EX-COVERO CONTA OQUE ACONTECEU APÓS ENTERRAR ELIZA SILVA EM 1986
A história completa
Em 1986, eu trabalhava como coveiro aqui no cemitério municipal de Picos, no Piauí, quando enterrei uma jovem de apenas 17 anos chamada Elisa Silva. Desde o começo daquele enterro, havia alguma coisa diferente. Não sei explicar. Era algo que eu não costumava sentir. Depois de terminar de fechar e arrumar o túmulo, eu estava saindo quando escutei um sussurro atrás de mim.
Quando me virei, vi que tinha alguém parado em frente ao túmulo. E foi dentro daquele cemitério que eu tive uma conversa que nunca imaginei que fosse ter na vida. Meu nome é José Ribeiro Cavalcante, tenho 82 anos, e essa é a minha história em minutos. Era uma sexta-feira, perto das 5 da tarde, quando eu vi o caixão chegar.
Era simples, sem enfeite nenhum, carregado por quatro homens que pareciam ser parentes próximos da família. Eles tinham o olhar baixo e vinham andando devagar em direção à cova que eu mesmo tinha cavado naquela manhã. As coroas de flores que estavam em cima do caixão eram modestas, sem aquele exagero que às vezes a gente vê em outros enterros.
Eu fiquei observando os rostos das pessoas. Era uma família muito simples, mas dava para perceber que todos estavam sofrendo muito. Então, o padre começou a rezar as últimas palavras, do jeito de sempre, com aquela voz calma e pausada. Mas foi então que uma mulher, que até aquele instante estava só chorando baixinho, com um lenço apertado nas mãos, deu um grito que parou tudo ao redor.
Ela gritou, olhando para o caixão: “Minha filha, não é justo! Não é justo o que fizeram com você!” Não era um grito comum de mãe que perde filha. Tinha uma revolta dentro daquela voz. Uma coisa que eu não sabia o que era, mas dava para perceber que aquela família estava sofrendo de um jeito diferente.
Duas mulheres a seguraram pelos braços, tentando acalmar, enquanto ela ainda tentava se aproximar do caixão, repetindo aquelas palavras várias vezes seguidas. O padre ficou visivelmente abalado com a cena. Percebi que ele também estava sentindo o peso daquilo tudo, escolhendo as palavras com mais cuidado do que de costume.
Eu, que já tinha visto muita coisa naquele cemitério, também senti que aquele enterro pesava diferente dos outros. Na hora de baixar o caixão, uma moça se aproximou de mim com os olhos vermelhos de tanto chorar, segurando um porta-retrato junto ao peito. Ela pediu que eu colocasse aquele porta-retrato em cima do túmulo quando terminasse de fechar.
Disse que era a foto mais bonita que a família tinha da irmã e queria que ficasse ali. Falei que sim, que ia cuidar disso com todo o cuidado, e deixei o porta-retrato encostado junto das coroas de flores que estavam no chão, sem olhar direito para a foto naquele momento, ainda ocupado com o serviço da cerimônia que precisava terminar.
E foi enquanto o caixão descia devagar, com a corda deslizando pelas minhas mãos e as do meu ajudante, que trabalhava comigo naquele dia, que senti um arrepio na nuca. Achei na hora que fosse só o vento da tarde, que já começava a esfriar um pouco naquele horário. Mas foi um arrepio diferente, que não sumiu logo depois que o caixão bateu no fundo da cova.
Aos poucos, as pessoas foram se afastando devagar, indo embora em pequenos grupos, conversando baixo entre si e olhando de vez em quando para trás, na direção da cova ainda aberta. A mãe de Elisa foi levada praticamente carregada pelas duas mulheres que estavam com ela. O ajudante que estava comigo também já tinha ido embora, e eu estava sozinho ali, do jeito que sempre ficava depois de cada enterro que fazia naquele lugar, com a tarefa de fechar o túmulo.
Era um trabalho que eu já tinha feito centenas de vezes sem nenhum problema. Só que aquele arrepio que eu tinha sentido na hora em que o caixão desceu naquela cova não foi embora. Ficava ali discreto, aquela sensação de que alguma coisa não estava do jeito que devia estar. Tentei não dar muita importância e continuei fechando a cova do jeito respeitoso que aquela família merecia.
Depois de fechar a cova por completo, lembrei do porta-retrato que a irmã de Elisa tinha me pedido para colocar no túmulo antes de eu ir embora. Fui até onde tinha deixado o porta-retrato e o peguei com cuidado, segurando pelas bordas de madeira. Foi ali, com a foto já nas mãos, que eu vi o rosto de Elisa pela primeira vez. Era uma moça bonita, de sorriso simples.

Fiquei olhando por um instante. Era estranho pensar que aquele rosto tão jovem estava agora debaixo daquela terra. Então, levei o porta-retrato até o túmulo e coloquei-o com cuidado num lugar onde ele não pudesse cair com o vento ou com uma chuva durante a noite. Peguei, então, a cruz de madeira que eu mesmo tinha feito naquela manhã, ainda sem nome escrito, do jeito que sempre fica até eu terminar o serviço todo.
Era um trabalho simples, escrever o nome com aquela tinta preta que eu costumava usar, mas que tinha seu valor, porque era a única coisa que ia identificar aquele túmulo até a família mandar fazer uma lápide. Aquela cruz simples de madeira era o jeito que a gente marcava os túmulos naqueles primeiros dias, antes de a família providenciar alguma coisa melhor mais para a frente.
Eu sempre fazia questão de escrever o nome com capricho, porque sabia que era a primeira coisa que a família ia ver quando voltasse. Comecei a escrever o nome dela na cruz, letra por letra, do jeito que sempre fazia com todo o cuidado: Elisa Silva. E foi bem na hora em que eu terminava de escrever a última letra que senti um frio repentino, que passou pelo meu corpo inteiro sem eu esperar por nada daquilo.
Não era friagem de vento, era um frio que parecia vir de dentro do corpo. Parei um instante com a mão ainda segurando o pincel, olhando para a cruz e para aquele nome que eu mesmo tinha acabado de escrever ali com as próprias mãos. Não sei explicar direito o que senti naquele momento. Achei na hora que fosse só cansaço mesmo de um dia inteiro de trabalho pesado.
Voltei a arrumar as flores ao redor do túmulo, tentando deixar tudo bonito. Enquanto eu mexia nas flores, reparei que a luz do dia estava caindo mais rápido do que eu esperava para aquele horário. Foi nesse mesmo momento que percebi uma coisa estranha. O cemitério tinha ficado quieto de um jeito diferente do normal. Não era o silêncio comum de fim de tarde que eu já conhecia bem depois de tantos anos trabalhando ali.
Era um silêncio mais pesado. Parei por um instante, olhando ao redor, tentando entender aquele silêncio todo tão diferente do que eu esperava naquele horário. Trabalhava naquele cemitério fazia muitos anos e aquilo não era normal de jeito nenhum. Balancei a cabeça, tentando espantar aquele pensamento estranho, e voltei para o que estava fazendo antes.
Terminei de arrumar tudo e resolvi ir embora, já que meu trabalho ali tinha acabado por completo para aquele dia e minha esposa já devia estar esperando com o jantar pronto lá em casa. Peguei minha pá, que estava encostada perto da cova, e comecei a caminhar em direção à saída do cemitério. Não tinha dado nem seis passos naquele caminho de terra batida quando senti que estava sendo observado.
Parei de andar, olhei para os lados devagar e não vi ninguém. Só os túmulos, as cruzes, o silêncio esquisito daquele fim de tarde que já ia virando noite. Foi então que escutei um sussurro vindo de trás de mim. No começo baixo, quase imperceptível, tipo um vento passando entre as palavras, que eu não conseguia entender direito.
Mas foi ficando mais claro a cada segundo que passava, até eu conseguir distinguir que não era vento nenhum: era uma voz baixinha, mas era voz de verdade. O coração começou a bater mais forte dentro do peito. Fiquei parado ali no meio do caminho, sem coragem de me virar, tentando entender de onde vinha aquilo, se era a imaginação minha.
Então, devagar, eu me virei para trás. E foi quando eu vi: tinha alguém parado em frente ao túmulo de Elisa, de costas para mim, com a cabeça abaixada, olhando fixo para a cruz e para o porta-retrato que eu mesmo tinha acabado de arrumar. A figura se virou devagar e foi então que eu vi o rosto dela com clareza, iluminado por aquele resto de luz que ainda sobrava no céu.
Era Elisa, o mesmo rosto que eu tinha visto minutos antes na foto do porta-retrato. Todo o peso que eu vinha sentindo desde o começo daquele enterro, aquele silêncio estranho, o arrepio na nuca, o frio ao escrever o nome na cruz, tudo aquilo caiu em cima de mim de uma vez só naquele instante, como se cada sensação daquele dia inteiro tivesse esperado justamente aquele momento para se juntar.
As pernas ficaram fracas e eu senti que precisava de alguma coisa para me apoiar, mas não tinha nada por perto, só o chão de terra do cemitério. Fiquei paralisado, sem conseguir sair do lugar, sem conseguir falar nada. Não sei quanto tempo fiquei ali parado, olhando para ela, tentando entender o que estava acontecendo, se aquilo era mesmo real ou se eu tinha enlouquecido.
O silêncio entre nós dois parecia durar mais do que devia. Um silêncio esquisito que só terminou quando ela finalmente abriu a boca. Eu já tinha visto muita coisa naquele cemitério, mas nada, absolutamente nada, em todos aqueles anos, tinha me preparado para ficar cara a cara com algo assim. E com uma voz baixinha, meio trêmula, olhando fixo para mim, sem se mexer do lugar onde estava, ela disse: “O senhor vai me machucar também?”
Aquela pergunta me pegou de um jeito que eu não sei explicar. E, antes que eu conseguisse sequer pensar em qualquer resposta para dar, ela fez outra pergunta, olhando para o chão por um instante e depois de volta para mim, com a voz ainda mais fraca do que antes: “Por que a minha mãe foi embora?” Foi ali que comecei a entender algumas coisas. Talvez fosse por isso que eu tinha me sentido daquele jeito no enterro.
Talvez ela estivesse ali desde antes de eu perceber. Ela parecia não entender por que a mãe tinha ido embora, e aquilo me fez pensar no quanto aquela menina devia estar confusa. Então, reuni toda a coragem que consegui juntar naquele momento, respirei fundo umas duas vezes e falei com a voz mais calma que consegui tirar de dentro de mim, mesmo com o coração ainda acelerado dentro do peito.
Disse que eu não ia machucá-la de jeito nenhum, que ela não precisava ter medo de mim, que eu só estava ali cuidando do lugar onde ela agora descansava. Fui escolhendo cada palavra devagar, com cuidado, porque sentia que precisava chegar até a verdade sem machucar ainda mais aquela menina que já estava sofrendo tanto. E, depois de alguns segundos, eu disse uma coisa que até hoje me lembro de ter dificuldade para falar: que ela não estava mais viva.
Falei sem pressa, olhando nos olhos dela, tentando passar o máximo de carinho que conseguia colocar naquelas palavras tão difíceis de dizer para alguém tão jovem quanto ela. Ela ficou em silêncio depois daquilo, olhou para as próprias mãos, como se estivesse tentando entender alguma coisa que não fazia sentido nenhum na cabeça dela.
Depois olhou para o túmulo, para a cruz com o nome dela escrito, para o porta-retrato encostado ali na base. Fiquei quieto também, com as pernas ainda meio bambas depois de tudo o que eu estava vivendo naquele cemitério, que aos poucos ia ficando mais escuro ao nosso redor. Depois de um tempo em silêncio, respirando fundo mais uma vez, falei de novo. Agora com uma convicção que veio de dentro de mim, da fé que eu sempre carreguei desde criança, mesmo sem entender direito tudo o que estava acontecendo ali naquele momento.
Disse que confiava que Deus ia cuidar dela, que ela não precisava ter medo do que vinha pela frente, fosse lá o que fosse. Falei que ela ia para um lugar sem dor nenhuma, um lugar de paz de verdade, onde ela não ia mais sofrer com nada do que tinha acontecido aqui, nem com a dor da mãe, nem com nada mais desse mundo.
Não sei se ela entendeu tudo o que eu disse naquele momento, mas fiquei ali falando com o coração aberto, do jeito que eu sabia fazer, sem enrolação nenhuma. Depois daquilo, eu me ajoelhei na frente daquele túmulo, sentindo a terra ainda fresca sobre os joelhos, e comecei a rezar por aquela alma, pedindo que ela encontrasse paz, que Deus a recebesse com todo o cuidado.
Fiquei ainda um instante ajoelhado ali, com a cabeça baixa, terminando aquela oração devagar, sem pressa nenhuma de levantar do chão frio. Quando finalmente abri os olhos por completo e olhei ao redor, tudo estava do jeito que sempre foi naquele cemitério à noite, com aquele silêncio comum de fim de expediente que eu já conhecia bem.
Nenhum sinal dela, nenhum vestígio de que alguém tinha estado ali além de mim. Foi bem nesse momento que escutei uma voz me chamando de longe entre os túmulos, cortando aquele silêncio que ainda pairava no ar da noite. Era o vigia noturno, que já tinha chegado para o turno dele e estava fazendo a primeira ronda, estranhando encontrar alguém ainda dentro do cemitério àquela hora tão tarde.
Levantei devagar, sacudindo a terra da calça com as mãos, com as pernas ainda meio bambas de tudo o que tinha vivido minutos antes, e fui na direção da voz dele. Ele perguntou se estava tudo bem comigo, se eu tinha me perdido no meio dos túmulos ou algo assim, já meio de brincadeira. Mesmo ainda abalado, não contei nada do que tinha acabado de viver ali. Nenhuma palavra sequer sobre aquilo.
Só falei que tinha atrasado um serviço, que o enterro daquela tarde tinha me tomado mais tempo do que o normal e que precisei terminar de arrumar tudo com calma antes de ir embora. Naquela noite, deitado na cama ao lado da minha esposa, que já dormia tranquila, não consegui pregar o olho direito de jeito nenhum. Ficava repassando cada palavra daquela conversa na cabeça, cada detalhe do rosto dela, tentando entender que raios tinha acontecido comigo naquele cemitério algumas horas antes, sem chegar a nenhuma explicação que fizesse sentido de verdade.
No dia seguinte, voltei ao cemitério perto das 3 da tarde, quando o movimento costumava ser mais tranquilo por lá, com poucas visitas àquela hora do dia. Passei perto do túmulo de Elisa e encontrei a irmã dela parada em frente à cruz, olhando para o porta-retrato que eu tinha deixado ali no dia anterior com tanto cuidado, do jeito que ela mesma tinha pedido.
Ela não tinha percebido minha chegada ainda. Estava concentrada demais naquele momento dela com a irmã que tinha ido embora, num luto que ainda estava bem fresco. Ela me escutou chegando e se virou devagar. Então, perguntei se tinha gostado de como eu tinha arrumado o túmulo, se estava do jeito que ela imaginava quando me pediu, no dia anterior, para colocar o retrato ali com todo o cuidado que aquilo merecia.
Ela sorriu, um sorriso triste, do tipo que a gente dá quando ainda está de luto fresco, e disse que Elisa teria adorado ver aquilo, que sempre gostava de coisa arrumada, de tudo no lugar certo, desde criança. Falou aquilo olhando fixo para a foto, como se estivesse conversando direto com a própria irmã ali, mesmo sabendo que ela não podia mais responder nada.
Fiquei parado ali por um instante, pensando se devia ou não fazer aquela pergunta que estava na minha cabeça desde o dia anterior, remexendo naquilo por dentro, sem parar de me questionar. No fim, resolvi arriscar, com todo o respeito que aquele momento exigia, e perguntei o que tinha acontecido com Elisa, já que ninguém tinha me contado nada direito até aquele momento.
Ela ficou quieta por alguns segundos antes de responder, respirando fundo, olhando para longe por um instante. Olhando para o cemitério inteiro ao redor, para os túmulos vizinhos, como se aquela pergunta pesasse mais do que qualquer outra coisa. Então contou, com a voz embargada, quase sem forças para terminar as frases direito, que Elisa tinha sido morta voltando da escola, no caminho de casa que ela sempre fazia sozinha a pé.
Do jeito que fazia todo santo dia depois das aulas de tarde, sem nenhum problema, até aquele dia terrível que mudou tudo para sempre naquela família. Não entrou em detalhes do que tinha acontecido. Só disse baixinho, olhando para o chão, sem levantar os olhos, que “fizeram tudo com ela”. Não precisou dizer mais nada além disso, porque aquelas poucas palavras já carregavam um peso enorme dentro delas. Um peso que eu entendi sem precisar de nenhuma explicação a mais naquele instante.
Ela começou a chorar ali mesmo na minha frente, cobrindo o rosto com as mãos, os ombros tremendo com o choro que ela tentava segurar sem conseguir. Eu fiquei sem saber direito o que fazer, além de ficar por perto, em silêncio, do jeito respeitoso que a situação pedia naquele momento tão delicado para ela.
Deixei meus sentimentos e me despedi dela. Decidi guardar o que eu tinha vivido na noite anterior só para mim, sem contar para ela, sem contar para ninguém daquela família enlutada que já carregava dor demais para suportar. Não parecia certo dividir aquilo justo com quem ainda estava sofrendo tanto a perda de uma irmã tão jovem e cheia de vida pela frente.
Hoje, aos 82 anos, contando essa história depois de tanto tempo, já não tento mais encontrar uma explicação para aquela noite. Já parei de procurar resposta em conversa com padre nenhum, em qualquer lugar que fosse. Só sei o que vivi naquele cemitério e isso já basta para mim. Mesmo sem entender tudo até hoje, aprendi com aquilo tudo que existem coisas nesse mundo que a gente simplesmente não tem capacidade de explicar, por mais anos de vida que já tenha vivido, por mais coisa que já tenha visto passar pelas mãos ao longo de uma vida inteira de trabalho.
E aprendi também que respeitar isso é bem mais importante do que entender tudo direitinho. Em todos esses anos trabalhando naquele cemitério, enterrando gente de toda a idade, de todo jeito, nunca mais vivi nada parecido com o que aconteceu naquela noite depois do enterro de Elisa. E é justamente por isso que eu continuo com a mesma certeza até hoje, aos 82 anos, sem sombra de dúvida nenhuma, mesmo sem conseguir explicar direito até agora o que foi aquilo.
Se você também acredita que existem almas que só encontram descanso quando alguém trata a memória delas com o respeito que mereciam em vida, deixe aqui embaixo: “Eu acredito” nos comentários. E se você já viveu alguma experiência parecida, algo que não consegue explicar até hoje, conta para mim aqui nos comentários. Que Deus abençoe todos vocês e até o próximo relato. Siga a página.