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A Ex Riu Das Roupas Do Pedreiro Na Festa… Até Ele Ser Apresentado……..

O resto

Raimundo o carregou nos braços até o carro e passou a noite inteira no corredor do hospital, sentado numa cadeira dura, sem tirar a botina. O velho sobreviveu, mas a fala ficou arrastada e a perna não obedeceu mais. Quem assumiu a empresa foi o filho, Rodrigo Valadares. Rodrigo tinha 35 anos, terno caro e uma dívida que ninguém via.

Chegava à obra de carro novo, olhava o celular enquanto os homens falavam e chamava os pedreiros de “a mão de obra”. Na primeira semana, trocou o fornecedor de cimento por um mais barato e mandou embora dois mestres antigos. Na segunda, ordenou que o Residencial Aurora fosse acelerado. Eram prédios para 84 famílias que já pagavam prestação em dia, esperando uma chave para começar a viver.

Raimundo mordia a língua. Osvaldo lhe ensinara que patrão é patrão e que mestre só fala quando tem certeza. No escritório, Débora percebeu depressa quem mandava agora e passou a sorrir para Rodrigo mais do que jamais sorrira em casa. Numa sexta-feira, ela apareceu na cozinha com um vestido novo pendurado no braço.

“Rodrigo vai fazer um jantar para o pessoal do escritório”, disse, sem olhar para ele. “Você ia se sentir mal lá, Raimundo. Melhor eu ir sozinha.” Ele ficou com a xícara parada no ar. “Vai”, disse ele por fim, e o som da própria voz o incomodou. Débora saiu sem olhar para trás e o barulho do carro demorou a sumir na rua. Na quinta-feira seguinte, Raimundo subiu ao bloco B do Aurora para conferir a laje. Passou por uma coluna concretada na véspera e, por hábito, bateu nela com o cabo do martelo.

O som veio abafado, vazio, como quem bate numa porta oca. Bateu na coluna do lado: firme, cheia, viva. Voltou à primeira e bateu de novo. Ficou parado ali, com a mão espalmada no concreto, sentindo aquilo que já sabia antes de admitir. Andou pelo bloco inteiro, bateu em mais quatro colunas, uma atrás da outra.

Duas soaram certas, duas soaram como a primeira. Ele conhecia aquelas plantas de cor, sabia quanto de aço uma coluna daquelas pedia para segurar cinco andares com famílias dentro: camas, avós sentados nas varandas. E aquele som não era de quem segurava cinco andares. Pensou em procurar o engenheiro da obra, mas o engenheiro só respondia a Rodrigo.

Pensou em levar o assunto a Osvaldo, mas o velho mal conseguia falar, e Raimundo não teria coragem de jogar aquele peso sobre um homem doente. Desceu do bloco com as pernas pesadas e ficou um tempo sentado no meio-fio do canteiro, olhando a fila de prédios. Nos apartamentos do térreo, ainda sem porta, já havia um varal improvisado de uma família que fora conhecer o futuro lar no domingo.

Naquela noite, Débora dormiu cedo, com o vestido novo pendurado na porta do armário. Raimundo ficou acordado no escuro, ouvindo dentro da cabeça o som oco daquela coluna. Lembrou-se do pai, derrubando a fiada torta e dizendo: “De novo.” “Uma parede errada não melhora sozinha”, ele sabia. “Só piora com o tempo e com o peso.”

Decidiu que, na manhã seguinte, falaria com Rodrigo cara a cara, com o martelo na mão. Não imaginava que aquela conversa, feita com a melhor das intenções, custaria a ele o emprego, o casamento e 6 anos de silêncio. Rodrigo chegou ao escritório às 9h30, de óculos escuros, com um café na mão. Raimundo já o esperava desde as 6h, de pé no corredor, com o martelo pendurado no cinto e o chapéu amassado entre os dedos.

“Preciso falar com o senhor sobre o bloco B.” Rodrigo nem tirou os óculos. “Se for pedido de aumento, hoje não.” “É a estrutura. Bati em cinco colunas, duas soam vazias. Acho que falta aço dentro delas.” O café parou a meio caminho da boca. Foi rápido, mas Raimundo viu um tremor no canto do olho, algo que se fechou e se abriu de novo.

Rodrigo riu, alto demais. “Você agora é engenheiro, mestre?” “Não sou, mas o seu pai me ensinou a escutar o concreto. E esse concreto está dizendo que não segura o que a planta promete. Se o senhor quiser, eu abro uma delas e mostro. Custa pouco e o senhor fica sabendo.” Rodrigo largou o café sobre a mesa de uma secretária e olhou em volta.

Do outro lado do vidro, Débora fingia mexer em papéis, mas tinha a caneta parada e o rosto virado na direção deles. Raimundo reparou nela por um instante e depois esqueceu, porque Rodrigo já andava a passos largos para fora do prédio, e ele foi atrás. No pátio da obra, 30 homens se preparavam para começar o dia.

Alguns tomavam café em copo de plástico, outros ajeitavam luvas. Seu Tobias, o mais velho da turma, afiava uma colher numa pedra. Rodrigo parou no meio deles, subiu num monte de areia para ficar mais alto e falou para todos ouvirem: “Pessoal, o nosso mestre aqui descobriu que o prédio vai cair. Alguém mais está com medo?” Ninguém respondeu.

Raimundo sentiu o rosto esquentar. “Eu não disse que vai cair. Disse que precisa ser conferido.” “Você disse que eu economizei em material.” Rodrigo desceu do monte e chegou tão perto que dava para sentir o perfume. “Vou te dizer uma coisa, Raimundo. Eu pago o seu salário. Eu pago o de todo mundo aqui. Você acha que sabe mais que meu engenheiro, que meu pai, que a minha empresa inteira? Aqui quem pensa sou eu. Você só levanta parede.”

O pátio ficou em silêncio. Um cachorro latiu ao longe. Raimundo olhou em volta e viu homens, com quem dividira a marmita por 11 anos, olhando para o chão. Viu seu Tobias parar a colher. Viu, no fundo, um rapaz magro, de capacete branco, com uma prancheta contra o peito: Márcio, o engenheiro novo que estava na obra havia 3 anos.

Márcio encontrou o olhar dele por um segundo e desviou, com a cor sumindo do rosto. Raimundo não entendeu na hora, só guardou. “Está demitido”, disse Rodrigo. “Pega as suas coisas e sai antes do almoço.” “Patrão, eu só…” “Já disse: sai.” Raimundo tirou o capacete, dobrou a luva com cuidado e colocou os dois no chão, ao lado do monte de areia. Depois, atravessou o pátio sozinho.

Ao passar por seu Tobias, ouviu um sussurro rouco sem que o velho levantasse os olhos: “Eu escutei também, mestre.” Raimundo apertou-lhe o ombro e continuou andando. 11 anos, e a saída durou 40 passos. Chegou em casa antes de Débora. Ficou sentado na cozinha com as mãos abertas sobre a mesa, como se elas tivessem sido demitidas, separadas dele.

Quando ela chegou, ele contou tudo em poucas palavras. Débora ouviu de pé, sem tirar a bolsa do ombro. “Você falou isso para quem mais?”, perguntou. “Só para o Rodrigo, na frente do pessoal.” “Ele tem certeza de que ouviu direito o barulho, Raimundo?” “Faz 20 anos que eu escuto isso.” Ela ficou quieta por um tempo maior do que a pergunta pedia.

Depois, sentou-se, alisou a saia e disse num tom muito calmo: “Vai lá amanhã, pede desculpa, fala que estava cansado, que se enganou. Rodrigo é orgulhoso, mas é bom. Ele te recebe de volta.” “Eu não me enganei, Raimundo. Por favor. Eu não vou dizer para 84 famílias entrarem num prédio que eu acho que está errado.”

Débora levantou os olhos e ele viu ali uma coisa que nunca vira: o cansaço de esperar por ele. Ela não gritou. Foi pior. Levantou, foi ao quarto e voltou com uma mala aberta que já estava meio pronta. Raimundo percebeu que não era arrumação de uma noite só. O resto aconteceu na semana seguinte, numa noite de chuva grossa que fazia a goteira bater na panela do corredor.

Débora chamou um carro, colocou duas malas na porta e ficou de casaco, o cabelo preso, o rosto liso. “Eu vou ficar com a minha mãe por uns dias”, disse ela. “Depois eu mando buscar o resto.” “Você vai para a casa do Rodrigo?”, ele perguntou. Ela respondeu ao contrário do que ele esperava. Sorriu quase com pena. “Eu cresci esperando em portão de casa dos outros, Raimundo.

Não vou passar a vida esperando um homem que se contenta com o que sobra.” Pegou a bolsa, abriu a porta e olhou para trás só uma vez, para a camisa cáqui pendurada na cadeira. “Quem nasce para carregar tijolo morre carregando tijolo.” A porta fechou. A chuva engoliu o barulho do carro. Raimundo ficou parado no corredor por um tempo que ele nunca soube medir.

Ouviu a goteira batendo na panela e ficou escutando até ter certeza de que a casa estava mesmo vazia. Só então foi até a cozinha, pegou a xícara que Débora deixara na pia e lavou devagar, como se a rotina fosse uma escada em que ele pudesse se segurar. Nas semanas seguintes, tudo o que ele achou que sabia sobre a vida foi ficando de cabeça para baixo.

Débora nem voltou para buscar o resto. Mandou um motorista. Ninguém da Valadares atendeu o telefone dele. A casa alugada ficou grande demais e os móveis foram vendidos um a um para pagar o mês. No fim de julho, Raimundo morava num quarto de fundos, na casa de uma senhora chamada Dona Lourdes, com uma cama de solteiro, uma mesa dobrável e, embaixo dela, uma lata de biscoito.

Dentro da lata estavam R$ 40.000 reais. Guardados moeda por moeda, nota por nota, em 20 anos de trabalho. Contou duas vezes. Pareciam menos do que quando eram só uma esperança. Na quarta-feira cedo, alguém bateu de leve na porta. Era dona Lourdes, viúva, 60 e poucos anos, de avental florido e olhar direto.

Ela tinha ficado sabendo, como toda a rua, do pedreiro que perdera o emprego por dizer a verdade. “O meu banheiro está cheio de infiltração”, disse. “O marido que eu tinha morreu sem consertar. Eu pago o que for justo. O senhor topa?” Raimundo olhou para a lata embaixo da mesa, olhou para as próprias mãos, que fazia dias não seguravam nada.

Sentiu o peso de uma vida inteira pedindo licença para recomeçar do começo. “Topo”, respondeu. “Amanhã às 6.” Não sabia ainda que era o primeiro tijolo. O banheiro de dona Lourdes levou nove dias. Raimundo quebrou o reboco podre, refez a impermeabilização camada por camada e assentou cada azulejo com uma régua e uma paciência que ninguém tinha pedido.

Quando terminou, a viúva ficou um tempão parada na porta, passando a mão na parede lisa. Pagou o combinado e, no dia seguinte, três vizinhas apareceram no portão com o mesmo pedido. Ninguém fez anúncio nem cartaz. O nome dele passou a andar de portão em portão, de boca em boca. E, em dois meses, Raimundo tinha fila de espera. Foi numa dessas reformas que ouviu falar de um prédio de quatro andares, largado pela metade no fim da avenida, deixado por um construtor que quebrou e sumiu. O banco queria se livrar dele. Ninguém queria comprar porque a obra estava torta, molhada e cheia de mato. Raimundo foi lá sozinho numa tarde de sol, subiu a escada sem corrimão e encostou a mão em cada coluna.

Ouviu uma estrutura cansada, mas honesta. Comprou por quase nada, com quase todo o dinheiro da lata, e passou seis meses corrigindo o que estava torto e terminando o que estava parado. Vendeu os apartamentos um por um a preço justo. O dinheiro pagou o prédio seguinte, e o seguinte pagou outro. Foi assim durante 6 anos: 11 edifícios entregues, 300 empregados e uma regra que ele nunca quebrou.

Salário no quinto dia útil, sem um dia de atraso. Uma vez, no meio de uma obra, um comprador desistiu e o caixa secou a uma semana do pagamento. Raimundo vendeu o relógio do pai, único objeto de valor que tinha, e completou a folha do próprio bolso. Seu Tobias, que agora trabalhava com ele, descobriu e não disse nada.

No dia seguinte, a turma inteira chegou meia hora mais cedo. Nem todo mundo aplaudia. Um fornecedor antigo tentou entregar cimento de segunda como se fosse de primeira, achando que o pedreiro não perceberia. Raimundo abriu um saco, apertou o pó entre os dedos e devolveu a carga inteira sem levantar a voz: “O meu dinheiro vale tanto quanto o seu”, disse.

O homem foi espalhar pela cidade que o novo empreiteiro era encrenqueiro. Duas semanas depois, era ele quem pedia para vender de novo. Continuou com as mesmas camisas cáqui, lavadas à mão no tanque de noite. Quando um engenheiro lhe perguntou por que não se vestia melhor, respondeu que “camisa não segurava prédio”. Todo domingo, Raimundo levava pão de queijo quente até a casinha nos fundos do terreno da família Valadares, onde Rodrigo largara o pai depois do derrame.

Osvaldo passava os dias numa cadeira de rodas, olhando o quintal, e os dois jogavam dominó em silêncio, o velho batendo as pedras com a mão que ainda obedecia. Uma vez, Raimundo perguntou se ele queria mais alguma coisa. Osvaldo demorou a responder com a fala arrastada: “Companhia, ninguém traz. Você traz.” Raimundo nunca ofereceu nada além disso e o velho nunca pediu.

Dona Neusa, a ex-sogra, nunca deixou de mandar recado. Aos sábados, ele passava na casa pequena dela para consertar uma torneira ou um portão, e ela servia café num copo americano, sem tocar no nome da filha. Uma vez, disse só: “Eu fiz o que pude, Raimundo. Ela me viu esperar demais.” Débora tinha se mudado para uma casa nova num bairro de ruas largas e passou a aparecer nas colunas sociais do jornal da cidade como a elegante organizadora dos eventos da Valadares.

Raimundo lia a notícia sem sentir raiva, só uma pontada que passava logo. Uma tarde, na porta de uma padaria do centro, ele esbarrou em Débora. Ela vinha de salto e óculos grandes, e parou por um instante, surpresa. Trocaram meia dúzia de palavras educadas. Uma mãe que passava, sem saber de nada, comentou ao lado deles: “Que pena aquele Residencial Aurora parado, hein? Minha irmã tem apartamento lá, paga aluguel e prestação juntos há dois anos.”

Raimundo virou o rosto para a mulher. Débora, no mesmo instante, apertou a alça da bolsa até os dedos ficarem brancos. Olhou o relógio e disse que estava atrasada. Foi embora sem se despedir. Raimundo ficou vendo o carro dela virar a esquina com uma dúvida pequena que não soube nomear.

Enquanto isso, a Valadares afundava. Sem Raimundo, sem os velhos mestres, sem nenhuma ideia além de cortar custo, Rodrigo perdeu obra atrás de obra. O Aurora, seu maior projeto, parou dois anos antes. As famílias, que já pagavam prestação, precisaram alugar casa ao mesmo tempo, e as reclamações se acumulavam.

Em qualquer conversa de bar, o nome Valadares agora vinha acompanhado de um suspiro. Numa manhã de quinta-feira, um advogado de terno cinza procurou Raimundo no canteiro do 11º prédio, entregou um cartão e disse baixo: “Um cliente meu está interessado em conversar.” Pediu descrição. A proposta chegou depois num papel pesado.

Alguém queria comprar a Construtora Valadares por um preço de encalhe, assumir as dívidas e terminar o Aurora. Quem queria comprar precisava de sigilo até o dia da apresentação oficial, e o nome só seria revelado numa cerimônia marcada para o fim do mês. Raimundo reconheceu a letra no rodapé do contrato antes de reconhecer o nome do comprador.

Era a letra torta e trêmula de seu Osvaldo. No domingo, ele foi à casinha dos fundos sem o pão de queijo. Osvaldo esperava na cadeira com um cobertor no colo, olhando para a porta como quem sabe de tudo. “Sentei aqui dois anos”, disse, engolindo as sílabas. “Vendo o meu filho destruir o que eu construí.”

“Só te vejo aos domingos. Só uma pessoa nesta cidade terminaria o Aurora do jeito certo. Comprei por seu intermédio. Falei com o advogado. O nome que vai no papel é o seu, patrão.” “Eu não tenho esse dinheiro.” “Tem. Eu vi os seus números. O resto eu completo com o que sobrou do meu nome.” O velho segurou o braço dele com força surpreendente.

“Uma pergunta, mestre, uma só. Você compra para ela ver ou para aquelas famílias morarem?” Raimundo abriu a boca e não saiu nada. Sentiu o sangue subir ao rosto, porque a resposta que o corpo inteiro queria dar não era a que ele podia dizer em voz alta. Olhou para o dominó parado sobre a mesinha. “Não sei”, disse por fim.

Osvaldo assentiu devagar, sem raiva. “Então, eu fico esperando.” E na sexta-feira da festa, Raimundo passou a tarde inteira no Aurora, sozinho, com a mão espalmada em cada coluna do bloco B, sentindo o que a chuva de 6 anos tinha feito ali dentro. Ao anoitecer, o advogado deixou no barracão um terno escuro embrulhado em papel.

Raimundo olhou para ele por um longo tempo. Dobrou o papel de volta e pendurou o terno na porta do armário. Vestiu a camisa cáqui, calçou a botina, penteou o cabelo com os dedos e saiu para o salão onde uma mulher de vestido azul acabara de erguer uma taça. Foi assim que, 6 anos depois daquela noite de chuva, Raimundo atravessou o salão do Clube Cerrado com as risadas correndo atrás dele.

Na porta, uma recepcionista de sorriso ensaiado tinha olhado a botina dele de cima a baixo e apontado para o corredor. “O senhor deve estar procurando a entrada de serviço. É por ali.” Ele agradeceu e entrou pela da frente, mesmo sem pressa, como quem sabe que aquela porta também é sua. Sentou-se numa mesa do fundo, perto da cozinha, e não tocou no copo de suco que um garçom colocou à sua frente.

Do outro lado do salão, na mesa central, ao lado da filha, dona Neusa estava de vestido de domingo, com as mãos apertadas no colo e o rosto escondido de vergonha. Ela olhou para ele uma vez e a boca tremeu. Raimundo levantou dois dedos num aceno discreto e ela respondeu com um movimento quase invisível da cabeça. Só isso. Ele respirou fundo.

Ao redor do palco, Rodrigo Valadares andava de um lado para o outro com um copo de uísque, a gravata torta, o suor brilhando na testa. Perguntava de cinco em cinco minutos ao mestre de cerimônias se o comprador já tinha chegado. “Está a caminho”, respondia o homem. E Rodrigo engolia a bebida e voltava a andar. Na mesa central, Débora circulava de taça na mão, fazendo o que sabia fazer melhor: apresentar-se, sorrir, corrigir o vestido, medir cada convidado pelo relógio de pulso.

De vez em quando, lançava uma olhada para o fundo do salão e trocava algum comentário no ouvido de quem estivesse perto. Raimundo via a risada de canto nascer e morrer nos rostos. Uma mulher elegante se aproximou dele com um prato de salgadinhos e disse, num tom gentil e cruel: “O senhor é do bufê? A cozinha é ali?” Raimundo sorriu.

“Estou esperando uma pessoa”, respondeu. Ela se afastou depressa, incomodada com a calma dele. Faltava pouco mais de 20 minutos. Foi quando uma pancada seca soou no teto, seguida de um chiado comprido. Uma das tubulações do andar de cima tinha estourado, e um fio de água escura começou a escorrer pela parede atrás do palco, direto na direção dos cabos de som.

As luzes piscaram duas vezes. Alguém gritou. Um garçom largou uma bandeja. Rodrigo derrubou o copo e começou a berrar por um encanador que ninguém tinha chamado. “Chamem o síndico!” “Alguém acha o registro geral!” “Eu não sei onde fica”, gemeu o gerente do clube, pálido, mexendo no telefone. A água já tinha chegado ao tapete do palco.

Raimundo levantou-se, empurrou a cadeira devagar e atravessou o salão com o mesmo passo de quem entrava numa obra qualquer, numa manhã qualquer. 12 anos antes, ainda pedreiro da Valadares, tinha ajudado a levantar aquele clube, quando ele ainda era um esqueleto de tijolo com o nome da construtora na placa da obra.

Sabia que o registro geral ficava atrás de uma parede falsa junto à despensa, um lugar que os projetos novos tinham esquecido e ele nunca. Empurrou uma porta discreta, afastou duas caixas de guardanapo, achou o volante enferrujado e girou com as duas mãos. A água engasgou, tossiu e parou.

No salão, o silêncio foi caindo devagar, e o único som era no palco. Quando voltou, com a manga da camisa encharcada até o cotovelo, alguns convidados olharam para ele sem saber o que dizer. Débora foi a única que abriu a boca. Comentou alto, com um meio sorriso: “Deixa o rapaz, gente. É o que ele sabe fazer.” Desta vez, ninguém riu. Um homem de barba branca, numa mesa próxima, olhou para ela como quem vê uma mancha num quadro.

Rodrigo, ainda tremendo, murmurou um “obrigado” seco, sem encarar Raimundo, que assentiu e voltou à mesa do fundo. Faltavam poucos minutos. O mestre de cerimônias secou o suor da testa, ajeitou o microfone e pediu palmas para “um novo tempo da Construtora Valadares”. Retirou o envelope do bolso do paletó, abriu com o dedo e desdobrou o papel.

Raimundo sentiu a cadeira dura debaixo dele. Viu dona Neusa levar a mão à boca, sem entender o que estava por vir. Viu Débora sorrir, pronta para o aplauso que julgava seu. O mestre de cerimônias leu o papel em silêncio, depois leu de novo, e a voz falhou na segunda sílaba: “Senhoras e senhores, o novo proprietário da Construtora Valadares é o senhor Raimundo Alves.” Ninguém se mexeu.

Uma cadeira arranhou o chão em algum lugar. O salão que rira tanto parecia ter esquecido como se faz barulho. Débora ficou com a taça no ar, a boca ainda formando o sorriso que não sabia mais para quem era. Rodrigo deu um passo para trás e bateu na borda do palco. “Isso é uma brincadeira”, disse, numa voz estranha.

O mestre de cerimônias, sem olhar para ele, repetiu mais baixo: “Raimundo Alves, proprietário.” Raimundo levantou-se. Os quatro degraus do palco ainda estavam molhados, e ele subiu com cuidado, sem se apoiar no corrimão. Pegou o microfone, olhou uma vez para a plateia inteira, e ali não havia raiva nem triunfo, só o cansaço bom de quem termina uma parede.

Encontrou os olhos de dona Neusa no meio do salão e fixou-se nela por um instante. “Boa noite”, disse. “Amanhã a obra recomeça às 6.” Devolveu o microfone, desceu os degraus com o mesmo passo com que subira, atravessou o corredor entre as mesas sem olhar para os lados e parou diante da última. Onde seu Osvaldo esperava, convidado por ele, na cadeira de rodas, com um cobertor no colo e o chapéu velho de obra sobre os joelhos.

Seu Tobias, que o trouxera, ficou de pé atrás da cadeira, os olhos cheios d’água. O velho estendeu a mão trêmula. Raimundo a segurou. Nenhum dos dois disse nada. Osvaldo apertou-a uma vez com toda a força que ainda tinha e balançou a cabeça devagar, exatamente como o pai de Raimundo balançava a dele quando uma fiada saía reta. Foi a primeira recompensa da noite e a única que ele quis.

Do outro lado do salão, Débora deixou a taça escorregar da mão. O vidro estourou no piso e Raimundo, sem ter visto nada, já estava saindo pela porta da frente, com o corpo leve e a cabeça pesada. Porque sabia que a festa tinha acabado e o trabalho, na verdade, ainda nem havia começado. Às 6 da manhã seguinte, ele estava sozinho diante do bloco B do Aurora, com o martelo na mão e o orvalho molhando a botina.

Bateu na primeira coluna do térreo, encostou o ouvido, bateu na segunda, bateu na terceira, foi andando pelo prédio. E a cada batida o som que voltava era o mesmo som de caixa vazia que ele ouvira 6 anos antes. Sentou-se no chão, com as costas na coluna, e entendeu que tinha comprado bem mais do que uma empresa falida.

Foi o barulho de gente no portão que tirou Raimundo do chão. Quando ele desceu do bloco B, com a poeira da coluna ainda nas costas, 140 homens esperavam de cabeça baixa em fila, com as marmitas debaixo do braço. Estavam ali desde antes das 6. Todos sabiam da festa, todos tinham ouvido o nome dele e todos tinham certeza de que aquela era a manhã das demissões.

Raimundo subiu num monte de tijolos. O mesmo tipo de monte em que Rodrigo tinha subido 6 anos antes e desceu de novo. Preferiu falar de pé no chão, no meio deles. “Quem trabalha direito, fica. Os salários que a Valadares deixou atrasados, todos eles eu vou pagar.” Ninguém respondeu.

Um homem no fundo coçou a cabeça, como quem ouviu mal. Seu Tobias, ao lado dele, sorriu pela primeira vez em muito tempo. Os atrasados somavam R$ 460.000, e Raimundo sabia bem o buraco que aquilo abria, mas sabia também que homem sem salário não constrói prédio nenhum. No fim da fila, meio escondido atrás de um poste, estava o jovem engenheiro Márcio, de capacete branco e olheiras fundas.

Fazia três anos que trabalhava para Rodrigo e vivia de olhos baixos, como se pedisse desculpa por existir. Raimundo o chamou pelo nome. O rapaz deu um pulo. “Vem comigo. Traz a planta do bloco B.” Subiram juntos os cinco andares, o martelo de Raimundo batendo em cada coluna, uma por uma, com o ouvido colado no concreto.

Márcio ia atrás, calado, contando os passos. No térreo, três colunas soaram como caixa vazia. No primeiro andar, mais quatro. Até o quinto foram 22. Na última, Raimundo parou, encostou a testa no concreto frio e ficou assim por um tempo comprido. “Você sabia?” Márcio tentou responder duas vezes antes de conseguir. Estava pálido, a voz falhava. “Sabia, seu Raimundo.”

“Vi os pedidos de material, vi a diferença. Mandaram eu me calar. Disseram que se eu abrisse a boca, ia ficar sem emprego e a minha mãe depende de mim.” Passou a mão no rosto. “Eu vi o senhor bater naquela coluna 6 anos atrás. Estava no pátio quando Rodrigo o demitiu. Tive vontade de gritar e não gritei.

Dormi mal desde então.” Passou a mão no rosto de novo. “Guardei uma pasta velha em casa com cópias dos pedidos de material daquela época. Nunca tive coragem de mostrar para ninguém.” Raimundo poderia ter ficado com raiva. Olhou o rapaz e viu nele o próprio medo de tantos anos atrás. O medo de quem tem conta para pagar.

“Tem mais coisa?”, perguntou. O rapaz hesitou. “Tem uma parte que eu ainda não consigo dizer. Prometo que digo quando chegar a hora.” Raimundo não insistiu. Explicou o que estava em jogo, com a voz baixa e cada palavra pesada. A chuva de outubro chegava em 30 dias. Com ela, o aço exposto começaria a enferrujar por dentro do concreto ruim, e o prédio nunca mais seria o mesmo.

“Ou aquelas 22 colunas eram refeitas antes, uma por uma, ou 84 famílias dormiriam um dia sobre algo que podia ceder no meio da noite. Você fica comigo, Márcio, e me ajuda a consertar o que ajudou a esconder.” O rapaz engoliu em seco e fez que sim. Na segunda-feira seguinte, a primeira demonstração de que o caminho não ia ser fácil chegou de carro importado.

Débora desceu no portão, de blusa branca e olhos úmidos, sem batom, o cabelo solto sobre os ombros. Trazia até uma sacola de pão de queijo, o mesmo pão que ele levava ao velho todo domingo. Raimundo a recebeu no barracão com a xícara de café na mão, sem oferecer cadeira. “Estou perdida”, disse ela. “O Rodrigo me enganou. O erro foi dele.

Eu só cuidava das festas e dos papéis. Só queria uma chance de recomeçar a conversa, Raimundo. Pelos anos que a gente teve.” Ele bebeu um gole. “Emprego é com o Márcio na obra. E o Rodrigo não vai ter cadeira nenhuma aqui.” Ela ficou parada com a sacola de pão no braço e o rosto mudou num segundo. As lágrimas secaram como se alguém tivesse desligado uma torneira.

“Você comprou isso para me humilhar”, disse, num tom baixo e seco. “Vai herdar o problema junto, e eu vou ver você cair devagar.” Foi embora, deixando a sacola de pão sobre a mesa. Raimundo ficou olhando aquilo por um bom tempo, sem coragem de comer nem de jogar fora. Débora era inteligente e sabia onde doía.

Nas semanas seguintes, passou a visitar as famílias do Aurora, uma por uma, com voz de quem chora junto. Contava que o novo dono era um pedreiro sem estudo, que nunca tinha administrado uma empresa de verdade. Que ninguém sabia se ele ia terminar aquele prédio ou largar tudo na metade, como tantos antes dele. Mostrava fotos dele de camisa suja na festa.

O medo fez o resto. Um fornecedor de aço cancelou o crédito por telefone, alegando incerteza no mercado. Um grupo de pedreiros novos pediu as contas numa manhã de segunda e outros foram atrás. Em quatro dias, 40 homens tinham ido embora. Seu Tobias tentou segurá-los. “Ele nunca atrasou um dia”, repetia. Um rapaz de 20 e poucos anos respondeu, já com a mochila nas costas:

“Nunca atrasou para quem já conhecia. Agora tem o buraco da Valadares.” Ficaram 110 homens, e Raimundo passou a fazer as contas de madrugada com uma vela e a calculadora que Osvaldo lhe dera, tentando descobrir de onde tirar mais. O golpe que mais doeu veio numa quinta-feira, sem barulho. Dona Rosalva, viúva de 71 anos, que esperava um apartamento no Aurora havia 6 anos, sempre o cumprimentava no portão com um aceno.

Naquele dia, atravessou a rua para não cruzar com ele. Débora tinha ido à casa dela na véspera, sentado na sala e dito, com lágrimas na medida certa, que o novo dono comprara a construtora só para humilhar a ex-mulher e mostrar ao mundo que era melhor que todo mundo. Dona Rosalva já tinha ouvido promessas demais em 6 anos.

Escolheu o silêncio. Naquela noite, Raimundo voltou ao Aurora sozinho. Subiu ao terceiro andar, sentou numa laje ainda sem parede e ficou ouvindo o vento passar por entre os vergalhões expostos. Lá embaixo, os barracões estavam escuros. Em algum lugar da cidade, uma viúva de 71 anos contava, pela milésima vez, os dias que faltavam para uma chave que talvez nunca chegasse.

Ele pensou na festa. Pensou na taça que caiu no chão, no silêncio do salão, no gosto bom que sentia ao subir os quatro degraus e ver a boca de Débora abrir e fechar. Um gosto que ainda estava ali na garganta, escondido debaixo de todo o resto. E a pergunta de Osvaldo veio sem pressa, como uma mão pousando em seu ombro. Ele deixou a cabeça cair entre as mãos. Porque uma parte dele, pequena e teimosa, começava a desconfiar de que Débora tinha acertado numa coisa.

Talvez ele tivesse mesmo comprado aquela empresa para ela ver. No domingo, Raimundo chegou à casinha dos fundos sem o pão de queijo. Osvaldo, na cadeira de rodas, olhou para as mãos vazias dele e entendeu tudo pelo silêncio. Não perguntou nada. Empurrou com o pé a caixa de dominó, que ficou parada no meio da mesa.

“Você precisa saber a resposta antes de subir de novo”, disse, engolindo as sílabas. Raimundo ficou um tempo enorme calado. O vento balançava a cortina da janela e lá fora um pássaro insistia numa cantiga só. Ele olhou o chão de cimento queimado. O mesmo que ajudara a assentar num sábado de muitos anos atrás. E disse, sem levantar os olhos: “Eu comprei para ela ver. Eu quis que ela visse.”

Passei seis anos imaginando a cara dela naquele salão e, quando vi, gostei. Fez uma pausa. “Mas agora eu não consigo largar aquelas famílias, patrão. Dona Rosalva me olhou no portão outro dia como se eu fosse a última porta da rua.” Foi a primeira vez em seis anos que ele disse a verdade em voz alta.

Pesou menos do que imaginava. Osvaldo levantou a mão boa e a pousou no braço dele. E ficaram assim, sem nenhuma partida de dominó, até o sol descer. Na volta, Raimundo pegou o caderno de contas. Refazer as 22 colunas custava R$ 640.000 entre aço, concreto e mão de obra. Somados aos R$ 460.000 dos salários atrasados, faltava R$ 1.100.000.

Ele tinha bem menos do que isso. Durante duas noites, ficou sentado à mesa dobrável do barracão, fazendo e refazendo os números, e todas as contas chegavam ao mesmo lugar. Na terça-feira, tomou as decisões. Vendeu a casa onde morava — uma casa de dois quartos que levara 3 anos para pagar — por R$ 380.000. Vendeu o caminhão e as ferramentas que não usava mais por R$ 120.000.

E colocou à venda os últimos 12 apartamentos do prédio anterior, com um desconto tão grande que os corretores acharam que era erro de digitação. R$ 600.000 ao todo. A conta fechou no centavo. A cama de Raimundo passou a ser um colchão fino no chão do barracão do canteiro, junto do rádio velho que pegava só uma estação.

A primeira semana foi a mais dura. O fornecedor de aço não voltava atrás. E nenhum outro da região queria negociar com um dono novo cercado de boatos. Sem aço, não havia coluna. Márcio, que passava as noites debruçado sobre a planta, descobriu uma pequena siderúrgica em Jataí. Raimundo ligou. Do outro lado, um velho dono de armazém ouviu o nome, ficou em silêncio e depois disse: “Alves? O que consertou o galpão do meu irmão sem cobrar as horas extras? Então eu vendo. Mas é pagamento adiantado, sem conversa.”

“Adiantado eu pago”, respondeu Raimundo. A carga chegou na quinta-feira. Na segunda-feira seguinte, ainda no escuro, Raimundo abriu o portão e encontrou uma cena que não esperava. Sentados no chão de terra, em fila, de macacão limpo e com as próprias ferramentas ao lado, estavam 190 homens: os 110 que ficaram e mais 80 que ouviram falar, que viram o nome dele numa obra antiga ou que apenas queriam trabalhar para alguém que pagava no dia certo.

Seu Tobias levantou-se primeiro, segurava o chapéu contra o peito. “Patrão, o senhor nunca atrasou um dia da gente. A gente não vai atrasar um dia do senhor.” Raimundo abriu a boca e não conseguiu responder. Fez um gesto com a cabeça e virou de costas para esconder o rosto. Quando voltou a olhar, a turma já estava de pé, dividindo-se em grupos, pegando formas, escoras, carrinhos de mão.

O trabalho era pesado e não perdoava. Cada coluna velha precisava ser demolida com cuidado, sem abalar a laje de cima, e depois refeita com aço novo, forma nova e concreto bem adensado, camada por camada. Raimundo ficava ao lado de cada uma, com a mão espalmada sobre a forma. Quando um jovem pedreiro apressou uma concretagem numa quarta-feira à noite, ele mandou parar tudo.

“Uma coluna malfeita hoje é uma família na rua depois”, disse, sem gritar. Refizeram do zero e o rapaz pediu desculpas de cabeça baixa. Raimundo lhe entregou uma colher. “Aprende com a segunda vez, filho. Eu aprendi com a nona.” Na sexta-feira daquela semana, já à tarde, um vulto apareceu no portão. Era dona Rosalva, de bengala, com um banquinho dobrável debaixo do braço e uma garrafa de café na mão.

Ficou parada, com medo de entrar, olhando os homens, a poeira, o barulho. Raimundo a viu de longe e sentiu o coração dar um pulo. Não correu, ficou onde estava. Dona Rosalva caminhou devagar até a pilha de tijolos ao lado dele, abriu o banquinho, pegou uma luva de couro enorme, largada num monte de ferramentas, e a calçou.

Era grande demais, e os dedos dela se perdiam dentro. Começou a separar os tijolos inteiros dos quebrados, sentada, sem uma palavra, com os lábios apertados. Ele não conversou com ela. Ficou olhando as mãos enrugadas ajeitarem a pilha e precisou virar o rosto para o outro lado. Voltou no sábado. E no domingo também.

No 20º dia, a última das 22 colunas foi concretada. E seu Tobias bateu palmas sozinho no meio do canteiro até os outros o acompanharem. Mas concreto não fica pronto de um dia para o outro. Nos 10 dias seguintes, os homens molharam as colunas de manhã e à tarde, uma por uma, com mangueira e balde, como quem cuida de uma planta.

Raimundo passava a mão em cada uma delas antes de dormir. E dona Rosalva, que voltava todas as tardes com o banquinho, aprendeu a fazer o mesmo, sem entender direito o que sentia debaixo da palma. “O senhor escuta alguma coisa, seu Raimundo?”, perguntou ela uma noite. “Escuto que elas estão tranquilas”, respondeu ele, e sorriu pela primeira vez em semanas.

No 30º dia, quando o sol nasceu, uma linha cinzenta e escura cobriu o horizonte de Rio Verde. As primeiras nuvens de outubro tinham chegado, pesadas e baixas, cheirando a terra molhada. Os homens olharam para cima e depois para as colunas. Ninguém falou. Raimundo estava no meio do pátio, com o martelo pendurado no cinto, quando Márcio se aproximou correndo, com o celular na mão e o rosto branco.

“Seu Raimundo, a dona Débora mandou aviso para todas as famílias. Marcou uma reunião amanhã, aqui mesmo no pátio do Aurora. Disse que vai mostrar a verdade sobre o prédio.” Antes de a reunião começar, Raimundo já tinha feito a sua parte. Semanas antes, quando as colunas velhas foram demolidas, mandara serrar um pedaço de uma delas, um bloco do tamanho de um homem agachado, e o deixara sobre dois cavaletes no pátio, coberto por uma lona.

Ninguém perguntou por quê. Ele também não disse. Às 4 da tarde, as famílias chegaram aos poucos, em grupos, de guarda-chuva debaixo do braço. Porque o céu de Rio Verde já pesava sobre os prédios. Dona Rosalva, viúva de 71 anos, vinha de bengala, cercada de vizinhos. Débora chegou por último, de vestido claro e olhos vermelhos ensaiados, com Rodrigo suando ao lado dela, o rosto cinzento.

Os dois tinham a certeza de que o bloco B, visto de fora, ainda parecia inacabado. Ela tomou a palavra em cima de um caixote, com a voz treinada para comover. “Eu vim aqui porque me importo com vocês. Esse prédio é perigoso. O homem à frente dessa obra não tem estudo, nunca dirigiu uma empresa.

E vocês vão entregar a vida de vocês a alguém que nem sabe se termina o que começou?” Ninguém aplaudiu, mas ninguém a interrompeu também. Os olhos foram procurando Raimundo, que estava no fundo, de camisa cáqui, quase igual à da festa, com um tijolo na mão. Débora o viu e sorriu de canto. “Ainda carregando tijolo, Raimundo?” Ele se aproximou devagar. O pátio inteiro abriu passagem.

“Carrego”, respondeu. “E se for para morrer carregando, que seja assim: com uma casa de pé para cada uma dessas famílias.” Depois, pediu que todos o acompanhassem ao bloco B. Foram uns desconfiados, outros com curiosidade. No primeiro andar, ele bateu com o martelo numa coluna nova.

O som saiu firme, cheio, longo. E ficou ressoando entre as paredes. Bateu em outra, em outra. Dona Rosalva encostou a mão na coluna como quem toca um bicho manso. “Parece que está respirando”, disse. Voltaram ao pátio. Raimundo tirou a lona dos cavaletes e mostrou o bloco de concreto velho. Entregou a marreta a Débora. “Bate você.” “Eu?” “Você disse que o prédio é perigoso. Mostra para eles.” Um murmúrio correu entre as famílias. Débora hesitou, olhou para Rodrigo, que desviou os olhos, e aceitou. Levantou a marreta com as duas mãos, mal conseguindo com o peso, e bateu no bloco. Uma vez. O concreto se abriu como bolo seco e esfarelou no chão. Ficaram à mostra três vergalhões finos, tortos. Onde a planta pedia 12, grossos. Ninguém disse nada.

Só se ouviu o vento e o primeiro pingo de chuva caindo no cavalete. Márcio deu um passo à frente. Tinha o capacete debaixo do braço, as mãos tremendo, mas a voz saiu inteira. “A senhora mandou cortar o aço dessas colunas, dona Débora. Eu estava na sala.” O rosto dela perdeu a cor. “Isso é mentira. Esse rapaz é empregado dele.”

“Eu estava na sala”, repetiu Márcio, olhando para as famílias. “Seis anos atrás, na reunião de compras. A senhora disse que o cimento estava caro demais e que o Rodrigo precisava economizar no que ninguém via. O dinheiro que sobrou pagou a casa nova e o carro. Eu guardei as cópias daquela época e estão aqui comigo.”

Débora se virou para Rodrigo e disse, com a voz falhando pela primeira vez, que a culpa era dele. Que ela só cuidava das festas. Que ele decidia tudo. Rodrigo olhou para ela por longos segundos. Nos olhos dele, alguma coisa cedeu. Respirou fundo e falou, chorando, diante de todas as 84 famílias. Quem propôs o corte, aonde o dinheiro fora parar, o que ele soube e calou.

Contou até do dia em que Raimundo o avisou no pátio e de como ele preferiu humilhar o pedreiro ao ouvir. As famílias ouviram em silêncio. Débora perdeu ali o que mais valorizava: a imagem diante de gente que nunca tinha se dado ao trabalho de olhar de verdade. A justiça veio sem violência e sem pressa.

Rodrigo vendeu a casa e o carro para devolver às famílias parte do prejuízo dos aluguéis pagos em dobro durante os dois anos de obra parada, e deixou a construtora para sempre. Débora perdeu a cadeira com a qual sonhara, o homem que a sustentava e o nome que construíra a vida inteira. E voltou para a casa pequena de dona Neusa. Márcio virou engenheiro-chefe da obra e nunca mais baixou a cabeça.

Três meses depois, a entrega das chaves aconteceu no mesmo salão da festa. Com o teto consertado, cadeiras de plástico e 300 pessoas em pé. Raimundo, na mesma camisa cáqui, subiu ao mesmo palco. O terno embrulhado, ele dera a seu Tobias para o casamento da neta. A primeira chave foi para dona Rosalva, que esperava aquele apartamento havia 6 anos. E a segurou com as duas mãos, como quem segura um passarinho.

A segunda foi para seu Tobias, que, depois de 40 anos levantando casas alheias, nunca tivera uma. Na última mesa, o velho Osvaldo se ergueu da cadeira de rodas, apoiado no braço de um dos pedreiros, e disse, com a voz arrastada, mas firme: “Agora eu sei a resposta, mestre.” Raimundo riu como não ria havia anos.

No fundo do salão, de vestido simples, Débora olhava tudo. Tinha vindo acompanhar dona Neusa, que se sentara na primeira fila, de vestido de domingo. Ele a viu de longe e não sentiu vontade de vencer. Percebeu, surpreso, que estava procurando outro rosto, o de dona Rosalva, que apertava a chave contra o peito e ria entre as vizinhas.

Ele já não precisava que Débora o visse. E essa era a resposta que devia ao velho. Depois, na calçada, Débora ficou parada, sem saber para onde ir. Dona Neusa tomou-a pelo braço e a levou para casa. Na cozinha, serviu café num copo americano e disse: “Filha, todo mundo carrega tijolo. A diferença é a casa que a gente constrói com ele.”

Débora chorou pela primeira vez sem plateia. Na semana seguinte, começou a trabalhar numa loja de tecidos da rua principal. Entrando de manhã pela porta da frente, como todo mundo. Aos domingos, passou a esperar a mãe no portão da igreja, sem pressa e sem pedir nada. Quando o salão esvaziou, Raimundo voltou sozinho ao pátio do Aurora. Pegou um tijolo que sobrara numa pilha ao lado do portão. Assentou-o com massa fresca no último trecho de muro por fechar. E alisou a junta com a colher, sem pressa. Como fazia aos 18 anos. Ficou olhando a parede reta. O sol descia atrás dos prédios. E dona Rosalva acendeu a luz da primeira janela. No fim, Raimundo continuou carregando tijolo. O que mudou foi que ele deixou de carregar o peso de provar seu valor para quem nunca soube enxergá-lo. Porque existem pessoas que olham para uma roupa de trabalho e enxergam alguém menor, enquanto outras enxergam as mãos que levantam casas, sustentam famílias e constroem futuros.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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