Uncategorized

MINHA ESPOSA LEVOU O VASO DE UM TÚMULO PARA CASA… E NUNCA ESQUECI O QUE VIVI NAQUELA SEMANA

A história completa

“Quando a minha esposa pegou aquele vaso de um túmulo que parecia abandonado no cemitério em 1988, achando que não tinha problema nenhum, ninguém imaginava o que aquilo ia trazer para dentro da nossa casa. Na mesma noite, os barulhos começaram. No outro dia, as flores que ela tinha acabado de colocar no vaso já estavam secas e com um cheiro que não tinha explicação.

Foi então que eu comecei a desconfiar que a gente tinha mexido em coisa que não devia. E depois de uma discussão com a minha esposa, eu fui sozinho até o cemitério tentar achar algo que a fizesse mudar de ideia para devolver aquilo. E o que o funcionário me contou sobre aquele túmulo me fez entender o que realmente era aquele vaso e o que a gente tinha feito.

Meu nome é Anísio Ferreira Campos, tenho 76 anos e essa é a minha história em minutos. Naquele domingo, em 1988, eu fui junto com a minha esposa até o cemitério municipal de Faxinal. Era costume nosso, todo mês visitar o túmulo da mãe dela. A gente ia sempre de manhã, antes do sol ficar forte demais. Levava um baldinho de água, um pano e um buquê de flores fresquinhas cortadas do nosso próprio quintal.

Aquele domingo começou como qualquer outro, sem sinal nenhum de que ia ser diferente. Chegamos ao cemitério e fomos direto para o túmulo da mãe dela. Limpamos tudo com calma. Tirei o pó do azulejo com o pano molhado. Ela trocou as flores velhas pelas novas que tinha trazido. Terminamos rápido e ainda estava cedo. Foi então que ela sugeriu da gente dar uma volta pelo cemitério antes de ir embora. Eu não vi mal nenhum nisso.

O lugar estava bem calmo naquele dia, quase deserto. Não tinha nem funcionário à vista, nem outros visitantes por perto. Só a gente e o silêncio dos jazigos ao redor. Caminhamos devagar, olhando os nomes nas lápides, comentando alguma coisa aqui e ali, sem pressa nenhuma. Foi nessa caminhada que ela parou de repente diante de um jazigo mais afastado dos outros, num canto mais isolado do cemitério.

Era um túmulo simples, feito de alvenaria, com azulejo já meio rachado e sujo de mofo em alguns pontos. O mato tinha crescido bastante nas juntas do piso ao redor da base, dando aquele aspecto de lugar esquecido há muito tempo. Em cima do túmulo tinha um vaso de louça branca com flores completamente secas dentro dele.

Não eram flores murchas de poucos dias, eram flores secas de verdade, quebradiças, com aquela cor de palha que só aparece depois de muito tempo sem água nenhuma. Dava para perceber só de olhar que ninguém passava ali fazia meses. Minha esposa ficou parada olhando aquele vaso por um tempo, sem dizer nada, e depois falou que era uma pena um vaso daquela qualidade ficar largado daquele jeito, se perdendo ali no meio do mato.

Disse que ia levar para casa, que ia dar um jeito nele e que ninguém ia sentir falta de um vaso que já estava esquecido fazia tanto tempo. Eu não gostei da ideia. Falei para ela que aquilo não era certo, que a gente não devia mexer em coisa de cemitério que não era nossa, ainda mais pegar objeto de cima de túmulo alheio.

Não é que eu fosse de crer em assombração ou coisa parecida, mas desde pequeno aprendi que cemitério é lugar que merece respeito e não se mexe no que não é seu. Ela insistiu, disse que eu estava exagerando, que era só um vaso velho, sem dono nenhum por perto para reclamar. Falou que aquilo era desperdício, que dava até pena de ver um objeto bonito daquele jeito tomado pelo tempo.

Fomos indo e voltando na conversa. E eu, sinceramente, sem muito ânimo para brigar por causa de um vaso, acabei concordando. E no momento em que ela se abaixou e pegou o vaso com as duas mãos, eu senti um vento forte passar bem perto de mim. O estranho é que o dia estava completamente parado até aquele instante, sem uma brisa sequer, nem as árvores ao redor tinham se mexido antes daquilo.

Foi um vento rápido, forte e sumiu do mesmo jeito que veio. Olhei para ela, esperando ver alguma reação, mas ela continuou tranquila, segurando o vaso, ajeitando ele nas mãos, sem demonstrar ter sentido absolutamente nada. Perguntei se ela tinha notado aquele vento e ela só me olhou meio sem entender. Disse que não tinha reparado em nada de diferente.

Fiquei intrigado com aquilo e, sem querer parecer bobo, olhei ao redor, tentando entender se tinha vindo alguém, se algum funcionário estava por perto, cortando grama ou fazendo algum serviço que pudesse explicar aquele movimento de ar. Mas não tinha ninguém. O cemitério continuava vazio, do jeito que estava desde que a gente chegou.

Comecei a caminhar de volta para o portão junto com ela, que já ia na frente, cuidando do vaso com as duas mãos, evitando derrubar. Fui logo atrás, ainda pensando naquele vento estranho, quando senti um arrepio subir pelo braço, começando no pulso e indo até o ombro. Do jeito que a gente sente quando alguém fica olhando fixo para as nossas costas.

Virei rápido, de repente para trás, olhando na direção do jazigo que a gente tinha acabado de deixar. Não tinha nada lá, nenhum movimento, nenhuma sombra diferente, só o mato balançando um pouco, talvez pelo resto daquele vento que já tinha passado. Mesmo assim, aquela sensação não foi embora. Ficou grudada em mim o resto do caminho até a saída.

Minha esposa seguia normal, comentando qualquer coisa sobre o dia, sobre a limpeza que a gente tinha feito no túmulo da mãe dela, sem nenhum sinal de estar incomodada com nada. Eu respondia do jeito que dava, meio distraído, ainda tentando entender o que tinha me atingido lá atrás. Saímos do cemitério, ela levando o vaso debaixo do braço, como se fosse a coisa mais natural do mundo, satisfeita por ter salvado aquele objeto do abandono.

Eu ia ao lado dela, carregando aquela sensação estranha que não conseguia explicar direito, nem para mim mesmo. Não sabia dizer se era só impressão minha ou se realmente tinha acontecido alguma coisa fora do comum ali dentro. Entramos no carro. Ela colocou o vaso no colo com cuidado e eu dei a partida sem falar muita coisa.

Fiquei calado a maior parte do caminho, tentando esquecer aquele arrepio e aquele vento sem explicação. Não imaginava naquele momento que aquilo era só o começo de uma semana que eu levaria o resto da vida para conseguir esquecer. Chegamos em casa naquela mesma tarde de domingo e minha esposa foi logo cuidar do vaso, satisfeita com o achado.

Levou-o até a piazinha, lavou por dentro e por fora com bastante água, tirando toda aquela sujeira. Deixou brilhando. Parecia até outro objeto depois de limpo. Colocou na sala, perto da janela, num lugar que dava para ver bem de qualquer canto da casa, e ajeitou as flores frescas que tinha cortado do nosso quintal.

Eu fiquei quieto, olhando ela fazer aquilo tudo com tanto cuidado, como se fosse um objeto valioso, não um vaso pego de cima de túmulo de gente que a gente nem sabia quem era. Não falei mais nada sobre o assunto. Já tinha discutido o suficiente lá no cemitério. Mas por dentro aquela sensação estranha não tinha ido embora.

Continuava me incomodando de um jeito que eu não sabia explicar direito. O resto da tarde passou normal. Almoçamos, descansamos um pouco. Ela ficou satisfeita, olhando o vaso de vez em quando, comentando como tinha ficado bonito ali na sala. Eu ia respondendo do jeito que dava, mas confesso que meus olhos iam sempre naquela direção, sem eu nem querer, como se alguma coisa dentro de mim ficasse de olho naquele objeto o tempo todo.

Já era noite quando fomos dormir, cansados do dia de cemitério e sol. Apaguei a luz, deitei, mas demorei para pegar no sono. Ficava pensando naquele vento parado, sem explicação nenhuma. Foi quando ouvi um barulho vindo da sala. Parecia coisa arrastando devagar no chão, um som seco, baixo, mas bem nítido no silêncio da casa.

Levantei rápido, com o coração já acelerado, e fui direto até a sala acender a luz. Não tinha nada fora do lugar. O vaso estava exatamente onde ela tinha deixado, as flores intactas, tudo em ordem. Fiquei parado ali um tempo, olhando para os cantos, tentando entender de onde tinha vindo aquele som, mas não achei explicação nenhuma. O ar da sala parecia mais parado, mais pesado, diferente do resto da casa. Como se faltasse alguma coisa ali dentro, um jeito de respirar que eu não sabia nomear.

Voltei para o quarto sem contar nada para ela, que continuava dormindo tranquila, sem perceber nada do que tinha acontecido. Fiquei acordado boa parte da madrugada, escutando qualquer som, mas não veio mais nenhum barulho depois daquele. Só de manhã, já claro, foi que consegui relaxar um pouco e cochilar antes do despertador tocar. Na manhã seguinte, quando fui para a sala tomar café, reparei que um porta-retratos com a foto do nosso casamento, que ficava na estante, estava fora do lugar de costume.

Ele estava tombado, virado com o vidro para baixo. Chamei minha esposa para mostrar e ela também ficou intrigada, disse que não tinha mexido em nada daquilo. Foi então que sentimos um cheiro forte de flores murchas espalhado pela sala. Um cheiro enjoativo, difícil de descrever, misturado com um toque de terra molhada.

Fomos até perto do vaso para ver de onde vinha aquilo e o que encontramos nos deixou sem entender direito. As flores que ela tinha cortado no dia anterior estavam completamente secas e murchas, como se tivessem passado uma semana inteira sem uma gota de água. Peguei uma das flores e ela se desfez quase toda entre os meus dedos, quebradiça, seca de verdade.

Não parecia coisa de um dia só. Minha esposa ficou olhando aquilo calada, sem saber o que dizer, e eu também não consegui explicar. Trocamos as flores por outras, mas aquele cheiro forte demorou o dia inteiro para sumir de vez da sala. À noite, já perto da hora de deitar, minha vizinha veio até o portão e me chamou. Comentou que tinha visto um vulto de homem parado perto da nossa casa na noite anterior, olhando fixo para a nossa janela.

Disse que achou estranho e que quando chamou o marido para olhar, já não tinha mais ninguém lá. Fiquei sem jeito. Ao ouvir aquilo, tentei disfarçar, dizendo que devia ser alguém perdido de madrugada. Ela concordou, sem dar muita importância e foi embora logo depois. Mas por dentro aquele comentário mexeu comigo.

Veio na hora certa para juntar com tudo que já estava acontecendo desde que a gente trouxe aquele vaso para dentro de casa. Fui contar para minha esposa o que a vizinha tinha dito e ela também ficou pensativa, mas ainda tentava achar uma explicação simples para tudo. Dizia que era coincidência. Eu já não estava tão certo assim.

Então, fomos dormir mais cedo aquele dia, cansados de tanto pensar no assunto. No meio da madrugada, acordei com um barulho forte vindo da sala, dessa vez bem mais alto que o da noite anterior. Parecia coisa caindo, quebrando. Levantei correndo e minha esposa acordou logo atrás de mim, os dois com o coração disparado. Chegamos na sala e encontramos o vaso caído de lado no chão, virado, com água espalhada pelo carpete e as flores novas jogadas para todo lado.

Ninguém tinha entrado na casa. As portas continuavam trancadas, as janelas fechadas do jeito que a gente deixou antes de dormir. Ficamos parados ali, olhando aquela cena, sem conseguir entender como aquele vaso tinha ido parar no chão sozinho, longe da mesa onde estava. Enquanto limpava a água do carpete, senti de novo aquela sensação de estar sendo observado, a mesma que tinha sentido no cemitério. Só que agora bem mais forte, quase como se tivesse alguém parado atrás de mim, respirando no meu pescoço.

Olhei para minha esposa e pela cara dela percebi que ela estava sentindo a mesma coisa. Recolocamos o vaso em pé, limpamos tudo e voltamos para o quarto, sem trocar muita palavra. Fiquei ali olhando para o teto, lembrando do momento em que ela pegou aquele vaso e de como eu já sabia desde aquela hora que aquilo não era certo. No dia seguinte de manhã, tentei conversar com minha esposa antes de sair para o trabalho.

Falei que aquilo tudo só tinha começado depois que a gente trouxe aquele vaso para dentro de casa, que não era coincidência nenhuma, que era hora de admitir que tinha alguma coisa errada acontecendo. Ela ouviu, mas balançou a cabeça. Diz que eu estava exagerando. Insisti um pouco mais. Contei de novo sobre o vento que tinha sentido no cemitério, sobre o arrepio, sobre a certeza que eu tinha de que aquele vaso não devia estar ali. Ela ficou irritada.

Diz que eu vivia inventando história, que sempre fui de me preocupar demais com bobagem. Discutimos ali na cozinha, cada um segurando o próprio lado, e acabei saindo de casa mais cedo do que precisava, ainda incomodado com o jeito que a conversa tinha terminado. No trabalho, o dia não foi normal. Eu ficava parado, olhando para a madeira, esquecendo o que estava fazendo e voltando sempre na cabeça para aquele vaso, para o cheiro das flores secas, para o vulto que a vizinha tinha visto.

Errei medida em duas tábuas. Coisa que não fazia há anos de tão distraído que estava. Decidi então sair mais cedo. Avisei o rapaz que trabalhava comigo que ia resolver um assunto e peguei o caminho de volta para casa. No meio do trajeto, mudei de ideia e resolvi passar no cemitério antes de ir para casa.

Não sabia bem o que estava procurando, se era resposta, se era só uma forma de aliviar aquela inquietação. Mas senti que precisava ver aquele lugar de novo, olhar o túmulo com mais atenção. Talvez achar alguma coisa que explicasse o que estava acontecendo, ou pelo menos alguma coisa que fizesse minha esposa mudar de ideia sobre devolver o vaso.

Cheguei ao cemitério no meio da tarde e dessa vez o lugar não estava tão vazio quanto no domingo. Vi um homem trabalhando perto da entrada, cortando o mato ao redor de alguns túmulos com uma foice. Um senhor de uns 60 anos, magro, de chapéu de palha surrado e uma camisa velha grudada de suor nas costas.

Fui me aproximando devagar, sem saber direito como começar aquela conversa. Cumprimentei ele e perguntei se conhecia o cemitério há muito tempo, tentando entrar no assunto aos poucos. Ele parou o serviço, encostou a foice na perna e respondeu que trabalhava ali fazia 20 anos, cuidando da limpeza e ajudando nos enterros quando precisava.

Falei então sobre o túmulo que tinha chamado a atenção da gente no domingo. Descrevi o lugar mais ou menos onde ficava, o jazigo simples, mais afastado dos outros. Ele pensou um pouco, coçou o queixo e perguntou se era perto de um pé de ipê que tinha ali por perto. Confirmei. E o rosto dele mudou na hora. Ficou mais sério.

Disse que conhecia aquele túmulo muito bem, que tinha sido ele mesmo quem tinha feito o enterro lá atrás e que se lembrava direitinho da história daquela família, mesmo depois de tanto tempo. Contou que a esposa do homem enterrado ali nunca deixou de visitar aquele túmulo nem uma semana sequer depois da morte do marido.

Disse que ela chegava sempre no mesmo horário, trazia flores, limpava tudo com a maior dedicação, do jeito que poucas pessoas faziam ali naquele cemitério. Falou isso com um respeito na voz que me deixou ainda mais incomodado, sabendo do que a gente tinha feito. Perguntei então com um nó na garganta, se ele sabia porque o túmulo estava daquele jeito agora, tomado pelo mato, esquecido.

Ele ficou quieto por um instante, olhando para o chão, e depois contou que a última pessoa que tinha ido visitar não foi a viúva, foi a filha dela uns três meses antes daquele dia. Disse que a moça tinha passado ali rapidamente só para avisar que a mãe estava muito mal de saúde e que tinha sido internada às pressas num hospital da região.

Falou que desde aquela visita da filha ninguém mais tinha aparecido por lá, nem a viúva, nem nenhum outro parente. O homem contou tudo isso olhando para o túmulo à distância, com um jeito triste na voz, como quem sente pena de ver um lugar que sempre foi cuidado virar aquilo, abandonado, sem ninguém para zelar. Fiquei parado ali, sem conseguir falar nada por alguns segundos, sentindo o peso daquelas palavras caindo em cima de mim como uma pedra.

Entendi naquele momento exatamente o que a gente tinha feito. Não era só um vaso velho pego de um túmulo esquecido. Era o último gesto de amor de uma mulher que provavelmente ainda estava lutando pela vida em algum hospital, sem imaginar que o vaso de que ela sempre cuidou tinha sumido do lugar dele.

Agradeci ao homem, ainda meio sem chão, e caminhei de volta até o carro devagar, pensando em como ia contar aquilo para minha esposa. O caminho de casa pareceu mais longo do que de costume, cada quilômetro me dando mais tempo para pensar em como aquela mulher devia estar sofrendo, doente, longe do único lugar que ainda a ligava ao marido que ela tinha perdido.

Cheguei em casa já no fim da tarde e encontrei minha esposa na cozinha, ainda com aquele ar de desconfiança sobre a nossa discussão da manhã. Sentei com ela na mesa e contei tudo, devagar, sem pressa, do jeito que o coveiro tinha me contado. Ela ficou calada, ouvindo cada palavra, sem me interromper nenhuma vez, coisa rara nela.

No começo, ela só balançava a cabeça, tentando digerir a história. Depois, pouco a pouco, percebi que os olhos dela iam enchendo de água e ela começou a chorar baixinho, tentando disfarçar. Disse que se sentia péssima, que nunca imaginou que um vaso pudesse guardar tanto sentimento de alguém, que nunca pensou que estava tirando algo tão importante da vida de uma pessoa que nem conhecia.

Ali mesmo na cozinha, decidimos que íamos devolver aquele vaso. Naquela noite, o silêncio da casa não durou muito. Pouco depois de deitarmos, os barulhos voltaram, mas de um jeito diferente de tudo que já tínhamos escutado até então. Não era mais um som isolado, era quase um lamento baixo, contínuo, vindo lá da sala. Misturado com um arrastar de móveis que parecia mais desesperado do que ameaçador.

Nós dois ficamos deitados, sem coragem de levantar, escutando aquilo indo e voltando pela casa inteira. Foi ali no escuro do quarto que entendemos de verdade o que estava acontecendo. Não era maldade nenhuma vindo daquele vaso. Era o desespero puro de um homem que já tinha morrido, tentando não perder o último fio que ainda o prendia à mulher que ele amou a vida inteira.

Assim que o dia começou a clarear, nem precisamos conversar muito. Levantamos os dois quase ao mesmo tempo, ainda com os olhos pesados de sono, mas sem nenhuma vontade de esperar mais um minuto sequer. Vesti a primeira roupa que peguei no armário. Minha esposa fez o mesmo e pegamos o vaso com cuidado, embrulhado num pano limpo, junto com um buquê de flores que ela tinha colhido do quintal na noite anterior.

Ainda pensando em devolver aquilo, saímos de casa direto para o cemitério sem tomar café. O silêncio dentro do carro não era mais aquele silêncio pesado da madrugada. Era um silêncio diferente, de gente cansada, mas decidida, cada um pensando na própria cabeça no que ia fazer assim que chegasse lá. Chegamos e o portão do cemitério estava aberto, sem nenhuma fila nem espera.

O lugar ainda estava bem vazio. Só dava para ver ao longe alguns funcionários começando o serviço do dia, varrendo folha, ajeitando ferramenta perto do galpão pequeno na entrada. Ninguém prestou muita atenção na gente entrando, cada um cuidando do próprio trabalho. Entramos direto, sem precisar falar com ninguém, e fomos para o fundo do cemitério, onde ficava aquele jazigo mais afastado dos outros.

O caminho parecia mais curto do que da primeira vez. Talvez pela pressa, talvez pela vontade de terminar aquilo de uma vez, de colocar tudo de volta no lugar certo. Encontramos o túmulo exatamente do jeito que tinha ficado. O azulejo ainda sujo de mofo, o mato crescido nas juntas do piso, a cruz de ferro enferrujada em cima, meio torta para o lado.

Fiquei olhando aquilo por um instante, pensando em como aquele lugar já tinha sido cuidado com tanto carinho por tantos anos. E agora estava daquele jeito, abandonado por um motivo que nem tinha a ver com falta de amor. Minha esposa se abaixou primeiro. Começou a puxar o mato com as mãos, sem medo de sujar, arrancando tufo por tufo com cuidado para não machucar as raízes de nenhuma outra planta que estivesse ali por perto. Ajudei também.

Peguei um pano que tínhamos trazido e comecei a limpar o azulejo, tirando aquele mofo que já estava grudado havia meses, esfregando com força nos cantos mais difíceis. Trabalhamos ali quietos por um bom tempo, sem pressa nenhuma dessa vez, com aquele cuidado de quem está fazendo alguma coisa importante de verdade.

Ajeitei a cruz de ferro, endireitando ela na base, tirando a ferrugem mais solta com as costas da mão. Aos poucos, o túmulo foi ficando diferente, mais parecido com o que devia ter sido antes, quando a viúva ainda vinha toda a semana a cuidar dele. Quando terminamos a limpeza, minha esposa pegou o vaso, ainda embrulhado no pano, e o desembrulhou devagar, como se estivesse com medo de machucar alguma coisa.

Colocou ele de volta no lugar exato onde tinha encontrado, bem no centro do jazigo, ajeitando com cuidado para não ficar torto. Depois arrumou as flores novas dentro dele, as mesmas que tinha colhido do nosso quintal na noite anterior. Fiquei olhando aquela cena por um momento, sentindo um alívio diferente de tudo que eu tinha sentido naquela semana inteira.

Não era mais medo, nem aquela sensação de estar sendo observado. Era como se alguma coisa dentro de mim também estivesse se acalmando, junto com aquele lugar que a gente tinha acabado de arrumar. Foi então que ali, olhando para aquele túmulo, eu falei que sentíamos muito pelo que tinha acontecido, que não sabíamos o valor daquele vaso quando levamos ele embora e que agora sabíamos exatamente o que aquilo representava.

Pedi desculpas, olhando para o túmulo, com a voz meio embargada, sem me importar se parecia bobagem falar sozinho daquele jeito. Continuei falando, pedindo que a esposa dele se recuperasse logo, que voltasse a ter saúde para poder visitar aquele lugar de novo, do jeito que sempre fez durante tantos anos.

Disse que a gente ia rezar por ela, torcer para que ela conseguisse sair do hospital em breve e voltar a cuidar daquele túmulo com a mesma dedicação de sempre. Minha esposa ficou do meu lado, calada, com os olhos cheios de água, olhando para o vaso já no lugar certo, cercado pelas flores novas. Ela também estava sentindo aquele peso saindo de cima da gente, aquela culpa que carregamos a semana inteira desde o momento em que pegamos aquele objeto sem pensar direito no que estávamos fazendo.

Ficamos ali mais alguns minutos em silêncio, olhando o túmulo já limpo, o vaso no lugar, as flores novas balançando de leve com o vento fraco daquela manhã. Foi um vento diferente daquele que eu tinha sentido no domingo anterior. Esse era suave, comum, do tipo que a gente nem repara direito, sem nenhum peso estranho misturado nele.

De repente, percebi que aquela sensação de estar sendo observado, que tinha me acompanhado a semana inteira, desde o momento em que ela pegou o vaso, simplesmente não estava mais lá. Não sumiu aos poucos; sumiu de uma vez. Como se alguma coisa tivesse finalmente descansado, aliviada por ver aquele objeto de volta no lugar onde sempre deveria estar.

Voltamos para casa naquela manhã, bem diferentes do que tínhamos vivido durante toda a semana. Naquela noite, pela primeira vez desde que trouxemos aquele vaso, dormimos a noite inteira sem escutar nenhum barulho, sem sentir nenhuma presença estranha dentro de casa. Passaram os anos e eu nunca mais voltei a mexer em nada que não fosse meu, principalmente dentro de um cemitério.

Aprendi do jeito mais difícil possível que, às vezes, um objeto simples, que para nós pode parecer sem valor nenhum, pode carregar o peso de uma vida inteira de amor e cuidado de alguém. Aquele vaso não era só louça e flor. Era o último fio que ligava um homem já morto à mulher que ele amou até o fim. E a gente quase quebrou esse fio sem nem perceber.

E foi assim, com essa lembrança guardada até hoje, que aprendi que respeito pelos mortos não é só palavra bonita. É coisa que a gente sente na pele quando entende o tanto que pode doer tirar de alguém o último gesto de amor que ainda restava. Se você acredita que existem coisas que a gente não consegue explicar, coisas que estão além do que os nossos olhos veem, deixa o seu “eu acredito” aqui nos comentários.

E se você já viveu alguma coisa parecida, deixa aqui embaixo, nos comentários, uma palavra de força para quem já perdeu alguém que amava e ainda carrega esse amor no peito, mesmo depois de tanto tempo. Se você tem um lugar, uma lembrança ou até um objeto simples que guarda a memória de alguém querido, conta para mim aqui embaixo. Eu quero saber. E que Deus abençoe a sua semana. Até o próximo relato. Siga a página.”

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

You Might Also Enjoy