de Antropologia e História. Eu estou no conselho, vejo isso toda semana. Se você furar essa parede, o INAH interdita a casa e a sua mãe não consegue vender. E você pode ser denunciada. É crime federal.” Marisol arrancou a chave da mão de Dulce.
“Chega, Dulce! Se você continuar com isso, eu levo a sua avó para Cuernavaca e você volta para a Cidade do México.” Na porta de cima, a vizinha, dona Tônia, ouviu tudo. Naquela noite, Marisol voltou para Cuernavaca com a chave na bolsa. E às 2:47, a avó passou meia hora arranhando a porta trancada do porão, chorando:
“Minha filha não jantou.” No domingo, 13, aconteceu uma coisa que não acontecia havia meses: Erlinda acordou lúcida. Dulce mostrou a ela a foto da viga. A avó ficou olhando a tela por muito tempo. Depois, os olhos se encheram de lágrimas. “Fui eu que tranquei”, disse. “No Domingo de Ramos. Por causa daquele homem.
Ela ia embora com ele, filha, como a sua mãe. Quatro noites eu a deixei ali. Eu descia com o jantar. Na quinta, fui de ânima pagar a minha promessa e, quando voltei, a porta de baixo estava aberta, arrombada. Aquele homem veio buscá-la, cobriu o rosto.” “Alguém de confiança me disse para não contar à polícia, que iam me prender e que ninguém ia procurar por ela.
Por isso, fechei a porta com tijolo. Por isso, não desci mais. Mas ela está viva, filha. Foi embora com ele. Eu sei que ela está viva.” Dulce perguntou quem tinha mandado ela ficar calada. A avó olhou para ela como para uma desconhecida. “O seu avô já chegou?” Dulce sentiu duas coisas ao mesmo tempo: esperança e medo.
Se Itzel tinha ido embora com Beto, estava viva. E se não estava viva, Beto sabia por quê. Ela o encontrou naquela mesma noite no Facebook. Alberto Rentería Cortés. 57 anos. Conserto de relógios e joias finas em Puebla. Na segunda-feira, 14 de outubro, pegou o primeiro ônibus para Puebla. 4 horas com uma imagem na cabeça: uma mulher de 45 anos abrindo a porta para ela, com uma coroa de prata no canino.
Quem a atendeu foi um homem grisalho, de óculos, com uma lupa de relojoeiro na testa. Dos fundos, saiu uma mulher. Dulce prendeu a respiração. Era a esposa dele. Ao saber quem ela era, Beto tirou a lupa e se sentou. “Ela nunca chegou”, disse. “No sábado, 11 de abril, eu esperei por ela na rodoviária de Tasqueña, das 6 horas da manhã até às 11 horas da noite.
Ela não era minha namorada. Eu era casado, tinha carinho por ela. Consegui uma vaga para ela num curso de design. Por isso a passagem era de um assento só. Ela ia sozinha. Menti para a polícia porque tive medo e me arrependo todos os dias.” Abriu uma gaveta e tirou um desenho amarelado. Um anel em forma de folha, assinado Itzel, com o beija-flor olhando para a esquerda.
A esperança caiu das mãos de Dulce como um prato no chão. Itzel não tinha chegado à capital. Se não chegou a Tasqueña, para onde foi? E quem mandou o postal de Tijuana? Dulce já estava na calçada quando Beto saiu atrás dela. “Mas tem uma coisa que eu nunca contei à polícia. Na Quarta-Feira Santa, lá pelas 7 da noite, me ligaram na joalheria”, disse Beto.
“Um homem jovem com sotaque de Taxco não disse o nome. Disse: ‘A Itzel não vai mais. Mudou de ideia. Não procure por ela e não ligue para a casa dela’. Ele sabia da passagem. Sabia que era no sábado, sabia o horário. Eu não acreditei. Por isso, fui a Tasqueña assim mesmo. Nunca soube quem era e nunca contei à polícia, porque aí eu teria de explicar por que aquela moça confiava em mim.”
No ônibus de volta, Dulce fez uma lista no caderninho. Quem sabia da passagem? Itzel, Beto, a avó e qualquer pessoa a quem a avó tivesse contado. Na terça-feira, 15 de outubro, no café da manhã, Erlinda “estava pela metade”. Em alguns momentos, sabia em que ano estava, em outros não. Dulce segurou as mãos dela.
“Vó, para quem você contou que estava com ela trancada?” “Para o padre Anselmo.” A avó balançou a cabeça. “Nem para o padre. Para ninguém.” E então, de repente, com a voz de todo dia: “Só para o Polo. Ele vigiava a porta de baixo para mim à noite, caso aquele homem aparecesse.” Dulce ligou para a mãe e contou tudo de uma vez. A ligação para Beto, a porta arrombada, a frase da avó.
Do outro lado, houve um silêncio tão longo que ela achou que a ligação tinha caído. Depois, Marisol falou bem baixinho: “O Polo alugou da sua avó a oficina de baixo depois que o seu avô morreu, até o fim de 97. Ele tinha a chave do cadeado de baixo, Dulce. Eu nunca soube se ele a devolveu.” E depois, quase sem voz:
“O beija-flor do cartaz foi ele que desenhou. Disse que na fotocópia não dava para ver.” Dulce tirou da caixa o cartaz de 1998 e o pôs na mesa ao lado do postal de Tijuana. Fotografou os dois juntos e ampliou: dois beija-flores idênticos, os dois olhando para a direita, para fora. A mesma mão que desenhou o cartaz tinha assinado o postal.
Naquela noite, ela procurou na internet a página da Platería Galindo. Tinha um álbum de aniversário: “30 anos levando a prata de Taxco para o mundo.” Terceira foto. Polo, jovem, de gravata, diante de um estande com letras douradas. “Feria de la Plata, Tijuana, junio de 1999.” A Feira da Prata de Tijuana, junho de 1999.
O carimbo do postal dizia: 12 de junho de 1999. Naquela tarde, dona Tônia contou a Dulce que, na noite de domingo, tinha visto o Fusca do Polo estacionado por duas horas no beco de baixo, com os faróis apagados. Marisol chegou a Taxco às 18 horas. Desceu do carro com a chave na mão, entregou-a à filha e a abraçou no beco sem dizer nada.
Naquela noite, as três desceram ao porão: Dulce, Marisol e dona Brígida, que chegou com uma mochila do coletivo. Dentro, havia uma câmera de inspeção, um cabo comprido com uma luzinha e uma lente do tamanho de um dedo, dessas que as buscadoras usam para espiar dentro de poços e cisternas. Elas não podiam quebrar a parede, mas um adobe não é a mesma coisa que o barro que o une.
Dulce se ajoelhou onde a avó deixava as louças e, com a chave de fenda, foi tirando o barro da junta entre dois adobes, pouco a pouco, até abrir um buraco da largura de um lápis. Marisol segurava a lanterna. Lá em cima, Erlinda dormia. Eram 23:40. Brígida enfiou o cabo. Na telinha do aparelho, apareceu primeiro escuridão, depois poeira flutuando, depois uma abóbada de pedra seca e um chão de terra.
Brígida foi girando o cabo devagar. Apareceu um pedaço de pano de um azul que um dia foi forte, e então a luzinha bateu em alguma coisa que devolveu um brilho. Prata. Um anel em forma de beija-flor, com um olho de turquesa. Ninguém disse nada. Marisol cobriu a boca. Brígida tirou o boné e começou a rezar. Dulce apertou o botão de gravar. 38 segundos de gravação.
Era tudo de que elas precisavam. Na quarta, 16, Brígida as levou até uma mulher que ela conhecia bem, a licenciada Paulina Estrada, agente do Ministério Público da Fiscalía Especializada en Desaparición de Personas. Ela viu a gravação duas vezes. Na segunda, pausou no anel. “Isto já não é uma ausência voluntária”, disse.
No mesmo dia, reabriu a averiguação prévia de 1998 e pediu ao INAH uma autorização urgente para abrir a parede. Marisol assinou a autorização como representante da mãe. Na sexta-feira, 18 de outubro, às 10 horas da manhã, desceram ao porão dois peritos, um inspetor do INAH e a licenciada Estrada. Antes de tocar em qualquer coisa, um dos peritos levantou do chão, de luvas, o prato fundo de ágata azul e o colocou com cuidado sobre a bigorna.
Depois, começaram a retirar os adobes, um por um, numerando cada um. Atrás, estava a galeria: seca, fria, com cheiro de pedra. E estava Itzel. O que encontraram não se descreve, se respeita. Os peritos trabalharam 4 horas em silêncio. Entre os restos, estava o anel de beija-flor com olho de turquesa.
Estava a coroa de prata no canino esquerdo. E, dentro de uma bolsa de pano, um caderno de capa verde. No chão do túnel, havia mais uma coisa: galhos secos com espinhos, galhos de sarça. Os mesmos que os “encruzados” de Taxco carregam amarrados nas costas toda Quinta-Feira Santa. Marisol perguntou o que todos iam perguntar: como ninguém tinha sentido cheiro nenhum em 26 anos. O perito apontou para o fundo do túnel. “Essas galerias velhas têm tiragem.
O ar entra por aqui e sai pelos respiros da mina, lá em cima no morro. É como uma chaminé. E além disso, senhora, este porão ficou fechado desde 1998.” Na terça-feira, 19 de novembro de 2024, chegou o resultado do exame de DNA comparado com amostras de Marisol e de Erlinda. Era Itzel Figueroa Luna. A sobrinha a tinha encontrado 26 anos depois, a 1 metro dos pratos que a mãe descia para ela toda noite.
Dulce entregou à licenciada Estrada o caderninho, o cartaz, o postal e a foto de Tijuana. Beto viajou de Puebla para depor. Com tudo isso, Estrada levou o inquérito à Justiça e o juiz de Taxco expediu o mandado de prisão. Na quarta-feira, 20 de novembro, às 11 horas da manhã, agentes da Fiscalía entraram na Platería Galindo, na Plaza Borda, entre turistas que escolhiam brincos.
Leopoldo Galindo Téllez, de 55 anos, não resistiu. Naquela tarde, com o advogado presente, pediu para depor. E o que ele contou começava às 23:40 de uma Quinta-Feira Santa. Mas, para chegar às 23 horas, é preciso começar dois dias antes. Na Terça-Feira Santa de 1998, Erlinda pediu a Polo que vigiasse o beco de baixo à noite, caso aquele homem aparecesse.
Polo se sentava na calçada, junto ao respiradouro com grade que dava para o porão. Na primeira noite, Itzel falou com ele lá de dentro, em voz baixa. Nunca gritou naquelas quatro noites. Não queria que o bairro soubesse que a mãe a mantinha trancada. Já tinham falado demais da família por causa de Marisol. Pelo respiradouro, Itzel pediu um favor a ele.
Na quinta à noite, quando a mãe saísse de ânima, que ele abrisse a porta de baixo com a chave velha que ainda tinha, que a escondesse na oficina dele até o ônibus de sábado e que avisasse Beto para não ligar para casa, nem aparecer. Passou pela grade um desenho com o número anotado. Polo disse sim a tudo. E na quarta ligou para Beto para dizer o contrário.
Se Beto soubesse que ela ia sair na quinta, ia ligar, vir, esperar por ela. Polo a queria sozinha. Naquele ano, Polo pediu para caminhar com o grupo de encruzados da frente, longe das ânimas. Às 23 horas, com o rosto coberto e o feixe de sarças amarrado nas costas, abriu o cadeado de baixo. Lá dentro havia uma vela e Itzel já estava com a bolsa pronta.
Ele não disse “vamos”. Disse que a amava desde que ela era menina. Que tinha oficina, dinheiro, uma casa. Que ela não fosse para a capital, que fosse com ele. Já tinha pedido isso uma vez, no dia em que ela fez 19 anos. Ela tinha respondido que ele era como um irmão. Itzel primeiro achou que era brincadeira, depois teve medo.
“Polo, você é a minha família, não faz isso comigo.” E, quando ele bloqueou a passagem: “Eu vou contar para a minha mãe.” Polo tapou a boca dela para que o beco não a ouvisse e não a soltou até que ela parou de se mexer. Quando ele se ajoelhou ao lado dela, vários galhos de sarça se partiram do feixe. Tirá-la dali, ele não podia.
Os becos estavam tomados pela procissão até o amanhecer. Havia policiais em cada esquina e o Fusca dele estava estacionado fora do centro. A galeria ficava a 3 metros. Ele sabia quais adobes saíam, porque ele mesmo os tinha assentado com seu Silvestre em 1990. Moveu a cama de lona 1 metro, colocou Itzel e a bolsa dela na galeria, levantou de novo a parede com o barro e a cal da oficina.
“Pensei que depois voltaria para buscá-la”, declarou. Do lado de fora, forçou a argola do cadeado com uma barra de ferro para parecer que aquele homem tinha vindo levá-la. Antes da uma, já caminhava de novo na procissão. O resto foi Erlinda quem contou. Num dos seus “dias bons”. Às 3:10, ela entrou no porão e a lâmpada estava queimada.
À luz de uma vela, viu a cama vazia, o caldo intacto e a porta arrombada. Não chegou até o fundo. Na sexta, Polo disse a Erlinda que às 11:30 tinha visto um carro com placa do DF, a Cidade do México, no beco de baixo. Aconselhou que ela não contasse sobre o cárcere. Se contasse, a polícia ia perguntar quem vigiava a porta de baixo e quem mais tinha a chave.
Durante quatro noites, Erlinda tinha dito à filha que não fizesse barulho, que “ele” estava por aí. Ela tinha razão. Só errou de homem. Naquela semana, Erlinda não saiu de casa nem à noite, e o pedreiro que fechou a porta de baixo trabalhou com uma única lâmpada, de costas para o fundo. Polo nunca conseguiu voltar.
Em maio de 1999, quando Erlinda disse no jornal que ia vistoriar até a galeria da própria casa, Polo comprou na feira de Tijuana um postal do arco, escreveu-o no hotel e copiou a assinatura do seu próprio cartaz. Ao contrário. E, em 2024, quando soube que o hotel ia abrir aquela parede, ofereceu mais dinheiro pela casa. No fim, a licenciada Estrada perguntou pela promessa dele. Polo baixou a cabeça.
“Toda Quinta-Feira Santa eu carreguei as sarças por ela.” Faltava uma coisa. A última página do caderno de capa verde era um desenho a lápis de um anel com dois beija-flores que se olhavam de frente. Embaixo, com a letra de Itzel: “Para mi amá. Semana Santa de 1999. Me voy, pero voy a volver”, que quer dizer: “Para a minha mãe.
Semana Santa de 1999. Eu vou, mas vou voltar.” Itzel não estava fugindo da mãe. Estava desenhando um presente para ela, para o ano seguinte. Como os fatos eram de 1998, o caso seguiu o sistema penal da época. Ele teve a prisão formal decretada e foi julgado pelo Juiz de Primeira Instância de Taxco.
Na sexta-feira, 26 de setembro de 2025, Leopoldo Galindo Téllez foi condenado a 35 anos de prisão por homicídio qualificado. O juiz aplicou a lei de 1998 e explicou que o prazo para processar esse crime — a média da pena prevista — ainda não tinha se esgotado. Erlinda não foi acusada de nada. O que ela fez em 1998 tinha prescrito havia muito tempo.
O juiz disse uma única frase sobre ela: “O castigo dela, essa senhora já carregou sozinha.” Itzel foi sepultada no cemitério de Taxco em 12 de dezembro de 2024, o dia em que teria completado 46 anos. Entre as pessoas lá no fundo, com o chapéu na mão, estava Beto. Erlinda não voltou a descer ao porão. A neurologista tinha dado um conselho a Dulce:
Não corrigir a avó, mas “mudar o caminho dela”. Então, quando às 2:47 a avó se levantava para servir o caldo, Dulce a pegava pelo braço e a levava até o altar da sala, onde estava a foto de Itzel. Ali ela deixava o prato. Para o Canelo, nunca mais levou café. Em 2 de novembro de 2025, a ofrenda tinha flores de cempasúchil, uma vela, o caderno aberto na última página e, no centro, o prato fundo de ágata azul com caldo de galinha, feito na hora.
Dulce mostrou à avó a foto da viga e disse o que Erlinda esperava ouvir havia 26 anos: “Ela te deixou o beija-flor dela. Sim, vó.” Erlinda tocou a tela com um dedo, depois olhou para o prato. “Minha filha já jantou”, disse. “Foi dormir em paz.” Às vezes a verdade não está longe, está debaixo da casa. Às vezes, quem mais ajuda é quem mais esconde.
E às vezes, uma mãe que esquece tudo continua sabendo, sem saber onde está a filha. Você teria perdoado Erlinda por trancar Itzel naquelas quatro noites? Eu leio vocês nos comentários. Se esta história deixou você pensando, curta, compartilhe e siga a página para não perder a próxima. Nos vemos no próximo caso.