A Parteira Foi Banida da Vila Após uma Tragédia… Até um Ferreiro Descobrir a Verdade Escondida
O resto
Na terceira, mandaram o menino dizer que a mãe não estava. Na sexta, o homem da casa falou que não queria confusão com a fazenda Boa Esperança, que era dali que vinha metade do trabalho da rua. Na oitava, ninguém abriu, mas a cortina mexeu. A nona era a casa de Conceição, a Ceiça. E essa doeu diferente.
Ana tinha aparado os três filhos dela. O primeiro, Zezinho, nasceu roxo, com o cordão enrolado no pescoço. Ana passou quase uma hora soprando na boca da criança e esfregando o corpinho, até que o choro veio, fraco e depois forte. Ceiça, que tinha 17 anos e pouco juízo naquela madrugada, jurou que aquele menino era mais de Ana do que dela.
Agora Ana bateu e, do outro lado da porta, ouviu passos leves de criança e a voz da mãe baixa e apressada: “Vai pro fundo, Zezinho. Vai pro fundo.” A porta não abriu. Ana ficou uns instantes parada, olhando a madeira, e depois foi embora sem bater em mais nenhuma. Nos dias seguintes, a vila fez com Ana o que as vilas sabem fazer melhor, que é nada.
Ninguém a expulsou, ninguém a ameaçou. Simplesmente as coisas foram se retirando dela, uma por uma, como a água de uma poça ao sol. Deixaram de chamá-la para os partos, que naquele mês eram três. Nicanor, dono da venda, avisou que dali em diante o açúcar e o sal seriam só a dinheiro. E que o fiado, a senhora entende, andava difícil.
As galinhas que as mulheres costumavam deixar no terreiro dela em pagamento pararam de aparecer. Na missa, o banco onde Ana se sentava havia 20 anos ficou com um vão dos dois lados, e ninguém falou que era de propósito. Havia mais, e o mais era só dela. Em anos de ofício, Ana tinha perdido três mães. Três entre mais de 200.
Sabia o nome de cada uma, o dia, a chuva ou o sol que fazia. Jamais contara isso a ninguém e jamais deixara de contar, no fundo do peito, todas as noites. Por isso, a acusação encontrou nela um terreno pronto. A vila a condenava em voz alta, mas Ana, no escuro do quarto, fazia coisa pior. Repassava a noite inteira, passo a passo, procurando o erro.
Teria dado o chá cedo demais? Teria devido apertar mais, esperar menos, gritar por ajuda? Uma pessoa pode ser inocente e ainda assim ficar horas sem conseguir provar isso nem para si mesma. Uma tarde, no tanque do rio, encontrou Ceiça lavando roupa. Ceiça trabalhava na cozinha e na lavagem da fazenda Boa Esperança.
E o marido, Anselmo, tocava o engenho de moer cana dos Vilela. A casa deles, a horta, a lenha, tudo era da fazenda. Ana se aproximou devagar. Ceiça não levantou os olhos, torceu um lençol com força demais, até a água pingar em fios, e disse, quase sem voz: “Dona Ana, me perdoe. Eu não posso.” E juntou a trouxa e subiu o barranco depressa, sem esperar resposta.
Ana ficou olhando a mulher se afastar. Perdoar do quê? Ceiça não tinha feito nada contra ela. Foi só depois de muito tempo que Ana entendeu que há pedidos de perdão que chegam antes da culpa, como quem avisa que vai errar e pede desculpa adiantada. Naquela tarde, porém, guardou a frase sem compreender e foi para casa, onde tirou um baú do fundo do armário.
Tinha uma irmã em Oliveira, casada, com quintal grande. Se ficasse ali mais um mês, disse a si mesma, o baú já estaria cheio. Enquanto isso, na entrada da vila, no ponto exato em que a estrada da fazenda se divide em duas — uma para o povo e outra para a serra —, ficava a oficina de Joaquim Ribeiro, ferreiro, 48 anos, viúvo, dono de um fole velho, de duas bigornas e de um silêncio que a vila tomava por má vontade e que, na verdade, era hábito.
Joaquim falava pouco porque tinha aprendido no ofício que o que uma pessoa diz e o que uma pessoa faz raramente coincidem, e que o segundo costuma ser mais honesto. Trabalhando com ferradura, aprendia-se a ler a gente pelo bicho. O tropeiro apressado, que não deixa o animal descansar, aparece no casco.
O patrão sovina, que economiza a ração, aparece nas costelas. O menino que maltrata o burro aparece no medo do burro. Joaquim não era investigador, não sabia nada de lei, não tinha lido nada além do almanaque e da Bíblia da falecida, mas olhava. E quem olha muito, com o tempo começa a ouvir o que as coisas dizem quando as pessoas se calam.
Não vá pensando que ele era um santo. Quando ouviu a notícia da morte de Luzia, Joaquim balançou a cabeça e disse ao aprendiz — um rapaz de 14 anos chamado Mateus: “Isso é o que dá confiar em garrafada”. Tinha razão de ter ojeriza a remédio de mato. Vira, anos antes, um cavalo bom morrer de purga de curandeiro e desde então achava que tudo que vinha de folha e de reza era perigoso.
Ele mesmo, portanto, foi um dos que acreditaram cedo na condenação de Ana, e nunca depois escondeu isso de quem perguntasse. E, além disso, tinha o que perder. A oficina ficava em terreno alugado de Domingos Vilela, num trato de palavra, sem papel, e mais de um terço do seu trabalho vinha da fazenda Boa Esperança. Arados, foices, ferraduras para mais de 40 animais.
Quem mexe com Domingos Vilela, mexe com o próprio fogo. Foi uma quinta-feira, dois dias depois da morte, que o assunto entrou na oficina pela porta dos fundos, montado numa égua. Tobias, o camarada da fazenda, moço de 19 anos, magro, olhos fundos, trouxe a Estrela, a alazã de sela de dona Estela, com uma ferradura perdida da mão direita.
Joaquim pegou o casco, limpou, examinou e parou. Havia barro no casco. E o barro era vermelho, grudento, de um vermelho de tijolo queimado. Barro assim só existe numa estrada em toda a região: a que sobe para a serra e desce para Santana da Serra, a cinco léguas dali. A estrada da vila, a que liga a fazenda ao povoado, é de areia e cascalho branco de quartzo.
Ferradura que passa por ela leva pedrinha no casco, não argila. Além disso, o desgaste da ferradura ainda presa na outra mão era o de uma corrida longa, de uma légua, duas, muito além de uma ida curta ao povoado. “Perdeu onde?”, perguntou Joaquim, sem levantar os olhos. “Na estrada da vila, seu Joaquim.” Joaquim assentiu como quem aceita uma resposta.
E, nesse momento, sem que ele decidisse, a memória lhe entregou uma coisa que estava guardada desde terça-feira. Ao meio-dia, mais ou menos, quando ele comia um pedaço de angu na porta da oficina, Tobias tinha passado a galope, montado naquela mesma égua, na direção da serra. E Joaquim gritara: “Olha essa ferradura, moço. Está frouxa”.
O rapaz não olhou, não parou, seguiu com os ombros duros, como quem foge de uma conversa. Naquela hora, Joaquim achou apenas que ele estava com pressa. Agora, a pressa tinha outro peso. Joaquim era prudente. Um homem prudente não sai gritando por causa de uma ferradura. Recolocou o ferro novo, cobrou o preço de sempre e não disse nada.
Passou uma semana pensando. Passou a semana seguinte fazendo o que costumava fazer quando desconfiava de alguma coisa. Caminhando, andou a estrada da vila até a fazenda, contando os passos, o tempo, os pontos de lama. Uma légua e meia, pouco mais. Numa boa mula, mesmo debaixo de chuva, uma hora de viagem, uma hora e pouco.
Se o rapaz saiu ao entardecer, às 6, e Ana só chegou à meia-noite, o que aconteceu com as 4 horas que sobraram? Ele podia ter guardado a pergunta. Mas certas perguntas, depois que a gente faz, só sossegam quando encontram resposta. Começou pela mais simples. Ana dissera que fora chamada depois das 10. Alguém tinha visto o rapaz bater à porta dela? Na rua de Ana havia poucas casas, e uma delas era a de dona Filomena. Viúva de 70 anos, que passava as noites de chuva costurando junto à janela, com o lampião baixo. Joaquim foi lá numa tarde de domingo, com o chapéu na mão, e pediu licença para conversar sobre o que não era da conta dele. “Aquela noite”, disse Filomena, e apertou os olhos. “O menino da fazenda bateu?” “Sim, eu ouvi e até estranhei. Foi depois que o Nicanor apagou o lampião da venda. Eu costumo esperar a luz dele apagar.”
“E ela apaga às 9, o senhor sabe. Depois disso, ainda passou um bom tempo. Umas 10 horas. Achei tarde para bater na porta dos outros.” “A senhora disse isso a alguém?” “O senhor é o primeiro que pergunta.” Repare nessa frase, porque foi nela que Joaquim pôs a mão pela primeira vez no que estava errado com aquela história.
Filomena não tinha mentido, nem escondido, nem sido coagida. Estava ali com a lembrança inteira havia semanas. Só que ninguém em toda a vila tinha perguntado a quem vira alguma coisa. Todos tinham preferido perguntar a quem tinha “ouvido dizer”. É assim que se fabrica uma verdade de vila.
Um repete o que o outro repetiu, cada um convencido de que o vizinho é quem sabe, até que a coisa ganha um peso que nenhuma testemunha teria coragem de contrariar. Joaquim voltou para a oficina pensativo. Que a versão de Ana batia com a de Filomena não provava nada por si só. Podia ser que a velha estivesse enganada quanto à hora. Mas o buraco das horas continuava lá.
Entre o suposto momento em que o rapaz saiu da fazenda e o momento em que ele bateu à porta de Ana, alguém, ou alguma coisa, tinha gasto 4 horas. Antes de seguir, um instante que a história pede fôlego. Se você está acompanhando este causo até aqui, talvez já tenha ficado com a pergunta com que Joaquim ficou: quantas verdades que a gente repete por aí são, na verdade, só o eco de uma voz mais forte que a nossa?
Se esse tipo de história lhe faz bem, fique por aqui no Terra de Honra. Porque nesta vila e em muitas outras que seu Antero ainda vai contar, as aparências quase nunca dizem tudo. Pois bem. Joaquim tinha agora duas explicações possíveis. E nenhuma delas o satisfazia inteiramente. A primeira era a do chá. Talvez o problema estivesse ali e a hora não importasse.
Ele mesmo, afinal, sempre desconfiara de erva. Foi por isso que subiu, numa tarde, ao sítio de Sá Cândida, uma velha de 78 anos que tinha sido parteira da região antes de Ana e a ensinara no ofício. Encontrou-a sentada na varanda, descascando milho, e perguntou sem rodeios: “Aquele chá podia matar uma mulher?” Sá Cândida riu, mas sem alegria.
“O chá é de quintal, meu filho. Eu que ensinei. Casca de laranja, cidreira e umas folhas amargas que a mulher toma para aquietar o corpo. Depois Ana deu para sete moças aqui em volta nos últimos anos e as sete estão vivas. E as sete acham que devem a vida a ela.” Fez uma pausa e ficou olhando o milho.
“Agora, dizer que o chá não causou nada, isso eu não digo, porque eu não estava lá. Se a moça já vinha sangrando há muito tempo, chá nenhum tira sangue nem devolve.” Joaquim anotou essa última frase sem saber por quê. Era uma explicação que não fechava a questão do chá, mas abria outra: quanto tempo exatamente Luzia sangrou antes de Ana chegar? A segunda hipótese era Tobias.
Se o rapaz dizia ter saído ao entardecer e só bateu às 10, então a demora podia ser dele e a culpa da vila estava mal colocada em cima de Ana, quando devia estar em cima de um camarada que parou no caminho. Quem sabe numa venda, numa moça, numa cachaça. Joaquim pensou nisso durante dois dias, gostou da ideia e, pior, achou que a resolvera.
Foi ao engenho, encontrou Tobias sozinho, encostado numa cerca, e disse, sem preparo nenhum: “Você não foi direto chamar a Ana. Parou no caminho.” O rapaz ficou branco como cal. “Fui direto, seu Joaquim”, disse. E a voz saiu rachada. “Juro por Deus. Por favor, não fale nisso.”
E, antes que Joaquim pudesse dizer outra palavra, Tobias tinha largado o que segurava e saído quase correndo morro acima. Nos três dias seguintes, ninguém o viu na fazenda. Contaram que tinha ido ao sítio da mãe com uma febre repentina. Joaquim ficou com as mãos vazias e uma sensação ruim no estômago. Em vez de ajudar Ana, tinha assustado a única pessoa que talvez pudesse falar.
Aprendeu ali uma coisa que o ofício já lhe ensinara com os animais: a gente não arrebata uma confiança à força, do mesmo jeito que não se puxa um casco assustado. E foi nessa mesma semana que a vila começou a lhe cobrar o preço da curiosidade. Primeiro foi Nicanor, com a cara cheia de simpatia, avisando que o carvão que Joaquim costumava encomendar estava “atrasado, sem data”.
Depois, o pai de Mateus apareceu na oficina, de chapéu na mão e olhos no chão, para dizer que o rapaz estava fazendo falta em casa. Que a roça precisava dele, que o senhor Joaquim “compreendesse”. Joaquim compreendeu. Compreendia sempre. E, numa tarde de sol fraco, quando o fogo do forno já estava no ponto, viu chegar pela estrada da fazenda um cavalo branco. E nele, o próprio Domingos Vilela.
O fazendeiro apeou, cumprimentou com cortesia, elogiou o serviço das foices da última safra e perguntou pelo preço da nova remessa de arados. Falou de trigo, de chuva, de gado. Depois, com a mesma calma, como quem comenta a lama do chão, disse: “Me contaram que o senhor anda fazendo perguntas por aí”.
Joaquim não respondeu. Domingos olhou o telhado da oficina, a bigorna, o fole. “Essa oficina fica em terreno meu, seu Joaquim. Eu nunca reclamei do aluguel, nem do atraso. Ferreiro que se mete em conversa de vila costuma acabar com o fole sem fogo.” Sorriu de leve. “Estou só dizendo. Como quem conversa.”
Quando o cavalo branco sumiu na curva, as mãos de Joaquim tremiam tanto que ele precisou segurar o martelo com as duas. Ficou parado um longo tempo, olhando o ferro esfriar. Podia largar tudo. Ninguém no mundo o censuraria por isso. Ele não devia nada a Ana, nunca tinha sido amigo dela e já tinha dado a sua sentença em voz alta no dia da notícia.
Bastaria voltar a martelar. Foi o que fez. Durante uma semana inteira. E, durante uma semana inteira, o barro vermelho continuou grudado na sua cabeça. Ana, por sua vez, não esperava por ninguém. Numa madrugada de meados de março, acordou muito antes do sol, colocou um xale e foi sozinha até o cemitério.

Levava uma ramagem de flor de quaresma, das que crescem no fundo do quintal. Ficou diante da sepultura de Luzia, de terra ainda fofa, e conversou com ela em voz baixa, como fazia com as mães no fim de cada parto, quando o corpo já estava sossegado e não havia mais ninguém no quarto.
Disse que tinha feito o que sabia, disse que sentia muito, disse que a menina, pelo menos, tinha nascido viva e com boa voz. Quando se virou para ir embora, viu Honório Vilela parado no caminho de cascalho. Com o chapéu na mão, olhos vermelhos de quem não dormia havia semanas. Era um moço de 26 anos, robusto, de fala mansa, que nunca tinha dito uma palavra ruim a ninguém.
Os dois ficaram se olhando. Ana pensou em ir embora sem falar. Ele pensou em passar sem cumprimentar. Nenhum dos dois conseguiu. “Minha mãe diz que a senhora demorou”, disse Honório, quase sem forças. “Me chamaram depois das 10, seu Honório”, respondeu Ana num fio de voz, sem defesa nem acusação. “Eu saí na mesma hora.”
Ele piscou. “Meu pai disse que foi ao entardecer.” “Seu pai foi quem disse.” Houve um silêncio comprido, com o vento mexendo as flores de plástico da sepultura vizinha. Honório abriu a boca, fechou de novo. Por fim, baixou a cabeça e passou por ela sem dizer nada. Mas Ana, que sabia ler o rosto de um homem que acaba de ouvir uma coisa que não quer ouvir, entendeu que ali tinha plantado alguma coisa. Uma semente pequena, do tamanho de uma dúvida.
Cabia a ele regá-la ou pisar em cima. Duas semanas depois, o padre Ambrósio bateu à porta de Ana, acompanhado de Nicanor. Estavam constrangidos, como quem vai buscar uma dívida que não é sua. Trouxeram uma proposta, e o padre a expôs com a delicadeza de quem embrulha um tijolo em papel de seda. “Dona Ana tinha uma irmã em Oliveira, não tinha?
Pois havia quem estivesse disposto a ajudá-la a se estabelecer lá com conforto: 200 mil-réis e uma casinha alugada por um ano. Bastava que partisse antes da Páscoa, sem alarde, e que deixasse a memória da vila descansar.” Nicanor, atrás, olhava a ponta das botas. “Quem manda essa oferta?”, perguntou Ana. “Pessoas de bem que se preocupam com a senhora”, disse o padre.
“Pessoas de bem que preferem me ver longe.” Ana ficou um momento em silêncio. Eram 200 mil-réis. Era mais dinheiro do que ela veria em três anos de ofício. E era também o fim da história, do jeito que os outros queriam. Ela pensou no baú, no quintal da irmã, no sossego. Depois, pensou em Luzia, na terra fofa, na menina viva. “Padre”, disse, “se eu errei, quero saber onde.
Se não errei, dinheiro nenhum paga o que estão me tirando. Diga a quem o mandou que não vendo o meu nome.” O padre suspirou e não insistiu. Era um homem bom, no fundo, e, por isso mesmo, dava pena. Sabia que aquilo era errado, sabia que devia dizer. E havia uma hierarquia inteira de fazendas, dízimos e conveniências que lhe fechava a boca.
Ana viu isso nos olhos dele e sentiu, pela primeira vez em semanas, algo mais parecido com compaixão do que com mágoa. Uma comunidade pode cometer uma injustiça sem que todos sejam cruéis. Basta que cada um tenha um motivo pequeno para se calar. Naquela noite, Ana desfez o baú. Foi no fim de abril, já com os primeiros dias de frio seco, que Anselmo, o marido de Ceiça, bateu na porta de Ana de madrugada. Com o chapéu amassado nas duas mãos.
Não conseguiu olhar para ela. “Dona Ana”, disse, “a Ceiça está com dor. É o quarto. Não tem ninguém. A comadre está fora. A senhora… A senhora me desculpe vir assim.” Ana já estava pegando o xale. Não perguntou nada, não fez o discurso que qualquer pessoa no mundo teria o direito de fazer. Colocou a bolsa de pano no ombro, acendeu o lampião e caminhou ao lado dele, no escuro, até a casinha da colônia.
O parto foi longo e limpo. Ceiça pariu um menino saudável ao nascer do dia. E Ana o envolveu numa manta e o pôs no peito da mãe. E só então percebeu que a mulher chorava sem barulho, com o rosto virado para a parede. “A senhora não me perguntou nada”, disse por fim. “Não era hora.” “Eu fui covarde, dona Ana.”
Ceiça enxugou o rosto com o dorso da mão. “Eu estava lá naquela noite, na cozinha, na lavagem. Eu vi. Eu sei a hora que a moça começou a passar mal e sei a que horas mandaram chamar a senhora. E não foi ao entardecer. Eu lavei os lençóis na tarde, ainda com sol, e eu tive que ficar calada. O Anselmo perde a casa, o engenho, tudo.
Eu tenho três filhos. Agora quatro.” Ana ficou um bom tempo com a mão no ombro dela. Havia naquele quarto de teto baixo uma escolha. E Ana a percebeu com nitidez. Podia pedir, podia exigir. Ceiça lhe devia, se fosse o caso de fazer contas, mais do que se devia a qualquer pessoa. Bastava dizer uma palavra, e a verdade sairia dali, entre lágrimas, para a vila inteira. E a casa de Ceiça dias depois estaria vazia.
“O que a senhora fizer com isso é seu”, disse Ana devagar. “Eu não vou usar contra ninguém. Descanse. E a senhora?” “Eu vou para casa dormir.” Mas não foi direto. Passou pela oficina de Joaquim — cujo fogo já estava aceso, apesar da hora — e ficou parada na porta, sem entrar. Os dois mal tinham trocado três palavras na vida.
“Seu Joaquim”, disse Ana, “dizem que o senhor anda fazendo perguntas.” Joaquim largou o martelo. “O rapaz, Tobias”, continuou ela. “O senhor perguntou a ele como quem cobra. Pergunte de novo como quem quer ajudar. E não pergunte na fazenda.” E foi embora sem esperar resposta, deixando-o com a sensação de ter sido ao mesmo tempo repreendido e nomeado.
Uma coisa que ninguém explica sobre as verdades difíceis é que raramente chegam de uma vez. Chegam em pedaços e cada pedaço, sozinho, parece nada. Foi por isso que a última peça veio de onde Joaquim esperava: de um menino de 9 anos. Zezinho, o filho mais velho de Ceiça, tinha o hábito de ficar na oficina, sentado num caixote, olhando as fagulhas subirem.
A mãe deixava. A oficina era o único lugar da vila onde o menino ficava quieto. Naquela tarde, com a novidade do irmãozinho em casa, Zezinho falava mais que de costume. E enquanto Joaquim temperava uma enxada, contou, sem saber o que contava, que a mãe tinha ficado muito nervosa naquele “dia da moça da fazenda”.
“Ela lavou o lençol no tanque de tarde, antes de escurecer”, disse o menino. “A água ficou vermelha igual ferrugem. Ela chorou e mandou eu não falar.” Joaquim não se mexeu. O ferro na tenaz foi esfriando devagar e ele não deu por isso. Lençol com sangue na tarde, antes de escurecer. Ninguém lava sangue às 3 da tarde de uma coisa que começou às 7 da noite.
Foi então que as peças todas de uma vez se encaixaram. E se encaixaram com tanta clareza que ele ficou espantado de ter demorado. Ao meio-dia, Tobias passou a galope pela porta da oficina na direção da serra. Com a égua de ferradura frouxa. O barro vermelho no casco. As 4 horas que faltavam entre o suposto entardecer e as 10 da noite de que Filomena se lembrava. O sangue na tarde. O rapaz branco de medo dizendo “fui direto” e fugindo.
E a pergunta de Sá Cândida: “Quanto tempo exatamente Luzia sangrou antes de Ana chegar?” Ou seja, a história da vila só podia ser verdadeira se Tobias tivesse gastado 4 horas numa estrada de 1 hora e meia. E o barro dizia outra coisa. Dizia que Tobias tinha estado sim na estrada, mas na outra. Dizia que, se a moça já sangrava à tarde, o chamado à parteira não tinha demorado por culpa da parteira.
O chamado tinha sido feito por último, depois de uma outra tentativa. Uma tentativa que precisara de uma égua boa, de um rapaz de confiança, de um dia inteiro. Alguém tinha mandado buscar o doutor. Não foi Joaquim quem encontrou o rapaz. Foi o rapaz que o encontrou uma noite à porta da oficina, depois de andar em círculos durante horas. E ali, sem coragem de entrar, falou. Joaquim ouviu sentado no caixote, sem interromper: “Foi Ana quem tinha acertado.” Ele reconheceu sem amargura. Perguntar como quem cobra fazia o homem se fechar. Escutar como quem cuida fazia a verdade escorrer. Contou Tobias que, ao meio-dia daquela terça-feira, quando Luzia já sofria desde a madrugada, seu Domingos mandou selar a Estrela e lhe disse: “Vá buscar o Dr. Rolim em Santana e não volte sem ele.” Dona Estela pedira, ao amanhecer, que chamassem a Ana. Que era de confiança, que conhecia a moça.
Domingos negou. Gente do tamanho dos Vilela, disse, não entregava nora à parteira de vila enquanto houvesse doutor formado num raio de 20 léguas. “Era questão de nome e de zelo”, ele achava. Tobias galopou até Santana. Chegou às 2:30 e soube pela mulher do doutor que ele saíra para atender numa fazenda e só voltaria ao fim da tarde. Esperou.
O Dr. Aristides Rolim apareceu às 5, cansado, e ouviu o recado. Disse que o córrego da Cachoeirinha estava cheio e que atravessar de noite era loucura. Que iria na manhã seguinte, bem cedo. Tobias voltou. Chegou à fazenda ao redor das 8:30, ensopado, com a égua quase caindo. “Foi só então”, contou o rapaz, “que Domingos, de rosto cinzento, mandou: ‘Vá chamar a Ana!'” E acrescentou baixo, com o dedo apontado:
“‘E não diga a ninguém que mandamos buscar o doutor primeiro. Quem perguntar: foi ao entardecer. Ninguém precisa saber o resto. Sua mãe mora numa casa minha, lembre-se’.” “Tobias pegou uma mula porque a égua não aguentava mais e foi bater à porta de Ana pouco depois das 10. Eu devia ter falado”, disse o rapaz, de cabeça baixa.
“Mas eu tinha medo.”
Joaquim ficou calado muito tempo. Depois, muito devagar, tirou o avental de couro e pôs a mão no ombro do moço. “Medo não é mentira”, disse. “Medo é medo. Mas amanhã você vai ter que dizer isso diante de alguém que precisa ouvir.” Aqui, uma pausa para pensar como certas coisas são sutis. Repare que ninguém naquela história, a rigor, matou Luzia.
Talvez ela tivesse morrido de qualquer jeito, ainda que Ana fosse chamada ao amanhecer. A verdade é que isso ninguém sabe e ninguém saberá. O que se sabia agora era outra coisa. Foi escolhida uma espera. Foram 10 horas de dor e de sangue entregues a um doutor que não veio. Por orgulho, por nome de família, por vaidade de quem prefere perder uma nora a admitir que precisa de uma parteira.
E, quando a espera terminou em tragédia, o mais fácil para todos os envolvidos foi pôr a culpa em quem chegou depois. A culpa, dizem, é como a água: procura sempre o ponto mais baixo. E o ponto mais baixo daquela vila era Ana. Foi ao amanhecer de uma sexta-feira que Joaquim subiu à fazenda Boa Esperança. Não pela porteira da frente, mas pelos fundos, onde Honório costumava passar as manhãs com a filha nos braços.
Levava consigo Tobias, que ia calado, com as mãos suando. Joaquim, que tinha ensaiado várias vezes o que diria, chegou lá e disse apenas: “Seu Honório, o senhor precisa ouvir uma coisa, mas precisa ouvir com seu pai presente.” Honório olhou para ele, para o rapaz, para o chão. Pôs a menina no colo de uma ama e disse: “Vamos à varanda.”
Foi ali, entre as samambaias e a rede de dormir, que a história foi contada de novo na frente de todos. Domingos, sentado na cadeira de balanço, com a bengala entre os joelhos. Dona Estela, de pé junto ao parapeito, os dedos enroscados no pano do vestido. Honório de costas para a paisagem, Joaquim e Tobias diante deles.
O rapaz falou. Falou tudo, desde o meio-dia até as 10, da égua, do doutor, do córrego, do recado. Quando terminou, a varanda ficou inteira em silêncio. Só se ouvia o vento nas folhas. Domingos foi o primeiro a falar, com uma voz que parecia intacta. “O rapaz está confuso. Um ferreiro põe ideia na cabeça de um camarada e ele repete: ‘Eu esperei o doutor, porque doutor é quem sabe.
Se Deus levou minha nora, não fui eu.'” “O senhor esperou 10 horas”, disse Honório, muito baixo. “E depois disse ao povo que a dona Ana demorou.” “Eu não menti. Disse que chamei ao anoitecer.” “O senhor chamou às 8:30, às 10 ela foi avisada. Isso o senhor sabe, pai. Eu não disse que…” “Pai.” Honório não gritou. Nunca gritava. “Diga se é verdade ou não.”
O velho abriu a boca e não encontrou nada dentro. Ficou olhando a ponta da bengala com o rosto endurecido. E foi então que dona Estela falou: Sua voz saiu seca, quebradiça, como de quem carrega uma coisa pesada há muito tempo e finalmente a solta. “O chá”, disse. “Eu vi as folhas na bolsa dela. Depois eu vi o copo.
Se não foi aquilo, então…” E parou, porque a frase ia para um lugar em que ela não queria entrar. “Mãe”, disse Honório, virando-se para ela. “A senhora sabia do doutor?” A velha o olhou por um longo momento e depois, muito devagar, baixou os olhos.
“Sabia”, disse. Ninguém disse mais nada. Foi um daqueles silêncios em que se ouvem as coisas caírem por dentro. Dona Estela, que tinha pedido a Ana ao amanhecer e obedecido a Domingos ao meio-dia, precisava que o culpado fosse o chá. Porque o outro culpado, o verdadeiro, era ela mesma. Era o marido dela, era a espera em que ela consentira. Não era maldade, era o modo que a dor encontrou de continuar de pé. E a gente, que vê de fora, quer odiar, mas sente uma pena confusa porque reconhece, em alguma parte, o próprio jeito de se enganar.
Foi no domingo seguinte, depois da missa, que Honório Vilela fez o que ninguém esperava. Não foi ao encontro de Ana, não escreveu o recado. Parou nos degraus da igreja com o chapéu na mão, a menina no braço. E quando a vila inteira ainda estava por ali, comentando o sermão, pediu a palavra. “Minha mulher morreu de uma espera”, disse.
E a voz tremeu duas vezes antes de firmar. “E a espera foi da nossa casa. Dona Ana Correia chegou quando foi chamada. E foi chamada tarde demais por quem devia tê-la chamado cedo. Quem disse outra coisa, disse errado. E eu fiquei calado quando podia ter perguntado. Peço perdão a ela diante de todos vocês.”
Contam que ninguém se mexeu. Ana estava no fundo, junto a um pilar, com o xale nos ombros. Sentiu os olhares da vila inteira virarem devagar, como girassóis, e pesarem sobre ela. Caminhou até os degraus a passos lentos, sem pressa e sem arrogância. E parou diante de Honório. Olhou a menina, que dormia.
“Eu cheguei tarde, seu Honório”, disse com clareza. “Isso é verdade e eu não escondo. Se eu tivesse chegado às 8 ou ao meio-dia, se sua mulher viveria, ninguém neste mundo pode dizer. Mas eu não cheguei tarde por escolha minha. Recebo suas palavras. O perdão, o tempo é que vai dizer. Sua mulher era valente.”
Foi Ceiça quem falou em seguida. Saiu do meio das mulheres com o bebê enrolado numa manta e o marido ao lado, com o rosto lívido. “Eu estava na cozinha naquela noite”, disse ela. “Eu vi os lençóis. Eu vi a hora. Eu devia ter falado antes e eu me calei porque tinha medo de perder a casa. Não tenho orgulho disso.
Mas Ana foi quem tirou o meu filho do cordão. E ela não foi chamada quando disseram.” Anselmo, ao lado, engoliu em seco e ficou olhando para o chão. Nicanor, que estava perto do portão, deu um passo à frente. “Eu só repeti o que ouvi”, disse, e havia um traço de queixa na voz, como quem se sente injustiçado. Ninguém respondeu.
Um homem que só repete o que ouviu jamais se acha culpado. Embora seja justamente essa gente que carrega a mentira de casa em casa, como quem entrega recado sem ler. E Domingos Vilela, de pé no alto dos degraus, com a bengala firme, não pediu perdão a ninguém. Disse apenas com um fio de voz que quase ninguém ouviu: “Meu filho não está em juízo.”
E Honório, sem se virar, respondeu: “Fora de juízo eu estive quando me contaram.” Agora escute como as coisas costumam terminar, que é bem diferente de como as histórias gostariam. Domingos, dias depois, mandou dizer a Joaquim que a oficina teria de sair do terreno dele até o fim do ano. E mandou despedir Anselmo do engenho sem explicação.
Contam que Honório, que a essa altura já tomara as contas da fazenda nas mãos, desfez uma das duas ordens. Anselmo voltou ao trabalho e a casa da colônia continuou de pé. A outra ficou de pé também, porque nem mesmo o filho conseguiu pôr o pai de joelhos dentro de casa. Joaquim vendeu o fole velho, comprou um mais novo com o que tinha e montou a oficina no fundo de um barracão emprestado, perto do vale do rio, onde passava mais gente.
O trabalho da fazenda nunca mais voltou, mas outros voltaram e outros vieram. E no fim, Joaquim descobriu que se vive bem com a metade do que se tinha, desde que se durma em paz. Domingos Vilela nunca disse a palavra que Honório esperava. Viveu mais uns anos, contam, cada vez mais calado, cada vez mais preso ao mesmo raciocínio: o de que fizera o que devia.
Era esse o preço dele, a certeza de nunca ter tido culpa, que é uma companhia difícil de aguentar sozinho, à noite, num quarto de fazenda. Dona Estela, por sua vez, adoeceu do coração e passou a maior parte daquele ano numa cadeira, junto à janela do quarto da neta. Foi ela quem, numa tarde de junho, apareceu à porta de Ana. Chegou de carro de boi, coisa que ninguém lembrava de tê-la visto fazer, apoiada no braço de uma criada. E ficou parada no pequeno terreiro.
Ana abriu a porta e não disse nada. Dona Estela olhou para dentro da casa, para a mesa de cozinha, a chaleira, as flores de quaresma num copo. “Eu não vim pedir perdão”, disse com dificuldade. “Não sei se sei pedir. Faz muito tempo que eu não peço nada a ninguém. Só vim porque a menina está com uma febre, coisa de dente, e a criada acha que é a hora. E eu… eu não sei mais quem chamar.”
Ana a olhou por um tempo longo. Havia ali, diante dela, uma velha de rosto cavado que tinha lhe virado as costas no enterro da nora. Havia todas as palavras que Ana poderia dizer e que teria todo o direito de dizer. “Eu também não sei como se dá o perdão, dona Estela”, disse por fim. “Mas sei sentar ao lado de uma criança com febre.
Espere que eu pego minha bolsa.” Não foi um perdão, note bem. Foi um começo. E começo é coisa diferente. A menina ficou boa em dois dias. Dona Estela nunca falou do assunto, mas passou a mandar um cesto de milho todos os meses à casa de Ana, sem bilhete, e Ana o recebia sem falar.
As mulheres da vila voltaram devagar, cada uma a seu tempo. Umas na primeira semana, com os olhos baixos, dizendo que estavam com dor de cabeça. Outras só depois de meses, quando o primeiro parto da temporada foi mais difícil do que elas queriam admitir. Algumas nunca voltaram e Ana aprendeu a não contar essas.
Nicanor jamais se desculpou, mas, numa manhã de setembro, sem uma palavra, pesou o açúcar dela pelo preço de sempre, e o “fiado” discretamente voltou a existir. A vila é assim: ninguém pede perdão em voz alta, mas as coisas vão voltando aos poucos ao lugar onde estavam antes, embora nada fique exatamente do mesmo jeito.
Quanto a Joaquim e Ana, os dois jamais tiveram conversa comprida sobre aquilo e nunca foram mais que vizinhos de estrada. Mas houve uma tarde em que Ana chegou ao barracão com a faca de cortar cordão embotada de tanto uso e pediu que ele a amolasse. Joaquim afiou devagar, com o cuidado de quem conserta uma coisa que sabe que vai salvar alguém, e devolveu.
Ana tirou uma moeda da algibeira. Ele disse que não. Ela pôs a moeda na bigorna, do jeito que se paga a qualquer um. “O preço de sempre, seu Joaquim”, disse. E ele, depois de um instante, aceitou. Porque a dignidade, às vezes, é isto: recusar um favor que humilha e aceitar um pagamento que honra.
Eu lhe digo uma coisa e não é sermão. Descobrir a verdade naquela vila foi trabalho de um ferreiro, de um camarada com medo, de uma velha que costurava à janela e de uma lavadeira que teve coragem tarde. Mas reconhecer a verdade, ah, isso foi trabalho de todos, e nem todos o fizeram. Há quem enxergue o erro e prefira o conforto de continuar no lado da maioria.
Há quem admita e, admitindo, sofra o preço. E há quem, como Ana, depois de tudo, decida ficar e continue abrindo a porta de noite, mesmo sem ter certeza de quem vai bater. E você, o que teria feito no lugar de cada um? Teria batido às nove portas ou teria pegado o baú e partido? Teria falado, como Ceiça, mesmo tarde, ou se calado, como tantos? Se quiser, conte aqui nos comentários qual personagem mais lhe tocou ou o que faria diante da condenação de Ana.
E, se este causo lhe fez companhia, fique por aqui. Siga a página, que ainda tem muita história do velho interior esperando a sua hora de ser contada. Até a próxima varanda.