CASO JÉSSICA MOREIRA HERNANDES: V1T1M4 DE UM “TESTE DE FIDELIDADE”
A história completa
Na manhã de 20 de abril de 2017, em Cerejeiras, Rondônia, na região do Cone Sul, a estudante Jéssica Moreira Hernandes, de 17 anos, não foi à escola porque estava com cólica. Ela tomou remédio e, por volta das 8h30, avisou a mãe que iria a uma farmácia, mas voltaria logo. Ela saiu de casa de bicicleta e não foi mais vista.
Inicialmente, a mãe não estranhou a demora, porque Jéssica produzia e vendia pão de mel; por isso, era comum ela sair para adquirir os ingredientes, mas costumava voltar logo. Preocupados pela falta de notícias de Jéssica, o pai procurou a polícia na noite do mesmo dia para registrar a ocorrência do desaparecimento.
Segundo o pai, às 22 horas o celular de Jéssica chamava até cair a ligação. Depois desse horário, o número começou a dar desligado. Nas redes sociais, centenas de pessoas compartilharam a fotografia de Jéssica junto com o pedido de ajuda para encontrá-la. O delegado Rodrigo Spíndola informou que, desde o comunicado do desaparecimento, equipes estavam empenhadas nas buscas.
Todas as informações estavam sendo checadas. Equipes estavam nas ruas buscando por imagens de câmeras de segurança e ouvindo pessoas; no entanto, ainda não havia pista sobre o paradeiro de Jéssica. No final da tarde do dia 24 de abril, duas jovens caminhavam próximo a um terreno na linha 4, a cerca de 7 km da área urbana de Cerejeiras, quando sentiram um forte cheiro fétido.
Ao se aproximarem, viram que se tratava de um cadáver enrolado em uma lona. A Polícia Militar isolou a área até a chegada da Polícia Técnico-Científica (Politec) de Vilhena. Familiares de Jéssica, sabendo que o corpo havia sido encontrado, estiveram no local e fizeram um reconhecimento prévio. Segundo a polícia, o corpo estava em estado de decomposição, e o autor do assassinato tentou incendiá-lo.
A perícia técnica constatou que o cadáver apresentava um total de 13 perfurações, que atingiram o pescoço e as costas, causadas por instrumento perfurocortante. Após ficar quatro dias desaparecida, a polícia confirmou que o corpo encontrado era mesmo de Jéssica Moreira Hernandes, de 17 anos.
Posteriormente, o laudo do exame tanatoscópico apontou que a causa da morte foi asfixia provocada por múltiplos ferimentos na região cervical, causados por instrumento cortante, provavelmente uma faca. No dia seguinte, 25 de abril, a Polícia Civil prendeu o namorado de Jéssica, Ismael José da Silva, de 35 anos; o primo dele, Diego de Sá Parente, de 26; e a esposa de Diego.
Todos suspeitos de terem envolvimento no assassinato. A prisão temporária foi solicitada e autorizada pela Justiça em razão de indícios iniciais de autoria. Após a prisão dos suspeitos, centenas de populares se reuniram em frente à delegacia. No local, conforme a Polícia Militar, um grupo reagiu com violência e depredou o prédio, jogando pedras nas janelas.
O delegado responsável pelo caso, Rodrigo Spíndola, subiu no muro e pediu calma para os manifestantes. Ele ressaltou que os três suspeitos foram presos para que não interferissem nas investigações e orientou os populares a não os condenarem antecipadamente. Porém, o pedido não surtiu efeito, pois em seguida os manifestantes se aglomeraram na entrada do presídio de Cerejeiras e tentaram invadir a unidade.
Foi preciso solicitar reforço policial de Vilhena. O Grupamento de Operações Especiais (GOE) se deslocou para Cerejeiras, realizou uma barreira na rua com viaturas e policiais, e fizeram uso de balas antimotim para dispersar a multidão, que só saiu do local por volta das 21 horas. No final da manhã do dia 25 de abril, o corpo de Jéssica foi liberado pela funerária.
O velório aconteceu na capela mortuária de Cerejeiras e reuniu centenas de pessoas. Em 26 de abril, a polícia realizou uma coletiva de imprensa para esclarecer detalhes sobre o crime. Segundo o delegado Rodrigo Spíndola, Diego de Sá Parente, primo do namorado de Jéssica (Ismael José da Silva), contou o que aconteceu no dia do desaparecimento da jovem.
Diego relatou que Ismael, com quem Jéssica namorava há quase 3 anos, era extremamente ciumento e estava desconfiado de que havia sido traído. Por conta disso, Ismael o chamou para fazer uma espécie de teste de fidelidade com ela. Diego atraiu Jéssica para a casa da mãe dele sob o pretexto de que tinha provas de uma suposta traição de Ismael.
Na casa, Diego convidou Jéssica para a cozinha; ela se sentou de costas para onde Ismael estava escondido ouvindo a conversa. Diego tinha a função de descobrir se Jéssica já havia traído Ismael. Ele disse que mostraria as provas da suposta traição se Jéssica confessasse que já havia sido infiel. Segundo Diego, após a confissão, Ismael, que estava com um pedaço de ferro na mão, perdeu o controle, entrou na cozinha e, assim que Jéssica se virou em sua direção, levou um golpe na cabeça e desmaiou.
Para o delegado, talvez Jéssica tivesse até mentido sobre a traição, na ânsia de receber a informação de Diego. Diego disse que não esperava essa reação de Ismael e ficou estático diante da ação. Em seguida, Ismael levou Jéssica para uma área sem móveis e ela começou a recobrar os sentidos; ao perceber, Ismael a empurrou, ela bateu a cabeça no chão e desmaiou novamente.
Diego enfatizou no depoimento que alertou o primo e pediu para que ele parasse. No entanto, Ismael pegou uma faca e golpeou Jéssica nas costas e, em seguida, na garganta. Diego disse que virou o rosto para não ver a cena. Segundo o seu relato, logo após, Ismael o teria ameaçado, dizendo que se não o ajudasse também o mataria. Enquanto Diego permaneceu no imóvel, Ismael saiu.
E, minutos depois, voltou com uma picape, uma lona e gasolina. Eles enrolaram o corpo, amarraram e colocaram no veículo. Ismael pegou a bolsa e o celular de Jéssica. Diego ficou responsável por limpar os vestígios de sangue da casa e por se livrar da bicicleta. Diego desmontou a bicicleta de Jéssica e jogou as peças dentro de um poço no terreno da casa.
Ismael negou qualquer envolvimento no crime. A esposa de Diego, que também havia sido presa, foi liberada no dia seguinte por falta de provas. Ismael e Diego foram levados para a cadeia pública de Cerejeiras. No início da noite de 26 de abril, uma equipe do Corpo de Bombeiros encontrou a bicicleta desmontada de Jéssica, duas camisas sujas de sangue e um par de chinelos no poço indicado por Diego.
Ele confirmou que as camisetas eram dele, e a mãe de Jéssica reconheceu o par de chinelos como sendo da filha. Trinta dias após a prisão temporária de Diego e Ismael, em 25 de maio, o delegado do caso, Rodrigo Spíndola, pediu a prorrogação da prisão dos dois. O pedido foi acatado pela Justiça, enquanto a polícia seguia com a investigação.
Em 7 de junho, o celular que pertencia a Jéssica foi recuperado pela polícia. O aparelho foi localizado por um homem na zona rural do município, próximo ao local onde o corpo foi encontrado. Através da perícia do GPS do celular, ficou comprovado que na manhã do crime, 20 de abril, Jéssica esteve na rua da casa da mãe de Diego, local onde ocorreu o assassinato.
Os aparelhos celulares de Ismael e Diego também foram periciados. Em dias que antecederam o crime, foram realizadas várias pesquisas sobre como clonar o WhatsApp, como recuperar conversas apagadas e como rastrear uma pessoa pelo número do celular. Foram feitas as mesmas pesquisas através do computador que Ismael utilizava no trabalho.
Uma testemunha que morava ao lado da casa onde o crime teria ocorrido afirmou que ouviu uma voz feminina dizendo que não tinha mandado mensagem nem ligado para ninguém. A calça e a camisa usadas por Ismael no dia do crime foram entregues à polícia por ele mesmo; as peças foram encaminhadas para perícia em Porto Velho.
Foi identificada na calça a presença de sangue humano, mas não foi possível realizar exame de DNA. Ismael e Diego foram denunciados pelo Ministério Público, acusados pelos crimes de homicídio qualificado por emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima, por feminicídio e também por ocultação de cadáver. O Ministério Público pediu também que a prisão temporária fosse convertida em preventiva.
Tanto a denúncia quanto o pedido de conversão da prisão foram aceitos pela Justiça. A decisão foi da 2ª Vara Criminal, que destacou que o crime era gravíssimo e gerou um relevante temor e sensação de insegurança à sociedade, sendo necessário o isolamento dos acusados. A mãe de Jéssica, Alzineide Moreira, conhecida como dona Neide, não acreditava no envolvimento de Ismael no crime. Ela, juntamente com outro filho, chegou a visitá-lo na cadeia.
Alzineide escreveu uma carta de duas páginas, de próprio punho, em defesa de Ismael, que foi anexada ao processo. Para a família de Jéssica, apenas Diego teria cometido o assassinato. De acordo com a defesa de Ismael, os elementos colhidos durante o processo evidenciavam que não existia autoria por parte dele.
Já o advogado de Diego afirmava que ele somente ajudou a ocultar o cadáver, e que havia sido Ismael, motivado por ciúmes, quem cometeu o homicídio. Ainda ressaltou que Diego foi colaborativo com o trabalho da polícia. A Justiça marcou para o dia 23 de agosto de 2017 a audiência de instrução de Ismael José da Silva e do primo dele, Diego de Sá Parente, acusados de assassinarem Jéssica Moreira Hernandes em um suposto “teste de fidelidade”.
A audiência durou mais de 14 horas e aconteceu a portas fechadas. Alguns colegas de trabalho de Ismael foram ouvidos e afirmaram que, no dia do crime, 20 de abril, apesar de não terem visto Ismael sair no horário de expediente, notaram sua ausência ao terem precisado dele para resolver alguns assuntos ligados ao trabalho.
Alguns policiais que trabalharam nas buscas por Jéssica relataram que, em certos momentos, perceberam que Ismael e seus familiares, de alguma forma, pareciam tentar atrapalhar as investigações, aparecendo juntamente com a polícia ou até mesmo antes em locais informados de onde haveriam provas que pudessem indicar o paradeiro de Jéssica.
Durante a audiência, a mãe de Jéssica passou mal e oito testemunhas foram dispensadas para serem ouvidas na segunda etapa da audiência, que aconteceu em 31 de agosto. O proprietário da picape utilizada para transportar o corpo até o local onde foi encontrado relatou que foi Diego quem pediu a ele o veículo emprestado no dia do crime.
Da mesma forma, o proprietário da loja onde a lona usada para enrolar o cadáver foi comprada disse que foi Diego quem efetuou a compra. Testemunhas também afirmaram que havia sido Diego quem comprou a gasolina. Os testemunhos contradiziam a versão contada por Diego ao ser preso em 25 de abril, de que após o assassinato ele permaneceu no imóvel e Ismael teria saído e retornado com a picape, a lona e a gasolina.
No laudo referente ao exame de corpo de delito feito em Diego no dia em que foi preso, apontou-se a presença de três ferimentos superficiais em fase de cicatrização no dorso do quarto e quinto dedos da mão direita. A perícia apontou ainda que os ferimentos poderiam ter sido causados cerca de cinco dias antes, o que corresponderia ao dia do crime, 20 de abril.
Em seu depoimento, Ismael mais uma vez negou ter assassinado Jéssica, assim como negou que ela o houvesse traído ou compactuado com o primo, Diego de Sá Parente, para realizar um teste de fidelidade com a namorada. Ismael afirmou que Jéssica nunca havia desconfiado dele até que Diego a induziu a isso após ter descoberto uma troca de mensagens entre Ismael e uma jovem que trabalhava em um supermercado da cidade.
Ocorrida cerca de um ano e meio antes do crime. Com relação ao laudo pericial que apontou a presença de sangue na calça que usava no dia do crime, Ismael esclareceu que o sangue era dele mesmo, pois, em seu trabalho no setor de vistoria do Detran, acabava se ferindo sempre nas trocas de lacres das placas e latas dos veículos.
Mostrou as cicatrizes que possuía nas mãos por causa do trabalho. Ismael também relatou que, às vezes, devido a dores de cabeça, acabava tendo sangramento nasal. Ele afirmou não ter conversado com o primo na cadeia e ter solicitado ficar em cela separada devido até a medo. Ismael relatou ter sido pressionado pelo delegado a admitir o crime após a confissão de Diego. Segundo Ismael, o primo sempre foi muito mentiroso e invejoso.
Afirmou também que Diego já teria dado em cima de Jéssica e, mesmo desconfiado que ele pudesse ter algo a ver com o desaparecimento dela, Ismael não o acusou formalmente a pedido de sua mãe, que o aconselhou a não denunciá-lo sem provas. O juízo da 2ª Vara Criminal de Cerejeiras absolveu Ismael José da Silva da acusação de ter matado a namorada, Jéssica Moreira Hernandes, de 17 anos.
Já o primo dele, Diego de Sá Parente, também acusado pelo crime, foi pronunciado a júri popular. Após avaliar todas as provas dos autos, o juiz Jaires Távora Barreto concluiu que Jéssica foi morta no mesmo dia em que desapareceu, em 20 de abril de 2017, entre 8h30 e 9h da manhã, após ter sido atraída por Diego até a casa da mãe dele. Documentos e testemunhas apontaram que, no dia e horário da morte de Jéssica,
Ismael estava na Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Cerejeiras, onde trabalhava. Para acessar o sistema da circunscrição, Ismael precisava inserir um usuário e senha. Extratos de movimentação no sistema mostraram que, no horário em que Jéssica foi assassinada, Ismael estava utilizando o computador no trabalho. Funcionários também confirmaram que Ismael só saiu da Ciretran após as 10h30 do dia do crime.
O juiz também considerou as imagens de câmeras de segurança localizadas próximas à Ciretran, que mostraram que o carro de Ismael só saiu do local às 11h16. Além disso, através das mensagens transcritas do celular de Ismael, foi possível conferir que ele mandou uma mensagem para Jéssica às 9 horas, perguntando o que ela fazia.

Como ela não respondeu, Ismael conversou com a mãe dela e perguntou se Jéssica havia ido para o hospital, já que horas antes ela havia dito a ele que não estava bem. Com base nessas e em outras provas, o juiz concluiu que Ismael não teve participação na morte da namorada e determinou sua liberdade após ele ter ficado cinco meses preso.
Já com relação a Diego, mesmo ele negando a participação no assassinato e atribuindo sua culpa somente à ocultação do cadáver, os indícios de autoria contra ele eram fortes. Conversas registradas em um aplicativo de troca de mensagens mostraram que Diego combinou com Jéssica de ela ir até a casa da mãe dele. Uma câmera de segurança, às 9:33, registrou a caminhonete que transportou o corpo de Jéssica passando sentido ao local onde o cadáver foi encontrado.
A bolsa de Jéssica foi encontrada na caixa de gordura na residência de Diego. Laudos periciais confirmaram que o homicídio aconteceu na casa da mãe dele. Uma testemunha ainda enfatizou que viu Jéssica na casa conversando com Diego, até que ambos ingressaram no interior da residência onde aconteceu o homicídio. O juiz concluiu que existia um conjunto probatório para atribuir a Diego indícios suficientes de autoria e, com isso, ser julgado pelo Tribunal do Júri.
O Ministério Público apresentou recurso contra a decisão que absolveu Ismael José da Silva. De acordo com o promotor Marcos Alexandre de Oliveira Rodrigues, que ingressou com o recurso, Diego não tinha motivo algum para matar Jéssica. Havia muitas provas que não foram devidamente analisadas. O promotor tinha convicção de que Ismael havia assassinado Jéssica porque existiam traços de passionalidade no crime, a exemplo do número de facadas que Jéssica recebeu, um indicativo de raiva e ódio pela vítima.
O Tribunal de Justiça de Rondônia acatou o recurso apresentado pela promotoria e decidiu que Ismael fosse a júri popular. Mesmo tendo sido inocentado em primeira instância, em 22 de agosto de 2018, no Fórum da Comarca de Cerejeiras, aconteceu o julgamento de Ismael José da Silva e Diego de Sá Parente, acusados pelo assassinato e ocultação de cadáver de Jéssica Moreira Hernandes, de 17 anos, ocorrido em 20 de abril de 2017.
A defesa de Diego pediu ao Judiciário para que ele usasse roupas comuns no tribunal do júri, já que, de acordo com o advogado, o uso de uniforme de presidiário poderia causar discriminação de Diego em relação a Ismael, outro réu no caso que aguardou o julgamento em liberdade. O juiz Fabrício Amorim de Menezes, da 2ª Vara Criminal de Cerejeiras, aceitou o pedido e autorizou Diego a usar roupas convencionais durante o júri.
Desde as 4 horas da manhã, um grupo já esperava a abertura do fórum para assistir ao Tribunal do Júri. 40 senhas foram distribuídas para família, amigos e moradores. Outras 10 senhas foram destinadas à imprensa. Das 52 testemunhas arroladas, foram ouvidas três listadas pelo Ministério Público, cinco em favor de Ismael e cinco em favor de Diego. O julgamento foi presidido pelo juiz Bruno Magalhães Ribeiro dos Santos e o corpo de jurados composto por cinco homens e uma mulher.
Depois do interrogatório de testemunhas, informantes e dos réus, o julgamento entrou na fase dos debates, momento em que a acusação e a defesa apresentaram argumentos para tentar convencer os jurados. O promotor de Justiça Fábio Augusto Sampaio foi quem falou. Entre outros elementos, o representante do Ministério Público apresentou conversas de WhatsApp que mostravam comportamento ciumento e controlador de Ismael.
Com isso, o promotor concluiu que o namoro de Ismael e Jéssica era conflituoso, ao contrário do que Ismael disse em interrogatório, quando afirmou que o relacionamento era tranquilo. O promotor também mostrou relatórios do sistema da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran), onde Ismael trabalhava na época do crime. Através dos dados, o promotor avaliou que, embora fosse necessário o usuário e a senha pessoal para ter acesso, o sistema apresentava falhas nos logins.
Dessa forma, seria possível Ismael estar no local do crime. Ainda por meio das conversas do aplicativo, o promotor ressaltou que Diego prometeu que mostraria a Jéssica provas de que Ismael a havia traído; por causa disso, Jéssica foi à casa da mãe de Diego, local onde foi morta. Além disso, na tese do Ministério Público, Diego mantinha um sentimento amoroso não correspondido por Jéssica, o que o teria motivado a participar do crime.
O promotor terminou a argumentação ressaltando que os laudos apontaram que Jéssica foi morta de forma cruel; ela sofreu 13 golpes de faca e não apresentava lesões de defesa, mostrando que foi surpreendida. Na conclusão do Ministério Público, Ismael praticou homicídio por ciúmes e Diego contribuiu para o crime. A promotoria pediu a condenação de Ismael e Diego por homicídio com quatro qualificadoras: motivo torpe, feminicídio, recurso que impossibilitou a defesa da vítima e meio cruel, e também por ocultação de cadáver.
A defesa de Ismael sustentou que houve falhas nas investigações e que documentos e testemunhas provaram que Ismael estava no local de trabalho no momento do crime. Afirmou que Diego queria atrapalhar o relacionamento de Ismael e Jéssica e já havia criado discórdia entre o casal anteriormente. Salientaram ainda que, além das conversas do aplicativo, uma testemunha viu quando Jéssica encontrou com Diego na casa onde aconteceu o crime.
A defesa de Ismael destacou ainda que Diego apresentou várias versões durante as investigações e que ele tinha interesse sexual por Jéssica. Ainda enfatizaram que Ismael não fugiu, demonstrando que ele queria provar sua inocência. Já a defesa de Diego destacou que ele não mantinha nenhum interesse amoroso ou sexual por Jéssica. Justificou que o laudo apontou que ela não sofreu violência sexual, o que poderia ter acontecido caso fosse verdade que Diego mantivesse desejos não correspondidos por ela.
O advogado destacou que Diego não tinha motivos para matar Jéssica, ao contrário de Ismael, que estaria com medo de perdê-la em virtude de uma possível traição e da insegurança por causa da diferença de idade entre eles, que era de 18 anos. Disse que o cliente somente ajudou a embalar o corpo, pois foi ameaçado por Ismael após o crime.
Diego teria jogado a bicicleta e roupas sujas de sangue dentro de um poço localizado na residência onde aconteceu o homicídio. Já a bolsa e o celular de Jéssica teriam sido entregues para Ismael; contudo, dias depois, a bolsa de Jéssica foi encontrada na caixa de gordura externa da casa de Diego. A defesa argumentou que, caso Diego tivesse feito tudo sozinho, não teria motivos para ficar com a bolsa; teria jogado dentro do poço também.
Com isso, a defesa levantou a hipótese de a bolsa ter sido plantada para incriminar Diego. Na conclusão, o advogado afirmou que o crime havia sido premeditado e que Ismael estava tentando jogar toda a culpa em Diego. Após dois dias de julgamento, por volta das 23h10 do dia 23 de agosto, a sentença foi proferida. Os jurados absolveram Ismael José da Silva pelo crime de homicídio qualificado.
No entanto, ele foi considerado culpado por ocultação de cadáver e condenado a um ano de reclusão em regime aberto e 10 dias-multa. Devido a Ismael ser primário, ele poderia recorrer em liberdade. Já o primo dele, Diego de Sá Parente, foi condenado a 18 anos de reclusão por homicídio qualificado e mais um ano por ocultação de cadáver, em regime fechado e sem direito de recorrer em liberdade.
Ismael afirmou que discordava da decisão e não esperava o resultado, pois alegava que era inocente, já que em nenhum momento ocultou o cadáver. Após o julgamento, o Ministério Público de Rondônia e as defesas dos réus entraram com recurso contra as penas. Na apelação, o Ministério Público argumentou que a decisão que absolveu Ismael do crime de homicídio foi manifestamente contrária à prova dos autos e pediu anulação da decisão.
O órgão ainda solicitou que a pena de Diego fosse reformada, atribuindo um quarto da pena para cada uma das agravantes reconhecidas. A defesa de Ismael também entrou com recurso pedindo um novo julgamento em relação ao crime de ocultação de cadáver. Os advogados sustentaram que não havia provas da participação de Ismael no crime.
No recurso de Diego, a defesa também pediu anulação do julgamento, a fixação da pena-base no mínimo legal e aplicação da atenuante da confissão. Na avaliação dos recursos, o relator Valdeci Castellar Citon concluiu que os jurados decidiram de forma contrária em relação a Ismael e determinou que ele fosse julgado novamente pelos dois crimes: homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
Segundo o relator, se em um momento os jurados entenderam que Ismael não praticou o homicídio de sua namorada, não era razoável que tivesse praticado a ocultação do cadáver sem que tivesse, ao menos, participação na morte dela, nem que fosse meramente no planejamento. Porquanto, a motivação evidenciada para ocultação de cadáver e reconhecida pelo júri seria a mesma que teria ensejado o homicídio.
No caso de Diego, o Tribunal de Justiça concedeu a atenuante da confissão qualificada; dessa forma, a pena passou para 18 anos de reclusão e 10 dias-multa. Ele continuou preso na Casa de Detenção de Cerejeiras. Em 23 de outubro de 2019, Ismael José da Silva foi novamente julgado pelo Tribunal do Júri em Cerejeiras, pelos crimes de homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima, feminicídio e ocultação de cadáver.
O júri foi presidido pela juíza Ligiane Bender. O Ministério Público de Rondônia pediu que duas testemunhas de acusação falassem; já a defesa de Ismael apresentou cinco testemunhas. Depois de quase dois dias de julgamento, Ismael José da Silva foi condenado a 14 anos de prisão, em regime inicialmente fechado e sem direito de recorrer em liberdade, pelo crime de homicídio qualificado por meio de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, mas foi absolvido da acusação de ocultação de cadáver.
Ismael chorou após ouvir a sentença. Após o término do julgamento, ele foi levado à Casa de Detenção de Cerejeiras. A defesa apelou da decisão para que Ismael recorresse da condenação em liberdade; no entanto, o pedido foi negado pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Rondônia. Com a negativa, a defesa entrou com pedido de habeas corpus, que também foi negado, e Ismael permaneceu preso na Casa de Detenção de Cerejeiras. Você se lembra ou conhecia esse caso? Se gostou do conteúdo, siga a página. Curta e comente.