Como Um Boato Destruiu Toda Uma Cidade em Apenas 24 Horas no RN.
O resto
Mas isso, lindezas, eu vou tratar com vocês mais tarde para que tudo fique muito bem explicado, tá bom? Porque, assim, a vida seguia dentro de uma aparente normalidade até que, no dia 21 de maio de 1997, Genildo mostraria a verdadeira dualidade humana. É assim que eu consigo resumir isso. Porque foi nesse dia que as próximas 24 horas iriam aterrorizar toda aquela região e chocar o Brasil.
Tudo começou no início da tarde do dia 21 de maio de 1997, tá? Quando Genildo colocou em prática um plano que já vinha guardando fazia um tempo. Ele saiu de casa vestido com um colete camuflado, armado com uma pistola semiautomática e um revólver calibre 38 com silenciador. Levando consigo também uma faca de caça e uma bolsa cheia de munição. E em uma das mãos ele tinha uma lista, uma lista com 20 nomes.
“Conhecido por de Zé Ferreira. Ainda a carteira do Ministério do Exército. É ele, não é isso? E é Zé Ferreira. O pessoal conhece ele. Ele mora aqui também na área? Mora. Ele morava lá embaixo. Tá armado com mais de um revólver. Tá com três. Três revólveres.” O primeiro dessa lista foi o taxista Francisco Canindé Marques, que morava com a ex-mulher do Genildo e vivia repetindo boatos sobre ele por aí.
O Genildo chamou uma corrida que foi atendida por esse homem e, no meio do caminho, atirou na testa dele. Colocou o corpo no porta-malas do táxi (um Fiat Palio) e passou a usar o carro para se locomover pela cidade e começar a executar o seu plano. Após isso, foi buscar um amigo chamado Francisco de Assis Ramos dos Santos, conhecido como “Dija”.
Ele chegou ali na casa do Dija dizendo que era para eles darem uma volta. Depois, foi até a casa de Valdenice Ribeiro da Silva, uma adolescente de apenas 16 anos, com quem Genildo mantinha um relacionamento paralelo ao casamento que ele tinha. Só que, gente, os dois entraram no carro achando que era para passear, e o Genildo, na verdade, não tinha essa intenção.
Logo ele mostrou as armas que tinha e disse que, se qualquer um dos dois tentasse fugir, ele mataria a família deles antes mesmo que conseguissem chegar em casa. “Se eu fugisse, eu ia sair dele, mas eu não ia chegar em casa primeiro que ele, né? Ele ia matar minha mãe e meu pai.” Então, por isso, o Dija e a Valdenice ficaram ali, paralisados, fazendo exatamente tudo o que o Genildo quisesse.
Eles se tornaram reféns dele. E é importante falar isso aqui para vocês porque tem muitos veículos de mídia que falam que eles foram cúmplices, mas eles não foram, gente. Com os dois no carro, o Genildo passou a buscar uma terceira pessoa. Esse era o Elias. Ele devia R$ 10 para ele. É isso mesmo que eu tô falando para vocês.
Ele pegou esse homem em casa e não se esqueçam que era uma cidade pequena, onde todo mundo se conhecia. Era de certa forma amigo dele. Então ninguém desconfiava disso. “Só escutou ele dizer que para ele foi vestir a camisa e ele disse que para onde ele ia não precisava vestir camisa não.” Mas aí, depois de pegar esse homem, ele foi atrás do próprio sogro na casa dele. Um homem chamado Baltazar.
E para vocês terem noção, o Baltazar era uma das pessoas que mais tinha espalhado boatos sobre o Genildo. E, para atrair o sogro, ele inventou que precisava da ajuda dele com o parto de uma vaca. “Ele chegou chamando meu pai para fazer um parto de uma vaca, que a vaca tá dando bezerro e não podia sair, não podia tirar.” Então ele levou esse grupo, né, que agora já tinha quatro pessoas com ele, para uma área isolada.
E lá ele fez com que Elias e Baltazar saíssem do carro. Ordenou que eles ficassem de joelhos e ali tirou a vida deles. “Aqui no local, mais uma vítima. Olha, olha só.” Após isso, Genildo, junto com os seus dois reféns, foi para a casa de um fazendeiro chamado Manuel, com quem ele já tinha discutido antes por causa dos mesmos boatos.
E sob o pretexto de comprar uma espingarda, ele chamou Manuel para sair e também um homem chamado João Maria, que estava ali visitando Manuel. Os dois também foram com ele. Depois de um tempo, ele pediu que eles saíssem e também tirou a vida dos dois. “Ele chegou lá, lá em casa, e disse assim: ‘Manuel, vamos ali no Guajiru, eu vou comprar uma arma e eu quero que você veja’.”
Eu não sei se vocês estão fazendo as contas, mas agora já eram 21 horas e, depois de tantas mortes, Genildo vai até um homem chamado Edilson, dizendo que era para eles irem para uma festa. Festa essa que nem existia. O Edilson, que era amigo dele, aceitou o convite e foi morto igualmente aos outros. E é aqui, gente, que eu preciso que vocês guardem esse nome.
Porque esse nome é um dos mais importantes dessa história. Não que as demais vítimas não sejam, mas vocês entendem do que eu tô falando. E cabe aqui ressaltar para vocês — que eu gosto de deixar tudo muito bem explanado — que ninguém ouvia os tiros porque ele estava com silenciador, tá bom? E foi aí que ele também matou esse amigo dele, o Edilson. E, gente, assim…
Depois que o tempo foi passando, os corpos começaram a ser encontrados. E enquanto isso acontecia, o Dija e a Valdenice continuavam sequestrados por ele. E, em várias ocasiões, ele obrigou o Dija a segurar as vítimas pelo braço para que elas ficassem imobilizadas e ele pudesse atirar contra elas. Mas o Dija realmente não tinha o que fazer. Ou eram elas, ou era ele. Era questão de sobrevivência. Já a Valdenice, ele mantinha sempre quieta num canto, só observando.
E depois de todas essas mortes, ele finalmente resolveu liberar o Dija. Mas essa libertação, gente, foi sob forte ameaça. Ele disse que se ele contasse algo para alguém, a família dele também viraria alvo. E depois de ter visto tudo aquilo, ele sabia que o Genildo não estava brincando. Agora só com a Valdenice, ele foi até a casa dele, onde a esposa dele, a Mônica, estava. E lá, ela estava também com o irmão dela, o Erasmo. Na mesma hora, Genildo atirou contra a esposa.
Mas mandou o cunhado embora, dizendo que não tinha nada contra ele. “É dele, é a esposa dele. Qual o nome dela? É Mônica. Mônica.” Foi ali mesmo, dentro daquela casa, sob o corpo da esposa, que Genildo começou a ditar uma carta para a Valdenice escrever. E segundo o próprio relato dela, ele estava visivelmente perturbado e ficava andando de um lado para o outro.
Ele estava em estado de surto, né? Gente, essa carta eu vou ler para vocês lá no final, para vermos o que ele tinha a falar para o mundo. Depois disso, ali na casa dele, ele pegou o filhinho dele de 8 meses que tinha com a Mônica, o Mateus, e o levou até a casa de uma prima. Inventando que a mãe estava doente e que ele precisava de um tempo, ele virou para a prima e pediu, meio que emocionado, que ela cuidasse muito bem da criança.

No resto daquela noite, Genildo passou visitando parentes para se despedir. Dizendo para a irmã que estava cumprindo uma missão para recuperar a honra dele, sem entrar em detalhes sobre o que estava acontecendo. Ninguém até ali sabia o que estava acontecendo, porque afinal era interior, as pessoas moravam em zona rural e os tiros não eram ouvidos. Aos poucos um achava um corpo aqui, o corpo ali, mas ninguém sabia que aquilo tudo estava conectado.
Então as pessoas de quem ele se despedia simplesmente não entendiam o que estava acontecendo. Um buraco dessa história que eu procurei achar: se ele não estava manchado de sangue, sujo de sangue. Porque aquilo ali já mostraria que ele estava fazendo alguma coisa, mas, infelizmente, não achei nenhuma fonte que falasse sobre isso. Então, gente, depois de passar a madrugada fazendo isso, por volta das 6 da manhã do dia seguinte, já com a cidade inteira em polvorosa, porque os corpos estavam sendo achados, Genildo chegou à casa dos próprios pais. Ele levou os dois para o quintal e apontou uma arma para eles, dizendo que não queria que a família sofresse pelo que ele estava fazendo. Mas de repente o irmão dele, o Genilson, chegou e tentou convencer o irmão de que aquilo não estava certo, que os pais dele nunca tinham feito nada para ele a não ser coisas boas.
E foi nesse meio tempo que chegaram dois policiais: o Sargento da Polícia Militar, Francisco Bezerra, acompanhado do soldado Ailton de Lima. Os dois já sabendo que ele era o responsável por toda aquela matança. No instante em que os viu, ele disparou contra eles. “É que ele tomou a arma de um sargento da PM e inclusive atirou contra o sargento.”
O sargento morreu na hora, gente, e o soldado ficou ferido no ombro. E foi assim que ele fugiu, abandonando o plano de matar o pai. Infelizmente, após isso, já com a cidade em pânico, todo mundo se escondendo, era uma histeria coletiva realmente. Genildo voltou para perto da casa do sogro. Ó, eu falo para vocês: ele tinha um ódio enorme desse homem.
Vocês vão entender logo o porquê. Ele estava procurando as duas filhas do Baltazar, que por sorte estavam na escola naquele horário. Felizmente ele não entrou na escola. E no lugar delas ele acabou tirando a vida da própria sogra, a dona Teresa. Dali ele seguiu para a casa da ex-mulher da Valdete, que morava a apenas 200 metros, e atirou nela também.
“Ela foi encontrada. Uma mulher morta nesta casa aqui, uma outra mulher morta. Outra mulher morta nesta.” E a mãe dela, que tentou socorrer a filha, foi morta do mesmo jeito. Foi nesse momento que ele pegou a própria filha, a Mayara, uma menina de apenas 5 anos, e seguiu a pé com ela. Deixando o carro para trás. Junto com a Valdenice também, que não posso esquecer.
E eu aviso a vocês, gente, que a participação dessa criança foi uma das coisas que mais mexeu comigo e, mais à frente, vocês vão entender. No caminho, passou pela casa de um vizinho chamado Flávio, que era surdo-mudo. Olhem só: o Genildo simplesmente chegou lá, Flávio estava dormindo e atirou nele ainda dormindo. Depois disso, ao sair de lá, matou um motorista chamado Fernando.
E, mais à frente, vocês também vão entender que a morte desse homem foi um total engano. Não se esqueçam de que ele estava seguindo uma lista, não estava atirando aleatoriamente nas pessoas. Então, gente, por volta das 7:30 — olha como tudo aconteceu em tão pouco tempo, depois de ele ter tirado a vida de tantas pessoas —, o Genildo cruzou novamente pelo caminho de um mensageiro chamado Josemberg. Um garoto de 18 anos.
Trabalhador, inclusive, que já tinha testemunhado a morte do sargento. Ele estava próximo quando isso aconteceu. Mas, dessa vez, Josemberg não teve a mesma sorte. Escondeu-se atrás de um poste e o Genildo mandou ele sair dali e seguir andando. E, na hora em que o rapaz virou para olhar para trás, também foi alvejado. E é aqui, gente, que não posso deixar de falar de uma segunda situação que estava acontecendo paralelamente a essa tragédia: o comportamento da imprensa. Na época, os programas policiais eram bizarros.
Estavam na cena do crime e mostravam tudo sem nenhum filtro. Era sensacionalismo puro. Durante uma entrevista com um jornalista, ele aborda um senhor que está ali para saber se aquele senhor era parente do homem que estava no chão. Vou mostrar o que esse homem fez com o senhor. “Tá aqui. O pai dele, o pai do rapaz está aqui. Qual o nome do seu filho?”
“Éberg.” “Josemberg, né? Éberg, né?” “É, Josemberg.” “É. Émberg.” “Josemberg do quê?” Ele está muito emocionado. Ele não é o pai, é o avô do rapaz. Olha, e segura o rapaz que ele sentiu uma emoção forte, está desmaiando. Neste momento, o pessoal vai tentar socorrê-lo também. Vocês viram, né? Pois é. O trabalho bizarro da imprensa. Neste caso, ele não para por aí, não. Tem muito mais coisa. A essa altura, mais de 100 policiais já estavam atrás de Genildo.
É por isso que muita gente diz que ele era o “Lázaro dos anos 90”. Mas uma história não tem nada a ver com a outra, gente. Aquela cidade tornou-se literalmente um verdadeiro caos. Eram policiais para todos os lados, moradores fugindo, correndo para se esconder onde podiam. Gente gritando, gente chorando. Era um verdadeiro “salve-se quem puder”. A histeria coletiva estava instaurada ali, e com motivo, né?
Foi nesse momento também que aconteceu aquele áudio que vocês ouviram no início da história. Genildo, já sabendo que tinha policiais por todos os lados procurando por ele, foi se escondendo entre escolas e casas, ameaçando quem encontrava pelo caminho. Até que, perto do meio-dia, numa plantação de banana ao lado de uma fábrica de cerâmica, a apenas 2 km de casa, ele acabou liberando a Valdenice e a própria filha que estava com ele, uma menininha de 5 anos de idade, gente. E já vou mostrar a imagem dela para vocês, é de cortar o coração. Foi nesse momento que outra cena bizarra aconteceu. Um jornalista foi direto até a ambulância onde essa criança estava sendo socorrida e começou a fazer as perguntas mais bizarras do mundo para uma criança que tinha visto tudo aquilo e tinha acabado de perder a mãe.
Olhem só: “O quê? Vamos tentar ver a garota aqui, pedir para mostrar rapidinho. Olha, estão aqui os médicos trabalhando, ó, na garota. Olha… uma garotinha. Tá tudo bem? Tá tudo bem com ela, doutor? Oi, tudo bom? Agora mais calminha. Ele machucou você?” “Não.” “Não. Como é seu nominho?” “Mayara.” “Mayara, você é bonitinha. Mayara, não tá dodói, não. Você tem quantos aninhos?” “Cinco aninhos.” “Sou a mãe dela.” “E ele fez o quê com a sua mãe? Minha mãe e minha avó para carregar o… Tá aí a garota.”
Sinceramente, gente, para mim isso é de uma crueldade… É desumano. Não existe “furo de reportagem”, não existe Ibope, nada que justifique você traumatizar — na verdade, retraumatizar — uma criança que já está em choque. E aí, para completar, esse mesmo repórter, depois dessa cena deplorável, sai da ambulância e vai chorar do lado de fora. Eu vou deixar para vocês verem também e tirarem as próprias conclusões. Se isso não passa de mais um momento show para a TV ou se era realmente um momento de sensibilidade.
“Foi o momento mais difícil. Foi a hora que eu caí em si e percebi que…” Mas não pensem que a imprensa parou por aí. Existe um outro momento que, brevemente, eu vou botar para vocês que me deu ânsia. Ânsia de vômito. Olha só: “Uma cobertura cansativa, mas extremamente gratificante para qualquer repórter.” O que que vocês acham do que ele falou?
Eu quero saber disso nos comentários, tá bom? Enfim, gente. Depois de vocês terem presenciado todas essas situações de barbárie — tanto do crime em si quanto da cobertura terrível da imprensa, leviana, digamos assim —, bora voltar para o Genildo. Porque foi ali, cercado naquela plantação de banana, que ele acabou atirando contra si próprio com uma bala de prata que ele mandou fazer.
E, mesmo assim, os policiais ainda desferiram vários tiros contra ele como medida de segurança, né? Afinal, ele já tinha tirado a vida de muita gente. Ao todo, Genildo tirou a vida de 14 pessoas. 14 vítimas. Contando a dele: 15. E a verdade, gente, é que tudo que eu contei até aqui para vocês não foi causado por um único fato. Na verdade, a fofoca que explodiu toda essa ira dele foi nada mais, nada menos do que um catalisador de tudo isso. Mas vieram acontecendo coisas antes disso.
E eu vou passar a explicar isso agora para vocês. Agora bora começar a responder a vocês o que aconteceu com aquele homem tão amado pela comunidade. O primeiro fato que eu preciso contar é que Genildo começa a colapsar em 1995. Nesse ano, ele testemunhou a morte do próprio filho, o Yuri. Gente, pro Genildo, Yuri… ele amava todos os filhos, mas esse filho, segundo relatos, era o filho do coração dele, pelo qual ele tinha uma paixão enlouquecedora.
Olha como tudo aconteceu. O Yuri tinha um ano e meio na época e, segundo os relatos, os pais estavam perto, na frente de casa, enquanto o menino brincava na calçada. Não se esqueçam que estamos falando de mil novecentos e noventa e tantos, no interior do Nordeste, um local onde as crianças brincavam na rua. Enfim, gente, vocês entendem a diferença de parâmetro, né? E enquanto a criança estava ali brincando, em algum momento ele foi para o meio da rua e um motorista, segundo o próprio relato, achou que tinha batido num vulto.
Chegou a imaginar, até certo momento, que tinha sido um cachorro. Só que o cunhado dele, que estava do lado dele no carro, disse que não era um cachorro. Que era uma criança. E por isso eles pararam ali. Eles encontraram o menino debaixo do veículo, tiraram-no dali, entregaram-no no colo da mãe — que estava desesperada — e ainda chegaram a pedir socorro. Mas não tinha mais jeito, porque o Yuri não resistiu.
Só que, apesar de esse motorista ter feito o correto, pedido socorro e parado, eu não consigo deixar de falar para vocês o que vi nesse documentário. O que vi esse homem falar em depoimento. Hoje ele é um advogado, tá? E o que ele falou me assustou muito. Por que, gente? Quando ele conta a história, o tom que ele usa é, no mínimo, esquisito. Quase que sádico. Ele está falando sobre a morte de uma criança de um ano de idade. E a forma como ele relata… Eu me arrepio de verdade.
Eu vou colocar para vocês verem. “Começou a divulgar que ele tinha morto o motorista que matou o filho dele. Eu dei graças a Deus. Pronto, ele já me matou. Tô tranquilo agora. Ninguém vai mais atrás de mim. A gente passou próximo à casa dele, vi um vulto atravessando a pista. E esse vulto… eu, como disse, abalroei esse vulto e continuei, achando que… achei até que tinha batido num cachorro.
Meu cunhado que disse que eu tinha atropelado uma criança. Aí eu brequei o carro. Quando eu olhei pelo retrovisor, eh… ele vinha correndo em direção ao carro. A mãe da criança tava chorando no meio da pista, e a criança estava presa no tubo de escape do Gol, pelo braço. Então ele se abaixou, tirou a criança, entregou no colo da mãe, pediu que eu prestasse socorro e aí a gente saiu. Na audiência, o próprio Genildo e a juíza, Dra. Tânia Borba Maranhão da época, o próprio Genildo me inocentou de tudo.”
Eu vou ser sincera para vocês: fiquei muito triste vendo esse relato. Mas não para por aí, não, tá? A partir dali, quem conviveu com Genildo é praticamente unânime: ele nunca mais foi o mesmo. Aquele homem gentil que todo mundo conhecia passou a ter explosões de raiva. Ele passou a não ficar bem psicologicamente. Inclusive, boatos dizem — mais boatos — que ele também estava usando entorpecentes.
Mas eu aviso para vocês que não foram esses boatos que desencadearam toda aquela ira. O Genildo ficou tão arrasado que o nome do bar dele passou a se chamar Bar do Yuri, como uma forma de homenagear o filho. E vocês se lembram daquele momento que eu falei para vocês que ele matou o motorista do caminhão? Assim, sem mais nem menos, que ninguém entendia por que aquele homem tinha virado alvo, já que depois pegaram a lista dele, né? Simplesmente, gente, ele confundiu aquele homem, num momento totalmente dissociativo, quando estava completamente enlouquecido. Ele confundiu esse homem com esse motorista que agora é advogado.
Ele achava que era esse homem. E é aí que vem mais um depoimento desse advogado que vai chocar vocês. Por que, gente? Ele escutou pelo rádio o que estava acontecendo ali na cidade. Escutou que o Genildo teria matado o homem que atropelou o filho dele. Pelo menos, na cabeça de Genildo. Naquele momento, esse homem pensou “Ufa!”. Ele ficou aliviado, gente, sabendo que um inocente tinha morrido no lugar dele.
Olhem só: “Um dia lá, ele matou um caminhoneiro. E a imprensa começou a divulgar… eu tava com o rádio, ouvindo tudo pelo rádio… e começou a divulgar que ele tinha morto o motorista que matou o filho dele. Eu dei graças a Deus. Disse: ‘Pronto, ele já me matou. Tô tranquilo agora. [risadas] Ninguém vai mais atrás de mim’.” É. É isso mesmo que vocês acabaram de ouvir, gente. Ele ficou aparentemente feliz por uma pessoa inocente ter morrido no lugar dele. E eu não sei nem descrever para vocês a mistura de sentimentos que bateu em mim ao assistir a essas cenas. Mas é isso.
Agora bora para o boato. Olhem só como tudo começou a tomar uma proporção enorme. Isso aconteceu em setembro do mesmo ano, 1995, poucos meses depois da morte do Yuri. Na época, Genildo e Mônica — esposa dele no momento — brigaram feio. Ficaram separados por cerca de um mês. E foi durante essa separação que Mônica contou para a família dela o suposto motivo da separação. Ela disse que desconfiava que Genildo fosse homossexual.
“Ouvi… ouvi o povo falar que a Mônica… que a Mônica tinha pego ele com outro… com outra pessoa na cama. Mas é um com outro homem, né? Aí num certo dia, ela veio à noite, jantou… quando chegou, encontrou os dois, né, na cama dela, né? Os bi com…” E que teria flagrado ele na cama com outro homem. E esse homem, gente, sabe quem era? O Edilson. Vocês lembram que eu falei que o Edilson era uma pessoa muito importante nessa história? Pois é. E após ela falar isso lá dentro com os próprios familiares, numa cidade do interior em 1990… vocês já imaginam o que aconteceu, né?
Aquela fofoca começou a correr na velocidade da luz entre os 5.000 habitantes daquela cidade. E sabe quem era a pessoa que mais espalhava esse boato? Pois é. O sogro dele, de quem o Genildo tinha muita raiva. O Baltazar, aquele que o Genildo matou com o pretexto de fazer o parto de uma vaca. Genildo nunca perdoou a esposa por aquilo, mesmo que depois eles tivessem reatado o casamento. Mas ele guardou aquela mágoa dentro dele e passou a ameaçar a família de morte sempre que podia. Dizendo que se eles continuassem falando aquilo, não ia dar certo. E como eu falei para vocês, o boato não ficou só dentro de casa. Tomou conta da cidade toda. E todas as pessoas que Genildo matou simplesmente eram pessoas que faziam chacota dele o tempo todo.
Inclusive o rapaz que era surdo-mudo. Ele fazia chacota, mesmo sem saber falar, com movimentos. Mas assim, gente: essa fofoca não era só uma fofoca. Ela foi destruindo a vida do Genildo. Primeiro porque, em uma cidade pequena, as pessoas passaram a olhar atravessado para ele. As pessoas passaram a olhar como se ele fosse um ser inferior. Por ser, na cabeça deles, homossexual. E para completar, esse fato começou a afetar o trabalho dele.
Porque ninguém mais queria frequentar a vendinha dele. Começou a surgir a história ali na cidade de que quem ia lá eram só gays. Então ninguém mais ia lá, porque ninguém mais queria ser visto como gay. Então, naturalmente, ele deixou de vender e abriu falência. Ele não tinha mais nem como se sustentar, nem como sustentar a sua família. E vocês lembram que ele chamava todo mundo de “meu amor”, de forma carinhosa?
Isso só serviu para reforçar os boatos de que ele era gay. E assim, gente, acabou o trabalho dele. Não tinha mais como se sustentar. Ele fechou o bar, vendeu as coisas que tinham lá e, com esse dinheiro, comprou toda aquela munição e todas aquelas armas. E foi esse, gente, o motivo de toda essa desgraça. Eu não gosto de falar essa palavra, mas ela é real, né? Mas eu preciso também falar que acho que ele merecia… ele merecia ajuda médica.
Talvez, se não existisse um estigma tão grande na época como existe ainda hoje, várias vidas — essas vidas, na verdade — teriam sido poupadas. Inclusive a do Genildo. E eu trouxe esse caso, gente, justamente para falar sobre isso. Para falar sobre saúde mental, sobre o que pode acontecer com a gente quando não está bem e para levantar um alerta. Antes de a gente repetir qualquer fofoca maldosa, antes de a gente rir de alguém e apontar o dedo, antes de a gente supor algo sobre a vida de outra pessoa…
Eu acho que primeiramente a gente tem que parar e pensar: e se fosse comigo? Tem anos que venho percebendo, principalmente pela internet, que muitos de nós perdemos essa capacidade de sentir a dor do outro, de se colocar no lugar do outro de verdade. E vocês já pararam para pensar no peso de um comentário que fizeram sobre alguém, mesmo sem querer machucar, mas às vezes machucando… e machucando profundamente?
Muitas dessas pessoas tiram a própria vida. No caso do Genildo, ele fez isso consigo, mas levou um monte de gente inocente com ele. E essa história mostra como a falta de responsabilidade emocional ao criar um boato ou ajudar a espalhar pode levar não só à destruição de uma pessoa, mas de várias.
Eu devo falar que essa carta foi escrita para o apresentador J. Gomes, do programa Patrulha Policial, para que ele lesse ao vivo para o Brasil inteiro. Para que o Genildo desse a própria versão dos fatos. Não que isso justifique o que ele fez. “A carta diz: ‘O motivo de eu escrever estas poucas linhas não é para justificar o que eu fiz. Mas só assim eu conseguiria provar para todo mundo. E deixo o desafio para qualquer um que queira provar que não sou homossexual… Nem eu era, nem você. Porque por esse comentário foi que aconteceu toda essa tragédia.
Eu não me sinto uma pessoa normal depois desse falso que levantaram contra mim, contra a minha pessoa. Aqui eu escrevo minhas palavras finais. Poderão dizer que eu fiquei louco. Mas, mesmo assim, eu recomendo a alma de todos para Deus. E espero que Deus me perdoe por esse ato que eu fiz, mas era minha única solução. Eu espero que esta carta seja enviada para J. Gomes para que ele divulgue para o público e aconselhe a todos a não levantar falso do seu próximo. Paro aqui porque não tenho mais condição. Para todos desejo uma vida de dignidade, a qual eu não tive. Eu posso até não vingar a morte do meu filho, se não tiver condições. Tavares… difícil viver. Não fui aceito na sociedade pelo simples ‘caboeta’ que me levantou um falso, mas agora está morto. Eu imploro o perdão de todos que tentaram me compreender. Eu não fiz isto por prazer, fui forçado. Ainda continuando, deixo um forte abraço, um beijo para toda a minha família e que toda… toda a minha família, não importa a religião… mas que todos se reúnam e construam uma forte corrente de oração para que Deus tome conta de minha alma. Adeus para todos, escreve Genildo’.”
Pois é. E foi com essas palavras, negando até o fim o que os outros disseram dele, que Genildo se despediu. E é isso, gente. Se você ficou até aqui, deixe o seu like, siga a página. Eu fico por aqui. Recebam um grande beijo da Merlinha e até o próximo caso sinistro, tá bom?