A DESCOBERTA NO ESTÁDIO E UM MISTÉRIO QUE DURA 14 ANOS
A história completa
No ano de 2012, Juliene Anunciação Gonçalves foi encontrada pendurada na arquibancada de um campo de futebol em Cuiabá, no Mato Grosso, em uma cena que chocou toda a cidade e deu início a uma investigação cercada por mistérios, versões conflitantes e perguntas que nunca receberam uma resposta até hoje.
Juliene tinha apenas 22 anos e havia saído para se divertir com seus amigos e com seu primo. No entanto, mais de 14 anos depois, a mesma pergunta continua: “Quem tirou a vida de Juliene Anunciação Gonçalves?”.
Aproveite esse momento para clicar no botão de “gostei” aqui embaixo e seguir a página. No caso de hoje, nós vamos para Cuiabá, no Mato Grosso, para conhecer a história de Juliene Anunciação Gonçalves, chamada carinhosamente de Juju pelos amigos e pelos familiares.
Nas reportagens publicadas ao longo dos anos, Juliene aparece principalmente como uma jovem de 22 anos, embora algumas matérias tragam idades diferentes, como 20 anos. Ela era filha de Júlio Gonçalves dos Santos, que trabalhava com venda e revenda de joias, e da professora Marlene Costa Anunciação.
Além de Juliene, o casal também tinha outros dois filhos. Quando a família falava sobre ela, sempre destacava que era uma pessoa extremamente alegre. Seu pai dizia que a filha era a alegria em pessoa, enquanto outros parentes lembram dela como uma menina muito vaidosa e sorridente, que adorava se arrumar. Ela também amava dançar e tinha muitos amigos.
Juliene trabalhava na época do caso como vendedora em uma loja de confecções em Cuiabá e também fazia um curso de telemarketing no SENAI. Porém, o plano que mais a empolgava naquele momento era começar a faculdade. O sonho dela era cursar educação física; no entanto, ela acabou perdendo a vida, infelizmente, cerca de uma semana antes de poder prestar o vestibular.
Chegamos, então, à noite fatídica de domingo, dia 27 de maio de 2012, quando Juliene saiu de casa dizendo que se encontraria com um amigo. Em algum momento daquela noite, ela se despediu dos pais e avisou que iria para uma casa de pagode em Cuiabá. Lá, Juliene encontrou um primo que estava acompanhado de um amigo identificado como Antônio Rodrigo Silva dos Santos, que também aparece nas reportagens como Antônio Rodrigo da Silva. Ele era mais conhecido simplesmente como Rodrigo, porém não teve nenhuma imagem divulgada.
Rodrigo nunca foi alguém próximo de Juliene. Ele apenas conhecia pessoas ligadas à família e morava perto da casa da avó dela, mas os dois não tinham nenhuma relação de intimidade. Ou seja, aquela teria sido uma das primeiras vezes em que se encontraram.
Juliene, seu primo e Rodrigo ficaram no pagode durante parte da noite de domingo e, por volta da meia-noite, os três decidiram ir embora. Eles aceitaram uma carona de Rodrigo em seu carro, um veículo modelo Gol branco. Só que, antes de levar Juliene para casa, Rodrigo primeiro deu carona ao primo dela.
A partir desse momento, permaneceram no carro apenas Rodrigo e Juliene. Depois de deixarem o primo em casa, os dois seguiram até um trailer de lanches localizado na Avenida do CPA, onde pararam para comer alguma coisa rapidamente.
Acontece que, durante esse período em que Rodrigo ficou sozinho com Juliene, ele tentou algumas investidas românticas. Pediu para ficar com ela, porém foi recusado. Eles terminaram o lanche e Rodrigo seguiu normalmente dirigindo com a jovem. Até que, na manhã do dia seguinte, segunda-feira, 28 de maio de 2012, um homem que estava saindo para trabalhar passou pela região do campo de futebol do Botafogo, na área do CPA, em Cuiabá, e encontrou o corpo de Juliene em um estado terrível.
O corpo foi deixado junto à estrutura da arquibancada do campo de futebol, sem roupas na parte inferior e suspenso pelo pescoço com a própria calça jeans. Algumas reportagens citam o local como CPA 2 e outras como CPA 3, mas todas se referem à região do campo ou do miniestádio do Botafogo. Próximo ao corpo também havia um batom vermelho que Juliene utilizava naquela noite.
A maneira como ela havia sido colocada dava a impressão de que alguém queria fazer a cena parecer um atentado contra a própria vida. Só que, quando a perícia começou a analisar o corpo, os peritos perceberam imediatamente que a cena não correspondia ao que de fato havia acontecido, uma vez que existiam duas marcas diferentes no pescoço da vítima.
Uma dessas marcas havia sido feita com o tecido da calça jeans utilizada para suspender o corpo, mas havia outra lesão diferente, compatível com o uso de um fio ou de uma corda. A conclusão da perícia foi que Juliene teve as vias respiratórias comprimidas anteriormente por alguém, e sua calça só foi colocada ao redor do pescoço depois.
Ou seja, quando Juliene foi pendurada naquela estrutura, já estava sem vida. A causa do óbito foi definida como asfixia mecânica, e os peritos ainda encontraram sinais de resistência e de luta no corpo. A terra e as folhagens observadas no local também indicavam que ela havia sido arrastada antes de ser colocada naquela posição.
A cena inteira passou a ser tratada desde o início como um crime doloso. Isso levantava uma dúvida muito importante: Juliene havia sido assassinada dentro do campo ou alguém levou o corpo para lá após cometer o crime? Não havia vestígios significativos de sangue na cena, e a forma como ela foi arrastada e exposta sugeria que o local havia sido escolhido intencionalmente para exibir o corpo daquela maneira.
Enquanto a perícia ainda trabalhava dentro do campo, a família de Juliene queria saber o que aconteceu com ela logo após deixar a casa de pagode, o que continuava sendo um completo mistério. Foi justamente reconstruindo essas últimas horas que a polícia conseguiu chegar ao nome de Rodrigo.

Ele tinha sido uma das últimas pessoas a ver Juliene com vida. Os investigadores foram até ele, que começou a explicar o que teria acontecido logo depois de os dois lancharem. Segundo Rodrigo, Juliene pediu para ser deixada nas proximidades de uma outra casa de pagode, chamada Casa VIP, no bairro CPA 3.
Rodrigo contou que estacionou o carro, que Juliene desceu e ficou próxima ao portão. Os dois teriam, inclusive, trocado números de telefone, e ele afirmou que ligou para o aparelho dela naquele mesmo momento, apenas para confirmar se o número passado era verdadeiro. Depois disso, disse à polícia que foi embora.
Só que essa história contada por ele apareceu de maneiras um pouco diferentes nas primeiras reportagens que saíram. Em algumas, Rodrigo dizia ter deixado Juliene perto da casa dela. Em outras, mencionava que a havia deixado em uma rua escura e deserta. Depois, sua versão apareceu de forma mais específica, afirmando que ela tinha pedido para ser deixada na Casa VIP.
Havia, no entanto, um problema na parte em que ele menciona essa outra casa de pagode. O proprietário da Casa VIP foi procurado pela polícia e afirmou que, naquele dia, o estabelecimento havia sido fechado às 10 horas da noite e já não funcionava durante a madrugada, período citado por Rodrigo.
A polícia precisava descobrir se Juliene tinha realmente descido do carro no ponto informado por ele. E, caso tivesse descido, para onde teria ido depois, já que para a Casa VIP ela não foi. Algumas pessoas ouvidas ao longo do inquérito disseram ter visto uma jovem com características semelhantes às de Juliene saindo sozinha de um Gol branco naquela região e seguindo por uma rua próxima.
Só que outra testemunha contou uma história diferente. Um vizinho da avó de Juliene afirmou ter visto a jovem descer do carro junto com seu primo. Aparentemente, ela teria voltado ao veículo para buscar alguma coisa e, em seguida, foi puxada para dentro antes de o carro sair em alta velocidade. Essa testemunha, porém, não conseguiu identificar quem teria puxado a jovem.
A própria polícia reconheceu que esses depoimentos criaram versões muito difíceis de conciliar, mas havia um fato concreto que chamou muita atenção dos investigadores: o celular de Juliene foi encontrado com Rodrigo. Em depoimento, ele explicou que o celular dela poderia ter caído dentro de seu carro enquanto Juliene comia ou tentava colocar o aparelho no bolso.
Só que ele alegou ter percebido a presença do aparelho apenas depois, o que soava muito estranho. Na manhã do dia 28, quando o primo de Juliene ligou para Rodrigo dizendo que ela não tinha voltado para casa e que estava preocupado, Rodrigo falou que o celular dela havia ficado em seu carro e ele mesmo se ofereceu para entregá-lo.
A polícia conseguiu recuperar o celular, mas encontrou outra coisa dentro do Gol. Havia pedaços de fio elétrico no interior do carro. Como a perícia já trabalhava com a conclusão de que Juliene tinha sido estrangulada com alguma espécie de fio ou cabo, encontrar materiais semelhantes justamente no veículo da última pessoa a vê-la com vida, obviamente, chamou muita atenção.
Na casa de Rodrigo, a polícia também apreendeu as roupas e os calçados utilizados por ele na noite anterior, e o seu tênis estava molhado. Ele disse que não havia lavado o calçado, explicando que sua própria mãe tinha feito a limpeza. Porém, outras matérias mencionam que o carro dele havia sido lavado em um lava-rápido para uma limpeza completa.
Naquele momento, a polícia tinha uma sequência de circunstâncias muito específicas. Rodrigo estava sozinho no carro com Juliene, tentou ficar com ela e foi rejeitado. Ele era uma das últimas pessoas a ser vista na companhia dela. O celular da jovem permaneceu no veículo, e ainda existiam pedaços de fio elétrico em seu carro.
Porém, Rodrigo continuou negando qualquer participação no caso. Para ele, Juliene simplesmente poderia ter se encontrado com uma terceira pessoa após ter sido deixada na região da Casa VIP. Só que os investigadores não conseguiram encontrar, pelo menos naquele momento, nenhum indício de que ela tivesse marcado um encontro com terceiros naquela mesma noite.
A delegada da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Cuiabá assumiu o caso, e Rodrigo passou a ser tratado como o principal suspeito, sendo preso logo naquele primeiro momento das investigações. Porém, a polícia ter vários indícios não era a mesma coisa que ter uma prova técnica ligando-o diretamente ao crime.
A polícia ainda precisava analisar o carro dele, as roupas, os fios e os calçados. Era necessário saber se existia sangue, DNA, material genético ou qualquer outro vestígio que comprovasse que Juliene havia sido agredida dentro daquele Gol ou que Rodrigo tivesse participado diretamente do crime de alguma forma.
E foi aí que começou o problema que acompanharia esse caso durante muitos anos: a demora. A delegada precisou pedir mais tempo para manter Rodrigo preso enquanto aguardava os laudos, argumentando que o prazo inicial era insuficiente para a conclusão dos resultados. A Justiça, porém, entendeu que existiam muitos indícios, mas não provas técnicas suficientes para manter a prisão.
Menos de um mês depois, Rodrigo foi colocado em liberdade e passou a responder ao caso fora da prisão, sujeito a algumas condições judiciais. Essa decisão revoltou completamente a família de Juliene. O pai, Júlio, dizia apenas que queria rapidez para saber quem tinha feito aquilo com sua filha.
“Ela era uma menina sorridente, não tinha inimigos. Para um cafajeste fazer uma coisa dessas com ela, ele tem que pagar pelo que fez”, disse o pai. A mãe, Marlene, repetia que, se Rodrigo não fosse o responsável, a polícia precisava descobrir quem realmente era. Familiares e amigos começaram a organizar manifestações chamadas de “Gritos por Justiça”.
Uma das caminhadas saiu do colégio André Avelino Ribeiro, onde Juliene havia estudado por muitos anos, praticamente toda a sua vida, e seguiu até o campo do Botafogo, local onde foi encontrada. Várias outras homenagens e pedidos de justiça surgiram nas redes sociais. Enquanto a população pressionava a polícia, os primeiros resultados periciais chegaram e deixaram a situação ainda mais complicada.
A análise feita no Gol de Rodrigo não encontrou sangue de Juliene nem elementos que demonstrassem que ela havia sido agredida dentro daquele carro. As roupas apreendidas também não apresentaram nenhum vestígio. A hipótese de que Juliene tivesse sido atacada dentro do veículo perdeu força. Isso não explicava por que o celular dela estava lá e não eliminava Rodrigo da investigação, mas tirava uma das possibilidades mais óbvias do início do caso.
Ainda existia a questão de possíveis atos não consentidos. Nos primeiros dias, algumas matérias chegaram a afirmar que Juliene talvez tivesse sido vítima de abuso, enquanto outras diziam que isso ainda precisava ser confirmado pela polícia. Só que os documentos mais recentes do inquérito trouxeram um dado muito importante.
Havia, sim, a presença de material genético nas regiões íntimas de Juliene. Existia um material biológico que poderia, em tese, levar a alguma pessoa não identificada. Ao longo dos anos, pelo menos seis homens que tiveram algum contato com ela nas semanas anteriores forneceram seus materiais genéticos para comparação, mas nenhum demonstrou compatibilidade com o material analisado.
Mesmo existindo DNA masculino no corpo da vítima, a polícia continuou sem saber a quem pertencia. Com o passar dos meses, Rodrigo deixou de ser a resposta mais simples para a investigação. Em algumas reportagens, ele continuava sendo tratado como o principal suspeito; em outras, a polícia já explorava caminhos diferentes.
Outras publicações indicavam que os elementos reunidos não eram suficientes para ligá-lo ao crime, fazendo com que a investigação passasse a considerar outras possibilidades. Em 2013, quando o assassinato completou um ano, ninguém havia sido denunciado pelo Ministério Público, e Juliene continuava sem justiça.
A delegada considerava o caso muito complexo e dizia que as circunstâncias eram analisadas de forma sigilosa. Para a família, o primeiro aniversário sem ela foi extremamente doloroso, pois a sensação era de que todos seguiam suas vidas normalmente, enquanto eles ainda não sabiam quem havia tirado a vida da jovem.
A mãe passou a celebrar missas em memória da filha, e a irmã, Juliana, repetia que o caso não podia simplesmente cair no esquecimento. Dois anos depois, em 2015, a investigação ganhou uma nova delegada, e surgiu uma nova hipótese: talvez mais de uma pessoa tivesse participado do crime.
A delegada explicou que a maneira como o corpo foi encontrado levantava essa possibilidade: “O caso não parou. Estamos em diligências constantes e precisamos do apoio da sociedade. Se alguém viu, por favor, nos procure. Sei que é algo de 2012, mas a família e todos nós queremos ver o final desse caso com o culpado preso”.
“Apesar de ser um lugar muito bem localizado e que parece ter um bom movimento, naquele dia ninguém viu nada. Pela forma como o corpo estava, a imagem do crime nos sugere que mais de uma pessoa esteve ali. Então, vamos aguardar o final dos depoimentos e dos exames da perícia para elucidar esse crime bárbaro”, afirmou.
Nesse mesmo período, uma nova informação apareceu. Um ex-detento relatou à polícia que, durante sua passagem pela triagem de um presídio, ouviu um outro preso confessar ter tirado a vida de Juliene. O problema é que esse homem não sabia o nome do preso, seu apelido ou a cela onde estava.
Ele não tinha nenhuma informação sobre a pessoa que confessou para que a polícia pudesse identificá-la. A delegada chegou a pedir ajuda ao sistema penitenciário para descobrir quem havia passado pela triagem naquela época, mas essa linha de investigação nunca resultou na identificação de nenhum suspeito.
Enquanto essas novas hipóteses apareciam, a polícia descobriu que algumas diligências importantes do início das investigações sequer haviam sido feitas. Lembram do celular de Juliene, encontrado dentro do veículo Gol de Rodrigo? O aparelho havia sido entregue à família e não foi repassado imediatamente à polícia para uma perícia adequada.
Anos depois, os investigadores também perceberam que algumas das principais fontes de informação sobre as últimas horas de vida da jovem passaram pela investigação sem uma análise aprofundada. Somente cerca de quatro anos após o crime, em 2016, ocorreu uma quebra de sigilo telefônico rigorosa para reconstruir as ligações de Juliene.
Os registros mostraram que a última chamada antes de sua morte ocorreu às 21h23 do dia 27 de maio. Depois disso, o aparelho não registrou novas ligações até à 1h08 da madrugada seguinte. Algumas pessoas relacionadas a esses contatos foram chamadas para depor em 2016, enquanto outras só foram ouvidas em 2020.
Também foram solicitadas imagens de câmeras de segurança dos locais pelos quais o Gol de Rodrigo poderia ter passado, além da reconstrução do trajeto feito pelo grupo. Entretanto, os documentos públicos sobre o caso não deixam claro se essas imagens foram efetivamente analisadas. Tornou-se muito difícil reconstruir aquela madrugada de 2012 quando várias diligências ocorreram quatro, seis ou até oito anos depois.
Foi justamente a passagem do tempo sem respostas que fez Marlene questionar não apenas a investigação, mas a maneira como a própria filha vinha sendo tratada. Após a morte de Juliene, boatos terríveis começaram a circular sobre sua vida íntima, incluindo falsos rumores de que seria garota de programa.
Marlene negou essas falsas acusações veementemente. Sempre frisou que a filha trabalhava, fazia curso e tinha planos de entrar na faculdade; e que, mesmo se fosse garota de programa, isso jamais justificaria um fim tão terrível. “Disseram que ela era garota de programa, mas ela não era nada disso.
E se fosse mesmo assim, quem mereceria uma coisa dessas? Ela fazia curso de telemarketing no Senai, não era menina de rua. Linda, minha filha linda”, desabafou Marlene em uma entrevista. Ela relatou ter ouvido comentários questionando o motivo de a jovem estar na rua naquele horário, como se a decisão de ir a um pagode desse a alguém o direito de tirar sua vida.
Mas para Marlene ainda existia um ponto muito delicado: Juliene era uma mulher negra, filha de pessoas simples e humildes, sem dinheiro ou influência política. A mãe passou a defender que essa questão social e racial poderia estar contribuindo diretamente para a falta de respostas.
Uma reportagem publicada alguns anos depois, ao discutir a relação entre raça e violência, citou dados do Mapa da Violência mostrando que os crimes contra mulheres negras haviam crescido 54%, enquanto os contra mulheres brancas haviam caído 9,8%. O levantamento apontou que o aumento da população que passou a se declarar preta ou parda não era suficiente para explicar essa diferença.
Especialistas relacionavam o cenário à combinação de racismo, desigualdade social e maior vulnerabilidade das mulheres negras. A Polícia Civil, por sua vez, discordava dessa afirmação. A delegada informou que sua unidade atendia majoritariamente vítimas pobres e que todas as possibilidades investigativas tinham sido esgotadas.
Sobre Juliene, a delegada afirmava que a equipe se sentia frustrada por não encontrar o culpado e lamentava a demora. Foi nesse contexto que o nome da jovem se transformou em símbolo da luta contra a violência contra a mulher no Mato Grosso. Em 2015, um grupo de mulheres fez uma homenagem com grafite no campo onde o corpo havia sido encontrado.
Depois, surgiu um movimento chamado “Maio Juliene”, organizado por coletivos feministas de Cuiabá. Durante o mês de maio, atos lembravam a jovem e outras vítimas de feminicídio. Em uma dessas manifestações, cruzes com os nomes de várias vítimas foram colocadas em frente ao monumento Ulisses Guimarães, na Avenida Historiador Rubens de Mendonça.
Para a família, transformar Juliene em um símbolo nunca substituiu a resposta que mais precisavam: quem tirou a vida dela? Marlene passou anos guardando os pertences da filha. O quarto permaneceu intacto por mais de um ano porque a mãe simplesmente não conseguia mexer em nada.
Quando finalmente começaram a organizar os objetos, algumas coisas foram doadas, mas Marlene guardou peças de roupa de que Juliene mais gostava. Dizia que, quando a saudade apertava, abraçava as roupas para sentir o cheiro da filha: “Minha vida mudou totalmente. Tiraram um pedaço de mim.
Quem fez isso não pensou na família dela, não pensou que a mãe sofreria tanto. Eu sabia de quais peças ela gostava. Guardei para abraçar quando a saudade doesse; assim sinto seu cheiro”, lamentou. Enquanto isso, o inquérito continuava mudando de mãos. Em 2016, a Polícia Civil retomou uma etapa da investigação e chegou a indiciar um suspeito.
O material foi enviado ao Ministério Público, mas a promotoria avaliou que faltavam informações e pediu novas diligências. Esse ponto é importante porque as reportagens apresentam fatos um pouco contraditórios. Em alguns momentos, Rodrigo aparecia como o principal suspeito, enquanto outras matérias afirmavam que a polícia havia concluído que ele não participou do crime.
O que as atualizações mais recentes permitem afirmar com mais segurança é que Rodrigo foi indiciado pela polícia, mas o Ministério Público não apresentou denúncia por considerar as provas insuficientes. Ele nunca foi julgado ou condenado pela morte de Juliene e sempre negou participação no crime.
Nos anos seguintes, a investigação continuou sem avançar para uma acusação. Em 2018, já se haviam passado seis anos. Em 2019, sete anos depois do crime, o inquérito ainda estava aberto e o Ministério Público solicitava novas providências. Então, em 2020, aconteceu algo especialmente triste.
Marlene, a mãe de Juliene, faleceu por motivos não divulgados. A mulher que passou anos cobrando a polícia, procurando a imprensa e realizando manifestações, missas e homenagens para que a filha não fosse esquecida, partiu sem nunca descobrir o que aconteceu. “É muito estranho.
Nada se encaixa, nada se resolve. A saudade é grande. Parece que tem algo impedindo o desfecho dessa história”, disse Marlene em uma de suas últimas entrevistas. E nem mesmo com a morte da mãe o caso chegou ao fim. Em 2022, os autos foram digitalizados e, em 2023, uma reconstituição chegou a ser solicitada, utilizando um boneco para representar Juliene na tentativa de reproduzir as circunstâncias daquela noite.
Suspeitos foram intimados a participar, mas as informações públicas não deixam claro se a reconstituição realmente aconteceu. Em 2024, o promotor devolveu os autos à Polícia Civil, estabelecendo um prazo de 60 dias para a apresentação dos laudos finais.
O tempo passou novamente sem respostas. Em novembro de 2025, a juíza da 12ª Vara Criminal de Cuiabá fez uma nova cobrança, concedendo 90 dias para que a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa apresentasse um relatório detalhando as últimas diligências do inquérito, que já ultrapassava mil páginas.
O prazo terminou e, até março de 2026, não houve avanço concreto. Nenhuma pessoa foi denunciada pelo Ministério Público, ninguém está preso ou condenado. A atualização mais recente ocorreu em setembro de 2026. Mais de 14 anos depois de sair de casa e ser pendurada na arquibancada, o caso de Juliene continua sem resposta.
Rodrigo continua aparecendo como figura central na investigação, mas após um inquérito tão extenso, a pergunta principal continua sendo exatamente a mesma feita pela família em 2012: “Quem tirou a vida de Juliene Anunciação Gonçalves?”. Antes de terminar a história, só um adendo.
Este caso ocorreu em 2012, cerca de três anos antes de a qualificadora do feminicídio ser incluída no Código Penal Brasileiro. Portanto, essa qualificadora não poderia ser aplicada retroativamente ao caso, mesmo se houvesse algum condenado. Apesar de tudo isso, a vida de Juliene tornou-se um símbolo na luta contra a violência contra a mulher.
Essas são as últimas notícias disponíveis sobre o caso. Se você leu a história até aqui, deixe alguma mensagem de conforto e apoio para a família, que ainda aguarda por atualizações. Caso surja qualquer nova informação, a atualizaremos futuramente nos comentários.
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