DISCUSSÃO BANAL em HAPPY HOUR termina em TRAGÉDlA
A história completa
Às vezes, a vida nos ensina da maneira mais cruel que a linha entre a rotina e a tragédia é tão fina quanto um fio de navalha. O que começa como um dia comum, repleto de afazeres, conversas triviais e planos para o fim de semana, pode, em um piscar de olhos, transformar-se em um pesadelo irrecuperável. É assustador pensar como o destino brinca com as nossas vidas, entrelaçando o acaso com a fatalidade em momentos onde a nossa única intenção é apenas viver.
Imagine uma noite que deveria ser de descanso e risadas, um momento para relaxar após mais uma jornada exaustiva de trabalho. A cidade lá fora pulsa, as luzes brilham e o ambiente convida ao alívio das tensões diárias. Para muitos, esse é o refúgio perfeito, um brinde à vida e às pequenas alegrias. Mas, e se nesse cenário de descontração, um pequeno incômodo, algo tão banal quanto um barulho irritante, fosse o estopim para um desfecho inimaginável?
Nós vivemos em sociedade acreditando num pacto silencioso de civilidade e respeito mútuo. Acreditamos que a educação e o bom senso são os escudos que nos protegem no convívio diário. Pedir educadamente para alguém abaixar a voz ou ter mais empatia com o próximo é um gesto de cidadania, uma tentativa de manter a harmonia no espaço que dividimos. Mas o que acontece quando esse escudo se estilhaça diante de uma fúria cega e incompreensível? O que acontece quando um simples pedido de civilidade encontra a escuridão do descontrole humano?
É sobre essa fragilidade assustadora da vida que falaremos hoje. A história a seguir não é apenas sobre um crime, mas sobre a vulnerabilidade a que todos estamos sujeitos ao sair pela porta de casa. É um relato que ecoa como um alerta doloroso sobre a imprevisibilidade do comportamento humano e sobre como sonhos, lutas e uma vida inteira de dedicação podem ser apagados em segundos, por um motivo que desafia qualquer lógica ou razão. Prepare-se, pois o que você está prestes a ler vai fazer você questionar a falsa sensação de segurança que nos cerca a cada passo.
No dia 4 de março de 2023, a vendedora Fabius Almeida saiu da loja onde trabalhava para participar de um happy hour com os amigos próximo a um posto de gasolina. No entanto, o grupo começou a se incomodar com um homem que falava muito alto no celular, sem respeitar as demais pessoas no estabelecimento. Fabius decidiu tentar conversar com o homem, pedindo para que ele falasse um pouco mais baixo, sem imaginar que aquela situação banal se transformaria no fim da sua vida.
Fabius Felipe de Almeida tinha apenas 37 anos quando tudo aconteceu, em março de 2023. Ela nasceu no dia 15 de setembro de 1985 e, na época do caso, trabalhava como vendedora em uma distribuidora de produtos para o lar localizada em Parangaba, bairro onde Fabius também morava, em Fortaleza. Ela tinha uma filha de 20 anos, que descreveu a mãe como uma vendedora muito querida, uma mãe dedicada e uma pessoa muito calma e paciente.
A jovem contou um pouco sobre a sua vida ao lado de Fabius, que a teve muito cedo, com apenas 17 anos, e que desde então a criou sozinha, sempre muito trabalhadora, e tudo o que ela comprava para a filha era fruto do seu trabalho. Fabius era muito próxima da família e muito amada por eles, principalmente pelos seus três irmãos. A filha da mulher disse que era muito difícil alguém não gostar dela, já que ela sempre ajudava todo mundo e era uma pessoa muito boa.
A jovem disse que a mãe às vezes deixava de comer para ajudar as pessoas comprando cestas básicas e, sendo uma mulher muito benevolente e calma, a coisa mais rara do mundo era Fabius gritar ou discutir com alguém. Por muito tempo, ela viveu apenas com a filha, saindo para trabalhar de noite e voltando por volta das 4 horas da manhã, assumindo turnos longos para conseguir sustentar a casa.
Quando estava trabalhando, Fabius deixava a filha com a avó e sempre aconselhava a menina a estudar e se tornar uma doutora. A jovem então ouviu os conselhos da mãe e hoje em dia atua como técnica em enfermagem. Ela descreveu a mãe como uma pessoa muito alegre e sorridente, que sempre chegava em casa com presentes e falava dos seus clientes como se fossem amigos, amando o seu próprio trabalho.

Além disso, Fabius era uma pessoa extremamente educada e elegante, que amava se arrumar e ficava radiante mesmo sem precisar de muito. Na época do caso, ela estava com muitos planos e sonhos. Um deles era comprar o seu carro, pois havia tirado a carteira de motorista. Depois do seu turno na loja onde trabalhava, Fabius costumava sair para ter alguns happy hours com os seus amigos e outros funcionários da distribuidora.
Eles costumavam se reunir em confraternizações pós-trabalho em uma loja de conveniência próxima a um posto de gasolina, e esse era um dos momentos de descontração que Fabius tinha em meio a uma rotina tão cansativa. No dia 4 de março de 2023, após o trabalho, Fabius então foi até o posto de combustíveis na Avenida Osório de Paiva, no bairro Siqueira, para mais um happy hour com os amigos.
Porém, no meio da confraternização, os amigos começaram a ficar um pouco incomodados com um homem, também frequentador do posto, que estava ingerindo bebidas alcoólicas e falando no celular de forma muito alta. Esse homem se chamava Éberson de Oliveira Matos, de 51 anos, que atuava como garçom em outro estabelecimento.
Éberson nasceu em Minas Gerais, mas viveu por muito tempo em São Paulo, e há 6 anos ele morava no Ceará. Por ter vivido tantos anos na capital paulista, o seu apelido era Tio Paulista. No entanto, o que ninguém sabia é que Éberson era um ex-presidiário condenado a 20 anos de prisão por um crime de latrocínio no ano de 1999, lá em São Paulo. Ele havia cumprido essa pena e por isso estava solto após se mudar para o Ceará.
Além dessa condenação, o homem também estava sendo investigado por um outro crime contra uma mulher LGBTQIAPN+ junto com outros dois homens. Nessa ocasião, Éberson agrediu a mulher em um restaurante onde ele trabalhava como garçom, deixando-a tão machucada que ela chegou a quebrar o maxilar. Como a investigação dessa ocorrência ainda está em andamento, não é possível saber mais detalhes sobre o que aconteceu.
Como Fabius não fazia ideia de que o homem era perigoso, ela foi até a mesa dele e educadamente pediu para que ele abaixasse o tom de voz, já que estava gerando incômodo no ambiente. Como resposta, o homem começou a agredir a mulher com violência moral e verbal, chamando-a de vários nomes pejorativos, depreciando a sua condição de mulher e a ofendendo com palavras como “vagabunda” e “rapariga”.
Devido ao estado de fúria em que o homem estava, totalmente alterado e revoltado, Éberson foi expulso do estabelecimento, mas não quis deixar a situação como estava. Ele então ficou do lado de fora da loja, onde os dois continuaram a discussão. Os amigos que estavam na companhia de Fabius confirmaram que as coisas que o homem falava soavam como um grande desrespeito da parte do garçom contra a mulher.
Fabius, então, não se conteve e foi até o lado de fora do estabelecimento para tirar satisfação com Éberson. Nesse momento, as câmeras de fora do local gravam a mulher indo para cima do homem. Fabius está de vestido longo e Éberson com uma camiseta esportiva e um boné. Quando ela se aproxima dele, tudo acontece muito rápido: ela desfere um tapa no rosto de Éberson, que já estava com um canivete em mãos e a atinge com uma perfuração acima do peito.
Nas imagens, que estão borradas, é possível perceber que o ferimento foi muito grave, pois o sangue jorra do ombro e começa a manchar, além das roupas dela, o chão da rua. Em poucos minutos, Fabius começa a ficar tonta e desmaia nos braços de uma outra pessoa. Ela foi socorrida e levada para um hospital em Fortaleza ainda com vida, mas com um ferimento gravíssimo.
Quando ela foi atendida pela equipe médica, eles perceberam que a perfuração era muito funda na área do tórax, na altura do pescoço. O golpe atingiu uma artéria e algumas veias axilares. Fabius ficou internada dois dias no hospital e, no dia 6 de março, a filha da mulher foi até a delegacia registrar um boletim de ocorrência com a mãe ainda viva no hospital, mas em estado crítico e com poucas chances de sobreviver.
Naquele mesmo dia, poucas horas após fazer o B.O., Fabius, infelizmente, não resistiu aos ferimentos e faleceu por choque hipovolêmico por lesão de artéria causada por instrumento perfurocortante. Após perder a mãe, a filha de Fabius contou que começou a viver um pesadelo. Quando a mulher ainda estava viva, a jovem foi até o hospital Frotinha de Parangaba e em seguida ao Instituto Dr. José Frota, para onde ela tinha sido transferida.
Ela disse que viu a mãe no hospital no dia 5 de março e no outro dia ela já não resistiu, parecendo que a visita aconteceu apenas para que as duas pudessem se despedir. Quando a filha recebeu a notícia da perda, ela demorou para acreditar. Após o caso, quando a jovem e alguns familiares voltavam para a casa da mãe de Fabius em um carro por aplicativo, eles descobriram que o vídeo do momento do crime havia viralizado nas redes sociais.
Isso porque o motorista de aplicativo comentou que havia recebido as imagens em um grupo e o vídeo já estava circulando por todo o estado e até mesmo pelo Brasil. O caso começou a ser investigado pela Polícia Civil no dia em que Fabius perdeu a vida, em 6 de março de 2023. Após o registro do boletim de ocorrência pela filha, os agentes foram até o local do crime para colher imagens e o depoimento das testemunhas.
Após isso, eles identificaram o autor do crime como Éberson de Oliveira Matos e entraram em contato com o homem para tentar convencê-lo a se apresentar. Éberson disse aos policiais que passou a noite escondido em uma mata e no dia seguinte ele fugiu para Santa Quitéria, no interior do Ceará. Ele então conversou com seus familiares e, após contactar o seu advogado, a prisão dele foi efetuada no dia 9 de março.
Em interrogatório, o delegado do caso perguntou para Éberson sobre a proporção da reação dele ao ser questionado pela vítima a falar mais baixo. Éberson disse que não soube responder a ela devidamente e que estava arrependido do crime. O delegado também afirmou que o garçom negou que conhecia a vítima anteriormente e falou apenas que o crime aconteceu devido à discussão no estabelecimento.
No dia 19 de julho de 2023, a Justiça Estadual decidiu que Éberson Oliveira fosse levado a júri popular por crime qualificado contra Fabius Almeida. Ele seria julgado com as qualificadoras de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. Uma parte da decisão dizia: “As qualificadoras apontadas na denúncia e nos debates orais pelo Ministério Público devem ser submetidas a julgamento, pois dos autos se extrai que o denunciado cometeu o crime por motivo fútil, consistente na reação desproporcional ao fato da vítima ter reclamado do volume da voz do réu ao falar no telefone, bem como a vítima teria sido surpreendida pela ação do acusado.”
Durante a audiência, Éberson alegou que agiu em legítima defesa e os seus advogados se manifestaram contra a decisão da Justiça, dizendo que a intenção do cliente nunca foi tirar uma vida, já que ele nunca pensou que um golpe de canivete poderia acarretar naquela fatalidade. No entanto, o Ministério Público do Ceará entendeu que o acusado assumiu, sim, o risco de tirar a vida da vítima.
Após a denúncia, em caso de condenação, o MP do Ceará pediu que a Justiça fixasse uma multa para reparação dos danos causados à família da vítima em um valor superior a R$ 40.000. O Ministério Público explicou que esse valor foi baseado no triplo da indenização por crime contra a vida paga pelo seguro em casos de morte no trânsito.
De acordo com eles, “o crime contra Fabius é de natureza dolosa, ainda que na sua modalidade eventual, merecendo uma maior reprovação em relação a uma perda involuntária.” No dia 31 de janeiro de 2024, o garçom Éberson de Oliveira Matos foi levado a júri popular e a sentença foi dada pelo conselho da 5ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza, no Fórum Clóvis Beviláqua. Durante o julgamento, ele admitiu o crime, fato que reduziu 1/6 da pena.
O juiz considerou justa a redução, mas em quantidade menor, pois “o delito foi praticado em local aberto ao público e na presença de outras pessoas. Necessária se faz a medida cautelar mais gravosa para garantia da ordem pública. Destaca-se que a prisão se faz necessária também para evitar a reiteração delitiva, por tratar-se de réu reincidente, o que faz necessária a medida cautelar para fins de garantia da ordem pública”, pontuou o juiz do caso.
Após algumas horas deliberando, Éberson foi condenado a 20 anos de prisão por ceifar a vida de Fabius após uma discussão com motivo banal. Ele vai cumprir a pena em regime inicial fechado e não pode recorrer em liberdade, pois já estava preso. A loja onde Fabius trabalhava lamentou por meio das redes sociais a perda da funcionária.
Eles disseram: “É com profundo pesar que a distribuidora, por meio da gerência e de toda a direção, comunica a todos os amigos e clientes a perda inesperada da nossa colaboradora Fabius Felipe de Almeida. Lamentamos a perda e nos solidarizamos com a família neste momento”, disse a nota. Uma vereadora do Ceará, que também é advogada, alertou para as vidas de várias mulheres que foram interrompidas apenas no primeiro bimestre de 2023.
Trinta e nove mulheres perderam as suas vidas, onde muitas foram vítimas de feminicídio, morte violenta e ainda violência contra o sexo feminino. No texto da advogada, ela cita o caso de Fabius, que teve a vida ceifada após uma discussão banal. Ela citou que as mulheres estão em situação de mais vulnerabilidade, tendo as vidas ceifadas tanto por ex-companheiros como por familiares ou por completos desconhecidos que se acham no direito de ceifar uma vida.
A filha de Fabius contou, em entrevista, que poucos dias antes de a mãe sair para trabalhar, ela frisou que amava a mãe muito, e Fabius respondeu que também a amava, mas que não iria morrer e que voltaria para casa. Infelizmente, casos como o de Fabius estão aumentando cada vez mais aqui no Brasil, e o simples fato de sair de casa está sendo uma roleta russa para as mulheres.
Você não sabe quem vai encontrar e o que essa pessoa vai fazer com você, tornando atos cotidianos, como sair de casa, em situações de risco. Fabius não merecia ter tido a vida ceifada apenas por um simples comentário onde foi humilhada e teve os seus sonhos interrompidos pelo descontrole de um homem. E essas são as últimas notícias que temos do caso.
Bom, gente, essa foi a história de hoje. Comente aqui embaixo alguma mensagem de apoio para as famílias das vítimas, que muitas vezes assistem às minhas histórias. Curta, comente e compartilhe para apoiar o meu trabalho. E não esqueça também de seguir a página no meu Instagram, que eu vou deixar aparecendo aí na tela. Até a próxima história. Beijos.