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Os Grupos Mais Extremos e Obscuros da História do Brasil Explicados.

A história completa

Canudos, o arraial de Belo Monte. Em junho de 1893, um pregador cearense chamado Antônio Vicente Mendes Maciel chegou, com algumas centenas de seguidores, a uma fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, no sertão norte da Bahia. O povo o chamava de Antônio Conselheiro. Fazia mais de 20 anos que ele andava pelas estradas do Nordeste. Reformava igrejas, erguia muros de cemitério, vestia uma túnica azul, comia pouco e falava de um fim do mundo próximo.

No arraial, que batizou de Belo Monte, a terra era trabalhada em comum e ninguém pagava imposto à República recém-proclamada. Em quatro anos, o lugar chegou a cerca de 25.000 moradores. Era a segunda maior cidade da Bahia, atrás apenas de Salvador. Vinham famílias de Sergipe, de Pernambuco, do Ceará. Muitas eram de pessoas libertadas da escravidão apenas cinco anos antes, sem terra e sem trabalho.

Nos jornais do Rio de Janeiro, sem que nenhum repórter tivesse pisado ali, Canudos já era descrito como um ninho de fanáticos armados para trazer de volta o imperador. O perigo, no entanto, não morava dentro do arraial. Ele chegou de fora, marchando com canhões. Tudo começou com uma carga de madeira.

Em novembro de 1896, o Conselheiro pagou por tábuas para a igreja nova em Juazeiro, e a encomenda não foi entregue. Correu o boato de que os fiéis viriam buscá-la à força. O governo baiano mandou uma tropa. A tropa foi derrotada em Uauá. A segunda expedição recuou. A terceira, com mais de 1.300 homens, era comandada pelo coronel Antônio Moreira César, a quem o próprio Exército chamava de “corta-cabeças”, pela fama que trouxe de outra revolta no sul.

Moreira César foi atingido no primeiro ataque e morreu no dia seguinte. Seus soldados fugiram, deixando armas e munição pela estrada. A quarta expedição reuniu mais de 10.000 soldados de vários estados. Trouxe um canhão de quase duas toneladas que os sertanejos apelidaram de “Matadeira”. O cerco durou meses. As casas de taipa foram tomadas uma a uma com dinamite e querosene.

Antônio Conselheiro morreu em 22 de setembro de 1897, de doença, antes da queda final, mas o Exército ainda queria uma prova. Quando o arraial caiu, em 5 de outubro, os soldados desenterraram o corpo do santuário e o fotografaram. A cabeça foi separada e levada a Salvador para a Faculdade de Medicina, onde o médico Raimundo Nina Rodrigues mediu o crânio em busca de sinais de loucura. Não encontrou nenhum.

Na mesma semana, o fotógrafo Flávio de Barros registrou cerca de 400 prisioneiros, quase todos mulheres e crianças, magros, sentados no chão. Muitos dos homens capturados foram executados ali mesmo, num ritual que a tropa batizou de “gravata vermelha”. As estimativas falam em cerca de 25.000 mortos, somando sertanejos e soldados.

É mais gente do que vive hoje em todo o município de Canudos. Em 1969, o governo construiu o açude de Cocorobó, e as águas cobriram as ruínas do arraial. Nos anos de seca, as paredes da velha igreja voltam a aparecer acima da superfície. O crânio do Conselheiro se perdeu no incêndio da faculdade, em 1905.

A história sobreviveu num livro, Os Sertões, de Euclides da Cunha, que esteve lá como repórter. Canudos permanece como um monumento silencioso ao que um Estado é capaz de fazer quando decide que a pobreza organizada é uma ameaça.

Jorge Beltrão Negromonte e o trio de Garanhuns. Em abril de 2012, a polícia de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, prendeu três pessoas que usavam o cartão de crédito de uma mulher desaparecida. Parecia um golpe comum, desses que se resolvem em uma tarde de delegacia.

Os três moravam juntos numa casa simples de um bairro popular: Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, a esposa Isabel Cristina Pires da Silveira e a jovem Bruna Cristina Oliveira da Silva. Com eles vivia uma menina de 5 anos. Para os vizinhos, era uma família discreta que fazia e vendia salgados de porta em porta. Jorge tinha até escrito um livro.

O golpe do cartão de crédito era só a ponta. A dona do cartão estava enterrada no quintal da casa. Jorge dizia comandar uma seita chamada “Cartel”. Segundo ele mesmo contou aos investigadores, o grupo tinha a missão de purificar o mundo e controlar o crescimento da população. As vítimas eram escolhidas entre mulheres pobres, atraídas com a promessa de um emprego de babá.

Giselle Helena da Silva desapareceu em fevereiro de 2012. Alexandra da Silva Falcão, de 20 anos, em março. As duas foram mortas dentro da casa, e as escavações revelaram que havia um caso mais antigo. Em 2008, em Olinda, o trio tinha tirado a vida de Jéssica Camila da Silva Pereira, de 17 anos. A filha de Jéssica, então com um ano, ficou com eles.

Foi criada como se fosse deles. A menina de 5 anos que os vizinhos viam brincando na calçada era filha de uma das vítimas. Restava uma pergunta que a vizinhança demorou a fazer: o que exatamente o trio vendia de porta em porta?

Nas confissões registradas pela Polícia Civil, os três contaram que parte dos restos das vítimas foi usada como recheio de empadas e coxinhas. Os salgados eram vendidos nas ruas do bairro. Muitos moradores que compraram descobriram, pela televisão, o livro de Jorge, chamado Revelações de um Esquizofrênico. Tinha 34 capítulos e descrevia os crimes antes que a polícia soubesse deles.

Somadas, as condenações dos três passam de 200 anos de prisão. Pela lei da época dos crimes, nenhum deles pode cumprir mais de 30. Os julgamentos aconteceram em 2014 e em 2018, e as penas foram aumentadas em recurso no ano seguinte. Jorge, Isabel e Bruna seguem presos em Pernambuco. A filha de Jéssica foi retirada da casa e passou a ser acompanhada pela Justiça da Infância.

A casa de Garanhuns virou ponto de curiosos até ser fechada. O caso deixou perguntas que ninguém conseguiu responder sobre quantas portas se abrem todos os dias para quem chega sorrindo com uma bandeja.

Jacobina Mentz Maurer, a profetisa dos Muckers. Em 1872, no pé do Morro Ferrabraz, na colônia alemã que hoje é a cidade de Sapiranga, no Rio Grande do Sul, uma mulher de 31 anos começou a cair em transes durante a leitura da Bíblia. Jacobina era filha de imigrantes alemães. O marido, João Jorge Maurer, era curandeiro e atendia colonos de toda a região com chás e ervas.

A casa do casal virou ponto de encontro. Aos domingos, dezenas de famílias subiam o morro para ouvir Jacobina interpretar as escrituras. Ela dizia receber revelações, escolheu 12 seguidores e os chamou de “apóstolos”. Os vizinhos que não aderiram passaram a chamar o grupo de Muckers, palavra alemã para falso devoto, beato fingido.

Os primeiros mortos, no entanto, não foram os do grupo; foram os vizinhos que tinham ido embora. Com o tempo, as regras ficaram mais duras. Jacobina proibiu os seguidores de mandar os filhos à escola. Proibiu o contato com quem tinha deixado o grupo. Os desertores passaram a ser tratados como inimigos. As autoridades da colônia mandaram prender alguns líderes e soltaram-nos em seguida.

Houve denúncias, processos e ameaças dos dois lados. E, em maio de 1874, a tensão virou violência aberta. Casas de famílias dissidentes começaram a pegar fogo. Na noite de 25 para 26 de junho de 1874, a violência atingiu o ponto mais alto, e dessa vez ninguém dormia longe de casa. Grupos de seguidores cercaram casas de antigos membros e de colonos que tinham denunciado o grupo.

Atearam fogo de madrugada, com as famílias dentro. Quem tentou sair foi atacado no quintal. Entre os mortos havia crianças pequenas. Em poucas horas, a colônia inteira sabia. Três dias depois, chegou a primeira tropa. O conflito deixou cerca de 100 mortos entre colonos, seguidores e soldados, incluindo o coronel Genuíno Olímpio Sampaio.

Numa colônia onde quase todos se conheciam pelo nome, foi como perder uma família em cada rua. Jacobina Maurer foi morta em 2 de agosto de 1874, no último ataque ao esconderijo do grupo na mata do morro. A história virou dois filmes: Os Muckers, de 1978, e A Paixão de Jacobina, de 2002. O Morro Ferrabraz hoje é rampa de voo livre. Turistas saltam de asa-delta do mesmo lugar onde a seita se escondeu.

A colônia aprendeu tarde demais o preço do medo que se instala entre vizinhos quando a fé passa a decidir quem é inimigo.

Cícero Vicente de Araújo, a Igreja de Canaã. Em fevereiro de 2018, agentes da Polícia Federal entraram ao mesmo tempo em fazendas, restaurantes e casas de três estados: Minas Gerais, Bahia e São Paulo. O alvo era uma única igreja.

Ela tinha nascido em 1998 em São Paulo com o nome de Comunidade Evangélica Jesus, a Verdade que Marca. Depois mudou para Igreja Cristã Traduzindo o Verbo. O pastor Cícero Vicente de Araújo pregava uma vida em comunhão como a dos primeiros cristãos. Tudo seria de todos. Os fiéis vendiam casas, carros e terrenos e entregavam o dinheiro à igreja.

Em troca, ganhavam o lugar nas comunidades. Muitos eram famílias inteiras, de classe média, com emprego e casa própria. Mas o verdadeiro patrimônio da igreja não era o dinheiro das doações, era o trabalho das pessoas que tinham doado. Depois de entregar tudo, os fiéis eram levados para fazendas do grupo — seis em Minas Gerais e três na Bahia — produzindo café e hortaliças.

Outros iam trabalhar nos restaurantes e pequenos comércios ligados à igreja. Jornadas longas, sem descanso semanal e sem salário. O que recebiam era moradia coletiva, comida e a promessa de salvação. Quem pensava em sair já não tinha casa, carro nem conta no banco para onde voltar. As primeiras fiscalizações do Ministério do Trabalho começaram em 2013, numa ação batizada de “Operação Canaã”, o nome bíblico da terra prometida.

Os auditores voltaram às mesmas propriedades mais de uma vez, e, a cada visita, encontravam mais gente. O retrato que ficou nos relatórios é o de antigos donos de casa própria colhendo café de graça debaixo de sol, para uma igreja que tinha ficado com a casa deles. Pais e filhos trabalhando lado a lado, sem saber quanto valia o próprio dia.

Muitos diziam aos fiscais que estavam ali por vontade própria e acreditavam nisso. Ao todo, 565 pessoas foram encontradas em condição análoga à de escravo. Quase metade de todos os trabalhadores resgatados no país naquele período vinham de uma única igreja. Na operação de 2018, a Polícia Federal prendeu líderes do grupo, que passaram a responder por tráfico de pessoas e redução a condição análoga à de escravo.

A igreja nunca deixou de existir. O caso entrou nos registros oficiais como um dos maiores resgates de trabalhadores ligados a uma organização religiosa no Brasil. Uma cicatriz aberta da ganância que aprendeu a falar a linguagem da fé.

A Pedra Bonita, o Reino Encantado. Em maio de 1838, no sertão de Pernambuco, onde hoje fica o município de São José do Belmonte, centenas de sertanejos se reuniram ao pé de duas enormes pedras paralelas, com cerca de 30 metros de altura cada uma.

As pedras eram conhecidas de toda a região. Diziam que dentro delas dormia Dom Sebastião, o rei de Portugal desaparecido numa batalha no Marrocos quase três séculos antes. Um homem chamado João Antônio dos Santos começou a pregar que o rei voltaria. Mostrava duas pedrinhas brilhantes e dizia que eram diamantes do Reino Encantado.

Quando ele foi embora, a coroa passou ao cunhado João Ferreira. E João Ferreira prometeu mais: com o rei viria a riqueza. Os pobres ficariam ricos, os velhos voltariam a ser jovens. O rei, no entanto, não voltaria com orações. Segundo João Ferreira, Dom Sebastião exigia que as pedras fossem lavadas. João Ferreira anunciou ter recebido uma visão:

para que o reino desencantasse, as pedras precisavam ser molhadas com a vida dos fiéis. Quem se oferecesse voltaria depois, ressuscitado, rico e poderoso. Os rituais começaram em 14 de maio de 1838. Durante três dias, entre cantos, danças e bebida, pais ofereceram os próprios filhos, maridos ofereceram as esposas. Ninguém tentou fugir.

Quem duvidava era visto como traidor do rei. No terceiro dia, o próprio João Ferreira foi morto por um parente, que reivindicou para si a coroa. E no dia seguinte, uma tropa chegou ao pé das pedras. O que os soldados viram ficou nos relatórios oficiais. As duas torres de pedra estavam manchadas de vermelho do chão até onde a mão alcançava.

Ao redor, os corpos dos sacrificados deitados em fila à espera da ressurreição prometida. Os sobreviventes ainda acreditavam que o rei estava a caminho. Em três dias morreram 30 crianças, 12 homens, 11 mulheres e 14 cães. Mais de 50 pessoas, quase todas da mesma comunidade, por uma promessa de riqueza que cabia em duas pedrinhas.

A Pedra Bonita hoje se chama Pedra do Reino. O escritor Ariano Suassuna transformou a história num romance em 1971. Desde 1993, a cidade de São José do Belmonte faz, todo ano, uma cavalgada até as pedras, com cavaleiros vestidos de reis e rainhas do sertão. Um aviso eterno do que a miséria extrema faz com a esperança quando alguém aparece vendendo um milagre.

Evandro Ramos Caetano e as Bruxas de Guaratuba. Na tarde de 6 de abril de 1992, em Guaratuba, cidade de praia do litoral do Paraná, um menino de 6 anos saiu de casa para ir até a escola onde a mãe trabalhava. Era um trajeto de poucos minutos. Guaratuba era uma cidade tranquila fora da temporada. Todo mundo conhecia todo mundo.

O prefeito era Aldo Abagge, de uma família tradicional. A esposa dele, Celina, era a primeira-dama; e a filha, Beatriz, uma jovem conhecida na cidade. Cinco dias depois do desaparecimento, o corpo de Evandro foi encontrado num matagal, e a cidade quis um culpado: a seita que teria matado Evandro. No entanto, talvez nunca tenha existido.

É isso que as fitas mostraram três décadas depois. Em julho de 1992, um grupo especial da Polícia Militar prendeu sete pessoas; entre elas, Celina e Beatriz Abagge, um pai de santo chamado Osvaldo Marcineiro e quatro homens da cidade. A acusação era de que o menino tinha sido usado num ritual de magia encomendado para trazer dinheiro e poder. Havia confissões gravadas.

A imprensa batizou as duas mulheres de “As Bruxas de Guaratuba”. Em 1998, o primeiro júri durou 34 dias e terminou com absolvição. Foi anulado. Em julgamentos seguintes, Osvaldo e outros dois réus foram condenados. Em 2011, Beatriz também. Os réus repetiam sempre a mesma coisa: que tinham confessado sob ameaça.

Em 2018, o jornalista Ivan Mizanzuk começou a investigar o caso num podcast e conseguiu algo que ninguém tinha ouvido inteiro. Eram as fitas cassete completas das confissões. A versão apresentada à Justiça tinha sido editada. Nos trechos cortados, ouviam-se os acusados sendo pressionados, coagidos, mandados a repetir frases. O ritual descrito nas confissões aparecia na gravação inteira como uma história ensaiada.

Trinta e quatro dias. Foi o júri mais longo da história do Brasil, e tudo nele se apoiava numa gravação que tinha sido cortada. Em janeiro de 2022, o governo do Paraná pediu desculpas públicas aos acusados. Em 9 de novembro de 2023, o Tribunal de Justiça anulou todas as condenações por considerar as provas obtidas de forma ilegal. O caso virou série do Globoplay.

Quem tirou a vida de Evandro Ramos Caetano nunca foi identificado. Quem levou um menino de 6 anos numa tarde de abril num trajeto de poucos minutos? E por que a resposta mais fácil foi uma seita?

A Guerra do Contestado. Em outubro de 1912, nos campos do Irani, na região disputada entre Santa Catarina e o Paraná, um curandeiro conhecido como monge José Maria reuniu algumas centenas de camponeses expulsos das próprias terras.

A região tinha mudado de dono quase da noite para o dia. Para construir a ferrovia entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, uma empresa norte-americana recebeu do governo 15 km de terra de cada lado dos trilhos. Famílias que viviam ali havia gerações foram retiradas. Uma madeireira do mesmo grupo começou a derrubar os pinheirais.

Milhares de trabalhadores trazidos para a obra ficaram sem emprego quando ela terminou. José Maria curava doentes com ervas, lia para os sertanejos uma história de cavaleiros medievais e prometia uma “monarquia celeste”. O monge morreu no primeiro combate em 22 de outubro de 1912. E foi depois da morte dele que a guerra começou de verdade.

Os seguidores passaram a acreditar que José Maria voltaria à frente de um exército encantado, o “Exército de São Sebastião”. Fundaram “cidades santas” no meio da mata, como Taquaruçu e Santa Maria, com igrejas, quadras de forma e regras próprias. Os chefes eram escolhidos por visões, e as visões eram de crianças. Meninas que diziam conversar com o monge morto davam ordens a homens adultos.

A Igreja via heresia, os fazendeiros viam bandidos. E o governo federal viu uma revolta contra a República. Entre 1914 e 1915, o Exército mandou cerca de 7.000 soldados — metade do efetivo nacional da época. O Contestado ficou conhecido pelas suas armas improvisadas e pela comandante mais improvável de uma guerra brasileira.

Maria Rosa tinha cerca de 15 anos. Dizia receber ordens de José Maria. Montada num cavalo branco, vestida de branco, comandou milhares de sertanejos armados de facões de madeira e espingardas velhas. Do outro lado, pela primeira vez numa guerra no Brasil, o Exército usou aviões para observar o inimigo. O tenente Ricardo Kirk morreu na queda do próprio avião em 1915.

Os historiadores calculam entre 5.000 e 8.000 mortos. A área do conflito tinha o tamanho do estado de Alagoas. A guerra terminou em 1916 com a captura do último chefe, Adeodato. No mesmo ano, Santa Catarina e o Paraná assinaram o acordo de limites que encerrou a disputa pela terra. Em Caçador, no Meio-Oeste catarinense, o Museu do Contestado guarda armas, fotos e objetos das cidades santas.

Um monumento silencioso a todos os que perderam a terra antes de perder a vida.

Gleudson Dantas Barros e a Seita da Mega-Sena. Em maio de 2018, em Iguatu, no centro-sul do Ceará, o estudante Jeyderson de Oliveira Xavier saiu de casa e não voltou. As câmeras de segurança da rua mostraram que ele estava acompanhado.

Iguatu é uma cidade média, de pouco mais de 100.000 habitantes, conhecida pelo comércio e pela agricultura. O homem que aparecia nas imagens ao lado do estudante era Gleudson Dantas Barros. Ele e Roberto Alves da Silva frequentavam um sítio no distrito de Suassurana, chamado Sítio Canto. Para quem passava pela estrada, era apenas mais uma propriedade rural, com uma casa simples e um terreno de mato baixo.

O estudante desaparecido não era o primeiro. No terreno do sítio havia quatro covas rasas. Com a prisão dos dois, a polícia reconstruiu o método. As vítimas eram escolhidas entre pessoas emocionalmente vulneráveis, segundo o Ministério Público. Eram atraídas com promessas simples: dinheiro, uma festa, uma carona. No sítio, tinham a cabeça coberta com um pano e eram executadas pelas costas.

Os crimes aconteceram entre 2017 e 2018. Um adolescente participava do grupo. Os dois líderes explicaram aos investigadores o motivo: os rituais serviriam para descobrir os números da Mega-Sena e para obter o que chamavam de “poderes divinos”. Faltava entrar na casa principal do sítio. Os peritos que entraram passaram a chamá-la por outro nome: “casa da morte”.

Lá dentro havia um altar improvisado decorado com restos humanos das vítimas. Velas, imagens e objetos pessoais dos desaparecidos completavam a montagem. Os investigadores registraram tudo em fotografia para o processo. A chance de acertar as seis dezenas da Mega-Sena com um jogo simples é de uma em mais de 50 milhões.

Quatro pessoas morreram por essa conta. Em maio de 2026, 8 anos depois, o júri popular condenou Gleudson Dantas Barros e Roberto Alves da Silva por homicídio qualificado, ocultação de cadáver, corrupção de menores e vilipêndio a cadáver, com penas que passam de 38 anos de prisão. O Sítio Canto continua lá, no mesmo distrito.

Um aviso de que a ganância, quando veste roupa de ritual, transforma quatro vidas em números de um bilhete.

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. Em 1926, num vale da Chapada do Araripe, no município do Crato, no sul do Ceará, um beato negro chamado José Lourenço recebeu do Padre Cícero uma fazenda abandonada para cultivar com os seus seguidores.

José Lourenço era paraibano, filho de pessoas que tinham sido escravizadas. Vivia como um religioso leigo, sem casar, sem ter nada de seu. No Caldeirão, milhares de camponeses trabalhavam a terra em comum: plantavam algodão, cana, feijão e mandioca. Construíram açudes, um engenho, uma igreja e oficinas. O que sobrava era vendido, e o dinheiro comprava remédio e querosene para todos.

O que condenou o Caldeirão, no entanto, não foi a pobreza; foi a fartura no meio da seca. Na grande seca de 1932, enquanto o sertão passava fome, o Caldeirão tinha comida. Recebeu famílias de retirantes que chegavam de longe. Fazendeiros da região perderam mão de obra barata. O Padre Cícero morreu em 1934 e deixou as terras para uma ordem religiosa, que passou a reclamá-las.

A imprensa começou a falar numa “nova Canudos”. Em 1936, a polícia invadiu o vale e expulsou os moradores. Muitos fugiram para a mata da Serra do Araripe. Lá, um grupo de seguidores armados matou um capitão da polícia e alguns soldados que os perseguiam. Era o pretexto que faltava. Anos antes, um boato tinha preparado o terreno, e o boato tinha nome de boi.

O boi se chamava Mansinho. Era um zebu dado de presente pelo Padre Cícero a José Lourenço. Correu a história de que os fiéis adoravam o animal como um santo. O boi foi abatido por ordem de um político da região, e o beato chegou a ser preso. Em 11 de maio de 1937, aviões militares sobrevoaram a mata do Araripe e despejaram bombas sobre famílias escondidas entre as árvores.

Duzentos policiais completaram o cerco por terra. Nos jornais da época, os próprios comandantes falaram em cerca de 700 mortos. Nenhum número é inteiramente confiável, porque ninguém contou os corpos. O Exército e a polícia do Ceará nunca informaram onde os mortos foram enterrados. A vala comum, que se acredita estar na região chamada Mata dos Cavalos, nunca foi localizada.

José Lourenço sobreviveu, foi para Pernambuco e morreu em 1946. Todos os anos, uma romaria volta ao Caldeirão, uma cicatriz que o país preferiu cobrir de mato para não ter de contar.

A Comunidade Cristã de Laodiceia. Em junho de 2022, policiais e procuradores entraram numa comunidade religiosa às margens do rio Tocantins, no município de Baião, no nordeste do Pará.

Cinco líderes foram presos e, em setembro, o caso chegou à televisão de todo o país no Fantástico. A comunidade tinha surgido nos anos 90, em torno de um pastor evangélico. Prometia uma vida simples, em comunhão, longe da violência das cidades. Os bens seriam divididos; o trabalho, também. Famílias inteiras se mudaram para lá. Muitas crianças nasceram dentro da comunidade e nunca conheceram outra vida.

Quem via de fora enxergava uma vila organizada com casas, roças, uma marcenaria e uma casa de farinha. Oficialmente, o trabalho na comunidade era voluntário, e quem se recusava a fazer era castigado. Os moradores trabalhavam como cozinheiros, costureiras, marceneiros e na produção de farinha sem salário. Os líderes ficavam com os cartões de benefícios sociais das famílias, como Bolsa Família e o Seguro-Defeso dos Pescadores.

Faziam empréstimos no nome dos fiéis. As crianças e os adolescentes eram impedidos de frequentar a escola fora da comunidade. Passavam o dia entre o trabalho e o estudo religioso. E para manter a ordem havia um instrumento. Nos depoimentos, um objeto aparecia em quase todas as histórias. Os investigadores encontraram mais de um.

Eram porretes de madeira, lisos, com uma palavra entalhada no cabo: “disciplina”. Era com eles que os líderes castigavam adultos e crianças que desobedeciam, que reclamavam ou que tentavam ir embora. A palavra servia de nome ao objeto e de justificativa para cada golpe. A sentença da Justiça Federal reconheceu 67 vítimas, entre elas crianças e adolescentes, num período de 25 anos.

Em 21 de março de 2023, o juiz federal de Tucuruí condenou quatro líderes a 29 anos e 9 meses de prisão, cada um, por trabalho escravo e pelos castigos físicos impostos aos moradores. Um quinto réu recebeu 9 anos e 3 meses. O Ministério Público do Trabalho pediu R$ 5 milhões de reais de indenização. A comunidade continua existindo com moradores que nasceram lá e não querem sair.

Um retrato de como a obediência, repetida por tempo suficiente, pode parecer uma escolha.

A Serra do Rodeador, a Cidade do Paraíso Terrestre. Em 1817, na Serra do Rodeador, no município de Bonito, no Agreste de Pernambuco, um ex-soldado de milícia chamado Silvestre José dos Santos fundou um povoado ao lado de uma grande pedra. Os seguidores o chamavam de Mestre Quiou.

A pedra era tida como encantada. Silvestre pregava que Dom Sebastião, o rei português desaparecido, voltaria quando o povoado reunisse 1.000 pessoas. Com o rei viriam a justiça, a terra e a riqueza. As famílias chegaram de todo o Agreste: plantavam, rezavam e faziam exercícios com armas, porque o “exército do rei” precisaria de soldados.

O lugar ganhou o nome de “Cidade do Paraíso Terrestre”. O perigo que o governo enxergou, no entanto, não era religioso, era político. Três anos antes, em 1817, Pernambuco tinha vivido uma revolução contra a coroa portuguesa, esmagada com prisões e execuções. O governador Luís do Rego Barreto não queria outro levante.

As notícias de homens armados treinando numa serra à espera de um rei chegaram ao Recife. Em outubro de 1820, o governador mandou uma tropa. Na madrugada de 25 de outubro, os soldados cercaram o povoado. Os fiéis que esperavam o rei enfrentaram a tropa. O acampamento foi incendiado. Os depoimentos colhidos depois guardaram um detalhe sobre a pedra.

Um detalhe que explicava a coragem dos fiéis: os seguidores contavam que, de dentro da pedra, uma voz de mulher falava com eles. Diziam que era a voz de uma santa que dava ordens, anunciava a chegada do rei e prometia proteção contra as balas. Na madrugada do ataque, homens com armas velhas avançaram contra a tropa acreditando nessa promessa.

O massacre de Bonito deixou 91 mortos e mais de 100 feridos. Mais de 200 mulheres e 300 crianças foram presas e levadas para o Recife a pé. O Movimento do Rodeador é considerado pelos historiadores a primeira manifestação coletiva do Sebastianismo no Brasil. Ele abriu um caminho que seria seguido 18 anos depois, na Pedra Bonita.

A pedra continua lá na serra e o episódio é estudado pela Fundação Joaquim Nabuco no Recife. Uma pergunta que o Rodeador deixou sem resposta: de quem era afinal a voz que saía da pedra?

João Teixeira de Faria, João de Deus. Em 7 de dezembro de 2018, um programa de entrevistas da TV Globo exibiu os depoimentos de dez mulheres. Todas contavam histórias parecidas sobre o mesmo homem, o médium mais famoso do Brasil.

Fazia mais de 40 anos que João Teixeira de Faria atendia em Abadiânia, uma cidade pequena de Goiás, a cerca de 100 km de Brasília. A Casa de Dom Inácio de Loyola recebia mais de 1.000 pessoas por dia, vindas do mundo inteiro em busca de cura para câncer, paralisia e cegueira. A apresentadora norte-americana Oprah Winfrey visitou a casa em 2012.

Presidentes da República passaram por lá. A cidade inteira vivia das pousadas, dos restaurantes e das lojas de cristais. Os visitantes vestiam branco, como pedia a casa, e esperavam horas na fila para passar diante do médium por alguns segundos. A fama de João de Deus, no entanto, não vinha das rezas; vinha das “cirurgias” feitas sem anestesia diante de uma plateia.

Ele dizia incorporar espíritos de médicos mortos. Em transe, chamava voluntários ao palco. As sessões eram filmadas e exibidas em programas de televisão de vários países. Nos bastidores, ele recebia algumas mulheres sozinhas numa sala reservada, com a promessa de um “tratamento espiritual especial”.

Foi isso que as dez mulheres contaram na televisão. Em poucos dias, o Ministério Público de Goiás recebeu centenas de relatos. Em 16 de dezembro de 2018, depois de ser considerado foragido, ele se entregou à polícia. As imagens que tinham feito a fama de João de Deus voltaram a circular, agora vistas de outra forma. Numa delas, um paciente acordado e em pé tem o olho raspado com uma faca de cozinha.

Em outra, uma pinça comprida é empurrada nariz a dentro. Os pacientes não esboçam reação. Durante décadas, essas cenas foram vendidas como prova de um poder sobrenatural, e não como um sinal de alerta. Somadas, as condenações em primeira instância chegaram a 489 anos, mais de quatro séculos e meio. Depois dos recursos, a soma caiu para cerca de 214 anos.

A Justiça de Goiás o condenou por crimes contra a dignidade sexual de 56 mulheres. Em relação a outras 20, os crimes já tinham prescrito. Desde 2020, por causa da idade avançada e da saúde, João Teixeira de Faria cumpre pena em prisão domiciliar. Ainda há recursos no Superior Tribunal de Justiça. O caso de Abadiânia deixou o aviso de que a fé, quando vira espetáculo, perde a capacidade de enxergar quem está no palco.

Pau de Colher. Em janeiro de 1938, no município de Casa Nova, no sertão da Bahia, perto da divisa com o Piauí e Pernambuco, um povoado religioso chamado Pau de Colher já reunia cerca de 4.000 pessoas. O líder era o beato José Senhor; ele seguia as ideias de Severino Tavares, um pregador paraibano ligado ao Caldeirão do Beato José Lourenço.

O povoado era visto pelos fiéis como a terra prometida, o lugar mais perto do céu. Rezavam o terço várias vezes ao dia, faziam cruzes. As regras eram rígidas: ninguém bebia, ninguém comia carne, e até os casais eram proibidos de viver como marido e mulher. O sertão temia Pau de Colher pela sua violência. Mas o que veio depois foi muito maior.

Quem se recusava a entrar no movimento passava a ser tratado como inimigo. Os seguidores andavam com cassetetes e atacavam quem resistia, inclusive parentes. As primeiras mortes aconteceram em 7 de janeiro de 1938. Era o começo do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas. O governo reagiu com tropas da polícia de três estados e do Exército.

Em 15 de janeiro, um primeiro ataque matou 11 pessoas. Entre 18 e 21 de janeiro, o capitão Optato Gueiros, da Polícia de Pernambuco, avançou com 97 soldados, metralhadoras e fuzis. No dia 24, aviões do Exército passaram a caçar os sobreviventes na caatinga. Quando o fogo cessou, os soldados recolheram as armas dos fiéis e descobriram com o que eles tinham lutado.

Eram cassetetes de madeira de marmeleiro talhados em forma de cruz. Os seguidores acreditavam que aquelas cruzes eram necessárias para a salvação. Os corpos foram queimados, e os restos dos líderes, desenterrados e incinerados para não sobrar túmulo. As crianças que ficaram órfãs foram levadas em carroças até Salvador e entregues a famílias ricas, onde trabalharam como criadas.

No diário do Capitão Gueiros, constam 400 mortos até 21 de janeiro. Somada à perseguição dos três meses seguintes, o total pode ter passado de 1.000. É considerado o massacre mais sangrento do Estado Novo. Em 29 de janeiro, Getúlio Vargas enviou um telegrama de parabéns ao interventor da Bahia. Por décadas, quase ninguém falou do assunto. Um morador da região, Gregório Manoel Rodrigues, demarcou por conta própria o local do acampamento e as covas coletivas para que não se perdessem.

Um monumento silencioso à violência que se alimenta de outra violência até ninguém lembrar quem começou.

A Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia. Em março de 2019, auditores-fiscais do trabalho e procuradores entraram numa propriedade no Gama, região administrativa do Distrito Federal, a meia hora do Palácio do Planalto.

Do lado de fora, era uma igreja com uma empresa ao lado. A comunidade era uma dissidência religiosa fundada por uma mulher que se apresentava como líder espiritual. Ela prometia a salvação divina a quem trabalhasse “para a obra”. E a “obra” tinha uma empresa de alimentos e roupas. Os fiéis faziam pão, costuravam, plantavam hortaliças e limpavam.

Vendiam a produção e viviam todos ali perto da igreja com as famílias. O que os fiscais encontraram, no entanto, não foi uma comunidade de irmãos; foi uma folha de pagamento em branco. Ninguém recebia salário. A “ajuda informal” que alguns recebiam era, em parte, devolvida para cobrir as despesas da igreja e da empresa.

As jornadas eram longas; não havia água potável suficiente, nem banheiros adequados, nem lugar para as refeições. Quem tinha dúvidas ouvia que estava duvidando da salvação. E a líder da comunidade morava numa casa ampla e confortável. A poucos metros dali, os auditores percorreram o terreno à procura dos alojamentos e não encontraram nenhum.

Os trabalhadores dormiam em ônibus velhos, debaixo de lonas e em carrocerias de caminhão. Algumas camas improvisadas ficavam ao lado de galões de agrotóxico usados na horta. Era ali que famílias inteiras passavam a noite para acordar cedo e trabalhar de graça. Foram encontrados 95 trabalhadores em condições degradantes, quase uma centena de pessoas a poucos quilômetros do centro do poder do país.

Em novembro de 2020, a Justiça do Trabalho condenou os líderes da igreja e a empresa a pagar salários atrasados, férias, 13º e R$ 200.000 por danos morais coletivos. Em outubro do mesmo ano, a igreja tinha entrado na “lista suja” do trabalho escravo, o cadastro oficial do governo federal. Uma prova de que a exploração não precisa estar tão distante para existir.

Às vezes, ela fica à vista da capital.

Valentina de Andrade e o Lineamento Universal Superior. Entre 1989 e 1993, em Altamira, cidade às margens do Rio Xingu, no Pará, meninos de 8 a 14 anos começaram a desaparecer no caminho para a escola, para o rio ou para o campo de futebol. Altamira era uma cidade em crescimento, cercada pela floresta, com famílias pobres que tinham chegado em busca de trabalho.

Os meninos andavam sozinhos pela cidade, como em qualquer cidade do interior. Ao mesmo tempo, circulava na região um grupo esotérico chamado Lineamento Universal Superior, conhecido pela sigla LUS. A fundadora, Valentina de Andrade, tinha escrito um livro chamado Deus, a Grande Farsa. Nele, dizia que as crianças nascidas depois de 1981 (os “mutantes”) mereciam atenção especial.

Mas alguns dos meninos voltaram. E o que eles contaram mudou a investigação. Os sobreviventes descreveram homens que os levavam para lugares isolados perto da mata e os atacavam. Os corpos dos meninos que não voltaram foram encontrados em matagais nos arredores da cidade. Outros nunca foram achados. As mães se organizaram num comitê, foram à imprensa, viajaram até Belém e até Brasília.

Cobraram a polícia durante anos. Algumas guardavam a roupa que o filho usava no dia em que saiu de casa. Durante muito tempo, as autoridades locais trataram os casos como ataques isolados, sem ligação entre si. A investigação chegou a dois médicos da cidade, a dois policiais militares e ao herdeiro de uma família rica da região, e chegou à seita.

A acusação dizia que os ataques faziam parte de rituais do grupo. Em 1995, o Supremo Tribunal Federal encontrou irregularidades no processo e todos foram soltos. Os laudos dos peritos guardavam um detalhe que explicava a suspeita sobre os médicos: um detalhe que se repetia em quase todos os casos.

Os ferimentos nos corpos dos meninos tinham sido feitos com precisão cirúrgica. Cortes limpos de quem sabia exatamente onde e como cortar. Para a polícia, aquilo não era obra de alguém sem formação; era trabalho de mão treinada em medicina. Os sobreviventes carregaram os ferimentos pelo resto da vida. Alguns deles, já adultos, voltaram a depor anos depois, diante do júri, olhando para os homens que apontavam como responsáveis. Os números variam conforme a fonte.

Entre 14 e 19 meninos foram atacados ou desapareceram em quatro anos. Pelo menos cinco nunca foram encontrados. Em 2003, um júri em Belém condenou os médicos Anísio Ferreira de Souza a 77 anos de prisão e Césio Flávio Caldas Brandão a 56. Valentina de Andrade foi absolvida por falta de provas. Pouco depois, um homem preso no Maranhão confessou ter matado meninos também em Altamira, e a dúvida nunca mais saiu do caso.

Para as mães de Altamira, a absolvição da líder e a confissão tardia deixaram o caso sem ponto final. Hoje a cidade vive à sombra de outra obra gigante, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, erguida no rio Xingu na década de 2010. Belo Monte. O mesmo nome que Antônio Conselheiro deu ao seu arraial um século antes. Duas histórias brasileiras separadas por cem anos e unidas por uma mesma pergunta:

quem protege os mais pobres quando todos os olhos estão voltados para outro lado? Do sertão da Bahia às margens do Xingu, das pedras encantadas de Pernambuco às salas fechadas de Abadiânia. Este percurso atravessou quase dois séculos de história brasileira. Vimos profetas de túnica, médiuns diante das câmeras, pastores com porretes e homens que escolhiam vítimas para um bilhete de loteria.

E vimos também o outro lado: os canhões e os aviões que o próprio Estado mandou contra quem só queria um pedaço de chão. Estes quinze casos mostram que o perigo de uma seita raramente começa na violência. Ele começa na promessa: riqueza, cura, salvação, terra. E quase sempre encontra o terreno pronto, onde a pobreza, o abandono e o medo já fizeram metade do trabalho.

O que leva milhares de pessoas a entregar a casa, os filhos e a própria vida a um único homem ou a uma única mulher? Seria a fé, a fome ou a falta de qualquer outra porta aberta? Se você chegou até aqui, siga a página e ative as notificações para não perder os próximos casos. Deixe o seu like, porque isso ajuda este trabalho a chegar a mais gente.

E conte nos comentários qual destes casos foi o mais perturbador para você: os sacrifícios da Pedra Bonita, as “cirurgias” de João de Deus em Abadiânia ou os meninos de Altamira? Até o próximo mistério.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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