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“A Marciele estava com dor de estômago e foi embora mais cedo para ir ao médico.”

A história completa

Marciele Lopes Ferreira tinha 28 anos, era casada e mãe de duas meninas, uma de 13 e outra de 6 anos. Havia cerca de dois meses, trabalhava como agente de portaria para a empresa Garra Vigilância, que prestava serviços para uma empresa do ramo da construção civil instalada em Vila do Conde. No sábado, 25 de março de 2023, Marciele compareceu normalmente ao trabalho.

Ela deveria encerrar o expediente por volta das 7 horas da manhã, mas Marciele não voltou para casa. Por volta das 10 horas, seu marido, Rodrigo, tentou entrar em contato com ela pelo telefone. Como não conseguiu, decidiu ir até o local onde a mulher trabalhava. Ali, recebeu a informação de um funcionário de que Marciele teria deixado a empresa naquela manhã porque estava sentindo dores no estômago e pretendia procurar atendimento médico.

As horas passaram e ela continuou sem dar notícias. Por volta das 19h, Rodrigo foi até a casa de uma cunhada. Preocupados, familiares decidiram começar uma busca por Marciele. Eles voltaram até a empresa. Naquele momento, porém, o funcionário que estava na portaria não permitiu que os parentes entrassem nas dependências da empresa.

Mesmo assim, a família permaneceu na região e começou a procurar por Marciele nos arredores, inclusive em uma área de mata próxima à empresa. Durante essa procura, foram encontrados vestígios que pareciam ser de sangue. A Polícia Militar foi acionada. As diligências começaram ainda durante a madrugada, mas a pouca iluminação prejudicou as buscas.

Os policiais não encontraram Marciele naquele primeiro momento. Havia apenas uma possível mancha de sangue na área externa da empresa. Como existia a informação de que ela havia saído mais cedo porque não estava passando bem, a família recebeu a orientação de procurar também em hospitais. Havia a possibilidade de Marciele ter sofrido algum acidente depois de deixar o trabalho e, por algum motivo, estar impossibilitada de entrar em contato com os parentes.

Mas a explicação de que Marciele simplesmente havia deixado o local para procurar atendimento médico começaria a ser colocada em dúvida. Na manhã seguinte, domingo, 26 de março, por volta das 5h30, os familiares finalmente conseguiram entrar nas dependências da empresa. Eles voltaram a procurar qualquer indício que pudesse explicar o desaparecimento, até que um dos familiares decidiu olhar dentro de um tambor que estava no local.

Sobre o tambor havia pedras e, ao retirá-las, o familiar viu uma mão. Marciele estava ali. Seu corpo havia sido colocado dentro do tambor e coberto. O 14º Batalhão da Polícia Militar foi acionado e preservou o local até a chegada das equipes responsáveis pela perícia e pela remoção do corpo. A partir daquele momento, aquilo que havia começado como um desaparecimento passou oficialmente a ser investigado como homicídio.

O inquérito policial foi instaurado, perícias foram solicitadas e as primeiras pessoas relacionadas ao local de trabalho de Marciele começaram a ser ouvidas. Entre elas estava Walter, ligado à empresa Garra Vigilância. Ele acabou preso em flagrante depois que, segundo a investigação, teria mentido ao delegado durante o primeiro depoimento.

Walter inicialmente teria afirmado que não havia mantido contato com aquele que já aparecia como o principal suspeito da morte de Marciele: seu sobrinho, Mateus Gonzaga Alencar Mendes, de 28 anos. Mateus também trabalhava na empresa e não havia sido localizado. Outro nome rapidamente passou a aparecer na investigação.

Era Milena Furtado dos Santos, de 22 anos, companheira de Mateus. Milena também havia trabalhado no mesmo local, mas tinha sido desligada. Uma das linhas inicialmente investigadas era de que a contratação de Marciele e a possibilidade de Milena ocupar aquele posto de trabalho poderiam estar relacionadas aos desentendimentos existentes naquele ambiente.

Enquanto a polícia avançava nas investigações, a morte de Marciele provocava forte comoção em Barcarena. No dia 27 de março, familiares e amigos realizaram uma manifestação nas ruas da cidade. Uma bandeira foi levantada em um semáforo e carros e motocicletas participaram da mobilização durante o percurso até o cemitério, onde Marciele seria sepultada.

Naquela mesma tarde, aconteceu uma mudança importante no caso. Mateus e Milena, considerados os principais suspeitos no caso, se apresentaram à polícia. Quando a informação se espalhou pela cidade, familiares e amigos de Marciele também foram até a delegacia e realizaram outra manifestação, pedindo a prisão preventiva do casal.

Walter, que havia sido preso inicialmente, foi colocado em liberdade depois de passar por audiência de custódia. Mateus e Milena tiveram destinos diferentes. No dia seguinte, a justiça decretou a prisão preventiva dos dois. Ainda faltava localizar outra pessoa apontada pela investigação como participante do crime: um adolescente.

No dia 31 de março, policiais civis cumpriram um mandado de busca e apreensão contra ele. O adolescente foi apresentado na delegacia de Vila dos Cabanos e passou a responder separadamente dentro do sistema socioeducativo. Com o avanço das investigações, a Polícia Civil passou a trabalhar com uma reconstrução muito mais detalhada do que teria acontecido na manhã de 25 de março.

Segundo a investigação, Mateus, Milena e o adolescente foram até o local de trabalho de Marciele por volta das 7 horas da manhã, sabendo que ela estaria praticamente sozinha. Mateus conhecia a rotina da empresa. Milena também conheceu o local por ter trabalhado ali anteriormente. Ainda de acordo com a investigação, os três teriam chegado conversando normalmente com Marciele, sem demonstrar de imediato qualquer intenção hostil.

Essa aparente normalidade fazia parte da estratégia para que Marciele não percebesse o que estava prestes a acontecer. Em determinado momento, Milena teria distraído Marciele. Foi então que Mateus a teria atacado por trás, utilizando um taco de beisebol. Marciele foi atingida na cabeça e caiu. Vários outros golpes foram desferidos.

Posteriormente, a perícia constatou que a violência do ataque foi tanta que não conseguiram identificar a quantidade de golpes desferidos. O adolescente também teria participado. Uma sacola plástica foi colocada sobre a cabeça de Marciele. A intenção seria garantir que ela morresse, fosse em consequência das graves lesões provocadas pelos golpes, fosse por asfixia.

Posteriormente, o laudo necroscópico apontaria como causa da morte uma hemorragia intracraniana acompanhada de dilaceração encefálica, decorrente de traumatismo cranioencefálico grave. O taco, apontado como instrumento utilizado nas agressões, também foi localizado na empresa durante a perícia. Depois da morte, começou uma tentativa de ocultar o que havia acontecido.

O corpo de Marciele foi envolto em sacos plásticos e colocado dentro de um tambor. Pedras foram colocadas por cima. O local também teria sido lavado e esfregado numa tentativa de eliminar vestígios de sangue. Segundo a investigação, em determinado momento, os envolvidos chegaram a brincar com a situação e teria sido pronunciada a frase de que “Marciele, até morta, dá trabalho”.

Mas esconder o corpo não era suficiente. Era necessário explicar por que Marciele havia desaparecido, e a história de que ela estava passando mal começou a ser construída. Segundo a investigação, mensagens foram enviadas do próprio telefone dela para que seus familiares acreditassem que ela não estava bem e pretendia procurar atendimento médico.

A motocicleta de Marciele também foi retirada do local. Já seu telefone celular acabou sendo vendido por aproximadamente R$ 400, depois de ser anunciado pela internet. Essas atitudes acabariam produzindo novas pistas. Com a divulgação do caso pela imprensa, uma testemunha informou à polícia que havia visto a motocicleta de Marciele e indicou uma região relacionada à residência de Mateus e Milena.

O homem que havia comprado o telefone celular também compareceu à delegacia. Ele relatou ter adquirido o aparelho de Mateus e Milena na noite anterior. Outro elemento chamou a atenção da família na manhã em que o corpo seria encontrado. Os parentes de Marciele estavam novamente nas proximidades da empresa quando viram um veículo relacionado ao estabelecimento chegar.

Mateus teria descido do carro, deparado-se com os familiares e, logo depois, voltado ao veículo e deixado o local. A atitude despertou suspeitas. Na residência de Mateus e Milena, os investigadores também encontraram pás e enxadas posicionadas de maneira que, segundo a investigação, indicaria uma possível intenção de retirar posteriormente o corpo da empresa e levá-lo para outro local.

Uma das hipóteses era de que esse plano não tivesse sido executado justamente porque a família de Marciele apareceu no local antes que isso pudesse acontecer. Mas a Polícia Civil ainda precisaria encontrar a motivação para o crime, e a investigação encontrou indícios de conflitos no ambiente de trabalho. Marciele teria o hábito de informar irregularidades e atrasos de funcionários no grupo da empresa.

Entre os funcionários com quem existiam problemas estaria Mateus. Rodrigo contou posteriormente que a esposa falava sobre essa animosidade. Segundo ele, Mateus chegava atrasado e Marciele registrava esses acontecimentos no grupo de trabalho. Outra funcionária também contou que Marciele comentava sobre irregularidades cometidas por Mateus.

A situação teria chegado ao ponto de ele tentar dispensar Marciele, mas Walter teria desfeito a demissão. Uma outra testemunha, que também trabalhava como agente de portaria, contou que Mateus tinha influência dentro da empresa e que havia sido ele quem a contratara. Ela também relatou a existência dos desentendimentos envolvendo Marciele.

Nesse contexto, surgiu a suspeita de que Mateus pretendesse retirar Marciele daquele posto para que Milena pudesse ocupar a vaga. Essa foi uma das circunstâncias consideradas pela acusação. Entretanto, durante o processo, cada envolvido apresentou uma versão diferente sobre o que havia ocorrido.

O adolescente atribuiu a Mateus a responsabilidade pelo planejamento do crime. Mateus, em determinado momento, atribuiu a responsabilidade ao adolescente. Milena sustentou que não sabia que Marciele seria morta. Durante seu interrogatório judicial, Milena apresentou uma versão ainda mais detalhada. Ela afirmou que Mateus havia iniciado as agressões com o taco.

Segundo Milena, depois que Marciele caiu, o adolescente a teria obrigado a permanecer sentada e a teria segurado enquanto Mateus continuava atacando Marciele. Ela afirmou que também viu o adolescente desferir golpes. Milena disse que permaneceu de cabeça baixa e com muito medo. Segundo sua versão, Mateus e o adolescente começaram a preparar o corpo enquanto riam.

Ela alegou que acreditava que poderia ser a próxima vítima. Depois, o corpo de Marciele teria sido colocado no tambor. O adolescente teria deixado o local utilizando a motocicleta da vítima. Milena alegou ainda que Mateus passou a ameaçá-la. Segundo ela, no caminho para casa, ele teria dito que ela ocuparia o posto de trabalho de Marciele e que, caso procurasse ajuda ou tentasse ir embora, poderia matar não apenas Milena, mas também seus familiares.

Ela também relatou agressões e disse que Mateus ordenou que ela tomasse banho, colocasse o uniforme e retornasse ao posto de trabalho como se nada tivesse acontecido. A defesa de Milena usaria essa versão para sustentar que ela não havia participado da execução do homicídio e que teria agido sob coação. O adolescente, entretanto, apresentou uma versão diferente.

Durante o procedimento que apurou o ato infracional, ele afirmou perante a justiça que Milena teria auxiliado no homicídio, inclusive ajudando com a sacola plástica colocada na cabeça de Marciele e participando da ocultação do corpo. Mateus também apresentou versões diferentes ao longo do processo. Em determinada fase, negou participação e chegou a levantar suspeitas sobre o próprio marido de Marciele.

Com a investigação concluída, o Ministério Público denunciou Mateus e Milena. A acusação incluiu inicialmente homicídio qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de menores. No homicídio, foram apontadas qualificadoras relacionadas ao motivo, à forma empregada e à dificuldade de defesa da vítima. Durante a fase anterior ao julgamento, a defesa de Milena pediu que ela fosse absolvida sumariamente ou que não fosse levada ao Tribunal do Júri.

Os advogados sustentavam que Milena não havia participado dos atos que resultaram diretamente na morte de Marciele. Também alegaram que a eventual participação na ocultação do corpo teria ocorrido sob coação de Mateus. A justiça, entretanto, considerou que existiam indícios suficientes para que a participação de Milena fosse analisada pelos próprios jurados.

Mateus também apresentou recursos. Sua defesa questionou, entre outros pontos, gravações feitas na delegacia, alegou excesso de linguagem na decisão de pronúncia e também discutiu sua prisão preventiva. Os recursos apresentados contra a pronúncia foram rejeitados. Com isso, Mateus e Milena permaneceram pronunciados para julgamento pelo Tribunal do Júri.

A justiça afastou, entretanto, a acusação de fraude processual, por entender que não havia materialidade suficiente para esse crime. O processo ainda passaria por outra mudança importante. O julgamento inicialmente ocorreria em Barcarena, mas as defesas solicitaram um desaforamento, ou seja, a transferência do júri para outra comarca.

O argumento principal era a enorme repercussão do assassinato na cidade. O crime havia provocado protestos, manifestações públicas, ampla divulgação pela imprensa e intensa discussão nas redes sociais. O Tribunal de Justiça considerou que existia uma dúvida concreta sobre a possibilidade de formação de um conselho de sentença completamente imparcial em Barcarena.

Também foram mencionadas preocupações relacionadas a eventuais tumultos e à segurança dos réus. O Ministério Público concordou com a transferência do julgamento. O juízo de Barcarena também considerou a medida adequada. E, por decisão unânime, o Tribunal de Justiça determinou que o julgamento fosse realizado em Belém. Uma primeira sessão chegou a ser marcada para 15 de maio de 2025.

Ela, porém, não aconteceu devido à ausência da advogada que representava Mateus. Um novo julgamento foi então marcado. Em 4 de setembro de 2025, mais de 2 anos depois da morte de Marciele, Mateus e Milena finalmente sentaram no banco dos réus, no Fórum Criminal de Belém. A sessão foi presidida pelo juiz Murilo Lemos Simão.

O Ministério Público pediu a responsabilização dos acusados pelo homicídio e pela ocultação do cadáver, de acordo com a participação atribuída a cada um. A família de Marciele também contou com a assistência de acusação. No tribunal do júri, Mateus confessou ter matado Marciele, mas afirmou que estava sob efeito de drogas. Disse que não havia planejado o assassinato e alegou ter sofrido uma espécie de apagão.

Segundo sua versão, quando voltou a perceber o que estava acontecendo, estava tremendo e em estado de choque. Também afirmou que o adolescente o ajudou a colocar o corpo de Marciele dentro do tambor. Diante da família da vítima, Mateus pediu perdão. A defesa pediu aos jurados que considerassem sua situação e chegou a pleitear a absolvição por clemência.

Milena continuou negando ter participado do crime. Ela repetiu que havia sido obrigada a permanecer no local e afirmou que o adolescente a havia imobilizado enquanto Mateus golpeava Marciele. Sua defesa trabalhou com teses de negativa de autoria e, alternativamente, participação de menor importância. Depois de ouvirem a acusação, as defesas, as testemunhas e os próprios réus, os jurados começaram a responder aos quesitos, e o resultado foi diferente para os dois acusados.

Em relação a Mateus, o Conselho de Sentença reconheceu sua participação direta na morte de Marciele. Os jurados entenderam que ele a golpeou utilizando um taco de beisebol. Também reconheceram três qualificadoras. A primeira foi a do motivo fútil, relacionado aos conflitos profissionais com Marciele e a intenção de retirá-la do posto de trabalho.

A segunda foi a utilização de asfixia. A terceira foi o recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima, considerando que Marciele havia sido surpreendida. Mateus também foi responsabilizado pela ocultação do corpo e pelo homicídio triplamente qualificado. Recebeu 17 anos e 6 meses de reclusão.

Pela ocultação de cadáver, mais um ano. A pena total chegou a 18 anos e 6 meses de prisão, além de 10 dias-multa. O regime inicial estabelecido foi o fechado. Para Milena, o resultado foi bastante diferente. Os jurados entenderam que ela havia participado do homicídio ao distrair Marciele e facilitar a agressão. Por outro lado, reconheceram que sua participação teve menor importância.

As qualificadoras de motivo fútil, asfixia e recurso que dificultou a defesa da vítima não foram reconhecidas contra Milena. Ela acabou condenada por homicídio com a redução decorrente da participação de menor importância. A pena foi fixada em 5 anos e 8 meses de reclusão, em regime inicialmente semiaberto. Milena também foi absolvida da acusação de ocultação de cadáver.

Como ela já respondia ao processo em liberdade desde agosto de 2023 e a justiça não identificou, naquele momento, fundamentos para uma nova prisão preventiva, recebeu o direito de recorrer em liberdade. Mateus, que havia permanecido preso durante o processo, continuou encarcerado. O adolescente, apontado como terceiro participante, respondeu em procedimento separado, próprio da Justiça da Infância e Juventude.

Ele recebeu medida socioeducativa de internação. Segundo a informação mais recente reunida para este caso, Mateus permanece cumprindo pena no sistema prisional do Pará, na Unidade de Custódia e Reinserção de Abaetetuba. Você se lembra ou conhecia esse caso? Siga a página.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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