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A Menina Sem Nome: O Cr1m3 Que Chocou Pernambuco e o Mistério Que Permanece Até Hoje

O resto

De acordo com as conclusões do laudo, a criança teria sido assassinada entre as 20 horas e 21 horas da noite anterior. Uma das primeiras constatações dos legistas foi a ausência de indícios de violência sexual. A causa da morte, no entanto, revelou a brutalidade do assassinato. A menina morreu em decorrência de asfixia por estrangulamento e sufocação.

Segundo o laudo, o autor do crime utilizou uma corda para apertar o pescoço da vítima, dando três voltas ao redor da região e prendendo-a com um único nó na nuca. Os exames também indicaram que o rosto da criança foi pressionado contra a areia. A presença de areia foi identificada no nariz e em órgãos como a laringe, a traqueia e os pulmões.

Por outro lado, não havia água nos pulmões, o que descartou a hipótese de afogamento. Os peritos encontraram ainda diversos ferimentos provocados por instrumento cortante na região do pescoço e das costas. De acordo com o próprio laudo, as lesões foram produzidas quando a menina ainda estava viva e teriam sido utilizadas para torturar e atemorizar a vítima.

Outro ponto destacado pelos legistas foi a ausência de sinais de defesa. Nada indicava que a criança tivesse conseguido reagir ao ataque. Durante o exame das vísceras, os médicos encontraram uma informação que posteriormente despertaria a atenção dos investigadores. O estômago da menina continha grande quantidade de alimentos ainda não digeridos.

Entre eles, farinha de mandioca, feijão, verduras e alimento em conserva. A descoberta chamou a atenção porque, próximo ao local onde o corpo foi encontrado, havia uma lata de sardinha aberta e vazia. Enquanto os peritos analisavam os vestígios e os médicos legistas tentavam reconstruir as últimas horas de vida da vítima, surgia o primeiro nome de interesse para a investigação.

Naquela mesma manhã, Arlindo José da Silva, conhecido como “Galego”, de 21 anos, proprietário de uma barraca de cocos instalada nas proximidades da cena do crime, procurou o comissariado do Pina para comunicar a descoberta do corpo da menina. O agente da delegacia de homicídios, Paulo Barbosa, responsável pelas primeiras diligências no caso, solicitou que Arlindo o acompanhasse até a delegacia para prestar mais esclarecimentos.

Ao receber o pedido, Arlindo demonstrou nervosismo e se recusou a seguir com o policial. Diante da recusa, o agente não insistiu, mas determinou que ele comparecesse à Secretaria de Segurança Pública no dia seguinte. Em seguida, Paulo realizou uma nova vistoria pela praia. Quando retornou à barraca de cocos, percebeu que Arlindo já não estava mais no local.

O agente então foi até o barraco onde Arlindo morava. Lá, notou que ele havia trocado de roupa. Apesar da observação, deixou o local sem fazer qualquer comentário. Por volta das 15 horas, o agente decidiu procurar novamente por Arlindo. Ao chegar ao local, foi informado de que ele havia saído para se apresentar à polícia, mas que havia deixado um embrulho sob os cuidados de uma lavadeira chamada Elinette, conhecida como “Misturinha”.

Diante da informação, a mulher abriu o pacote na presença do policial. No interior, havia uma calça de cor cinza pertencente a Arlindo. Ao examiná-la, Paulo constatou a existência de manchas que aparentavam ser de sangue. O agente recolheu o embrulho e o encaminhou à Secretaria de Segurança Pública. Naquele momento, a peça passou a ser considerada a primeira evidência material reunida pela investigação policial.

A lavadeira contou que a calça estava suja de sangue e que Arlindo pediu pressa na lavagem. A calça foi encaminhada ao Instituto de Polícia Técnica para exames periciais. No mesmo local, os peritos analisavam o lenço, os chinelos, a blusa e o cinto encontrados em uma área próxima de onde estava o corpo da criança.

Pouco tempo depois, Arlindo foi preso e conduzido à delegacia de homicídios, responsável pela investigação do caso. Durante o interrogatório, os policiais questionaram o paradeiro da calça comprida que ele afirmava ter usado na noite anterior. Arlindo respondeu que havia entregado a peça a uma lavadeira que morava no bairro do Bode, vizinho ao Pina.

Um detalhe chamou a atenção dos investigadores. O policial responsável pela prisão afirmou que, no momento em que Arlindo foi detido, ele não usava cinto. Naquele momento, a polícia ainda não possuía uma prova concreta que ligasse Arlindo ao assassinato da menina. Ainda assim, os investigadores acreditavam ter reunido uma série de circunstâncias consideradas suspeitas.

Segundo o jornal Diário da Noite, em edição publicada em 26 de junho de 1970, atrás da barraca de cocos de Arlindo havia sido cavado um buraco. Nas proximidades foram encontrados um par de sandálias e um cinturão que passaram a ser analisados pela perícia. O comportamento do barraqueiro também chamou a atenção das autoridades.

De acordo com a reportagem, Arlindo demonstrava nervosismo sempre que o assunto era a morte da menina, chegando a gaguejar durante algumas conversas sobre o caso. Enquanto isso, Arlindo continuava negando qualquer participação no crime. No entanto, segundo os investigadores, suas declarações apresentavam contradições que passaram a levantar ainda mais suspeitas sobre seu envolvimento no caso.

Na tarde de 26 de junho, Arlindo foi novamente interrogado pelo comissário José Gomes de Barros. Durante o depoimento, afirmou que realmente havia encontrado o corpo da menina na praia, mas disse que preferiu não observá-lo de perto, porque ficava nervoso em situações daquele tipo. No entanto, em outro momento do interrogatório, declarou que as cordas encontradas amarradas ao pescoço da criança não eram do mesmo tipo das que utilizava em sua barraca.

A afirmação chamou a atenção dos investigadores. Afinal, se Arlindo realmente não havia observado o cadáver como alegava, de que forma poderia saber quais eram as características das cordas utilizadas no crime? Essa aparente contradição passou a ser vista pela polícia como mais um elemento que enfraquecia sua versão dos fatos.

Outra contradição chamou a atenção dos investigadores durante os depoimentos. Arlindo afirmou que não tinha o hábito de consumir bebidas alcoólicas. No entanto, Osvaldo, um menino de 11 anos que trabalhava em sua barraca, declarou ter presenciado diversas vezes o patrão ingerindo cerveja. Ao ser confrontado com a informação, Arlindo tentou minimizar a declaração do garoto, afirmando que Osvaldo não era seu empregado, mas sim seu sócio.

A justificativa causou estranheza aos investigadores. Além de Osvaldo ter apenas 11 anos de idade, o próprio menino havia se apresentado anteriormente como empregado da barraca. A divergência passou a ser vista como mais uma inconsistência nos relatos prestados por Arlindo ao longo da investigação. Osvaldo compareceu à delegacia acompanhado de sua mãe, Amélia, que também foi ouvida pelos investigadores.

Em depoimento, Amélia contou que estava separada do marido havia cerca de 11 anos. O casal teve 10 filhos, todos criados por ela no bairro do Pina, onde mantinha um pequeno bar e restaurante de sua propriedade. Ela afirmou que, na noite de 22 de junho, não percebeu que Osvaldo havia passado a noite fora de casa devido aos muitos afazeres do estabelecimento.

Ainda assim, acreditava que o filho estivesse dormindo na barraca de cocos onde trabalhava. Amélia também confirmou ter tomado conhecimento de que o menino havia levado uma lata de sardinha e uma porção de farinha naquela noite. Segundo seu relato, na manhã seguinte, enquanto se preparava para sair e comprar bebidas para o comércio, foi surpreendida pela chegada de Arlindo.

Ele informou que estava a caminho da polícia porque uma pessoa havia sido encontrada morta próximo à sua barraca. Preocupada com o paradeiro do filho, Amélia perguntou onde Osvaldo estava. Arlindo respondeu que o menino havia passado a noite na barraca e permanecia no local tomando conta do estabelecimento. Amélia declarou ainda que conhecia Arlindo havia apenas alguns meses e, por esse motivo, não possuía informações sobre sua vida anterior ou possíveis antecedentes criminais.

No dia 23, ela questionou Osvaldo sobre os acontecimentos da noite anterior. O filho respondeu que havia levado a sardinha e a farinha para que ele, Arlindo e um homem conhecido como “Índio” pudessem jantar. Segundo Osvaldo, enquanto comiam, Arlindo e Índio comentavam sobre a possibilidade de encontrar alguma mulher que passasse pela praia naquela noite.

O garoto afirmou que fingia estar dormindo, mas permanecia atento ao que acontecia. Disse ainda que observou os dois homens olhando constantemente para a praia, como se aguardassem a passagem de alguma mulher. Amélia também revelou aos investigadores que, pouco antes do crime, Arlindo havia adquirido duas cordas. Segundo ela, essas cordas eram semelhantes às encontradas junto ao corpo da menina.

Ainda de acordo com o que ouviu do filho, na manhã seguinte, Índio lhe disse que havia uma menina enforcada na praia. Curioso, Osvaldo foi até o local e encontrou policiais preservando a área. O corpo estava coberto por uma toalha, mas, em determinado momento, um agente retirou a cobertura para mostrá-lo a uma mulher que havia solicitado ver a vítima.

Foi assim que o garoto afirmou ter visto o cadáver. Por fim, Amélia declarou que, diante de tudo que Osvaldo lhe contou, decidiu acompanhá-lo à delegacia para prestar esclarecimentos às autoridades. Osvaldo tinha apenas 11 anos de idade, mas foi considerado pelos investigadores uma criança bastante desenvolta para a idade.

Em depoimento, ele reafirmou que a sardinha e a porção de farinha seriam utilizadas em seu lanche e no de outras pessoas que estavam na barraca. Entre elas, Arlindo e um indivíduo conhecido como Índio. A informação chamou a atenção da polícia porque, durante o exame cadavérico, os peritos encontraram no estômago da menina fragmentos de sardinha e vestígios de farinha.

Diante desses elementos, o agente José Gomes de Barros passou a questionar a versão apresentada por Osvaldo. Na avaliação do investigador, uma pequena lata de sardinha dificilmente seria suficiente para alimentar tantas pessoas. Por essa razão, levantou a hipótese de que o alimento pudesse ter sido destinado à criança encontrada morta no dia seguinte.

Outra circunstância considerada suspeita pelos investigadores era o fato de Osvaldo ter dormido na barraca de Arlindo naquela noite, algo que, segundo ele próprio, jamais havia acontecido antes. Enquanto aprofundavam essa linha de investigação, o comissário José Gomes de Barros e o agente Milton Marques encaminharam um ofício à delegacia de menores, solicitando apoio para tentar identificar a vítima.

A expectativa era de que alguma criança ou adolescente acolhida em instituições da região pudesse reconhecer a menina ou fornecer informações sobre sua origem. Com base nos depoimentos e nos elementos reunidos até aquele momento, os investigadores também passaram a considerar a possibilidade de que Osvaldo tivesse sido utilizado para atrair a criança até a barraca de Arlindo, inclusive oferecendo alimento para ganhar sua confiança.

Naquele momento da investigação, o garoto era considerado uma testemunha-chave para o esclarecimento do crime. Os investigadores passaram a acreditar que Osvaldo não estava revelando tudo que sabia sobre os acontecimentos da noite do homicídio. A principal hipótese era de que ele estivesse omitindo informações por medo de represálias do grupo ligado a Arlindo, que até então era o primeiro e único suspeito preso pelo assassinato.

Essa suspeita ganhou força diante das divergências observadas em seus depoimentos e da aparente preocupação do menino em não comprometer o patrão e as pessoas que conviviam com ele na barraca de cocos. O historiador e sociólogo Marcos Dornelas, pesquisador do Arquivo Público de Pernambuco, analisou a postura adotada por Arlindo durante a investigação.

Segundo Dornelas, o fato de Arlindo ter negado envolvimento no crime desde os primeiros interrogatórios ganhou relevância quando observado dentro do contexto da época. Em 1970, o Brasil vivia sob o regime militar. E, para o pesquisador, manter uma negativa diante da polícia exigia convicção. Arlindo sustentou a mesma versão desde o início das investigações.

O barraqueiro foi encaminhado para a prisão da Secretaria de Segurança Pública. Durante os interrogatórios, continuou negando qualquer participação no assassinato e afirmava, inclusive, que não era morador do Recife. Apesar das suspeitas que recaíam sobre ele, o delegado Artur de Freitas, titular da delegacia de homicídios, adotou uma postura cautelosa.

Determinou que Arlindo não fosse fotografado, nem apresentado oficialmente como autor do crime, enquanto sua participação não estivesse comprovada. Ao mesmo tempo, as investigações seguiam por outra frente, sem qualquer identificação da vítima. A polícia passou a pedir a colaboração dos moradores dos bairros do Pina, Boa Viagem e Prazeres.

As autoridades buscavam pessoas que pudessem reconhecer a menina ou fornecer informações sobre seus últimos dias de vida. Em 26 de junho, após intensas diligências realizadas nas praias do Pina e de Boa Viagem, os agentes da delegacia de homicídios chegaram à conclusão de que os familiares da criança provavelmente não residiam no Recife.

Diante dessa possibilidade, os investigadores passaram a trabalhar com a hipótese de que a menina tivesse vindo de alguma cidade do interior de Pernambuco. Na tentativa de identificar a vítima e localizar seus parentes, a polícia mobilizou autoridades de diversas regiões do estado, encaminhando informações a prefeitos, delegados e demais órgãos de segurança.

Além disso, as características físicas da menina foram divulgadas a motoristas de ônibus e caminhões que viajavam entre a capital e o interior. A expectativa era de que algum familiar, conhecido ou pessoa que tivesse informações sobre seu desaparecimento reconhecesse a descrição e procurasse as autoridades. Apesar dos esforços, a identidade da criança continuava um mistério.

Investigador e profundo conhecedor da dinâmica criminal da região, o comissário José Gomes de Barros passou a considerar a possibilidade de que o crime tivesse sido praticado por um grupo de jovens em situação de vulnerabilidade que costumava circular entre os bairros do Pina e de Boa Viagem. Para sustentar essa hipótese, o comissário se baseava em alguns elementos observados durante a investigação.

Um deles dizia respeito à forma como o corpo da criança foi abandonado na praia. Na avaliação dele, a maneira como o crime foi executado e a forma como o cadáver foi deixado na areia não condiziam com a conduta que ele esperaria de um criminoso adulto mais experiente. Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a corda encontrada no pescoço da vítima.

Segundo os relatos da época, o laço teria sido improvisado de maneira rudimentar, sem apresentar um nó adequado, o que reforçava a percepção de inexperiência por parte do autor ou dos autores do crime. Enquanto a identidade da menina permanecia desconhecida, novas informações começaram a surgir.

Segundo uma reportagem publicada pelo Diario de Pernambuco em 28 de junho de 1970, alguns moradores da Rua dos Navegantes, no bairro de Boa Viagem, relataram ter visto uma garota com características semelhantes às da vítima circulando pela região dias antes de sua morte. De acordo com esses relatos, ela estaria vendendo laranjas na companhia de um menino de aproximadamente 12 anos. Outra informação recebida pelo jornal apontava que a mesma criança teria sido vista pedindo esmolas na orla de Boa Viagem no domingo anterior ao encontro do corpo.

Testemunhas afirmaram que ela carregava algumas latas e pedaços de pão enquanto percorria a região. Diante dessas informações, a polícia ampliou as buscas e passou a investigar locais frequentados por crianças em situação de vulnerabilidade, tanto no Recife quanto em cidades do interior do estado. O objetivo era descobrir quem era a menina e localizar qualquer pessoa que pudesse fornecer pistas sobre seus últimos dias de vida.

A então Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, atual Secretaria de Defesa Social, sofria forte pressão para solucionar o caso. A morte da menina havia provocado grande comoção popular, e as autoridades buscavam identificar e prender o responsável o mais rápido possível. Durante uma semana, Arlindo permaneceu preso como o principal suspeito do assassinato, mas a investigação estava prestes a tomar um rumo inesperado.

Um novo suspeito surgiria no caso. Em 26 de junho, o mecânico Geraldo Magno de Oliveira, de 22 anos, morador do Pina e empregado de um frigorífico da região, foi preso por agentes da delegacia de homicídios. Segundo a polícia, ele havia confessado a autoria do assassinato da menina. Em depoimento, Geraldo afirmou que já conhecia a criança de vista.

Segundo sua versão, do local onde trabalhava, observava com frequência a passagem da garota, que costumava pedir esmolas nos bares da região e circulava pela Avenida Beira-Mar. Ainda de acordo com seu relato, na noite de 22 de junho, véspera de São João, sentia-se sozinho e decidiu caminhar pela praia. Por volta das 10 horas da noite, encontrou a menina e lhe fez uma proposta.

Geraldo contou que prometeu dar dinheiro à garota caso ela saísse com ele. Seu objetivo era praticar atos libidinosos com a criança. Na calçada da praia, ele mostrou à menina uma cédula de cinco cruzeiros e fez o convite. Em seguida, os dois desceram para a areia e seguiram até as proximidades de uma barraca de venda de coco verde.

Geraldo obrigou-a a despir-se. No entanto, ele insistiu que não havia estuprado a menina, versão que naquele momento encontrava respaldo nos exames periciais, que não identificaram sinais de violência sexual. Geraldo relatou que, após o encontro, decidiu não entregar o dinheiro prometido. Alegou que aquela era a única quantia que possuía para passar as festividades de São João.

Disse ainda que pretendia trocar a nota em um bar próximo e pediu que a garota aguardasse por alguns instantes. A menina, porém, teria se recusado a esperar. Segundo Geraldo, ela passou a exigir o dinheiro imediatamente e ameaçou contar às pessoas o que havia acontecido entre os dois. Ainda de acordo com seu depoimento, a garota começou a gritar e a ofendê-lo, chamando-o de “vigarista” e “velhaco”.

Foi nesse momento que, segundo sua narrativa, perdeu o controle. Dizendo-se ofendido em sua honra, convidou novamente a menina para acompanhá-lo até a beira da praia. Ali, tomado por um ódio que, segundo suas próprias palavras, “subia à cabeça e o dominava até os cabelos”, sacou um trinchete — uma espécie de faca utilizada para corte — e atingiu a garota com um golpe.

Sangrando, a menina caiu na areia. Geraldo afirmou que, em seguida, apanhou algumas cordas que encontrou em uma jangada próxima. Com elas, apertou o pescoço da criança e amarrou suas mãos para trás. Depois, empurrou o rosto da menina contra a areia e a manteve naquela posição por alguns minutos, até perceber que ela já não se movia.

Apesar disso, declarou aos investigadores que abandonou o local sem acreditar que a garota estivesse morta. De acordo com seu depoimento, não tinha a intenção de matá-la. Depois de praticar o crime, Geraldo se reuniu com amigos no Pina para beber. Embora o assassinato da menina já fosse assunto em todo o Recife, ele não comentou nada sobre o caso.

Sempre que o tema surgia, demonstrava incômodo e mudava de assunto. O comportamento chamou a atenção de Heleno José de Oliveira, seu amigo. Com o passar dos dias, Heleno começou a desconfiar que Geraldo pudesse ter alguma relação com o crime. Convencido de que Geraldo poderia estar envolvido no assassinato, Heleno compartilhou suas suspeitas com um grupo de amigos.

Entre eles estava Manuel Marques de Souza, agente da delegacia de costumes, que participava das investigações sobre a morte da menina. Para não levantar suspeitas, ele se apresentou aos demais como taxista. As informações chegaram ao delegado Mário Alencar, que decidiu ouvir Heleno. Durante o depoimento, Heleno detalhou os motivos que o levaram a desconfiar de Geraldo.

Heleno, que também morava no Pina, decidiu colocar suas suspeitas à prova. Convidou Geraldo para tomar alguns goles de aguardente e, de forma proposital, levou a conversa para o assassinato da menina. Enquanto falava sobre o crime, observava atentamente as reações do amigo, procurando identificar algum gesto que pudesse indicar seu envolvimento.

Mais tarde, Heleno explicaria que aquilo fazia parte de um plano. Segundo ele, tratava-se de uma espécie de teste, já que no bar havia um agente da delegacia de costumes acompanhando a conversa sem que Geraldo soubesse. Em determinado momento, o policial aproximou-se da mesa onde os dois estavam. Quando o assunto voltou a ser a morte da menina, Geraldo levantou-se, alegando que precisava ir ao sanitário, e deixou o local.

A atitude chamou a atenção do agente, que também passou a desconfiar dele. Já de madrugada, um pouco embriagado, Geraldo retornou para casa. Horas depois, agentes da delegacia de costumes chegaram para prendê-lo. Ele não ofereceu qualquer resistência. Ao perceber o motivo da presença dos policiais, limitou-se a dizer: “Isto não me surpreende, eu já esperava”.

Levado inicialmente para o comissariado da Avenida Caxangá, Geraldo foi interrogado e confessou o crime logo em seu primeiro depoimento. Na manhã de domingo, 28 de junho, Geraldo foi transferido para a cadeia da Secretaria de Segurança Pública, onde permaneceu à disposição do delegado de homicídios, Artur de Freitas.

Naquele mesmo dia, foi apresentado à imprensa durante uma entrevista coletiva realizada na delegacia de homicídios. Diante dos jornalistas, confessou o assassinato da criança e afirmou ter cometido o crime porque ela teria proferido palavrões imorais contra sua honra e sua pessoa. Durante a entrevista, respondeu a diversas perguntas.

Questionado há quanto tempo conhecia a garota, declarou que não fazia muito tempo e que costumava vê-la caminhando pela calçada da praia e pedindo esmolas. Ao ser perguntado sobre o nome e o endereço da criança, respondeu que nunca havia perguntado nem uma coisa, nem outra. Disse apenas que ela andava sozinha pela praia e que, em diversas ocasiões, a havia visto descendo de automóveis ocupados por playboys.

Por esse motivo, acreditava que a garota já estivesse marginalizada. Questionado se conhecia alguns desses homens, afirmou que não. Segundo ele, eram muitos e nenhum lhe era familiar. Quando perguntado se estava arrependido, respondeu que sim e declarou que preferia estar morto a ser chamado de criminoso. Em seguida, um repórter perguntou se ele tinha irmãs.

Geraldo respondeu que sim. A pergunta seguinte provocou desconforto: “Gostaria que alguém fizesse com sua irmã o que fez com a menina?” E a resposta dele foi curta. Disse apenas que sua irmã era prostituta. Ao falar sobre os dias que se seguiram ao crime, afirmou que, depois de saber da morte da menina, passou a pensar apenas na possibilidade de ser preso.

Antes disso, descreveu seu estado emocional como uma “ansiedade louca”. Em determinado momento, foi questionado sobre rumores de que seria “pederasta” — termo utilizado na época de forma ampla e muitas vezes preconceituosa para se referir a homens homossexuais ou acusados de manter relações sexuais com menores de idade. A pergunta interrompeu a aparente tranquilidade demonstrada até então.

Geraldo começou a chorar e passou a enxugar as lágrimas com a própria camisa. Na época, ele também havia sido acusado de ser homossexual por seu antigo patrão, Amaro Roque, proprietário de um posto de pesca no Pina. Apesar da confissão, a polícia não estava totalmente convencida. Os investigadores consideravam que parte da história apresentada por Geraldo continha elementos forjados e acreditavam que algumas explicações poderiam ter sido construídas previamente com o objetivo de justificar o crime.

Por isso, as investigações continuaram. Enquanto isso, a notícia da prisão provocava revolta em diversos bairros do Recife. Uma multidão chegou a esperar que a polícia realizasse uma reconstituição do assassinato, oportunidade que poderia resultar em uma tentativa de linchamento do suspeito. Diante do risco, a delegacia de homicídios decidiu cancelar a diligência.

Segundo o delegado Artur de Freitas, a reconstituição só seria necessária caso existissem dúvidas sobre a autoria do crime. Como Geraldo havia confessado o assassinato, a polícia considerou que o procedimento não era mais necessário. Geraldo passou a ser chamado como o “Monstro do Pina”. Na tarde de 28 de junho, também foram ouvidas testemunhas que assistiram ao depoimento prestado por Geraldo à polícia.

Todos afirmaram que ele não sofreu qualquer tipo de coação física durante o interrogatório. Outra testemunha descreveu Geraldo como uma pessoa dada à bebida e à mentira. Apesar disso, afirmou que ele costumava se comportar bem, mesmo quando estava embriagado. O depoente também declarou que Geraldo era conhecido na região como homossexual e que frequentemente era agredido por companheiros, que o espancavam por qualquer motivo.

Um detalhe, porém, chamou a atenção: questionado sobre os fatos relacionados ao crime, afirmou que tudo que sabia havia sido obtido por meio das notícias divulgadas pela imprensa. A declaração despertou dúvidas porque, conforme ficou demonstrado posteriormente, a testemunha não sabia ler. Entre as pessoas ouvidas pela polícia estava Amaro, o proprietário do frigorífico onde Geraldo trabalhava e frequentemente passava as noites.

Ele afirmou conhecê-lo havia muitos anos e traçou um retrato pouco favorável de sua personalidade. Segundo ele, o empregado era um homem de capacidade intelectual limitada, dado ao consumo excessivo de álcool, mentiroso e sem qualquer resquício de vontade própria. Na avaliação de Amaro, Geraldo era o tipo de pessoa capaz de assumir a responsabilidade por qualquer ato, fosse ele verdadeiro ou não.

Amaro relatou ainda que havia pelo menos 10 anos que Geraldo não possuía família nem residência fixa, vivendo de forma errante pela região. Disse também que ele bebia com frequência e costumava ser agredido por companheiros sem jamais reagir. Outro aspecto destacado por Amaro era a facilidade com que Geraldo admitia a culpa.

Segundo seu relato, bastava alguém apontar o dedo e afirmar que ele havia feito determinada coisa para que aceitasse a acusação sem contestação. Outras testemunhas ouvidas durante a investigação fizeram observações semelhantes, descrevendo Geraldo como uma pessoa de raciocínio limitado e com aparentes comprometimentos das faculdades mentais.

Arlindo foi colocado em liberdade na tarde de 29 de junho. Após deixar a prisão, demonstrou indignação com a lavadeira Elinette. Segundo ele, foi a declaração da mulher sobre uma calça supostamente manchada de sangue que levou a polícia a suspeitar de seu envolvimento no assassinato da menina. Com a investigação praticamente concluída, o delegado Artur de Freitas encaminhou o inquérito à Justiça em 2 de julho.

O documento foi enviado ao juiz da Vara Privativa de Homicídios, acompanhado de um pedido de prisão preventiva para Geraldo. Além das conclusões da delegacia de homicídios, o inquérito reuniu o laudo de exame cadavérico elaborado pelo Instituto de Medicina Legal e os depoimentos das testemunhas ouvidas durante a investigação.

Encerradas todas as diligências e esgotadas as tentativas de localizar familiares da menina sem qualquer resultado, o delegado Artur de Freitas autorizou o sepultamento da criança. A responsabilidade pela cerimônia ficou a cargo de José Antônio Braga, diretor da Casa do Menor do Recife. O enterro foi marcado para o dia 3 de julho.

Na manhã daquele dia, o corpo deixou o necrotério público de Santo Amaro com destino ao cemitério do mesmo nome. O cortejo seguiu pelas ruas, acompanhado por uma multidão. Quase mil pessoas participaram da despedida da criança, que até aquele momento continuava sem nome e sem família conhecida. Embora simples, a cerimônia mobilizou diversas autoridades e instituições da cidade.

Crianças da Casa do Menor do Recife compareceram ao enterro, levando flores para homenagear a menina. O juiz Nildo Nery também manifestou o desejo de que menores vinculados ao juizado acompanhassem a cerimônia como forma de prestar uma última homenagem à criança. O caixão azul havia sido doado por José Antônio Braga.

Mesmo durante o sepultamento, as autoridades continuavam atentas a qualquer informação que pudesse ajudar a identificar a garota. O comissário-chefe da delegacia de homicídios, Milton Marques, que acompanhava o cortejo fúnebre, ordenou a detenção de um homem chamado Luís. Após considerá-lo suspeito, o indivíduo demonstrava comportamento incomum no necrotério público de Santo Amaro, dando a impressão de possuir alguma ligação com a criança.

Conduzido à delegacia de homicídios, Luís explicou que havia comparecido ao local apenas para assistir a um enterro e negou conhecer a vítima. Outro homem também foi levado para prestar esclarecimentos. Tratava-se de João, um motorista que afirmou ter conhecido uma mulher que supostamente conhecia a menina. Ao ser interrogado, João contou que essa mulher morava no Piauí, mas não soube informar seu nome completo nem o endereço onde poderia ser encontrada.

Apesar da escassez de informações, os investigadores decidiram apurar a pista. Mesmo após o sepultamento da criança, a Secretaria de Segurança Pública continuava empenhada em localizar familiares da menina e descobrir sua verdadeira identidade. Atendendo a uma solicitação da delegacia de homicídios, o juiz Nildo Nery dos Santos decretou, em 3 de julho, a prisão preventiva de Geraldo.

Em sua decisão, o magistrado destacou que a materialidade do crime estava comprovada pelo exame tanatoscópico realizado no corpo da vítima. O juiz também considerou que existiam indícios suficientes de autoria, entre eles a confissão apresentada por Geraldo, que havia narrado o crime com riqueza de detalhes, além dos depoimentos de testemunhas que reforçavam os elementos reunidos pela investigação.

Com a prisão preventiva decretada, Geraldo foi transferido para a Casa de Detenção do Recife, onde passaria a aguardar o julgamento. Em 8 de julho, o promotor de Justiça Marcilon Tenório Medeiros, da 32ª Vara Criminal, ofereceu denúncia contra Geraldo Magno de Oliveira pela prática de homicídio qualificado por motivo torpe. Para o Ministério Público, o próprio relato apresentado por Geraldo indicava a motivação do crime.

Ao formalizar a denúncia, o promotor indicou oito testemunhas de acusação. Entre elas estavam José Antônio Braga, proprietário da Casa Funerária Braga e diretor da Casa do Menor do Recife, além do jornalista Marcos Túlio Miranda Pacheco, do Jornal do Commercio. Em 10 de julho, Geraldo foi interrogado pelo juiz Nildo Nery dos Santos.

Diante do magistrado, negou ser o autor do assassinato da menina e afirmou que a confissão prestada à polícia havia sido obtida mediante espancamentos. Ao ser questionado sobre a contradição entre os dois depoimentos, explicou que no início do interrogatório judicial repetiu a mesma versão apresentada à polícia, porque acreditava que não poderia modificá-la.

Segundo ele, não tinha experiência com a Justiça. Imaginava que deveria manter o que já havia declarado anteriormente. À medida que o interrogatório avançava, porém, suas respostas tornaram-se cada vez mais confusas. Em determinado momento, afirmou que estava com a cabeça girando e que já não sabia mais o que dizia. A mudança de versão chamou a atenção da defesa.

O advogado Eurípedes Pereira do Nascimento, nomeado pelo juiz para representar Geraldo, informou que pretendia solicitar a realização de exames psiquiátricos e psicotécnico no acusado. Para o defensor, um crime daquela natureza não parecia compatível com uma personalidade considerada normal. A própria conduta de Geraldo passou a levantar dúvidas.

Afinal, ele havia confessado o assassinato diante da polícia e, poucos dias depois, negava completamente a autoria perante o juiz. Durante o depoimento, voltou a relatar a história apresentada anteriormente aos investigadores, mas acrescentou um novo elemento. Disse que estava embriagado na noite do crime e afirmou que preferia morrer a cometer espontaneamente um ato daquela natureza.

Também declarou que no comissariado da Caxangá recebeu tantos espancamentos que acabou confessando fatos que havia feito e outros que jamais praticou. Segundo Geraldo, conhecia a menina apenas de vista e não fazia ideia de como a polícia havia chegado ao seu nome. Em determinado momento, o juiz perguntou se ele acreditava ter sido acusado injustamente por algum inimigo.

Geraldo respondeu apenas que não havia matado a criança. Foi então que ocorreu um episódio que chamou a atenção dos presentes. O magistrado afirmou que duas pessoas haviam presenciado o momento em que a menina foi assassinada. Ao reagir à informação, Geraldo afirmou que ninguém estava presente no local do crime. A resposta provocou estranheza, porque, ao negar a existência de testemunhas no local do crime, parecia demonstrar conhecimento de um detalhe que, em tese, apenas o autor dos fatos poderia saber.

Em 11 de setembro de 1971, Geraldo foi submetido a um eletroencefalograma realizado pelo médico José Bezerra no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). O exame havia sido solicitado por intermédio do psiquiatra Geraldo Marques Fernandes e tinha como objetivo auxiliar na avaliação das condições mentais do acusado.

Até então, Geraldo havia sido examinado superficialmente por médicos do Manicômio Judiciário. Os especialistas concluíram que ele não apresentava deficiência mental, embora fosse portador de psicopatia sexual. No entanto, ao emitir parecer sobre seu estado psiquiátrico, um dos médicos ressaltou que não seria possível chegar a uma conclusão segura sem a realização do eletroencefalograma.

Após dois adiamentos, o julgamento de Geraldo teve início na tarde de 25 de outubro de 1971, mais de 1 ano e 4 meses após a morte da menina sem nome. Durante cerca de 3 horas, o promotor de Justiça Edmar Braga apresentou a acusação e defendeu a condenação do réu. Apesar disso, reconheceu a possibilidade de semi-imputabilidade, sustentando que Geraldo sofria de transtornos mentais.

O posicionamento estava baseado num laudo psiquiátrico juntado aos autos, que o apontava como portador de esquizofrenia. Na defesa, os advogados Eurípedes Tavares Filho e Maria da Penha Guimarães sustentaram a tese de negativa de autoria. Segundo os defensores, as provas produzidas pela acusação eram frágeis e insuficientes para demonstrar que Geraldo havia cometido o crime.

Por esse motivo, pediram a absolvição do réu. A acusação, por sua vez, destacou que Geraldo era conhecido como ébrio inveterado e não conseguiu apresentar uma única testemunha capaz de confirmar sua versão de que passou toda a noite do crime dormindo em uma barraca. Para o Ministério Público, a ausência desse álibi enfraquecia ainda mais sua defesa.

Durante o julgamento, Geraldo voltou a negar a autoria do homicídio. Interrogado por mais de uma hora pelo juiz Nildo Nery dos Santos, afirmou que confessou o crime à polícia em razão das agressões que teria sofrido durante os interrogatórios. Segundo Geraldo, os espancamentos e maus-tratos que sofreu durante os interrogatórios foram tão violentos que terminaram por esmagar os seus órgãos genitais.

Geraldo também afirmou que, após negar o crime pela primeira vez perante a Justiça, foi recebido na Casa de Detenção com uma violenta surra. Disse ainda que recebeu a ameaça de ser novamente entregue à polícia, caso não alterasse sua versão dos fatos. Temendo novas agressões, acabou voltando a confessar o assassinato em um interrogatório posterior solicitado pelo Ministério Público.

Somente depois de conversar com seus advogados e compreender melhor o andamento do processo, decidiu explicar ao juiz os motivos que, segundo ele, o levaram a apresentar versões contraditórias ao longo da investigação. O julgamento iniciado na tarde de 25 de outubro se estendeu até as primeiras horas do dia seguinte. Ao final da sessão, o Conselho de Sentença considerou Geraldo Magno de Oliveira culpado pela morte da menina sem nome.

Ele foi condenado a 16 anos de reclusão, além de mais 3 anos de medida de segurança. Em 2023, o portal G1 e a TV Globo Pernambuco produziram a série especial Menina sem Nome, reunindo documentos inéditos, entrevistas e informações que ajudaram a esclarecer pontos até então pouco conhecidos da investigação.

Exibidas ao longo de uma semana, as reportagens revisitaram a morte da criança, reconstruíram a investigação policial, analisaram a condenação de Geraldo e apresentaram novas informações sobre a busca pela verdadeira identidade da menina. A série também revelou documentos históricos, ouviu personagens ligados ao caso e resgatou detalhes que permaneceram esquecidos por mais de 50 anos.

Eurípedes Tavares Filho, advogado nomeado para defender Geraldo durante o julgamento, voltou a falar sobre o caso em entrevista ao G1 e à TV Globo Pernambuco. Na avaliação do defensor, a forte comoção popular provocada pela morte da menina exerceu influência tanto sobre a investigação quanto sobre o julgamento.

Eurípedes afirmou acreditar que a polícia estava sob intensa pressão para apresentar uma resposta rápida à sociedade e, por isso, concentrou esforços em torno da confissão obtida de Geraldo. Segundo o advogado, quando encontrou o acusado pela primeira vez na Casa de Detenção, ele apresentava sinais visíveis de agressão física e demonstrava estar profundamente abalado.

O defensor relatou que Geraldo insistia em afirmar sua inocência e atribuía a confissão aos maus-tratos sofridos durante os interrogatórios. Por ter trabalhado anteriormente como escrivão, Eurípedes afirmou conhecer de perto os métodos empregados por alguns setores da polícia naquele período e declarou nunca ter acreditado que Geraldo fosse o verdadeiro autor do crime.

Outro ponto levantado por ele dizia respeito aos vestígios recolhidos na Praia do Pina. O advogado chamou a atenção para as quatro sandálias encontradas próximas ao corpo da menina. Segundo sua interpretação, nenhuma delas correspondia ao tamanho dos pés da vítima, circunstância que, em sua opinião, jamais recebeu a devida explicação durante a investigação.

Eurípedes também destacou que o laudo tanatoscópico descartou a ocorrência de violência sexual. Para ele, a ausência desse elemento enfraquecia a motivação atribuída a Geraldo pela acusação. O defensor sustentou ainda que crimes daquela natureza costumam possuir uma motivação claramente identificável e que, na sua avaliação, não existiam provas suficientes para relacionar Geraldo ao assassinato.

Anos depois, continuava convicto de sua inocência. Na interpretação de Eurípedes, a morte da menina poderia ter sido praticada por outras pessoas e as circunstâncias do crime jamais teriam sido completamente esclarecidas. Após a condenação, Geraldo começou a cumprir pena na Casa de Detenção do Recife. Dois anos mais tarde, a unidade foi desativada e seus detentos, transferidos para uma penitenciária localizada na Ilha de Itamaracá, na região metropolitana do Recife.

Décadas depois, o paradeiro de Geraldo tornou-se incerto. Em entrevista ao G1 e à TV Globo Pernambuco, o advogado Eurípedes Tavares afirmou acreditar que seu antigo cliente tenha sido assassinado dentro do sistema prisional. As tentativas de localizar informações oficiais sobre seu destino não tiveram sucesso. A Secretaria Executiva de Ressocialização de Pernambuco informou que não seria possível consultar os registros sem dados complementares, como o nome da mãe do detento.

Também não foi possível localizar informações nos arquivos do Fórum do Recife, nem confirmar um eventual sepultamento nos cemitérios da capital pernambucana. Com o passar dos anos, a história de Geraldo foi sendo esquecida. O mesmo, porém, não aconteceu com a menina sem nome. Antes de receber essa denominação, a criança foi chamada pela imprensa de diversas formas.

Nos jornais da época, aparecia como “garotinha desconhecida”, “moreninha do Pina” e até “menina mendiga”. Nenhum desses nomes, porém, permaneceu. Com o passar dos anos, a identidade da criança continuou desconhecida, mas uma nova forma de se referir a ela acabou se consolidando entre os jornalistas, pesquisadores e a própria população.

A vítima do crime que chocou Pernambuco passou a ser lembrada simplesmente como a “Menina sem Nome”. Enterrada como indigente em 3 de julho de 1970, após permanecer 11 dias no Instituto de Medicina Legal aguardando reconhecimento, a menina sem nome passou por uma transformação inesperada ao longo das décadas.

Pouco tempo depois do sepultamento, visitantes começaram a frequentar seu túmulo no cemitério de Santo Amaro. No início, eram apenas algumas pessoas. Com o passar dos anos, a movimentação cresceu. Já no final de 1972, reportagens dos jornais pernambucanos registravam a presença constante de devotos que atribuíam graças e milagres à criança assassinada.

Em dezembro daquele ano, o Diario de Pernambuco publicou uma manchete afirmando que a menina sem nome continuava realizando milagres e que seus admiradores pretendiam construir um túmulo mais digno para ela. A devoção continuou crescendo. Nos classificados dos jornais, começaram a aparecer mensagens de agradecimento por graças alcançadas.

Em 1985, o cantor pernambucano Carlos Sérgio lançou a canção “Menina sem Nome”, homenagem à criança que já era considerada santa por muitos recifenses. Mais de 50 anos após o crime, o túmulo da menina permanece entre os mais visitados do cemitério de Santo Amaro. Brinquedos, doces, flores e ex-votos são deixados diariamente por pessoas que acreditam ter recebido alguma graça por sua intercessão.

Para o historiador e sociólogo Marcos Dornelas, a menina sem nome passou por um processo de “canonização popular”. Segundo ele, muitas pessoas passaram a enxergar naquela criança uma espécie de santa capaz de interceder em favor dos devotos. A Arquidiocese de Olinda e Recife, no entanto, nunca reconheceu oficialmente essa devoção e descartou a abertura de qualquer processo de beatificação ou canonização.

Apesar disso, os fiéis continuam visitando o túmulo da menina. Muitos deles ajudam na conservação do local, realizando limpezas periódicas, repintando a estrutura e mantendo viva uma história que começou com um crime brutal e terminou transformando uma criança sem identidade em um dos símbolos de fé mais conhecidos do Recife.

Em 2023, a TV Globo Pernambuco utilizou recursos de inteligência artificial para produzir uma projeção de como seria o rosto da menina sem nome caso ela tivesse sobrevivido. Naquele ano, a criança assassinada na Praia do Pina completaria 61 anos de idade. Apesar da passagem de mais de cinco décadas, a possibilidade de identificação da vítima ainda não está totalmente descartada.

Segundo Jason Valeriano, do Instituto de Genética Forense da Polícia Civil de Pernambuco, caso um familiar direto fosse localizado, seria possível realizar a exumação dos restos mortais da menina para a coleta de material genético. A comparação do DNA poderia, enfim, confirmar a identidade da criança e encerrar um mistério que atravessa gerações.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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