O CASO QUE PARALIZOU CURITIBA: Motorista de Van Escolar Viu Quem Buscou a Menina e Decidiu Segui-lo
O resto
Em caso de tentativa de contato ou retirada, acionar a direção e a mãe imediatamente; não liberar a criança sob nenhuma circunstância.” A anotação estava registrada no sistema interno, numa aba que a secretária titular conhecia de cor e que Denise, em três semanas de treinamento apressado, ainda não tinha aberto. Ela tentou ligar para o número de Fernanda, cadastrado na ficha, mas a ligação caiu direto na caixa postal.
Fernanda, àquela hora, estava no início do turno na farmácia, numa área do prédio sem sinal de celular, conferindo um pedido de medicamentos controlados que exigia uma assinatura dupla e não podia ser interrompido. Denise esperou um minuto, tentou outra vez e, diante do silêncio do telefone e da insistência educada do homem — que começava a olhar o relógio, dizendo que precisava voltar ao hospital, onde, segundo ele, Fernanda estava sendo atendida —, tomou a decisão de que se lamentaria nas semanas seguintes.
Anotou o nome dele na prancheta de saídas, pediu que assinasse o protocolo de retirada e mandou chamar Eloísa da sala. A menina chegou confusa. Fazia tempo que não via o pai. Os últimos meses tinham sido de visitas supervisionadas, sempre em um espaço específico da cidade, sempre com outra pessoa presente.
Uma rotina que a mãe explicava a ela em frases curtas e cuidadosas demais para uma criança de 8 anos entender por completo. Ela perguntou pela mãe, e o homem respondeu que ia levá-la até ela, que estava tudo bem, que era “rapidinho”. Eloísa, treinada a obedecer adultos e ainda sem o vocabulário para questionar um deles em voz alta, pegou a mochila de girassol que Denise lhe entregou e seguiu com o pai até o portão principal. E cruzou o pátio pelo lado oposto ao ponto onde a van de Vado já estava estacionada havia 15 minutos. Foi assim, numa sucessão de pequenas falhas que, separadas, pareciam inofensivas. Um campo em branco, um sobrenome batendo, um celular fora de área, uma substituta sem o treinamento completo. Foi assim que Edvan Bittencourt conseguiu atravessar o portão da escola com a filha pela mão, sem que ninguém levantasse a voz, sem empurrão, sem gritaria. Exatamente como ele tinha planejado nas semanas anteriores, estudando os horários da escola à distância. Da mesma forma cuidadosa e obsessiva com que vinha estudando a rotina da ex-mulher desde que o juiz assinara, em fevereiro, a ordem que o proibia de chegar perto dela. O colégio tinha, no papel, um protocolo razoável: cadastro de pessoas autorizadas com documento, exigência de CPF do responsável em qualquer autorização avulsa, orientação de nunca liberar criança por telefone. O problema não estava na regra, mas na distância entre a regra escrita e a pessoa que precisava aplicá-la. Sob pressão, sozinha, num fim de tarde de corredor cheio. Sem ninguém para confirmar a dúvida que ela mesma sentiu diante do campo em branco.
Denise voltaria a pensar nisso por semanas, presa a um único instante que não tinha como desfazer: o segundo em que poderia simplesmente ter esperado a confirmação de Fernanda chegar e preferiu confiar num sobrenome e na pressa educada de um estranho. Enquanto Eloísa atravessava o pátio da escola de mãos dadas com o pai, Fernanda Nogueira estava a 6 km dali. Trancada numa sala sem janelas nos fundos de uma drogaria de rede na Avenida 7 de Setembro. Ela conferia, junto com outra farmacêutica, um pedido de medicamentos controlados que tinha chegado com divergência na nota fiscal. Era a rotina da quarta-feira, o turno das 14 às 22 horas, o único dia da semana em que ela não buscava a filha pessoalmente, confiando essa tarefa à van que pegava Elô desde o primeiro ano do fundamental. Fernanda tinha orgulho de ter organizado a vida assim, depois de um ano e meio em que organizar qualquer coisa parecia impossível.
Ela conheceu Edvan aos 23 anos, numa festa de amigos em comum, e os primeiros anos do casamento foram, segundo contaria depois a uma psicóloga, “normais o suficiente para eu não perceber o que estava virando”. O que começou como ciúme — perguntas sobre horários, exigência de satisfação de cada saída, comentários sobre roupas — foi se transformando, ao longo dos anos, num controle mais sistemático.
O acesso ao celular dela, os bloqueios financeiros sutis, as idas e vindas monitoradas por mensagens que cobravam resposta imediata. Eloísa nasceu no meio desse processo e, por muito tempo, Fernanda acreditou — como tantas mulheres na mesma posição — que a filha seria o motivo para que tudo mudasse.
Não mudou. Mudou, na verdade, depois que Fernanda decidiu sair, em outubro do ano anterior, levando Elô para um apartamento alugado no bairro Bacacheri, com a ajuda do irmão Thiago.
Foi então que o comportamento de Edvan — que já era controlador dentro do casamento — se tornou abertamente perseguidor. Mensagens incessantes, aparições “por acaso” perto da escola, perto do trabalho, perto da casa da mãe de Fernanda. Em fevereiro deste ano, depois de uma noite em que ele esperou mais de duas horas no carro estacionado em frente ao prédio dela, Fernanda reuniu coragem para ir à Delegacia da Mulher e registrar um boletim de ocorrência.
A autoridade policial fez a representação pela medida protetiva de urgência, e uma juíza da vara de violência doméstica a deferiu em poucos dias. Proibição de Edvan se aproximar de Fernanda e de Eloísa a menos de 300 metros. Proibição de contato por qualquer meio. E, por recomendação expressa do Ministério Público, extensão explícita da medida às dependências da escola da menina.
A partir dali, Fernanda viveu um tipo de cautela que se tornou sua segunda natureza. Avisava a escola sempre que algo saía da rotina, repetia instruções à van que pareciam exageradas até para ela mesma, guardava prints de cada mensagem que Edvan ainda tentava mandar, mesmo proibido. Nos últimos dois meses, porém, o silêncio dele tinha sido quase completo. E esse silêncio, em vez de tranquilizá-la, a deixava com um desconforto que ela não sabia nomear. O tipo de calmaria de que quem já viveu perto de alguém controlador aprende a desconfiar.
O que Fernanda não sabia é que o silêncio de Edvan era apenas de contato, não de existência. Nas últimas semanas, afastado de qualquer contato direto, ele tinha recorrido ao único canal que ainda lhe restava: observar à distância. Estacionava o carro em ruas próximas à escola, em horários variados, sem nunca descer, anotando mentalmente os horários de entrada e saída. Os dias em que a van de transporte escolar aparecia; os dias em que não aparecia.
Descobriu, numa dessas observações, que às quartas-feiras era a própria van que buscava Elô. E foi numa dessas quartas que teve a ideia que amadureceria nas semanas seguintes. Se conseguisse um documento que parecesse oficial, com o nome certo, o sobrenome certo… talvez a escola nem questionasse.
Ele não tinha noção técnica de como falsificar uma assinatura. O que fez foi mais simples e, por isso mesmo, mais difícil de identificar à primeira vista. Copiou o formato de uma autorização real que uma vez, anos antes, ainda casado, tinha visto Fernanda preencher para a avó materna buscar Elô num dia de consulta médica. Reproduziu o modelo num editor de texto comum, preencheu os dados que lembrava e assinou o nome da ex-mulher com a letra que conseguiu imitar, depois de algumas tentativas rasuradas e descartadas.
Às 17h01 daquela quarta-feira, o celular de Fernanda — ainda na sala sem sinal da farmácia — registrava, sem que ela visse, três chamadas perdidas de um número que não reconheceria de imediato: o número fixo da secretaria do Colégio Vale do Cedro. A secretaria insistia, tarde demais, em confirmar uma autorização que já tinha sido assinada na prancheta, e que àquela altura já não fazia mais diferença.
Fernanda só terminou a conferência do pedido às 17h20. Assinou o formulário de dupla checagem junto com a colega e saiu da sala dos fundos em direção ao balcão, onde o sinal do celular voltava assim que ela se aproximava da porta de vidro da frente. O aparelho vibrou três vezes seguidas antes mesmo de ela destravar a tela.
Uma sequência de notificações que, em qualquer outro dia, ela teria aberto com a calma de quem está acostumada a mensagens do grupo da van, avisando sobre trânsito ou sobre o lanche de amanhã. Dessa vez eram as três chamadas perdidas da secretaria, sem mensagem de voz, e uma notificação do próprio aplicativo da van, que Vado usava para confirmar embarque.
O nome de Eloísa sozinho na lista, ainda marcado como “aguardando”. Fernanda ligou de volta para a escola antes mesmo de tirar o avental azul da farmácia. E foi Denise quem atendeu, já com a voz alterada, tentando explicar ao mesmo tempo em que pedia desculpas. “Um tio… uma autorização assinada… o nome do pai no documento de identidade…”
Fernanda não deixou a frase terminar. Ela conhecia exatamente uma pessoa com aquele sobrenome que poderia ter aparecido ali, apresentando-se como parente, e não era tio de ninguém. Largou o avental em cima do balcão, avisou a gerente em três palavras que precisava sair agora e saiu correndo para o estacionamento dos funcionários, enquanto discava ao mesmo tempo para o número do irmão e para o celular simples que Elô carregava só para ligações. Um aparelho sem internet que, àquela altura, tocava sem resposta dentro da mochila de girassol, esquecida no banco de trás de um carro prata que já cruzava a Avenida das Torres, em direção ao Contorno Leste da cidade. Depois que a secretária confirmou que o pai tinha vindo buscar a menina, Osvaldo Pontaroli teve alguns segundos para decidir o que fazer e passou esses segundos fazendo exatamente o que fazia havia 19 anos ao volante: calculando o risco.
Ele não conhecia os detalhes da separação de Fernanda. Ela nunca tinha entrado em pormenores, só repetido a instrução sobre nunca liberar Elô para ninguém sem confirmação. Mas conhecia o suficiente para entender que aquela instrução não era capricho e conhecia, mais do que isso, o jeito de andar de Elô, que ele via toda tarde subir o degrau da van com uma determinada confiança, e que agora, do outro lado da rua, caminhava com os ombros curvados e o passo curto de quem está incomodada, e não sabe como dizer. Ele voltou correndo para a van, onde dona Iraci, a monitora, já notava sua ausência prolongada. Não tinha tempo para explicações longas. “Fica com as crianças. Eu preciso ir atrás de uma coisa. Já aviso vocês”, disse, entregando a ela as chaves de reserva e o celular com o aplicativo de rotas já aberto na tela, de forma que ela pudesse, se precisasse, acionar os pais das outras famílias.
Dona Iraci, que trabalhava com ele havia seis anos e sabia reconhecer quando o Vado falava sério, não discutiu. O carro prata já tinha saído da fila dupla e virado à direita na esquina quando Vado conseguiu colocar a van em movimento. Ele sabia que perseguir um carro por Curitiba numa van de transporte escolar — carregada de responsabilidade legal por 14 crianças a bordo até minutos antes — não era exatamente um plano.
Era, na melhor das hipóteses, uma tentativa de não perder de vista alguém enquanto chamava a “ajuda de verdade”. Ligou para o número de Fernanda enquanto dirigia, usando o viva-voz preso ao painel, e foi direto ao ponto assim que ela atendeu, ainda ofegante, a caminho do carro no estacionamento da farmácia: “Fernanda, é o Vado.
Um homem levou a Elô da escola. Falou que era tio, mas não é o seu irmão. Eu conheço o Thiago. Tô seguindo o carro agora. Prata. Acho que é um sedã. Placa… eu ainda não consegui ver direito. Liga pra polícia. Eu não desgrudo.” A frase “Eu não desgrudo” seria repetida depois em depoimento à polícia, quase palavra por palavra. Não porque fosse uma frase de efeito, mas porque resumia com exatidão o que ele fez nos 40 minutos seguintes.

Manteve distância de três ou quatro carros do sedã prata — o suficiente para não ser notado no espelho retrovisor —, memorizando cada manobra. A entrada na Avenida das Torres; a conversão brusca, evitando o pedágio da BR-277; uma pausa de menos de um minuto num posto de combustível, onde o motorista nem desceu, só conferiu algo no celular.
Em determinado momento, parado num semáforo a duas pistas de distância, Vado conseguiu, com o celular apoiado no volante, fotografar a traseira do carro e capturar os quatro primeiros caracteres da placa antes que o sinal abrisse. Fernanda, do outro lado da linha, agora dirigindo também, ouvia a ligação em que o irmão Thiago tinha entrado para fazer uma chamada em três.
Ligou ao mesmo tempo para o número de emergência e para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. Por sorte, estava de plantão e quem atendeu foi a investigadora Camila Serpa, que já conhecia o caso. Fora ela quem acompanhara o registro da medida protetiva em fevereiro e sabia, sem precisar de explicações longas, exatamente o tamanho do risco que uma violação daquelas representava.
Foi Camila quem, em menos de 3 minutos, acionou o protocolo que a Polícia Militar do Paraná usa para casos de criança em risco. Não um “alerta nacional”, porque o Brasil não tem um sistema unificado como o de outros países, mas um procedimento interno de prioridade máxima. Com a localização aproximada do veículo, repassada em tempo real às viaturas da região.
Dona Iraci, sozinha com 13 crianças na van parada, fez o que sabia fazer. Ligou uma a uma para as famílias da lista, explicando com calma que havia um imprevisto e que elas chegariam um pouco mais tarde, sem entrar em detalhes que pudessem assustar os pequenos sentados atrás dela. Chamou um colega de Vado, dono da outra van da mesma linha, que apareceu em 20 minutos para ajudar a completar as entregas.
Nenhuma das 13 famílias soube, naquela noite, o que realmente tinha acontecido. Souberam depois pelos jornais, como praticamente toda Curitiba. Vado, enquanto isso, pensava pouco em si mesmo e muito numa lembrança antiga. A de um sobrinho que, criança ainda, tinha passado uma tarde inteira desaparecido no bairro onde cresceram.
Intervalo de poucas horas que, para a família, pareceu durar uma vida inteira antes de o menino aparecer são e salvo na casa de um vizinho. Ele nunca contava essa história a ninguém, mas era dela, de algum jeito que ele mesmo não saberia explicar num depoimento, que vinha a certeza de que não dava para simplesmente “seguir a rota e deixar para a polícia resolver depois”.
“Depois” podia ser tarde demais, e ele não queria carregar essa dúvida na consciência pelo resto da vida. O que ninguém sabia naquele momento — incluindo o próprio Vado — era para onde o carro prata estava indo. Edvan não tinha, ao que tudo indicava, um plano de fuga elaborado. Não havia passagem comprada, não havia mala pronta, nenhum indício de que pretendesse sair do estado.
O que ele tinha era um endereço conhecido, o único lugar em que imaginava poder ganhar um pouco de tempo para pensar no que fazer a seguir: a casa modesta da própria mãe, Rosângela Bittencourt, num bairro tranquilo de São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, a cerca de 25 minutos dali, pelo trânsito daquele horário.
E foi exatamente a direção que o sedã prata tomou, cruzando o limite entre os dois municípios pouco depois das 17h40, sem imaginar que três carros atrás, uma van escolar com o nome “Vado Transporte Escolar” pintado em azul na lateral continuava ali, inabalável, como vinha fazendo desde o primeiro semáforo. A investigadora Camila Serpa trabalhava na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente havia 11 anos e tinha aprendido, nesse tempo, que os primeiros 15 minutos de um caso como aquele decidiam quase tudo o que viria depois.
Assim que recebeu a ligação de Fernanda, confirmou, em menos de um minuto, pelo sistema interno, a existência da medida protetiva deferida em fevereiro contra Edvan Bittencourt, e a cláusula que estendia expressamente a proibição às imediações da escola da filha. Exatamente o tipo de detalhe que transforma uma “disputa de guarda contestável” em um crime em andamento. Com urgência para agir, não para debater.
Ela acionou o Centro Integrado de Operações de Segurança do Paraná, repassando a descrição do veículo que Vado tinha conseguido fotografar. Um sedã prata, provavelmente um modelo popular do final da década de 2010. Com os quatro primeiros caracteres da placa já suficientes, cruzados com o sistema de identificação de veículos, para apontar o nome de Edvan Bittencourt como proprietário.
O Brasil não tem um sistema de alerta unificado para crianças desaparecidas como existe em outros países. Não existe aqui um mecanismo que dispare notificações automáticas em celulares de toda uma região em poucos minutos. O que existe, e que Camila acionou naquela tarde, é um protocolo interno de prioridade máxima da Polícia Militar.
A localização do veículo, atualizada a cada ligação do próprio Vado, passou a ser repassada em tempo real para todas as viaturas da área metropolitana. Com ordem de abordagem cautelosa, sem sirene, para não colocar a criança em risco numa eventual reação de pânico do condutor. O Sargento Ismael Tavares, da Companhia de Polícia de Trânsito, foi um dos primeiros a localizar visualmente o sedã prata, numa fila de carros parada no acesso à Linha Verde — o principal corredor expresso que corta Curitiba de norte a sul. Ele reconheceu a placa pelo rádio exatamente no momento em que o carro de Edvan entrava na via, e tomou ali uma decisão que mudaria o rumo da tarde. Em vez de tentar uma abordagem isolada, arriscando uma reação imprevisível a quase 80 km/h, pediu reforço para interditar os próximos 2 km da via. Formando um funil de viaturas que forçaria o sedã a reduzir a velocidade gradualmente. Sem perseguição em alta velocidade, sem risco adicional para quem estivesse dentro do carro ou nos veículos ao redor. Foi esse bloqueio — não um acidente, não um protesto, mas uma decisão deliberada de segurança pública — que parou o trânsito da Linha Verde por quase 40 minutos naquele fim de tarde de quarta-feira. Formando um engarrafamento que se estendeu por quilômetros e que seria, nas horas seguintes, o assunto de praticamente todos os noticiários locais.
Rádios de trânsito, que normalmente informavam apenas lentidão e desvios, começaram a repetir, a cada poucos minutos, pedidos de cautela aos motoristas da região, sem explicar o motivo. Enquanto helicópteros de emissoras de TV sobrevoavam a via tentando entender, de cima, por que meia dúzia de viaturas formavam um corredor fechado no meio do corredor expresso mais movimentado da cidade.
Edvan, percebendo o bloqueio à frente ainda a uma distância segura, não tentou forçar passagem, nem acelerar contra as viaturas. Segundo reconstituiria depois a perícia, ele freou, parado por instantes no meio da faixa, antes de fazer uma manobra brusca pelo acostamento. Saindo da Linha Verde, pela primeira alça de acesso disponível, de volta às ruas internas de São José dos Pinhais.
Foi ali, no instante da manobra, que Vado — que tinha conseguido se manter a uma distância segura durante toda a aproximação do bloqueio, orientado por telefone pela própria Camila para não se colocar entre o carro e a polícia — quase perdeu o rastro pela primeira vez em 40 minutos de perseguição. Não perdeu. Seguiu pelo mesmo acesso três quarteirões atrás, repassando por telefone cada rua que o sedã cruzava. Enquanto Fernanda, ainda dirigindo, na direção geral que Thiago ia indicando pelo celular, ouvia, ao mesmo tempo, a voz de Camila do outro lado da linha, confirmando que as viaturas redirecionadas já sabiam, por aproximação, para qual bairro o veículo tinha fugido. Uma das equipes de reportagem, que sobrevoava a Linha Verde para cobrir apenas o engarrafamento, captou, por acaso, as imagens do sedã prata saindo pelo acostamento sob escolta policial à distância.
Um corte de poucos segundos que, sem contexto ainda, entrou ao vivo no noticiário local das 18 horas, como ocorrência em andamento na região de São José dos Pinhais. Foi o suficiente para que o nome do bairro começasse a circular nas redes sociais da cidade, antes mesmo de a polícia confirmar oficialmente qualquer detalhe. Numa velocidade que preocupava tanto Camila quanto a própria assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança, cientes de que “informação demais”, naquele estágio, podia tanto ajudar quanto atrapalhar. Um pai desesperado vendo seu rosto na televisão podia reagir de formas imprevisíveis. Fernanda, nesse trecho do trajeto, parou de falar. Thiago, ao seu lado, agora tinha assumido o volante depois de perceber que as mãos da irmã tremiam demais para dirigir com segurança. E ela apenas segurava o celular com as duas mãos, repetindo baixinho o nome da filha, enquanto ouvia, ao fundo da ligação com a delegacia, o barulho de sirenes se multiplicando, em algum lugar da cidade que ela não conseguia mais localizar no mapa.
Em Curitiba, naquele fim de tarde, milhares de pessoas presas no trânsito da Linha Verde xingavam o engarrafamento. Sem fazer ideia de que, a poucos quilômetros dali, uma criança de 8 anos estava sendo procurada por quase toda a estrutura de segurança pública disponível na região metropolitana. E que a cidade inteira, sem saber, tinha literalmente parado por causa dela.
Rosângela Bittencourt estava regando as begônias da varanda quando viu o carro do filho entrar na garagem mais depressa do que o normal, os pneus raspando de leve no meio-fio. Tinha 61 anos. Morava sozinha desde que o marido falecera, numa casa térrea de portão azul, num bairro tranquilo de São José dos Pinhais, e via o filho com menos frequência desde a separação.
Edvan vinha visitá-la aos domingos, quase sempre sozinho, e raramente falava sobre o processo judicial em curso, mudando de assunto sempre que ela tentava perguntar como ele estava lidando com tudo aquilo. Ela não sabia dos detalhes da medida protetiva. Só da versão que o filho contava: uma versão em que ele era, invariavelmente, a parte injustiçada.
Quando ele desceu do carro carregando Eloísa no colo, a menina, sonolenta e confusa, perguntou outra vez pela mãe. Edvan disse à mãe apenas que tinha ido buscar a filha para “passar a tarde”. E pediu licença para entrar e usar o banheiro, numa pressa que Rosângela reconheceu, mas não quis questionar na hora. Foi dentro de casa, com a porta fechada, que ele finalmente permitiu a si mesmo pensar no que tinha acabado de fazer.
E foi também ali, sentado na cama de hóspedes — que ainda guardava lençóis do tempo em que Elô passava férias na casa da avó —, que ele percebeu pela primeira vez, desde que saíra da escola, o tamanho real da situação em que tinha se metido. O celular dele, que vinha mantendo desligado durante todo o trajeto por precaução, permanecia assim, sem sinal de que a polícia já soubesse exatamente onde ele estava.
Mas o som de sirenes, ao longe, cada vez mais perto, cada vez mais numerosas, chegou antes de qualquer notificação. Rosângela, ainda na varanda, foi quem viu primeiro as viaturas convergindo para a rua, parando em posições que ela reconheceu, pelos filmes e noticiários, como um cerco. Um policial se aproximou do portão azul, pedindo, com voz calma mas firme, para falar com Edvan Bittencourt.
E foi nesse momento que a avó entendeu, com um misto de choque e de uma tristeza que a acompanharia por muito tempo, que o que o filho tinha chamado de “passar a tarde” era, na verdade, exatamente aquilo que ela temia e nunca tinha perguntado diretamente. O protocolo de negociação, em casos envolvendo crianças, prioriza, sempre que possível, a conversa antes do confronto.
O sargento Tavares, que tinha acompanhado a perseguição desde a Linha Verde, assumiu a primeira abordagem verbal, falando pelo portão. Pediu a Edvan que saísse de casa calmamente e que, antes de qualquer coisa, confirmasse que Eloísa estava bem. A resposta veio não de Edvan, mas de Rosângela, que entrou em casa sem pedir licença ao próprio filho, e voltou, segundos depois, segurando a neta pela mão. Atravessando o jardim até o portão com uma determinação que surpreendeu os próprios policiais. “Ela não vai ficar aqui dentro com ninguém armado por perto”, disse a avó, numa frase que o sargento registraria depois em seu relatório, quase palavra por palavra. Porque foi ela, mais do que qualquer negociação policial, que encerrou o momento de maior risco daquela tarde. Edvan, sem a filha sob seu controle direto, e cercado por viaturas em todas as saídas da rua, entregou-se sem resistência cerca de 10 minutos depois, saindo de casa com as mãos visíveis, sem arma.
A perícia confirmaria nos dias seguintes que ele não portava nenhum tipo de arma, de fogo ou branca, durante todo o episódio. Um detalhe que pesaria a favor dele na audiência de custódia, ainda que não mudasse a gravidade do que tinha feito. Foi preso em flagrante por descumprimento de medida protetiva de urgência, crime que, desde a mudança na lei em 2024, deixou de ser considerado infração leve e passou a prever pena de reclusão.
Eloísa foi levada por uma viatura, ainda confusa, para o posto policial mais próximo. Lá, Fernanda chegou minutos depois, atravessando o cordão de isolamento sem que ninguém tentasse detê-la, correndo os últimos metros até abraçar a filha, com uma força que a menina sentiria no corpo por dias. Foi Fernanda quem primeiro perguntou baixinho se alguém a tinha machucado, e foi o silêncio de Elô, balançando a cabeça, dizendo que não, que só tinha ficado com medo e com fome, que trouxe o primeiro alívio real daquela tarde inteira. A rua inteira, enquanto isso,
se enchera de vizinhos que saíram às calçadas, atraídos pelas sirenes. Eles formaram um círculo distante de curiosos que observavam em silêncio — alguns gravando com o celular —, a maioria só tentando entender o que estava acontecendo naquela casa de portão azul que conheciam havia anos como a de dona Rosângela, “a senhora que cuida das begônias”.
Ninguém ali sabia àquela altura que o pequeno alvoroço na rua estava diretamente ligado ao engarrafamento que travava a Linha Verde a quilômetros dali. Nem que, em poucas horas, a história completa estaria nos mesmos noticiários que tinham acabado de interromper a programação para cobrir mais uma “lentidão no trânsito” de Curitiba.
Rosângela, depois de entregar a neta aos policiais, ficou parada no próprio portão, sem saber se devia seguir o filho até a viatura ou ficar. Escolheu ficar e choraria sozinha mais tarde. Tanto pela neta, que mal via havia meses, quanto pelo filho, a quem ela ainda não sabia como deixaria de reconhecer. Vado, parado a alguns metros dali, ao lado da van, que finalmente conseguira estacionar, viu a cena sem se aproximar, sem procurar reconhecimento. Até que a própria investigadora, Camila Serpa, foi até ele e perguntou com genuína curiosidade profissional: “Como é que um motorista de transporte escolar tinha conseguido seguir um veículo por 40 minutos sem perder o rastro nenhuma vez?” Ele deu de ombros, meio sem graça com a pergunta, e respondeu algo que Camila também anotaria depois, quase como citação em seu relatório preliminar.
Que “19 anos de rota ensinam a gente a prestar atenção em coisas que a maioria das pessoas nem percebe”. E que naquele dia bastou “prestar atenção na coisa certa, no momento certo”, para que tudo o mais acontecesse como aconteceu. Nos dois dias seguintes à prisão de Edvan Bittencourt, o processo, que antes corria quase em silêncio pela vara de violência doméstica de Curitiba, ganhou um volume de atenção que nenhuma das partes envolvidas esperava.
A reportagem que flagrara por acaso o desvio do sedã prata na Linha Verde tinha sido o início. Em poucas horas, outras emissoras cruzaram a informação do bloqueio de trânsito com o boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. E o caso ganhou um nome que os próprios policiais evitavam usar oficialmente, mas que pegou nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp da cidade:
o “Caso da Van Escolar”. Enquanto a cobertura crescia, o trabalho técnico que decidiria o rumo do processo acontecia longe das câmeras. No Instituto de Criminalística do Paraná, o perito grafotécnico Jurandir Vilas Boas recebeu, já na manhã seguinte à prisão, o formulário de autorização de retirada apreendido na secretaria do Colégio Vale do Cedro.
O trabalho de um perito grafotécnico não é, como muitas pessoas imaginam, uma questão de achar que uma assinatura parece falsa. É um processo de comparação técnica entre múltiplas amostras, analisando a pressão do traço, a velocidade da escrita, os pontos de início e término de cada movimento da caneta. Características que um falsificador raramente consegue reproduzir de forma consistente, mesmo copiando bem a forma geral das letras.
Jurandir comparou a assinatura do documento apreendido com uma dezena de amostras autênticas de Fernanda. Estas foram fornecidas pela própria delegacia a partir de documentos bancários e contratos anteriores. O laudo preliminar, entregue dois dias depois, na sexta-feira, foi categórico. A assinatura do formulário não correspondia ao padrão gráfico de Fernanda em nenhum dos critérios analisados. Apresentava, além disso, marcas de hesitação: pequenas pausas e retomadas no traço típicas de alguém tentando imitar uma caligrafia que não é a própria. Era, tecnicamente falando, o tipo de prova que praticamente encerra qualquer dúvida sobre a autoria de uma falsificação, porque não depende da palavra de ninguém. Depende de uma análise que pode ser repetida, contestada por um segundo perito, e ainda assim chegar à mesma conclusão. Esse laudo foi o que permitiu à promotoria, na semana seguinte, enquadrar formalmente a conduta de Edvan em mais de um tipo penal ao mesmo tempo.
E é aqui que o caso revela algo que muita gente desconhece sobre a lei brasileira. Existe no Código Penal um crime específico para quando um pai ou mãe retira o filho de quem detém a guarda legal. Chama-se “subtração de incapazes”, previsto no artigo 249. E tem uma pena relativamente branda, de 2 meses a 2 anos de detenção, pensada originalmente para situações de disputa familiar em que não existe violência nem ordem judicial de afastamento envolvida.
Esse mesmo artigo, porém, contém uma ressalva importante. Ele só se aplica se o fato não constituir elemento de outro crime. Ou seja, quando a subtração da criança é também o instrumento para um crime mais grave, é esse crime mais grave que prevalece. Foi exatamente o que aconteceu no caso de Edvan.
Como ele já estava sob uma medida protetiva de urgência da Lei Maria da Penha, que o proibia expressamente de se aproximar da filha e da escola, sua conduta se encaixou, antes de tudo, no artigo 24-A dessa lei: descumprimento de medida protetiva. Desde uma alteração legislativa de 2024, isso deixou de ser tratado como infração leve e passou a prever pena de reclusão de 2 a 5 anos,
mais multa, sem possibilidade de fiança policial, exigindo que qualquer soltura passe pela avaliação de um juiz. A isso se somou o crime de falsidade ideológica pela fabricação do documento escolar com a assinatura forjada, que prevê pena de reclusão de 1 a 5 anos. Juntos, os dois crimes — e não a “subtração de incapazes” isoladamente, que ficou absorvida como consequência das condutas mais graves — formaram a base da denúncia que o Ministério Público apresentou à Justiça.
Para Denise Carneiro, as semanas seguintes trouxeram um tipo diferente de peso. Ela não foi indiciada. Não havia, segundo concluiu a investigação, qualquer indício de que ela tivesse agido de má-fé. Apenas o de que não tinha sido treinada o suficiente para reconhecer os sinais que o protocolo da escola já previa.
Ainda assim, ela pediu demissão do cargo temporário dias depois. Estava incapaz de deixar de pensar no segundo em que decidira não esperar a confirmação de Fernanda antes de liberar a menina. A direção do Colégio Vale do Cedro, pressionada pela repercussão do caso, anunciou a revisão completa do protocolo de retirada de alunos. O processo passou a incluir o treinamento obrigatório para qualquer funcionário temporário e a exigência de dupla confirmação, por telefone e por aplicativo, sempre que uma autorização avulsa não envolvesse um responsável já cadastrado com foto. A defesa de Edvan,
na audiência de custódia realizada dois dias depois da prisão, tentou usar um argumento para o qual o próprio artigo 249 do Código Penal parece, à primeira vista, abrir espaço: o de que ele era pai da criança, que não houvera maus-tratos, que a devolvera ilesa assim que cercado e que, por isso, mereceria, na pior das hipóteses, o perdão judicial previsto para quem restitui a criança sem lhe causar sofrimento.
O argumento ignorava, propositalmente ou não, o detalhe que tornava o caso diferente de uma simples disputa familiar: a existência prévia de uma ordem judicial de afastamento. Esta foi descumprida de forma planejada e sustentada por um documento falsificado. O juiz responsável pela audiência de custódia rejeitou o pedido de liberdade provisória. Ele manteve a prisão preventiva com base, entre outros fundamentos, no risco concreto de reiteração da conduta.
O mesmo risco que a medida protetiva de fevereiro já existia justamente para evitar e que o próprio réu, ao violá-la daquela forma, acabara de confirmar na prática. Fernanda acompanhou a audiência por videoconferência. Ela estava ao lado do irmão, sem falar, anotando cada termo jurídico que não entendia para perguntar depois à advogada que passara a acompanhá-la desde fevereiro.
Faltava ainda, àquela altura, a decisão que importava mais do que qualquer argumento técnico: a audiência de instrução marcada para outubro. Era onde ficaria definido, enfim, por quanto tempo Edvan permaneceria afastado da vida da filha. E se o afastamento dessa vez seria cumprido por convicção judicial e não apenas por sorte e pela atenção de um motorista de van.
A audiência de instrução aconteceu numa quarta-feira, 14 de outubro. Exatamente duas semanas depois do dia em que Edvan Bittencourt atravessara o portão do Colégio Vale do Cedro com a filha pela mão. A coincidência do dia da semana não passou despercebida para Fernanda. Ela entrou na sala de audiências pensando, sem conseguir evitar, que fazia exatamente 14 dias — não três anos, não um aniversário redondo, apenas duas semanas comuns — desde a tarde em que sua vida inteira tinha mudado de direção outra vez. O juiz ouviu, naquela manhã, o depoimento de Camila Serpa sobre a investigação, o laudo técnico confirmado em juízo pelo perito Jurandir Vilas Boas e o relato de Vado. Ele foi convocado como testemunha. O único entre todos os que depuseram naquele dia que não tinha nenhuma obrigação profissional de estar ali, mas que, mesmo assim, chegou 15 minutos adiantado. Carregava a mesma caderneta de capa preta debaixo do braço, como se precisasse dela para lembrar os horários exatos daquela tarde, embora já os soubesse de cor havia duas semanas. Ele contou em poucas frases, sem dramatização, exatamente o que tinha visto e o que tinha feito. E quando o juiz perguntou por que ele tinha decidido seguir o carro, em vez de simplesmente acionar a polícia e seguir sua rota, Vado respondeu que uma coisa não excluía a outra.
Ele tinha feito as duas ao mesmo tempo, porque as 14 crianças sob sua responsabilidade todos os dias lhe tinham ensinado que proteger alguém às vezes significa não desviar o olhar nem por um segundo. A sentença lida na própria audiência, depois do intervalo da tarde, condenou Edvan Bittencourt por descumprimento de medida protetiva de urgência e por falsidade ideológica, em concurso de crimes. Numa pena que — somadas as duas condenações e descontados os fatores de atenuação reconhecidos pela defesa (réu primário, devolução da criança sem lesões físicas) — resultou em mais de 6 anos de reclusão em regime inicialmente fechado. O juiz foi explícito na fundamentação sobre o motivo de não aplicar qualquer benefício que suavizasse a pena. O risco que a conduta representara não estava apenas no que tinha acontecido, mas no que poderia ter acontecido se o bloqueio na Linha Verde não tivesse funcionado. Se a secretária da escola não tivesse, ainda que tarde, tentado ligar. Se o motorista da van não tivesse decidido, naquele instante no pátio, confiar mais no próprio instinto do que na palavra de um estranho. Para Fernanda, a sentença trouxe um tipo de alívio que ela levaria meses para aprender a sentir por completo. O tipo que não apaga o medo acumulado em quase dois anos, mas que finalmente dá um nome e um prazo a ele. A guarda de Eloísa, já exclusivamente com a mãe desde fevereiro, foi mantida sem qualquer direito de visita até nova avaliação judicial, condicionada a laudos futuros que avaliassem com o tempo se e como um contato supervisionado poderia um dia voltar a existir. Eloísa, enquanto isso, seguia sendo criança. Ela voltou às aulas na semana seguinte ao sequestro, acompanhada por algumas sessões com uma psicóloga infantil que a escola ajudou a indicar. Retomou aos poucos a rotina de subir o degrau da van azul de Vado toda tarde. Só que agora, segundo contaria a mãe mais tarde, ela sempre perguntava antes de embarcar se era mesmo ele quem estava dirigindo naquele dia.
O Colégio Vale do Cedro manteve o novo protocolo de retirada. Denise Carneiro, meses depois, voltaria a trabalhar em escolas. Dessa vez treinada, segundo diria a amigos, para “nunca mais confiar só no que um documento parece dizer”. Vado recebeu, nas semanas seguintes à repercussão do caso, mensagens de dezenas de famílias de Curitiba pedindo vaga em sua linha de transporte. Muito mais do que sua única van poderia atender.
Ele recusou a maioria educadamente, preferindo manter o número de crianças que, segundo ele mesmo explicou, “ainda conseguia conhecer pelo nome, pela mochila, pelo jeito de subir o degrau”. Continuou fazendo a mesma rota entre o Cabral e o Bacacheri, com a mesma caderneta de capa preta no painel. Só que agora, segundo quem o conhece, prestando atenção às quartas-feiras com um cuidado que não existia antes de setembro. Não por desconfiança generalizada, mas porque aprendeu, da pior forma possível, o valor concreto de reparar no detalhe que destoa. Rosângela Bittencourt levou mais tempo para reorganizar o que restara da própria vida depois daquela tarde. Nas semanas seguintes, ela evitou sair de casa, incomodada com os olhares de vizinhos que a cumprimentavam com um misto de pena e curiosidade. Até que decidiu, por conta própria, procurar Fernanda. Não para pedir desculpas pelo filho — algo que ela sabia não lhe caber fazer —, mas para perguntar humildemente se ainda haveria algum espaço no futuro para que a avó continuasse presente na vida da neta, mesmo sem o pai por perto.
Fernanda não tinha uma resposta pronta naquele primeiro encontro, tenso e cheio de silêncios, mas não fechou a porta. Combinaram, por enquanto, uma ligação por videochamada a cada duas semanas, supervisionada. Pequena, mas real. O tipo de reconstrução que não aparece em nenhuma sentença judicial, mas que para as duas mulheres significava tanto quanto qualquer uma delas.
O caso, que paralisara o trânsito de Curitiba por 40 minutos numa quarta-feira de setembro, terminou — como a maioria dos casos reais termina — sem grande cerimônia. Uma sentença lida numa sala comum, um corredor se esvaziando devagar, uma mãe levando a filha para casa num carro comum, por ruas comuns. Não houve discurso de herói. Não houve placa comemorativa. Não houve nada além da continuidade simples de uma rotina que quase se perdeu e que, por uma margem estreita de minutos e de atenção, não se perdeu. Fica de tudo isso uma pergunta que vale mais do que qualquer resposta fácil: Quantas vezes, todos os dias, alguém nota um detalhe fora do lugar e decide, por comodidade ou por medo de errar, não fazer nada a respeito? E quantas tardes como aquela só terminam bem porque, dessa vez, alguém decidiu prestar atenção? Siga a página.