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ESPOSA M4TA MARIDO E O VIZINHO EM SÃO BERNARDO DO CAMPO- ELE CUIDAVA DA CASA DELA HÁ MAIS DE 10 ANOS

O resto

Um vizinho que conserta a torneira, que troca a lâmpada, que tem chave da casa para emergência, não precisa esconder presença. Ele já tinha licença para estar ali, mesmo quando ninguém mais estava. Osnir tinha uma voz grave, meio rouca, que dava para reconhecer de longe, mesmo através da parede. Era desse jeito que os vizinhos sabiam, sem nem precisar olhar pela janela, quando ele estava conversando com alguém na rua.

Bastava ouvir aquele timbre característico ecoando pela quadra inteira. Numa festa de aniversário de 25 anos de casamento de Marcelo e Regina, cerca de 3 anos antes de tudo desandar, Osnir tinha feito um brinde emocionado, agradecendo a amizade que atravessou tanto tempo de fábrica e tanto tempo de vizinhança. Todo mundo aplaudiu.

Regina, sentada ao lado do marido, sorria junto com o resto da mesa, sem nenhum peso escondido atrás daquele sorriso. Pelo menos até onde qualquer um ali podia perceber. A rotina da família girava em torno da escala de trabalho de Regina. Quando fazia plantão noturno, chegava em casa só de manhã, exausta, dormindo boa parte do dia. Costume que os próprios filhos já conheciam bem, aprendendo desde pequenos a manter silêncio pela casa nas manhãs seguintes a esses plantões, mesmo sem que ninguém precisasse pedir isso a eles.

Quando fazia plantão diurno, chegava no fim da tarde. Marcelo, por sua vez, cumpria o mesmo horário fixo de sempre. Saindo às 6 da manhã, voltando às 5h30 da tarde, sem variação. Era um esquema que funcionava havia anos sem nenhum problema. Cada um cumprindo sua parte da rotina sem que ninguém precisasse questionar nada.

Isso deixava, nos dias de plantão de Regina — principalmente os noturnos —, a casa livre bem cedo pela manhã. Marcelo geralmente saía cedo para o trabalho, mas em alguns dias, por conta de reuniões que só começavam mais tarde na fábrica, atrasava a saída em uma ou duas horas. Foi exatamente nesse intervalo que, aos poucos, sem que ninguém percebesse a mudança acontecendo, alguma coisa diferente começou a se formar dentro daquela rotina que já durava mais de uma década.

O primeiro sinal veio de uma vizinha, dona Eunice, que morava de frente para a casa de Osnir e tinha o costume de tomar café na varanda toda manhã, sempre no mesmo horário. Ela comentou, sem dar peso nenhum ao assunto, que via Marcelo saindo da casa de Osnir de manhã cedo, em dias que Regina já tinha saído pro plantão havia horas. O que ela achava só normal.

“Os dois sempre foram muito amigos, trabalharam juntos. É natural tomar um café antes do expediente.” Dona Eunice era conhecida na rua por notar tudo que acontecia à sua volta, sem nenhuma má intenção nisso. Era só o jeito dela de ocupar as manhãs. Sentada na varanda com a xícara na mão, vendo a vida da vizinhança passar.

Tinha criado três filhos naquela mesma casa, todos já adultos e morando longe, e o hábito de observar a rua tinha virado, com o tempo, quase uma companhia para ela, que morava sozinha desde que o marido tinha falecido, alguns anos antes. Ninguém achou nada demais: “Amigo antigo que passa para visitar antes do trabalho”, achavam.

Mas o comentário ficou circulando, do jeito que qualquer comentário fica circulando numa rua onde todo mundo conhece todo mundo. Semanas depois, o filho mais velho comentou com um amigo da escola, sem entender o peso do que estava dizendo, que o pai andava saindo de casa mais tarde do que o normal em alguns dias, mesmo tendo horário fixo na fábrica havia 20 anos.

O amigo comentou com a própria mãe, que morava perto, e a informação foi se arrastando pela vizinhança, sem nunca alcançar de fato os ouvidos de quem precisava ouvir a tempo. Regina continuava cumprindo a própria escala de plantão, sem imaginar que a rotina que sustentava a estabilidade da casa também estava, sem querer, abrindo espaço para outra coisa acontecer dentro dela.

Ela nunca perguntou por que, em algumas manhãs, depois de voltar de plantão noturno exausta, encontrava Marcelo já de saída com cheiro de café que não vinha da própria cozinha. Nunca perguntou por que Osnir, que sempre tinha sido tão presente na vida das crianças, de repente tinha ficado mais discreto perto delas, evitando ficar muito tempo por perto quando Regina estava em casa.

O corpo dela registrava esses detalhes sem que a cabeça processasse ainda. Ela contou depois, no interrogatório conduzido após ser detida, que, várias vezes durante o plantão, sentia uma vontade estranha de ligar para casa sem motivo e sempre desistia, achando bobagem interromper o trabalho por uma sensação vaga.

Foi também nesse período que ela passou a reparar, com mais atenção do que nunca, no cachorro da vizinhança. Um vira-lata que morava solto e latia forte para qualquer estranho que passasse durante o dia. Regina notou que, havia algum tempo, o cachorro tinha parado de latir quando Marcelo passava pela rua em direção à casa de Osnir, num horário que não era o de sempre. Sinal, ela entendeu depois, de que aquele animal já reconhecia a presença repetida do marido perto daquela casa como parte normal da paisagem. Presença repetida demais para ser só visita de amigo antigo.

Foi um episódio pequeno, cerca de dois meses antes de tudo acontecer, que plantou a primeira semente da verdade. Antes desse episódio específico, porém, já tinha existido um sinal ainda mais discreto que só ganhou sentido depois, quando ela revisou tudo mentalmente durante as noites sem sono que viriam.

Numa manhã comum, arrumando o quarto de hóspedes, ela tinha encontrado debaixo da cama uma camisa que não era de Marcelo. Tamanho diferente, marca diferente. Na época, ela achou que fosse de algum parente que tinha dormido ali numa visita recente e nem prestou atenção real no detalhe, guardando a peça na gaveta de doações sem questionar mais nada.

Só meses depois, revirando cada lembrança possível, ela se lembrou daquela camisa e lembrou também que o tamanho batia exatamente com o de Osnir. Regina tinha trocado de plantão de última hora com uma colega, coisa que fazia raramente, e voltou para casa bem mais cedo do que o previsto, ainda de manhã. Entrou pela porta da cozinha, que sempre ficava destrancada durante o dia, sem fazer barulho. Do jeito automático de quem entra em casa própria sem pensar duas vezes.

E ouviu vozes vindas do quarto de hóspedes. Aquele que ficava no fundo do corredor, raramente usado. A voz de Marcelo e a voz de Osnir. Baixa, próxima demais para ser conversa sobre conserto de torneira ou café antes do trabalho. Ela não foi até o quarto. Ficou parada no corredor, com o coração batendo mais forte do que qualquer emergência de plantão já tinha feito bater em 18 anos de enfermagem. Escutando um murmúrio de que ela não conseguia entender as palavras, mas que o corpo dela entendeu inteiro num aperto que subiu do estômago até a garganta. Saiu pela mesma porta sem que ninguém percebesse que ela tinha estado ali. E não disse nada.

Nem naquele dia, nem no seguinte. Esse foi o primeiro dia da contagem regressiva. Ela não sabia ainda, mas foi. Nas semanas seguintes, os sinais pararam de ser sussurro e viraram evidência. Começou a notar que o celular de Marcelo, que sempre ficava largado em qualquer lugar da casa, agora parecia sempre virado para baixo ou dentro do bolso, mesmo dentro de casa.

Começou a notar que, em alguns dias, ele demorava mais no banho antes de sair para o trabalho, saindo com o cabelo molhado numa hora estranha para quem tinha horário fixo para cumprir. Notou também que ele tinha trocado o perfume que usava havia anos por outro mais forte, que ela nunca tinha visto no banheiro de casa antes daquele período.

Começou a notar — e isso doeu mais que qualquer outra coisa — que Osnir, que sempre tinha sido tão presente na vida das crianças, ajudando com dever de casa, levando bola para o filho jogar no quintal, de repente tinha ficado mais discreto com elas, evitando ficar muito tempo perto delas. Foi juntando peça com peça, sem falar, sem confrontar, guardando tudo dentro de um silêncio que foi ficando cada vez mais pesado, quase palpável dentro daquela casa que sempre tinha parecido tão tranquila para quem olhava de fora.

Teve uma noite, num domingo, em que a família tinha combinado um almoço maior com os pais de Marcelo e Osnir junto, para comemorar o aniversário do filho mais velho. Regina fez a comida favorita do menino e, por um instante, sentados à mesa, rindo de alguma história boba que o sogro contava pela enésima vez, tudo pareceu, por um momento curto, exatamente igual a como sempre tinha sido.

Regina observou aquela cena: a mesa cheia, o filho soprando as velas. Osnir sentado ao lado de Marcelo, como sempre sentava. E sentiu uma dor diferente de todas as outras que já tinha sentido nas semanas anteriores. Não era raiva. Era uma tristeza funda de perceber que aquele almoço de domingo, que parecia tão normal, já estava contaminado por alguma coisa que só ela sabia.

Ela se levantou no meio do almoço, dizendo que precisava verificar uma coisa na cozinha, mesmo sem ter nada pendente ali. Ficou parada em frente à pia por alguns minutos, respirando fundo, ouvindo o som abafado da conversa e das risadas vindo da sala. Um som que, meses depois, ela disse na delegacia que ainda ecoava na cabeça dela, mesmo depois de tudo o que tinha acontecido.

Ela começou a perder o sono mesmo nos dias de folga. Ficava olhando pro teto, ouvindo Marcelo respirar do lado dela, contando as horas, com o estômago apertado de um jeito que ela nunca tinha sentido antes. Nem nos piores plantões de emergência. Os pensamentos vinham em loop, sempre os mesmos, sempre na mesma ordem: a voz baixa no quarto de hóspedes, o celular virado para baixo, o jeito distante que Osnir tinha passado a ter com as crianças.

Ela revirava cada detalhe, cada vez com mais raiva, cada vez com menos sono, cada vez com o peito mais apertado. Passou a dormir só duas, três horas por noite, quando conseguia. O resto do tempo ficava deitada de olhos abertos ou levantava para ficar sentada na cozinha escura, tomando água, de que não tinha sede nenhuma de beber. Só para ter alguma coisa para fazer com as mãos, enquanto a cabeça não parava de girar.

Numa dessas madrugadas, ela chegou a sair de casa de mansinho, sem acordar ninguém. E ficou sentada dentro do próprio carro, parado na garagem, com as mãos no volante, sem ligar o motor. Só olhando para o nada através do para-brisa por mais de uma hora, até o corpo pedir descanso e ela voltar para a cama. Ainda sem conseguir dormir direito.

E, mesmo assim, continuava cumprindo a própria escala de plantão. Sustentando a casa enquanto a própria vida dela desmoronava dentro dela. Numa dessas noites de plantão, ela chegou a se sentar sozinha na sala de descanso da enfermagem, com a bandeja de comida intacta na frente, sem conseguir tocar em nada por quase 20 minutos. Até uma colega perguntar se estava tudo bem.

Regina respondeu que sim. Que só estava cansada. Uma desculpa que a colega aceitou sem questionar mais nada. Passou a evitar ficar sozinha em casa nos horários em que sabia que Marcelo costumava ir até a casa de Osnir. Inventando desculpas para sair, para ir ao mercado, para visitar a própria mãe. Qualquer coisa que a tirasse dali antes de ter que confirmar de novo o que já sabia.

Foi nessa época que ela parou de conversar com as colegas de enfermagem na hora do intervalo. Aquele momento do meio do turno em que todo mundo trocava desabafo, comentava a vida pessoal. Ficava calada, olhando para o nada com uma cara que uma colega comentou depois na delegacia que não era cara de mulher cansada de plantão, era cara de mulher carregando alguma coisa grande demais para dizer em voz alta.

Numa dessas noites de plantão, uma auxiliar de enfermagem mais nova, que trabalhava havia poucos meses no setor e admirava a experiência de Regina, chegou a perguntar com cuidado se estava tudo bem. Notando que ela tinha ficado mais séria do que o normal nas últimas semanas. Regina respondeu que sim. Agradeceu a preocupação e mudou de assunto rápido. Voltando a atenção para o prontuário que estava revisando, como se aquilo bastasse para encerrar qualquer conversa mais funda.

Ela nunca contou para ninguém o que suspeitava. Nem para a própria irmã, que morava em Santo André e ligava toda semana só para conversar. Guardava tudo, mastigava tudo sozinha e ia ficando mais magra, mais calada, mais distante. A ponto da própria filha perguntar um dia se a mãe estava doente. Regina respondeu que era só cansaço do trabalho.

A filha aceitou a resposta e não insistiu. Uma colega de plantão chamada Vanessa, que trabalhava ao lado dela havia mais de 5 anos e considerava Regina uma espécie de mentora dentro do setor, notou que ela tinha ficado mais calada nas últimas semanas. Mas atribuiu isso a algum problema familiar comum. Sem imaginar a dimensão real do que estava acontecendo, perguntou uma vez com cuidado se estava tudo bem em casa.

Regina respondeu que sim, com um sorriso que Vanessa descreveria depois, na delegacia, como “o tipo de sorriso que a gente dá quando não quer que ninguém pergunte de novo”. Numa manhã de folga — um dia em que ela tinha combinado de propósito dizer em casa que ia trabalhar, mas, na verdade, não tinha plantão nenhum marcado —, ela resolveu testar alguma coisa.

Saiu de casa fingindo ir para o hospital e voltou de mansinho, pela viela de acesso ao quintal dos fundos. Ficando escondida atrás da churrasqueira, observando a própria casa por um tempo. Viu Marcelo saindo de casa, atravessando as três casas de distância até a porta de Osnir. Entrando sem bater, com uma familiaridade que não deixava dúvida de que aquele não era o primeiro dia que fazia aquele trajeto daquele jeito.

Ficou ali escondida por quase 40 minutos. Sentindo o próprio corpo tremer, não de frio, mas de uma coisa que ela não sabia nomear direito. Ainda viu Marcelo sair de novo, quase uma hora depois, ajeitando a camisa antes de atravessar de volta para a própria casa. Com o mesmo passo tranquilo de sempre, como se aquilo fosse só mais uma manhã comum antes de seguir para o trabalho.

Foi essa manhã que ela decidiu que precisava confirmar de verdade. Não bastava mais suspeitar. A confirmação veio numa quinta-feira, cerca de um mês antes do que aconteceu. Regina avisou no hospital que precisava resolver um problema médico pessoal — mentira que nunca tinha contado antes em 18 anos de emprego — e voltou para a rua no meio da manhã, estacionando o carro longe o suficiente para não ser vista.

Ela tinha passado a noite anterior praticamente sem dormir. Revirando na cabeça como ia proceder, se ia mesmo confrontar de frente ou só observar mais uma vez. Adiando ainda mais aquela certeza que já carregava havia semanas, mas que ainda resistia em transformar em fato consumado. Foi a pé até a casa de Osnir e entrou pelo mesmo caminho de fundos que tinha usado na primeira observação. Aproximando-se de uma janela lateral que ficava sempre entreaberta.

E viu. Viu Marcelo e Osnir dentro da casa dele num momento que não deixava espaço para dúvida nenhuma. A cena durou segundos antes de qualquer um dos dois perceber a sombra na janela. Segundos que, para ela, tiveram o peso de uma vida inteira desabando de uma vez. Marcelo gritou o nome dela. Um grito curto, cortado pela metade. Osnir ficou parado, sem correr, sem gritar. Olhando para Regina com uma cara que ela descreveu depois, na delegacia, como “de quem já sabia há muito tempo que aquele dia ia chegar de qualquer jeito”.

Regina não gritou, não quebrou nada, não avançou para cima de ninguém. Mesmo com as mãos tremendo tanto que precisou se apoiar no batente da janela. Deu meia-volta e saiu sem dizer uma palavra. Marcelo chamou o nome dela mais uma vez, a voz agora tomada de desespero, pedindo para ela esperar, para deixar ele explicar.

Ela não parou nem virou para trás. Atravessando de volta as três casas de distância até a própria garagem. Onde ficou sentada dentro do carro, sem ligar o motor, por mais de uma hora antes de conseguir se mexer de novo. Voltou para o trabalho só à tarde. Cumprindo o resto do turno mecanicamente, sem se concentrar em nenhuma tarefa direito. Cometendo um erro de medicação que precisou ser corrigido por uma colega, coisa que nunca tinha acontecido em 18 anos de profissão.

O erro, embora corrigido a tempo, sem nenhuma consequência para o paciente, deixou Regina abalada de um jeito que os colegas de turno notaram na hora. Sem entender a origem real daquele descuido tão fora do padrão dela. A supervisora do setor chegou a perguntar se ela precisava sair mais cedo, oferecimento que Regina recusou, insistindo em terminar o plantão inteiro, como sempre fazia.

Voltou para casa à noite. Marcelo já tinha percebido, pelo comportamento estranho dela durante o jantar, que alguma coisa tinha mudado. Mas fingiu não notar, esperando para ver se ela ia tocar no assunto. Ela não disse nada sobre o que tinha visto. Só falou, com uma calma que assustou mais do que qualquer gritaria teria assustado:

“Vou precisar de um tempo para pensar em algumas coisas.” O mês seguinte foi o pior da vida dela. Não porque ela estava decidindo o que fazer, mas porque, no fundo, ela já sabia. E o corpo dela sabia que sabia, mesmo que a cabeça ainda tentasse encontrar uma saída diferente. Dormia menos de 3 horas por noite. Comia sem sentir gosto. Emagrecendo de um jeito que os próprios filhos comentaram, preocupados.

Continuava cumprindo a própria escala. Sustentando a casa. Sabendo agora exatamente o que estava sustentando e ao lado de quem. Na primeira semana depois da confirmação, ela chegou a considerar por um instante simplesmente pedir separação, arrumar as próprias coisas e ir embora com os filhos para a casa da irmã, em Santo André.

Chegou a separar algumas roupas numa mala guardada no fundo do armário. Mas nunca conseguiu terminar de fazer as malas dos filhos também. Sempre parando no meio. Sem conseguir explicar para si mesma por que aquilo não parecia suficiente. Na segunda semana, ela passou a observar Osnir de longe. Quando ele saía para fazer compra no mercadinho da esquina, prestando atenção em cada gesto. Cada cumprimento que ele trocava com outros vizinhos. Tentando entender como um homem que parecia tão comum, tão de confiança, conseguia carregar aquele segredo há tanto tempo sem que o rosto dele nunca entregasse nada.

Na terceira semana, ela quase contou tudo para a própria irmã, durante uma das ligações de domingo. Chegou a começar a frase: “Aconteceu uma coisa…” Mas parou no meio. Mudou de assunto, perguntou sobre os sobrinhos. A irmã, sem saber de nada, nunca imaginou o que estava sendo engolido do outro lado da linha.

Foi nesse período que ela começou a escrever numa agenda pequena que guardava dentro da própria bolsa de trabalho. Uma sequência de anotações que depois foi encontrada e apresentada como prova no processo: datas, horários, observações sobre os padrões de comportamento de Marcelo e Osnir. Um registro cada vez mais detalhado e obsessivo do que ela tinha descoberto.

Numa dessas noites, sentada sozinha na cozinha com a agenda aberta na mesa, ela ficou olhando para uma faca de cozinha grande. Testando o peso dela na mão, sem saber ainda — ou talvez sabendo — o que aquilo significava. Era a mesma faca que usava havia anos para cortar legumes no jantar de domingo. A mesma que tinha ensinado a filha a segurar direito, com cuidado, sempre com a lâmina virada para longe do corpo.

Guardou a faca de volta na gaveta e foi dormir, sem conseguir pegar no sono. Na noite anterior ao dia em que tudo aconteceu, Regina soube, ao consultar a própria escala, que teria plantão noturno no dia seguinte, o que significava sair de casa às 10 da noite. Foi nesse momento que ela decidiu que aquele seria o último dia esperando. Passou a última noite deitada ao lado de Marcelo, sem dizer nada. Ouvindo a respiração dele. Tentando gravar, sem saber exatamente por quê, cada detalhe daquele momento comum.

O cheiro do amaciante na fronha, o barulho baixo do ventilador de teto, o peso do próprio corpo afundando no colchão que os dois compraram juntos, ainda recém-casados, mais de 15 anos antes. Na manhã seguinte, depois de Marcelo sair para a fábrica no horário de sempre, ela avisou no hospital, pela primeira vez em 18 anos, que precisava trocar o plantão por um problema pessoal urgente.

Passou o dia inteiro em casa sozinha, com os filhos na escola. Nessas horas de espera, arrumou a casa inteira com um cuidado incomum. Trocou os lençóis de todas as camas. Deixou o jantar já quase pronto no fogão. “Gestos automáticos”, ela contou depois, “de quem precisava manter as mãos ocupadas para não deixar a cabeça parar demais num único pensamento.”

Por volta das 4 da tarde, atravessou as três casas de distância até a porta de Osnir, levando consigo a faca de cozinha guardada dentro do próprio jaleco de trabalho, que ela vestia como se fosse sair para o hospital mais tarde. A cena que aconteceu dentro daquela casa durou menos de 4 minutos, segundo a reconstituição feita depois pela perícia.

Osnir, que estava assistindo televisão na sala, levantou-se ao ouvir a porta abrir, achando que fosse Marcelo chegando mais cedo, coisa que às vezes acontecia. A sala de Osnir era pequena, organizada. Com uma estante cheia de troféus de campeonatos de sinuca do bairro. Hobby que ele mantinha desde a aposentadoria, jogando toda quinta-feira num bar próximo.

O ventilador de teto girava devagar e a televisão estava sintonizada num programa de auditório. Som que Osnir sempre deixava ligado, mesmo quando não prestava atenção real na tela. Viu Regina parada na porta. A reação dele foi de surpresa, não de medo imediato. Ainda tentou, segundo a reconstituição, iniciar alguma frase de explicação: um “Regina, deixa eu te falar…” que nunca chegou a se completar.

Regina agiu com uma violência que ela mesma mais tarde não soube explicar direito. Nem para o delegado, nem para a própria advogada de defesa. Golpes rápidos, sem hesitação, como se o corpo dela já tivesse ensaiado aquele movimento inteiro dentro da cabeça noite após noite, durante o mês inteiro de espera.

O silêncio depois foi mais pesado que qualquer grito. Regina ficou parada no meio da sala de Osnir, olhando para o corpo do vizinho que tinha sido, por mais de 20 anos, colega de fábrica do marido e, por mais de 10 anos, uma presença constante dentro da própria casa da família. Ficou ali por um tempo que ela não soube medir depois, quando perguntada. Olhou para a estante de troféus de sinuca. Cada um representando um domingo, uma quinta-feira. Um momento de vida comum que aquele homem tinha construído para si mesmo, paralelo a outra vida secreta que ele levava dentro da casa dos Souza.

Num dos troféus havia uma pequena etiqueta escrita à mão: “Osnir e Marcelo, dupla campeã 2019.” Ela olhou para aquele objeto específico por vários segundos, sem tocar. Antes de, finalmente, se mover. O próprio pulso ainda tremendo do esforço que tinha acabado de fazer, guardou a faca dentro do jaleco.

Saiu pela mesma porta, mas em vez de voltar direto para a própria casa, ficou esperando ali dentro. Sentada na cozinha da própria residência, com a agenda de anotações aberta na mesa. Ao lado da faca, agora limpa. Marcelo voltou do trabalho por volta das 5h30, do jeito de sempre, sem imaginar nada. Cumprimentou Regina com um beijo rápido na testa.

Comentou algo sobre o trânsito da tarde. E só percebeu a agenda aberta na mesa quando já estava tirando o casaco. Num gesto que congelou no meio do movimento. Assim que reconheceu a própria letra registrada ali dentro, junto com a de Regina. Formando um mosaico de datas que ele nunca soube que estavam sendo contadas. Encontrou Regina sentada, esperando.

A conversa entre os dois, segundo o próprio relato de Regina no interrogatório, durou poucos minutos. Ela contou o que tinha feito com Osnir. Marcelo, em pânico, tentou correr em direção à porta para chamar ajuda. Pro que fosse. Não chegou. O que aconteceu na sequência, dentro daquela mesma cozinha, teve a mesma rapidez e a mesma falta de hesitação do que tinha acontecido na casa de Osnir horas antes.

Regina usou a mesma faca, ainda dentro do jaleco. A mesa da cozinha, onde a família fazia as refeições havia 16 anos, ainda tinha os pratos do jantar da noite anterior empilhados na pia. Esperando para serem lavados. A luz da cozinha, acesa desde que Regina tinha se sentado para esperar, projetava sombra comprida pelo piso, chegando quase até a porta dos fundos.

O mesmo caminho que Marcelo usava havia meses para atravessar até a casa de Osnir, sem ser visto pela rua principal. O silêncio que tomou conta da casa depois foi absoluto. Os filhos, que ficariam na casa de uma colega de escola naquela noite específica — combinado dias antes, sem nenhuma relação com o que estava por vir —, só voltariam para casa depois do meio-dia seguinte.

Regina passou as horas seguintes sentada na sala. Sem se mover, sem tentar fugir. Sem tentar esconder nada além do que já tinha feito. O sistema de detenção, nesse caso, não veio de câmera. Nem de blitz, nem de confissão espontânea na cena. Veio de um rastreamento silencioso que começou horas antes de qualquer policial pisar naquela rua.

Osnir tinha um filho que morava em outra cidade. E que, sem receber a ligação diária de sempre naquela noite, estranhou o silêncio do pai. E tentou o contato repetidas vezes, sem sucesso. O filho, chamado Anderson, tinha o costume de ligar para o pai todos os dias às 8 da noite, sem falhar. Um ritual que os dois mantinham desde que Anderson tinha se mudado, anos antes.

Quando o telefone tocou sem resposta pela quinta vez seguida, ele já sabia. Pela experiência de anos conhecendo a rotina do pai, que alguma coisa estava fora do normal. Preocupado, esse filho ligou para um aplicativo bancário que o pai usava. Verificando o histórico de movimentações recentes. E notou uma tentativa de acesso ao cartão de Osnir. Feita de um endereço que não correspondia ao padrão de uso habitual dele. Indício de que alguém tinha mexido no celular do pai depois da hora normal em que ele costumava estar acordado.

Foi esse filho quem, ainda sem saber o que realmente tinha acontecido, ligou para a Polícia Militar pedindo uma verificação de bem-estar na casa do pai. Alegando estranheza no padrão de acesso bancário e ausência de resposta às ligações. Quando a viatura chegou, já era manhã do dia seguinte. Encontrou a porta da casa de Osnir destrancada e o corpo dentro da sala.

Um policial mais experiente, ao entrar, reconheceu na hora que aquilo não era resultado de assalto nem invasão. Nada tinha sido mexido, nenhuma gaveta remexida, nenhum sinal de arrombamento na porta ou janela. A perícia, chamada em seguida, expandiu a verificação para toda a quadra. Incluindo a casa de Marcelo e Regina, três portas adiante. Depois que uma vizinha, ao ver o movimento policial, comentou espontaneamente sobre a proximidade das duas famílias. Mencionando, sem saber a gravidade do que estava dizendo, que “o Marcelo e a Regina sempre foram muito próximos do Osnir. Quase família”.

Foi dentro dessa casa que os policiais encontraram Regina. Ainda sentada na sala, ao lado do corpo do próprio marido. Sem nenhuma tentativa de fuga, sem nenhuma resistência à abordagem. A sala de interrogatório era pequena, com uma mesa de metal e duas cadeiras de plástico gasto.

O investigador responsável pelo caso tinha mais de 15 anos de carreira. Já tinha conduzido investigações de todo tipo naquela região do ABC paulista. Mas disse depois, em entrevista para um jornal local, que aquele foi um dos casos mais complexos emocionalmente que já tinha visto. Por envolver dois homicídios em cenas separadas, cometidos pela mesma pessoa em menos de 24 horas.

No início, Regina ficou em silêncio. Olhando para o chão, sem responder às primeiras perguntas. O investigador, seguindo o protocolo padrão, apresentou as provas encontradas: a faca, a agenda de anotações. E perguntou se ela reconhecia aqueles itens como seus. Ela confirmou com um aceno de cabeça, ainda sem falar. Só quando o investigador colocou na mesa a agenda de anotações encontrada na bolsa dela, ela começou a falar.

“Eu registrei tudo porque precisava entender”, disse ela, olhando fixo para a própria agenda. “Cada data, cada hora que eu via alguma coisa estranha, não sabia bem para quê no começo. Só sabia que precisava guardar.” O investigador perguntou por que ela tinha ido primeiro até a casa de Osnir e não confrontado diretamente Marcelo.

Regina respondeu que sentia que Osnir tinha traído duas vezes: como vizinho de confiança e como amigo de mais de 20 anos do marido. “Ele tinha entrada na minha casa que nem família tem. E isso pesou mais do que eu esperava.” O investigador insistiu. Perguntando se ela tinha pensado em algum momento das quatro semanas de espera em conversar com o próprio Marcelo. Dar uma chance para ele explicar ou terminar o casamento de outro jeito. Sem violência.

Regina balançou a cabeça devagar. “Eu tentei imaginar essa conversa várias vezes. Mas toda vez que eu pensava nas palavras, elas não faziam sentido para mim. Não existia explicação que desfizesse o que eu tinha visto.” Perguntada se tinha considerado procurar ajuda profissional, terapia, conversar com alguém de fora da família. Regina respondeu que trabalhava num hospital cercado de gente o dia inteiro, mas que nunca conseguiu formular a frase certa para pedir ajuda.

“Eu sei cuidar dos outros. Não sei fazer isso comigo.” O investigador anotou essa resposta com cuidado. Reconhecendo depois em entrevista que aquela frase específica ficou martelando na cabeça dele por muito tempo depois do caso encerrado. Porque resumia de um jeito simples uma coisa que a gente vê o tempo todo em profissões de cuidado: quem passa a vida cuidando esquece de aprender a pedir socorro para si mesmo.

Perguntada sobre o que aconteceu depois, na volta de Marcelo do trabalho, Regina ficou em silêncio por um longo tempo antes de responder. “Eu não fui esperar ele para fazer aquilo. Fiquei esperando para falar. Mas quando ele tentou correr, alguma coisa em mim já tinha decidido antes da minha cabeça decidir.”

O investigador perguntou se ela sentia arrependimento. Regina respondeu que sim. Mas de um jeito que o próprio investigador descreveu depois como “confuso, meio partido ao meio”. Arrependimento pelo que tinha feito, mas também uma espécie de alívio distorcido por não precisar mais carregar o peso da descoberta sozinha.

O investigador perguntou por fim se ela tinha alguma coisa a acrescentar. Antes de encerrar o depoimento formal, Regina ficou em silêncio por um tempo. Olhando para as próprias mãos em cima da mesa, antes de responder: “Ele cuidou da nossa casa por 10 anos. Eu confiei nele com as chaves, com as crianças, com tudo. Isso não sai da minha cabeça. Nunca vai sair.”

O caso foi registrado como duplo homicídio. Com um dos crimes, a morte de Marcelo, sendo analisado quanto à possível aplicação de circunstâncias específicas de violência de gênero. Discussão que o Ministério Público acabou não sustentando na denúncia final, já que a legislação de feminicídio se aplica à morte de mulheres, não de homens, dentro de relações afetivas.

Um promotor consultado pela reportagem, sem relação direta com o caso, explicou que essa distinção legal costuma gerar confusão no público. Já que a lei brasileira, criada em 2015, justamente para endereçar a violência de gênero contra mulheres, não tem dispositivo equivalente para situações em que a vítima é homem, mesmo em contextos igualmente ligados a uma relação afetiva conturbada.

A investigação apontou premeditação em ambos os casos. A agenda de anotações, a escolha deliberada do dia em que trocaria o plantão, a arma preparada com antecedência. O Ministério Público denunciou Regina por homicídio duplamente qualificado em ambos os casos. Com as penas somadas, conforme a lei determina para crimes cometidos em concurso.

O termo, explicado de forma simples, significa que os dois crimes foram planejados com antecedência. E executados de um jeito que impediu as vítimas de reagir. O que aumenta consideravelmente a pena na hora da sentença, se comparado a um crime cometido no calor de uma discussão. O processo seguiu o rito normal desse tipo de acusação no Brasil: fase de instrução com depoimentos de testemunhas — vizinhos, colegas de trabalho de ambos os homens —, análise pericial das duas cenas e a pronúncia, levando o caso ao Tribunal do Júri. Quando um grupo de moradores da própria cidade, escolhidos por sorteio, decide, ao lado do juiz, se a acusada é culpada e qual pena deve cumprir.

O julgamento aconteceu quase 3 anos depois dos crimes. Num fórum de São Bernardo do Campo lotado. Com a família de Osnir de um lado da sala e os pais de Marcelo do outro. Cada um cobrando justiça por uma vítima diferente dentro do mesmo processo. O caso tinha ganhado repercussão regional considerável. Chegando a ser tema de reportagens em telejornais locais durante toda a semana do julgamento. Atraindo público curioso que lotava o corredor do fórum, mesmo em dias sem sessão marcada.

Dona Eunice, a vizinha que tinha comentado sobre os horários estranhos de Marcelo saindo da casa de Osnir, depôs contando o mesmo comentário pequeno que tinha feito meses antes de tudo acontecer. O julgamento durou dois dias inteiros. No primeiro, foram ouvidas as testemunhas de acusação. Incluindo peritos que apresentaram os laudos das duas cenas de crime e a análise da agenda de anotações.

A agenda, na verdade, um caderninho de capa vermelha que Regina comprou numa papelaria perto do hospital, virou uma das peças mais discutidas durante todo o julgamento. Continha, além das datas e horários, algumas frases soltas que ela escreveu nas madrugadas mais difíceis, sem intenção de que ninguém lesse. “Não sei mais em quem confiar dentro da minha própria casa”, dizia uma delas, datada de três semanas antes do crime.

Outra, escrita na noite anterior aos fatos, dizia apenas: “Amanhã eu descubro se consigo viver com isso guardado para sempre ou se não consigo.” A promotora leu essa última anotação em voz alta durante a sustentação final. Deixando a sala em silêncio por vários segundos antes de continuar a fala. No segundo dia, a defesa apresentou suas próprias testemunhas. Entre elas, a irmã de Regina, que tentou construir um retrato dela como mulher dedicada, profissional respeitada, sem nenhum histórico de violência anterior. Argumentando que aquilo tinha sido fruto de um sofrimento acumulado que ninguém deveria subestimar.

Vanessa, a colega de plantão, também depôs. Contando que Regina tinha ficado calada e distante nas últimas semanas antes dos crimes, mas que ela mesma nunca imaginou que aquele silêncio escondia alguma coisa tão grande. “Ela sempre foi a mais dedicada do setor”, disse Vanessa, com a voz embargada. “Nunca vi ela perder a paciência com paciente nenhum, por mais difícil que fosse o plantão.”

Uma psicóloga contratada pela defesa também depôs, apresentando uma avaliação que descrevia Regina como uma mulher que tinha passado por um processo prolongado de sofrimento psicológico silencioso, sem nenhum tipo de apoio emocional ao longo de semanas de descoberta e espera.

A promotora rebateu essa avaliação. Argumentando que sofrimento emocional não explicava a escolha deliberada de trocar de plantão justamente naquele dia, nem o cuidado de levar a arma escondida dentro do próprio jaleco de trabalho. A defesa tentou argumentar “violenta emoção” para ambos os crimes. Alegando que a descoberta da traição dupla, do marido e do vizinho de confiança havia mais de 10 anos, tinha causado um colapso emocional contínuo.

A advogada de defesa insistiu em sua fala inicial que o rompimento de uma amizade que atravessava mais de duas décadas, somado à traição conjugal, representava um tipo específico de dor que a legislação penal ainda não sabia nomear direito, mas que o júri, como representante da própria comunidade, poderia reconhecer com mais sensibilidade do que qualquer texto de lei.

A promotora rebateu, mostrando ao júri a agenda de anotações. Com data e hora de cada observação registrada ao longo de semanas. “Isso não é colapso repentino”, disse a promotora. “Isso é uma mulher que passou semanas documentando, decidindo, esperando o momento certo para agir contra duas pessoas diferentes.” A promotora também apresentou ao júri o depoimento do filho de Osnir. Relatando como ele tinha percebido, através do padrão de acesso ao aplicativo bancário do pai, que algo estava fora do normal horas antes de qualquer autoridade tomar conhecimento.

“Foi um filho preocupado e não a polícia quem primeiro percebeu que alguma coisa grave tinha acontecido”, destacou ela. “Isso mostra o nível de premeditação e controle da acusada. Ela permaneceu horas dentro da própria casa, ao lado do segundo corpo, sem que ninguém suspeitasse de nada.” A defesa, na réplica, insistiu que o comportamento controlado de Regina, durante e depois dos dois crimes, era evidência de dissociação emocional extrema e não de frieza calculada.

Argumentando que uma pessoa em estado de choque profundo pode manter aparência de normalidade sem que isso signifique planejamento consciente. O júri mais uma vez não acolheu essa tese. Entendendo que a soma de evidências — a agenda, a escolha da data, a arma escondida — configurava premeditação clara demais para ser explicada só por choque emocional.

O júri não aceitou o argumento da defesa. Regina foi condenada pelos dois crimes. Com pena somada de mais de 30 anos de reclusão em regime fechado. Ela ouviu a leitura da sentença em pé, sem reação visível no rosto. Enquanto, dos dois lados da sala, famílias diferentes choravam por perdas diferentes causadas pela mesma mão.

A advogada de defesa anunciou, ainda no plenário, que recorreria da decisão, alegando excesso na dosimetria da pena. O recurso foi julgado cerca de um ano depois. E o tribunal manteve a sentença original. Entendendo que a premeditação demonstrada — a agenda de anotações, a escolha deliberada da data, a arma preparada com antecedência — afastava qualquer redução baseada em suposto descontrole emocional.

Fora do fórum, no dia da sentença, um grupo de vizinhos da rua acompanhou o resultado pela televisão. Reunidos na casa de dona Eunice, a mesma vizinha que tinha comentado, meses antes de tudo acontecer, sobre os horários estranhos de Marcelo saindo da casa de Osnir. Segundo ela mesma contou depois, “Ninguém comemorou nada. A gente só queria que aquilo tivesse um fim, mesmo sabendo que fim nenhum ia trazer os dois de volta.”

Hoje, mais de 5 anos depois dos crimes, os dois filhos de Marcelo e Regina moram com os avós paternos, num bairro vizinho de São Bernardo do Campo. O mais velho, hoje já adulto, trabalha numa oficina mecânica e evita qualquer conversa sobre os pais. Segundo pessoas próximas à família, prefere focar a própria vida no trabalho e num relacionamento estável que começou pouco depois de completar a maioridade.

A caçula, que hoje cursa o ensino médio, segundo uma prima que ainda mantém contato, aprendeu a viver com a história sem deixar que ela defina quem ela é. Frequenta a escola normalmente, tem grupo de amigas. E só raramente, em datas específicas, como o aniversário do pai, fica mais fechada por alguns dias. Os avós paternos, que assumiram a guarda logo após a prisão de Regina, contaram numa entrevista — concedida com muita relutância dois anos depois dos fatos — que os netos nunca perguntaram diretamente “por que a mamãe fez isso”. Preferindo, segundo eles, guardar a pergunta para quando estiverem prontos para ouvir a resposta, se é que algum dia vão estar.

A empresa onde Marcelo trabalhava havia mais de 20 anos emitiu uma nota breve lamentando o ocorrido. Já que ele era visto pelos colegas como um dos supervisores mais respeitados da linha. Um funcionário que trabalhou ao lado dele por 15 anos disse, ao saber da notícia, que “não tem explicação que encaixe. Homem tão dedicado à família, sempre falando dos filhos do jeito que só quem realmente ama fala”.

O hospital onde Regina trabalhava emitiu comunicado semelhante, retirando o cadastro dela do quadro de funcionários. Assim que a condenação transitou em julgado, uma supervisora do setor de enfermagem, ouvida informalmente, comentou que “a gente treina anos para salvar vidas. Nunca imaginei que alguém do nosso time fosse capaz do oposto disso”. Nenhum dos dois filhos visitou a mãe na prisão nos anos seguintes.

Um psicólogo que acompanhou as crianças nos primeiros meses depois da tragédia — ouvido pela reportagem sem citar detalhes específicos, por sigilo profissional — comentou de forma genérica que, “quando a mesma pessoa é, ao mesmo tempo, a figura de cuidado e a autora de uma violência dessa magnitude, o processo de elaboração do luto fica extremamente mais complexo do que numa perda comum”.

A casa onde a família morava foi vendida meses depois dos crimes, assim como a casa de Osnir. Ambas compradas por famílias diferentes que não tinham nenhuma relação com o bairro na época dos acontecimentos. A vizinhança, aos poucos, absorveu a mudança de moradores sem que os novos donos das duas casas soubessem, de início, a história completa por trás dos endereços que tinham comprado.

O filho de Osnir, que fez a ligação que levou à descoberta dos crimes, mudou-se de vez para perto dos próprios filhos numa cidade diferente do estado. Dizendo que não conseguia mais nem passar perto daquela rua sem sentir o estômago revirar. Continua, segundo relatos de parentes, guardando o chaveiro de couro do pai. O mesmo que Regina tinha dado de presente anos antes, como uma das poucas lembranças físicas que restaram.

Numa entrevista concedida dois anos depois dos fatos, Anderson comentou que ainda tinha dificuldade de entender como uma vizinhança inteira — incluindo ele mesmo em suas visitas ocasionais — nunca tinha percebido nada de estranho na relação entre o pai e a família Souza. “A gente via aquilo como amizade de 20 anos. Nunca imaginei que tinha outra coisa por trás”, disse ele numa fala que resumia o sentimento de boa parte da vizinhança.

A vida na rua onde tudo aconteceu seguiu, com o tempo encontrando um novo tipo de normalidade. As crianças que hoje brincam nas calçadas não têm ideia do que aconteceu ali. Os moradores mais antigos, que viveram aquele período de perto, ainda trocam olhar quando alguém novo pergunta sobre a história das duas casas. Mas cada vez menos gente pergunta, porque cada vez menos gente sabe que há uma história para perguntar.

O bar onde Osnir jogava sinuca toda quinta-feira ainda existe. Com outra clientela, outros troféus expostos no balcão. Um dos antigos parceiros de jogo dele, ouvido pela reportagem anos depois, comentou que o time nunca mais conseguiu formar uma dupla tão afinada quanto a que Osnir e Marcelo formavam nos campeonatos de bairro. “E olha que ninguém sabia até então que aquela amizade escondia outra coisa completamente diferente do que a gente via na mesa de sinuca.”

Regina hoje, cumprindo pena numa penitenciária feminina distante da capital, trabalha na lavanderia do presídio. Atividade que, segundo um relatório de acompanhamento social, ela escolheu por conta própria, dizendo aos agentes que “gosta de manter as mãos ocupadas”. Raramente comenta o próprio caso com as outras detentas.

E, segundo uma agente que a acompanha há mais de dois anos, ela é uma das mais quietas do pavilhão. Quase nunca causa problema, mas também quase nunca sorri. Numa das poucas entrevistas concedidas de dentro da prisão, através de um formulário escrito respondido com a ajuda de uma assistente social, Regina escreveu que pensa nos filhos todos os dias. Mas que entende com muita dor por que eles escolheram não visitar.

“Eu era enfermeira, passei a vida cuidando de gente. Isso não muda o que eu fiz, mas é a única coisa que ainda sei fazer direito, mesmo aqui dentro.” Numa referência ao fato de que, dentro da penitenciária, ela também passou a ajudar informalmente outras detentas com cuidados básicos de saúde, sob supervisão da equipe médica do presídio.

Se essa história mexeu com você, deixe aqui embaixo o que você acha que pesou mais nesse caso: a traição em si ou o fato de que o crime aconteceu em duas casas diferentes, separadas por poucos metros, na mesma rua onde tudo tinha começado. Tem muita história como essa esperando para ser contada, de gente comum, de bairro comum, que um dia vira notícia por um motivo que ninguém da vizinhança nunca imaginou. Escondido atrás de rotinas que pareciam simples demais para guardar qualquer segredo. Siga a página para não perder nenhuma.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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