1930: A Ruptura Que Mudou a Política Brasileira Para Sempre
O resto
Primeiro de março de 1922: Artur Bernardes, de Minas Gerais, enfrentava Nilo Peçanha na eleição presidencial, mas aquela disputa já mostrava que havia forças tentando quebrar o domínio das alianças tradicionais. Bernardes tinha o apoio de Minas, São Paulo e outros estados.
Do outro lado, Nilo reuniu Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco na chamada “Reação Republicana”. Era uma tentativa de criar outro eixo de poder no país. Bernardes venceu. A oposição contestou o resultado e a tensão aumentou, principalmente dentro das Forças Armadas. Poucos meses depois, em 5 de julho, jovens oficiais se levantaram contra o governo.
A rebelião foi rapidamente derrotada, mas o episódio do Forte de Copacabana marcou o início de uma sequência de revoltas que atravessaria a década. Dois anos depois, o problema voltou muito maior. Em 5 de julho de 1924, militares rebeldes tomaram pontos estratégicos da cidade de São Paulo e mantiveram parte da capital sob controle durante semanas.
O governo respondeu com tropas e bombardeios. Milhares de moradores deixaram suas casas enquanto os confrontos atingiam os bairros da cidade. Os rebeldes acabaram recuando para o interior. Parte deles se juntaria depois às forças comandadas por Luís Carlos Prestes, formando a coluna que percorreu milhares de quilômetros pelo Brasil em meados da década.
Nenhum desses movimentos conseguiu tomar o poder, mas deixaram uma coisa clara: a disputa pelo comando do país já não acontecia apenas entre governadores, partidos e candidatos. Agora, havia militares dispostos a pegar em armas para tentar mudar esse sistema. E alguns desses homens voltariam a aparecer quando a crise política chegasse ao seu ponto mais perigoso.
E antes de continuar, comenta aqui de onde você está assistindo e me conta: você já conhecia essa história ou está descobrindo tudo isso agora? 15 de novembro de 1926: Washington Luís assumiu a Presidência do Brasil. Embora tivesse nascido em Macaé, no Rio de Janeiro, sua carreira política havia sido construída em São Paulo.
Ele já havia comandado a prefeitura da capital paulista, presidido o estado e ocupado uma cadeira no Senado. Quando chegou ao governo federal, portanto, era uma das principais figuras do grupo político paulista. Mas Washington Luís não chegou sozinho. Na vice-presidência estava Fernando de Melo Viana, de Minas Gerais. E, para o Ministério da Fazenda, o novo presidente escolheu Getúlio Vargas, então uma das figuras importantes da política gaúcha.
A composição ajudava a manter próximos três estados decisivos: São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul. Nos primeiros meses, uma das prioridades do governo foi a moeda. Washington Luís defendia uma reforma que buscava estabilizar o câmbio e levar o Brasil novamente ao padrão-ouro. Para isso, foi criada a Caixa de Estabilização, que passou a fazer parte de uma política econômica baseada em maior controle monetário.
Pode parecer um assunto distante da política, mas não era. O valor da moeda afetava diretamente exportadores, produtores, bancos e empresas que dependiam do comércio exterior. Manter aquela política significava mexer com os interesses de alguns dos grupos econômicos mais poderosos do país. E Washington Luís queria continuidade.
Enquanto isso, em Minas Gerais, outro nome começava a ganhar importância nacional: Antônio Carlos Ribeiro de Andrada havia assumido o governo mineiro em setembro daquele mesmo ano. Antes disso, já havia liderado a maioria na Câmara dos Deputados durante o governo de Artur Bernardes. Agora, controlava o principal cargo político de Minas e estava bem posicionado para participar da próxima sucessão presidencial.
A eleição seguinte ainda estava distante, mas os homens que disputariam seus rumos já ocupavam seus lugares, e a escolha do sucessor de Washington Luís começaria a transformar uma aliança antiga em uma disputa pelo comando do Brasil. Já em 14 de julho de 1927, Júlio Prestes assumiu o governo de São Paulo.
Ele não era apenas mais um nome forte dentro do Partido Republicano Paulista. Antes de chegar ao comando do estado, havia liderado a maioria governista na Câmara dos Deputados e participado diretamente da construção da reforma monetária defendida por Washington Luís. Foi Júlio Prestes quem preparou e apresentou no Congresso a lei que serviu de base para aquela política.
A ligação entre os dois era política e também pessoal. Washington Luís via em Prestes alguém capaz de continuar sua política econômica e administrativa depois do fim de seu mandato. E, ao colocá-lo no comando de São Paulo, deixou um dos homens mais próximos de seu projeto na posição ideal para disputar a Presidência.
O problema estava em Minas Gerais. Antônio Carlos também se movimentava para chegar ao Palácio do Catete. A expectativa mineira era a de que sua candidatura fosse considerada na sucessão como parte do entendimento político que havia permitido a chegada de Washington Luís à Presidência.
Durante algum tempo, porém, Washington Luís evitou tornar sua escolha pública. Sucessões presidenciais costumavam começar a ser negociadas muito antes da eleição. O presidente tentou adiar essa discussão, mas a ascensão de Júlio Prestes em São Paulo tornou cada vez mais difícil esconder para onde sua preferência apontava.
Para Washington Luís, Prestes oferecia continuidade. Para Antônio Carlos, sua candidatura significava outra coisa: se um presidente ligado à política paulista entregasse o governo a outro paulista, Minas perderia não apenas a chance de chegar à Presidência, mas também espaço dentro da própria negociação que sustentava sua influência nacional.
Em meados de 1928, Antônio Carlos já percebia que sua candidatura encontrava um obstáculo difícil de remover: o próprio presidente da República. A sucessão ainda não havia começado oficialmente, mas São Paulo e Minas já estavam deixando de olhar na mesma direção. No início de 1929, Antônio Carlos tomou uma decisão:
Minas Gerais não apoiaria Júlio Prestes. Em janeiro, o presidente mineiro fez essa posição chegar a Getúlio Vargas, que comandava o Rio Grande do Sul. Era o primeiro passo para procurar fora de São Paulo o apoio de que Minas precisaria para enfrentar o candidato do governo federal. Mas Vargas ainda não estava pronto para romper com Washington Luís.
Em maio, chegou a escrever uma carta confidencial ao presidente, dizendo que permanecia distante das articulações sucessórias e prometendo o apoio do Partido Republicano Rio-Grandense no momento adequado. Ao mesmo tempo, mineiros e gaúchos ainda tentavam convencer Washington Luís a aceitar um terceiro candidato.
A porta para um acordo ainda não estava completamente fechada, mas Minas já preparava outra saída. Em 17 de junho de 1929, representantes mineiros e gaúchos se encontraram no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Por Minas estavam Francisco Campos e José Bonifácio de Andrada e Silva, irmão de Antônio Carlos.
Pelo Rio Grande do Sul, João Neves da Fontoura, líder da bancada republicana gaúcha na Câmara. O encontro terminou num acordo secreto. O Pacto do Hotel Glória estabelecia que, se Washington Luís aceitasse um candidato mineiro, Minas e o Rio Grande poderiam apoiá-lo. Mas se o presidente insistisse em um nome de outro estado, Minas recusaria e apoiaria um gaúcho.
Na prática, o alvo estava claro: Júlio Prestes seria vetado, e os nomes que poderiam surgir do Rio Grande do Sul eram Borges de Medeiros ou Getúlio Vargas. Havia um detalhe importante: João Neves aceitou o acordo sem consultar previamente Vargas ou Borges de Medeiros. O pacto ainda precisaria da aprovação da liderança gaúcha.
Depois de hesitações, os dois acabariam aceitando seus termos. Minas havia feito algo que mudava completamente a sucessão. Em vez de insistir em que o próximo presidente fosse mineiro, estava disposta a entregar sua força política a um candidato do Rio Grande do Sul para impedir a chegada de Júlio Prestes ao Catete.
A antiga disputa entre São Paulo e Minas acabava de ganhar um terceiro gigante, e Washington Luís ainda teria a oportunidade de impedir que essa aliança se tornasse definitiva. Em julho de 1929, a saída ainda podia ser negociada. Mineiros e gaúchos passaram a trabalhar com uma possibilidade simples: retirar os nomes que provocavam resistência e encontrar um terceiro candidato capaz de evitar o confronto.
Getúlio Vargas era um dos que ainda buscavam essa solução. Em meados de agosto, ele chegou a propor aos aliados uma nova chapa formada por políticos de Pernambuco e do Ceará. A ideia era ampliar a oposição e, ao mesmo tempo, escapar do choque direto entre os grupos que já disputavam a sucessão. Os dois estados recusaram.
Vargas voltou então à ideia de um terceiro nome. Washington Luís não aceitou. Para o presidente, Júlio Prestes continuava sendo o candidato, e Washington Luís tinha motivos para acreditar que poderia sustentá-lo. Em suas articulações com os adversários, afirmava contar com o apoio de 17 estados. Era uma demonstração de força num país em que os governos estaduais ainda tinham enorme influência sobre eleições e bancadas no Congresso.
Minas também não cedeu. No fim de julho, o Partido Republicano Mineiro formalizou seu apoio a Getúlio Vargas para enfrentar o candidato paulista. A disputa, que durante meses havia acontecido em conversas reservadas, começava a ganhar forma pública. Em 12 de setembro, Washington Luís deu o passo que praticamente fechou a saída negociada.
Uma convenção de partidos governistas de 17 estados confirmou Júlio Prestes como candidato à Presidência, acompanhado pelo baiano Vital Soares como vice. Agora já não se tratava apenas de uma preferência pessoal do presidente. Júlio Prestes tinha atrás de si a máquina política de grande parte dos governos estaduais.
Do outro lado, Minas e Rio Grande do Sul precisariam transformar seu acordo em algo muito maior, uma oposição capaz de disputar o governo do Brasil. Em 20 de setembro de 1929, no Rio de Janeiro, a oposição confirmou oficialmente a chapa que enfrentaria Júlio Prestes. Getúlio Vargas seria candidato à Presidência; João Pessoa, presidente da Paraíba, seria o vice.

A entrada da Paraíba havia criado uma frente formada por três governos estaduais: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. João Pessoa ganhara destaque ao se recusar a apoiar a candidatura oficial de Júlio Prestes e Vital Soares. Sua posição ficou conhecida pela palavra que acabou virando símbolo político na Paraíba: “Nego”.
Mas a Aliança Liberal queria ir além dos três estados. O movimento passou a reunir também grupos de oposição espalhados pelo país. E uma das adesões mais importantes veio justamente de São Paulo. O Partido Democrático Paulista decidiu apoiar Vargas. Isso deixava claro que aquela disputa não podia ser resumida a paulistas contra mineiros.
Dentro do próprio estado de Júlio Prestes, existiam políticos organizados contra o candidato oficial, e Minas também não estava completamente unida. Fernando de Melo Viana, vice-presidente da República e uma figura importante da política mineira, rompeu com a direção do Partido Republicano Mineiro e passou a integrar um grupo contrário à Aliança Liberal.
As divisões atravessavam os próprios estados. A oposição também apresentou propostas que buscavam ampliar o alcance da campanha: defendia voto secreto, anistia para envolvidos nos movimentos políticos da década e mudanças na legislação social. Era uma tentativa de transformar uma disputa entre antigas lideranças estaduais numa candidatura capaz de conversar com grupos que queriam mudanças no país.
Mas havia uma diferença enorme entre formar uma aliança e vencer uma eleição. Júlio Prestes tinha o apoio da maior parte dos governos estaduais; Vargas precisava reunir forças que, até pouco tempo antes, não atuavam juntas. A partir daquele momento, duas máquinas políticas começariam a percorrer o país, tentando provar que tinham força para comandá-lo.
Só que poucas semanas depois um problema muito maior atingiria a economia mundial, e o Brasil estava especialmente exposto a ele. Em outubro de 1929, a Bolsa de Nova York entrou em colapso. E, para o Brasil, o problema não estava apenas a milhares de quilômetros de distância. O país dependia fortemente do dinheiro que entrava com as exportações, e nenhum produto era mais importante nesse comércio do que o café.
Naquele ano, o Brasil produzia perto de três quartos do café mundial. São Paulo, sozinho, respondia por cerca de dois terços da produção brasileira. Era muita riqueza concentrada em um único produto, e havia café demais no mercado. Anos de preços elevados haviam estimulado novas plantações, os estoques cresciam, e uma safra excepcionalmente grande chegava justamente quando a economia internacional começava a afundar.
O resultado apareceu rapidamente nos preços. Em setembro, uma libra de café valia pouco mais de 22 centavos de dólar no mercado internacional; no começo de 1930, estava perto de 14 centavos. Dentro do Brasil, os preços do produto caíram aproximadamente 40%. Para os grandes produtores, isso significava receita menor e dificuldade crescente para pagar dívidas e manter negócios que haviam sido organizados esperando preços muito mais altos.
A pressão sobre Washington Luís aumentou. Cafeicultores paulistas queriam novos financiamentos e medidas que aliviassem suas dívidas. O presidente resistiu. Washington Luís continuava comprometido com a política de estabilidade monetária de seu governo e não queria simplesmente emitir dinheiro para socorrer os produtores.
Agora surgia uma situação politicamente perigosa: parte dos grupos econômicos que formavam a base mais importante de São Paulo começava a entrar em conflito com um governo ligado à própria política paulista. E a crise também atingia as contas do país. Capitais começaram a sair do Brasil.
As reservas em ouro diminuíram rapidamente e ficou mais difícil sustentar a política cambial construída nos anos anteriores. Mas existe um detalhe fundamental: a crise de Nova York não rompeu a aliança entre São Paulo e Minas. Quando Wall Street entrou em colapso, mineiros e gaúchos já haviam firmado seu acordo contra Júlio Prestes, e a Aliança Liberal já estava organizada.
A política quebrou primeiro; a crise econômica veio depois e transformou uma disputa pelo poder numa disputa que agora envolvia também fortunas, dívidas e a sobrevivência de um dos setores mais importantes da economia brasileira. Primeiro de março de 1930: o Brasil foi às urnas para escolher entre Júlio Prestes e Getúlio Vargas.
Mas votar naquele país era muito diferente do que conhecemos hoje. Não existia Justiça Eleitoral. O voto não era secreto. A organização da eleição passava pelas estruturas políticas locais, e mulheres e analfabetos estavam fora do eleitorado. Isso dava aos grupos que controlavam cada região enorme influência sobre o processo.
Pressão sobre eleitores, manipulação de resultados e outras formas de fraude já faziam parte das disputas políticas brasileiras havia anos. E naquela eleição não foi diferente. Houve acusações contra os dois lados. Um dos números mais impressionantes veio do Rio Grande do Sul: no estado comandado por Vargas, ele recebeu aproximadamente 298.000 votos. Júlio Prestes recebeu menos de 1.000. Resultados desse tipo mostram até que ponto as máquinas estaduais conseguiam concentrar votos em seus próprios territórios. Mas, no resultado nacional, a vantagem ficou com Júlio Prestes. A apuração oficial registrou mais de 1.090.000 votos para o candidato governista. Vargas ficou com pouco mais de 740.000. Júlio Prestes venceu a eleição. Para Washington Luís, era a confirmação de que sua escolha tinha sobrevivido à ruptura com Minas e à formação da oposição. Para a Aliança Liberal, começava um problema muito maior. Se aceitasse o resultado, Júlio Prestes assumiria a Presidência em novembro, e o projeto construído por Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba terminaria nas urnas.
Algumas lideranças estavam dispostas a aceitar isso. Outras começaram a defender que a disputa não poderia terminar ali. A própria oposição passou a denunciar fraudes e violências durante o processo eleitoral. Mas não havia como apresentar aquela eleição como uma disputa limpa de um lado e fraudulenta do outro.
O sistema inteiro permitia manipulações e, naquele momento, perder a eleição ainda não significava necessariamente partir para uma revolução. Essa decisão viria depois. Antes disso, porém, Minas e Paraíba sofreriam um novo golpe justamente no lugar onde ainda conservavam poder: o Congresso. Em 3 de maio de 1930, o Congresso voltou a funcionar, e a disputa agora passava pelos mandatos de deputados e senadores eleitos semanas antes.
Naquele sistema, vencer nas urnas não garantia automaticamente uma cadeira. O Congresso ainda precisava reconhecer os resultados. Quando uma candidatura era rejeitada nesse processo, dizia-se que ela havia sido “degolada”. Foi exatamente o que aconteceu com parte da oposição. Em Minas Gerais, 14 deputados ligados ao Partido Republicano Mineiro não tiveram seus mandatos reconhecidos.
A bancada mineira tinha 37 cadeiras; ou seja, de uma só vez mais de 1/3 da representação ligada ao grupo dominante de Minas foi atingida. Os lugares passaram para candidatos da Concentração Conservadora, o grupo mineiro que havia apoiado Júlio Prestes. E a perda não terminou aí. A oposição mineira também ficou sem as presidências das comissões que controlava na Câmara.
Era menos espaço para influenciar projetos, negociações e decisões dentro do Congresso. Na Paraíba, o golpe político foi ainda mais amplo. Todos os candidatos apoiados por João Pessoa foram rejeitados no processo de reconhecimento, enquanto seus adversários, ligados a José Pereira, foram beneficiados. O Rio Grande do Sul, por outro lado, teve sua representação reconhecida integralmente.
Para os mineiros, a mensagem era pesada: eles haviam perdido a Presidência, agora também estavam perdendo espaço dentro do Congresso. No fim de maio, os parlamentares confirmaram oficialmente Júlio Prestes como presidente eleito. E, em 27 de maio, a direção do Partido Republicano Mineiro deu outro passo. Antônio Carlos declarou que Minas apoiaria seus aliados num movimento armado, desde que também houvesse respaldo das principais lideranças gaúchas.
A disputa começava a mudar de natureza. Até aquele momento, São Paulo e Minas haviam brigado por candidaturas, alianças, votos e cadeiras. Agora, parte dos homens envolvidos começava a discutir outra coisa: armas. No fim de maio de 1930, a conspiração já tinha um preço. Osvaldo Aranha, um dos principais articuladores gaúchos do movimento, havia providenciado uma encomenda de armas e munições na Tchecoslováquia, avaliada em cerca de 16.000 contos de réis. O custo seria dividido entre os três estados.
O Rio Grande do Sul entraria com 8.000 contos; Minas Gerais deveria fornecer 6.000, e a Paraíba, outros 2.000. A disputa política começava a exigir dinheiro de verdade. Luís Aranha, irmão de Osvaldo, foi enviado para negociar os compromissos com as lideranças mineiras e paraibanas.
Em Minas, Antônio Carlos aceitou o esquema, e Francisco Campos seguiu para o Rio Grande do Sul para verificar de perto como os preparativos estavam avançando. O plano também começava a ganhar forma militar: Minas deveria prender parte das tropas federais em seu território e dificultar o deslocamento de forças que poderiam ser usadas contra os rebeldes no Sul.
O Rio Grande do Sul prepararia o principal avanço, e a Paraíba participaria da movimentação no Nordeste. Mas transformar esse plano em realidade era muito mais difícil. Minas havia prometido 6.000 contos e conseguiu reunir apenas cerca de 2.000. A Paraíba também enfrentou dificuldades: dos 2.000 previstos, conseguiu enviar aproximadamente 1.000.
Faltavam recursos e surgiram outros problemas: Siqueira Campos, que participava da articulação revolucionária em São Paulo, morreu em um acidente aéreo em maio. A revolução que começava a ganhar armas também começava a perder homens. E, nas semanas seguintes, até algumas das lideranças que haviam aceitado financiá-la voltariam a hesitar.
Pouco depois, Luís Carlos Prestes rompeu com o movimento e declarou publicamente que aquela disputa não resolveria os problemas do país. Duas figuras importantes estavam fora. Em 17 de junho de 1930, Antônio Carlos enviou uma mensagem a Osvaldo Aranha com uma avaliação preocupante. Na visão do presidente mineiro, o movimento estava mal articulado e tinha poucas chances de sucesso.
Os preparativos, que lhe haviam sido apresentados como avançados, eram na prática muito mais frágeis, especialmente em Minas e São Paulo. Antônio Carlos começou a recuar. Em vez de manter sozinho o compromisso com uma revolução, tentou transferir a decisão sobre a participação mineira para Olegário Maciel, eleito para sucedê-lo no governo do estado.
O efeito chegou rapidamente ao Rio Grande do Sul. Getúlio Vargas também recuou. Para Osvaldo Aranha, aquilo era quase o fim da conspiração. Em 27 de junho, ele deixou o cargo de Secretário do Interior e Exterior do governo gaúcho. Estava frustrado com a falta de decisão das próprias lideranças que deveriam comandar o movimento.
A primeira tentativa de colocar a revolução em marcha havia fracassado. Só que alguns conspiradores não desistiram. No início de julho, Virgílio de Melo Franco voltou a trabalhar pelas adesões em Minas. Artur Bernardes apoiou a articulação e pressionou Olegário Maciel a assumir um compromisso mais claro. Olegário ainda considerava a revolução inconveniente, mas acabou cedendo.
No final de julho, informou a representantes gaúchos que apoiaria o movimento armado, desde que ele começasse antes de sua posse no governo de Minas, marcada para 7 de setembro. Era um avanço, mas ainda não havia segurança de que a revolução realmente aconteceria. As principais lideranças haviam recuado, voltado atrás e condicionado seu apoio umas às outras.
Gaúchos esperavam pelos mineiros. Mineiros esperavam pelos gaúchos, e os grupos militares continuavam preparando o movimento enquanto os políticos discutiam se deveriam realmente colocá-lo nas ruas. No fim de julho, a conspiração ainda estava viva, mas estava longe de ser inevitável. Então aconteceu algo que mudaria completamente o ambiente político do país.
E, se você está gostando dessa história, aproveite para seguir a página. Assim, você não perde as próximas histórias sobre as grandes disputas, famílias e personagens que ajudaram a moldar o Brasil. 26 de julho de 1930: João Pessoa estava no Recife quando entrou na Confeitaria Glória. Pouco depois, João Dantas apareceu no local e disparou contra ele.
O candidato a vice-presidente da Aliança Liberal morreu ali. Mas o crime não pode ser explicado simplesmente como consequência da eleição presidencial. João Dantas era adversário político de João Pessoa na Paraíba e aliado de grupos que enfrentavam seu governo. Os dois já carregavam uma disputa marcada por acusações, ataques públicos e um forte conflito pessoal.
Dias antes, a polícia paraibana havia entrado na residência de Dantas durante investigações ligadas à Revolta de Princesa. Entre os documentos apreendidos estavam cartas particulares trocadas por ele com uma mulher. Parte desse material foi publicada pelo jornal A União, ligado ao governo paraibano. A exposição agravou ainda mais um conflito que já era profundo.
Foi nesse ambiente que Dantas matou João Pessoa. Portanto, não há base para dizer que Washington Luís ordenou o crime ou que João Pessoa morreu simplesmente por ter sido candidato contra Júlio Prestes. Politicamente, porém, a morte assumiu outra dimensão. A notícia se espalhou pelo país e provocou grandes manifestações nas ruas e nos discursos da oposição.
O governo federal passou a ser responsabilizado pelo ambiente que havia levado ao assassinato. João Pessoa virou um símbolo. Seu corpo foi levado ao Rio de Janeiro, onde uma multidão acompanhou as homenagens e o sepultamento. Na Paraíba, a comoção foi ainda maior. Pouco depois, a própria capital do estado receberia o nome de João Pessoa.
Mas o efeito mais importante aconteceu dentro da conspiração. Os grupos que defendiam uma revolução ganharam novo impulso. Negociações que haviam perdido força foram retomadas. Resistências entre algumas lideranças diminuíram. E a morte de João Pessoa passou a ser usada como prova de que o conflito político havia chegado longe demais.
O assassinato não criou a conspiração. Ela já existia, mas deu a ela uma força que, semanas antes, parecia estar desaparecendo. A partir dali, a pergunta já não era apenas “se” haveria uma reação, era “quando” ela começaria. 25 de setembro de 1930: Getúlio Vargas e Osvaldo Aranha finalmente escolheram a data. A revolução começaria em 3 de outubro.
Góes Monteiro assumiria a chefia militar do movimento; Vargas seria o chefe político. O plano previa ações simultâneas no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e no Nordeste. Às 5h30 da tarde de 3 de outubro, o movimento começou. Em Porto Alegre, os revolucionários atacaram posições militares e prenderam oficiais ligados ao governo federal.
Ainda naquela noite, quase toda a capital gaúcha estava sob o controle dos revoltosos. No dia seguinte, as últimas resistências começaram a cair. Em Minas Gerais, porém, a situação foi mais difícil. Em Belo Horizonte, o 12º Regimento de Infantaria permaneceu fiel a Washington Luís e resistiu durante cinco dias. Enquanto isso, outras forças mineiras avançavam para controlar pontos estratégicos do estado e impedir que tropas federais fossem deslocadas contra os rebeldes no Sul.
No Nordeste, o movimento começou algumas horas depois do previsto. Mesmo assim, Juarez Távora e seus aliados conseguiram assumir rapidamente o controle da Paraíba e de Pernambuco. Em poucos dias, a revolta já havia deixado de ser uma série de levantes isolados. Era uma guerra pelo controle do país. Do Sul, forças revolucionárias avançaram por Santa Catarina e pelo Paraná.
No dia 11 de outubro, Vargas deixou o governo do Rio Grande do Sul nas mãos de Osvaldo Aranha e seguiu para o Paraná junto com o comando revolucionário. Seu destino era São Paulo. Em meados daquele mês, a situação de Washington Luís já havia se deteriorado de forma dramática. Grande parte do país estava sob o controle dos revolucionários.
O governo federal ainda mantinha São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pará. Mas São Paulo era o principal obstáculo. Na região de Itararé, perto da divisa com o Paraná, tropas legalistas se concentravam para impedir o avanço das forças vindas do Sul. Tudo apontava para uma batalha decisiva. De um lado, as tropas que marchavam com Vargas; do outro, as forças que ainda defendiam Washington Luís.
Só que essa batalha nunca aconteceria, porque, antes que os dois lados se enfrentassem em Itararé, a crise chegaria ao coração do próprio governo federal. 23 de outubro de 1930: enquanto as forças revolucionárias se preparavam para avançar sobre São Paulo, outra movimentação acontecia no Rio de Janeiro.
Generais de alta patente começaram a organizar a retirada de Washington Luís. Entre eles estavam Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto. A Marinha também entrou na articulação, através do almirante Isaías de Noronha. Na manhã seguinte, os militares foram ao Palácio Guanabara. Queriam que Washington Luís renunciasse. Ele recusou.
O presidente permaneceu no palácio mesmo depois que unidades militares aderiram ao movimento e a região começou a ser cercada. Washington Luís não pretendia entregar o cargo voluntariamente. A situação se prolongou durante o dia. O cardeal Sebastião Leme entrou como intermediário entre o presidente e os militares. Por volta das 5h da tarde, Washington Luís finalmente deixou o Palácio Guanabara, mas fez questão de não apresentar aquilo como uma renúncia.
Saiu como prisioneiro e foi levado para o Forte de Copacabana. Seu governo havia acabado. Júlio Prestes ainda era oficialmente o presidente eleito, mas agora já não existia o governo que garantiria sua posse. No lugar de Washington Luís, os militares formaram uma junta governativa, composta por Tasso Fragoso, Mena Barreto e Isaías de Noronha.
E aqui surgiu um novo problema: a junta havia derrubado Washington Luís antes que as forças de Vargas chegassem ao Rio. Isso significava que os revolucionários tinham vencido seu principal adversário, mas ainda não controlavam o governo federal. No mesmo dia, a junta enviou mensagens a Vargas, propondo o fim das hostilidades.
O comando revolucionário desconfiou. Osvaldo Aranha, Lindolfo Collor e outros representantes foram enviados para negociar diretamente com os novos governantes. Enquanto isso, as tropas revolucionárias continuaram avançando. A batalha de Itararé não aconteceu; Washington Luís caiu antes dela, mas a disputa pelo poder ainda não estava encerrada.
Agora havia uma pergunta muito mais direta: quem ficaria com o governo do Brasil? 28 de outubro de 1930: a junta militar finalmente aceitou transferir o governo para Getúlio Vargas. Três dias depois, Vargas chegou ao Rio de Janeiro, acompanhado por tropas gaúchas, e, em 3 de novembro, assumiu oficialmente a chefia do Governo Provisório.
Júlio Prestes não tomaria posse. Minas havia conseguido impedir que Washington Luís entregasse a Presidência ao candidato paulista que escolhera. Mas a vitória produziu uma consequência muito maior do que simplesmente trocar o homem no Palácio do Catete. O sistema político começou a mudar. Em 11 de novembro, Vargas assinou o decreto que organizava juridicamente o novo governo.
O Congresso Nacional foi dissolvido. As assembleias estaduais e as câmaras municipais também perderam suas funções, e o Governo Provisório passou a concentrar atribuições que antes estavam divididas entre diferentes instituições. Nos estados, Vargas ganhou poder para nomear interventores que respondiam diretamente ao governo federal.
Isso atingia justamente uma das bases da força das antigas elites regionais. Durante décadas, controlar um governo estadual significava comandar uma estrutura política capaz de negociar com a Presidência quase de igual para igual. Agora, essa relação começava a mudar. São Paulo sentiu isso imediatamente.
As antigas lideranças paulistas perderam o controle direto do estado, e João Alberto, ligado ao movimento revolucionário, acabaria nomeado interventor. Minas recebeu um tratamento diferente: Olegário Maciel, aliado da Revolução, foi o único governante estadual eleito antes do movimento que permaneceu no cargo. Mesmo assim, o novo sistema ampliava enormemente o poder do governo federal sobre os estados.
E aí aparece a grande ironia dessa história. Minas entrou na disputa para impedir que São Paulo controlasse mais uma sucessão presidencial. Conseguiu, mas ajudou a derrubar uma estrutura política na qual o próprio poder mineiro havia prosperado durante décadas. São Paulo perdeu a Presidência. Minas impediu Júlio Prestes de assumir, mas nenhum dos dois voltou ao lugar que ocupava antes.
A disputa que começou pela escolha de um sucessor havia terminado mudando a forma como o Brasil era governado. A nova ordem não trouxe estabilidade imediata. Em São Paulo, o conflito com o governo Vargas cresceu rapidamente, até que o Partido Democrático, que havia apoiado a Revolução de 1930, rompeu com o governo.
Em fevereiro de 1932, antigos adversários paulistas se uniram na Frente Única Paulista. Queriam recuperar a autonomia do estado e pressionavam pela constitucionalização do país. Em 9 de julho, São Paulo pegou em armas. Os paulistas esperavam apoio de outros estados, mas ele não veio. Minas Gerais e Rio Grande do Sul permaneceram ao lado do Governo Provisório.
Depois de quase 3 meses de combates, São Paulo foi derrotado militarmente. Mas a pressão por uma nova constituição continuou. No ano seguinte, o Brasil realizou eleições para uma Assembleia Constituinte e, em 1934, uma nova constituição foi promulgada. A aliança entre São Paulo e Minas, que durante décadas ajudara a definir o poder nacional, não voltou a funcionar como antes.
Tudo começara com uma disputa sobre quem deveria ocupar a Presidência. Quando terminou, o próprio sistema que tornava aquela disputa possível já havia sido transformado. E assim termina uma das maiores rupturas políticas da história do Brasil. O que começou como uma disputa pela sucessão presidencial acabou mudando o equilíbrio de poder entre os estados e transformando a forma como o país seria governado.
Se você chegou até aqui, muito obrigado por ler até o final. E agora eu quero saber a sua opinião. O que você achou dessa história? Comenta aqui embaixo, porque eu quero muito saber como você enxerga essa disputa entre São Paulo, Minas e o governo federal.