(1899, Caxias do Sul-RS) O Sítio Macabro da Família Bernardi
O resto
Sua última parada registrada seria a propriedade dos Bernardi. O intendente municipal da época, Antônio Moro, registrou em seu diário pessoal encontrado décadas depois em um sótam de uma antiga casa no centro histórico de Caxias. preocupado com vasconcelos. Três dias sem notícias, mandei dois homens verificarem.
Os Bernard afirmam que ele nunca chegou à propriedade. O inverno se aproxima. As buscas serão difíceis. Este diário, exposto brevemente no Museu Municipal em 1965, foi posteriormente recolhido pela família de Moro e nunca mais visto publicamente. Os dois homens enviados pelo intendente voltaram com uma história curiosa.
Segundo eles, Giuseppe Bernard os recebeu no portão da propriedade, mas não permitiu que entrassem. Disse que Vasconcelos nunca havia aparecido e sugeriu que talvez ele tivesse se perdido nas matas próximas. ou desistido de chegar à propriedade devido ao mau tempo que se aproximava. A explicação pareceu satisfazer o intendente.
A região enfrentava um início de inverno rigoroso naquele ano. Vasconcelos poderia ter se perdido ou sofrido algum acidente na trilha íngreme que levava à propriedade. Buscas superficiais foram realizadas nas matas próximas, mas sem resultados. Entre maio e julho de 1899, outros três desaparecimentos ocorreram. Maria Capelete, uma parteira conhecida na região, Francisco Zanete, um vendedor de ferramentas agrícolas, e Angelo Pertille, um jovem carteiro.
Todos tinham em comum o fato de terem mencionado a intenção de visitar a propriedade dos Bernard pouco antes de desaparecerem. O que mais chama a atenção nos registros da época é a ausência de uma investigação formal. A região passava por um período de transição política complexo. O Brasil havia se tornado república havia apenas uma década e as estruturas administrativas e policiais do interior eram precárias.
Além disso, a região de colonização italiana vivia certa autonomia, com muitos problemas sendo resolvidos internamente pelas próprias comunidades. A propriedade dos Bernardi situava-se no que hoje é conhecido como a região do desvio Ritzo, a cerca de 10 km do centro de Caxias do Sul. Na época era uma área ainda mais isolada, com densas florestas de araucárias separando as propriedades.
O acesso principal se dava por uma trilha sinuosa que cruzava o arroio Tega e subia por uma encosta íngreme antes de descer novamente ao pequeno vale, onde a casa principal e os galpões estavam construídos. A casa, segundo descrições encontradas em um relatório escrito pelo agrimentor Alberto Pasquali em 1896, quando a região passou por uma atualização cadastral, era uma construção sólida de pedra e madeira com dois andares, porão amplo e sótam, arquitetura distintamente veneta, com detalhes que denunciam origem aristocrática dos proprietários.
propriedade cercada por muro de pedras empilhadas com portão principal de madeira maciça. Ao fundo da propriedade, parcialmente encoberta por um pequeno bosque, nota-se uma construção secundária de pedra, aparentemente utilizada como adega. Este relatório preservado no Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul é um dos poucos registros oficiais que descrevem a propriedade.
Curiosamente, Pasquali faz uma observação em uma nota marginal. proprietário demonstrou considerável resistência à medição completa da propriedade. Área dos fundos não pode ser adequadamente verificada devido à insistência do Sr. Bernard, de que continha cultivos sensíveis que não deveriam ser perturbados. À medida que o inverno de 1899 avançava, algo estranho começou a ser notado pelos moradores das propriedades mais próximas.
Um odor peculiar, descrito por alguns como adocicado e pungente, parecia emanar da direção do sítio dos Bernard, quando os ventos sopravam do Nordeste. Sofia Mantovani, que morava na propriedade mais próxima, a cerca de 2 km, relatou ao padre da paróquia local que à noite, às vezes, ouviam-se sons estranhos vindos da direção dos Bernardi.
Não eram gritos nem choro, mais como um canto, mas em tom tão grave que fazia as janelas vibrarem. O padre Domênico Scussel registrou estas observações em seu diário paroquial, mas aparentemente não tomou nenhuma providência além de uma anotação pessoal. Os Bernard não frequentam a missa dominical há mais de um ano.
Quando questionado, Giuseppe alega que Teresa está sempre indisposta para a jornada até a igreja. Ofereci-me para visitá-los e ministrar os sacramentos em casa, mas fui educadamente recusado. Há algo de estranho naquela família. Os olhos do homem não refletem luz. Em agosto de 1899, ocorreu o que poderia ter sido um ponto de virada na história.
Roberto Azevedo, um jovem repórter do pequeno jornal O Pioneiro, intrigado pelos rumores sobre desaparecimentos, decidiu investigar por conta própria. Roberto havia se mudado recentemente do Rio de Janeiro para Caxias, trazendo consigo ideais de jornalismo investigativo ainda incomuns no interior do país.
lhe deixou uma carta selada com seu editor, Antônio Caetano, com instruções para que fosse aberta caso não retornasse em três dias. Na carta escreveu: “Vou ao sítio dos Bernard. Algo está errado lá. Sete pessoas desaparecidas no mesmo local em menos de se meses não pode ser coincidência. Se não voltar até quinta-feira, procure o delegado.” Roberto nunca retornou.
Antônio Caetano cumpriu as instruções e procurou o delegado Hortêncio Lima. Um pequeno grupo foi formado para visitar a propriedade dos Bernardi, o delegado, dois auxiliares armados, o editor do jornal e o padre Scussel, que conhecia bem a região. Quando chegaram à propriedade, no entanto, encontraram-na completamente abandonada.
A casa estava vazia, sem sinais de ocupação recente. Nos fundos da propriedade, a adega mencionada no relatório do agreensor estava trancada com correntes e cadeados pesados. O delegado ordenou que as fechaduras fossem quebradas. O que encontraram dentro da Adega permanece como um dos mistérios mais perturbadores da região.
O relatório oficial escrito pelo delegado Lima e enviado à capital foi estranhamente sucinto. Adega inspecionada. Nada de relevância encontrado além de equipamentos para produção de vinho. Propriedade abandonada. Família Bernard possivelmente retornou à Europa sem comunicar autoridades. Caso encerrado por falta de evidências concretas.
No entanto, o diário do padre Skussel, descoberto em 1963 durante uma reforma na igreja matriz de Caxias, conta uma história muito diferente. O que vimos naquela adega não pode ser descrito em palavras terrenas, as paredes, as marcas nas paredes, os instrumentos e aquele cheiro.
Que Deus tenha piedade de mim, pois jamais esquecerei aquele cheiro. O delegado nos fez jurar silêncio. disse que nada bom viria de espalhar pânico. Queimamos tudo. Selamos a entrada com pedras e cimento. Que ninguém jamais entre lá novamente. O padre Scussell deixou a paróquia poucas semanas depois, solicitando transferência para uma pequena comunidade no litoral.
Segundo correspondência encontrada nos arquivos diocesanos, ele nunca mais falou sobre os eventos daquele dia, mas sofria de pesadelos recorrentes e insônia severa até o fim de sua vida. Em 1923, o editor Antônio Caetano tentou publicar uma matéria sobre o caso no jornal O Pioneiro, mas foi impedido pelo delegado Lima, que ameaçou fechá-lo por incitar pânico infundado na população.
Na edição da semana seguinte, apenas uma pequena nota foi publicada. Desaparecimento do jornalista Roberto Azevedo continua sem solução. Autoridades investigam. A propriedade dos Bernard permaneceu abandonada por vários anos. Os moradores locais evitavam passar perto do local e histórias sobre sons estranhos e luzes misteriosas começaram a circular.
Em 1905, a prefeitura tentou leiloar a propriedade por falta de pagamento de impostos, mas não houve interessados. Em 1912, um incêndio de origem desconhecida destruiu completamente a casa principal e as estruturas ao redor. Curiosamente, a adega de pedra nos fundos da propriedade permaneceu intacta. Haria foi gradualmente engolida pela vegetação e a trilha que levava ao sítio desapareceu com o tempo.
O caso dos Bernardi poderia ter sido completamente esquecido, relegado a meras histórias de assombração contadas por colonos supersticiosos, não fosse por um evento ocorrido em 1958, quase seis décadas depois dos desaparecimentos. Durante a construção de uma estrada secundária que ligaria o centro de Caxias do Sul ao distrito de Anah, trabalhadores descobriram acidentalmente a antiga adega de pedra, agora quase completamente subterrada e coberta por vegetação densa.
A estrutura estava surpreendentemente bem preservada, protegida das intempéries por sua construção sólida e pelo fato de estar parcialmente enterrada na encosta. O engenheiro responsável pela obra Mário Sartori documentou a descoberta em seu relatório. Estrutura antiga encontrada a aproximadamente 200 m da linha planejada para a estrada.
Construção de pedra parcialmente subterrânea, interior selado com parede de tijolos e cimento, aparentemente construída muito depois da estrutura original. Devido ao atraso já existente no cronograma das obras e a irrelevância da estrutura para o projeto atual. decidiu-se não investigar além e prosseguir com o traçado original da estrada.
No entanto, a descoberta despertou a curiosidade de um jovem historiador local, Carlos Eduardo Monteiro, que estava pesquisando a colonização italiana na região para sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo. Monteiro obteve permissão para examinar a estrutura antes que as obras da estrada continuassem. O que ele encontrou após romper o muro que selava a entrada foi detalhado em um caderno de anotações pessoal que só veio a público em 1967, após sua morte prematura em um acidente de carro.
Adega é muito maior do que aparenta desde o exterior. Há uma escada de pedra que desce por pelo menos 5 m abaixo do nível do solo. O ambiente é surpreendentemente seco, considerando os anos de abandono. Nas paredes encontrei inscrições em um dialeto veneziano antigo, aparentemente citações de algum texto que não reconheço. Não são passagens bíblicas, disso tenho certeza.
Monteiro continua descrevendo o interior da estrutura. No salão principal da Adega, encontrei o que parecem ser equipamentos para produção de vinho, mas com modificações peculiares. Os tanques de fermentação conectam-se a um sistema de canalização em cobre, que leva a uma sala menor, onde encontrei uma mesa de pedra com sucos entalhados e um sistema de drenagem.
A configuração não faz sentido para processamento normal de uvas. Em suas anotações, o historiador menciona ter coletado amostras de um resíduo escuro encontrado nos sucos da mesa de pedra e nos tanques. Ele enviou o material para análise no departamento de química da USP, mas os resultados, se é que chegaram, nunca foram divulgados publicamente.
A última entrada no caderno de Monteiro é particularmente perturbadora. Retornei à Adega hoje ao amanhecer. Queria verificar uma teoria sobre a orientação da estrutura em relação ao solstício de inverno. Encontrei a porta que eu mesmo havia trancado na noite anterior, completamente aberta. Dentro, as amostras que eu havia separado para levar desapareceram.

Mais perturbador ainda. Tenho certeza absoluta de que a disposição dos objetos no salão principal foi alterada. Alguém esteve aqui durante a noite. Vou informar as autoridades assim que retornar à cidade. Monteiro nunca chegou à cidade. Seu corpo foi encontrado na estrada a cerca de 2 km da antiga propriedade dos Bernard.
O laudo oficial indicou que ele perdeu o controle do veículo em uma curva fechada e colidiu com uma árvore. Curiosamente, não havia marcas de frenagem no local e testemunhas que passaram pela mesma estrada menos de uma hora antes, afirmam que o tempo estava claro e a estrada seca. As anotações de Monteiro só foram descobertas em 1967, quando sua viúva estava organizando seus pertences para uma mudança.
Ela entregou o material ao Departamento de História da USP, mas por razões nunca esclarecidas, o caderno foi arquivado sem que seu conteúdo fosse publicado ou investigado. Em 1968, durante a finalização das obras da estrada, um deslizamento de terra causado por chuvas intensas soterrou completamente a área onde a antiga adega estava localizada.
O engenheiro responsável decidiu desviar levemente o traçado original ao invés de escavar o local novamente, citando instabilidade do terreno como justificativa. Não existem registros de novas tentativas de escavação ou investigação do local. A própria localização exata da Adega foi gradualmente esquecida à medida que a região se desenvolveu e novas construções surgiram.
Os arquivos oficiais sobre os desaparecimentos de 1899 são surpreendentemente escassos. Os relatórios do delegado Lima aparentemente foram perdidos durante uma reorganização do Arquivo Policial de Caxias do Sul em 1934. Os registros da intendência municipal da época contém apenas breves menções aos casos, sem conclusões ou detalhes.
No entanto, em 1962, durante a preparação para as comemorações do centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul, uma historiadora amadora chamada Elisa Brandalise encontrou em um baú de família uma carta datada de outubro de 1899, escrita por sua bisavó, Angelina Brandaliz, que vivia próximo a Caxias do Sul na época.
A carta endereçada a parentes na Itália contém uma passagem intrigante. Evitamos falar sobre os Bernardi. As autoridades disseram que eles retornaram para Veneza, mas ninguém os viu partir. O padre não fala mais sobre o assunto e quando alguém menciona aquela família, ele se retira para rezar. Há rumores entre os colonos mais antigos.
Dizem que na região de Veneza, de onde vieram, existia uma família nobre do mesmo nome, expulsa de sua terra por práticas que não ousavam nomear. Dizem que eles não fabricavam vinho para beber, mas para outro propósito. Não sei o que acreditar, mas desde que selaram aquela adega, as noites são mais tranquilas. Não ouvimos mais aquele canto.
Elisa Brandalize tentou publicar a carta e suas descobertas no jornal local em 1962. Mas seu artigo foi recusado por falta de relevância histórica comprovada. Ela continuou sua pesquisa de forma independente, coletando relatos orais de idosos da região que ainda guardavam histórias sobre os misteriosos Bernardi. Em 1964, Elisa conseguiu localizar um homem de 87 anos, Vitório Panceri, que afirmava ter trabalhado brevemente na propriedade dos Bernard quando jovem, no verão de 1899, poucos meses antes dos desaparecimentos começarem. O depoimento de Vitório,
gravado em fita cassete apresenta detalhes perturbadores. Eu tinha 22 anos e precisava de dinheiro para casar. Os Bernard pagavam bem por trabalho na vinícula. Fiquei lá apenas duas semanas. O Senr. Giuseppe era um homem alto, sempre vestido de preto mesmo no calor. A senora Teresa eu só vi uma vez de longe.
Ela ficava sempre no andar de cima da casa. Tinha o rosto muito pálido e não falava. O irmão Marco era quem supervisionava o trabalho na vinícula. Nunca sorria. Tinha mãos estranhas com dedos muito longos e unhas que pareciam ter sido lixadas em pontas. O trabalho era pesado, mas o estranho eram as regras.
Nunca poderíamos entrar na adega depois do pôr do sol. As uvas colhidas eram selecionadas de forma peculiar. Marco insistia que apenas cachos com certo aroma fossem utilizados e ele passava horas cheirando cada um antes de aprovar. O que me fez sair foram os sons. A noite da Casagre vinham cantos em uma língua que não era italiano, nem português, nem qualquer coisa que eu já tivesse ouvido.
E havia o porão da casa principal. Uma vez vi Marco carregando um grande saco que parecia muito pesado para o porão. O saco estava molhado em algumas partes com manchas escuras. Quando percebeu que eu observava, ele me encarou de uma forma. Pedi meu pagamento no dia seguinte e nunca mais voltei. A fita com o depoimento de Vitório Panceri foi enviada por Elisa ao Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1965.
O professor que recebeu o material, Dr. Joaquim Ribeiro, mostrou interesse inicial no caso e chegou a visitar Caxias do Sul para entrevistar Elisa pessoalmente. No entanto, pouco depois dessa visita, o professor Ribeiro abruptamente abandonou a pesquisa, alegando compromissos acadêmicos mais urgentes.
A fita foi devolvida a Elisa com uma breve nota agradecendo o material, mas indicando que não havia bases científicas suficientes para justificar uma investigação acadêmica formal do caso. Curiosamente, o professor Ribeiro pediu transferência para uma universidade no Nordeste poucos meses depois e, segundo colegas, nunca mais mencionou o caso dos Bernard ou voltou ao Rio Grande do Sul.
Elisabandaliz continuou sua pesquisa de forma independente até sua morte em 1966. Seus arquivos pessoais, contendo todas as suas anotações sobre o caso, foram doados pela família à Biblioteca Municipal de Caxias do Sul, onde foram catalogados e arquivados. Em 1968, um incêndio de pequenas proporções na sessão de arquivos danificou vários documentos, incluindo todo o material relacionado à pesquisa de Elisa sobre os Bernardi.
O chefe da biblioteca na época, Paulo Medeiros, comentou o incidente em uma entrevista ao jornal local. Foi um incêndio muito estranho. Começou exatamente na prateleira onde estavam as caixas com os documentos da senora Branda Lizy. O sistema anti-incêndio funcionou rapidamente, mas aquelas caixas específicas foram completamente destruídas.
O mais curioso é que não havia instalação elétrica próxima, nem qualquer outra fonte óbvia de ignição. A região onde ficava a antiga propriedade dos Bernardi mudou drasticamente com o passar das décadas. Onde antes havia mata fechada e propriedades isoladas, hoje existem bairros residenciais, pequenas indústrias e comércios.
A estrada construída nos anos 1960 foi posteriormente ampliada e asfaltada. tornando-se uma importante via de acesso entre Caxias do Sul e os distritos ao norte da cidade. No entanto, há um pequeno trecho de mata preservada próximo à rodovia que os moradores locais costumam evitar, especialmente após o anoitecer.
Não há placa ou marco oficial que indique a relação do local com a antiga propriedade dos Bernard, mas os mais antigos sabem e transmitem o conhecimento de forma velada. Em 1996, durante a expansão de um loteamento residencial nas proximidades, trabalhadores da construtora relataram ter encontrado os restos de uma estrutura de pedra enquanto abriam fundações para um conjunto de casas geminadas.
Os trabalhos foram temporariamente interrompidos e arqueólogos do Museu Municipal foram chamados para avaliar a descoberta. O relatório oficial assinado pelo arqueólogo Roberto Espinelli menciona apenas estrutura antiga de pedra, provavelmente pertencente a uma das primeiras propriedades de colonos italianos na região, sem artefatos ou características de relevância histórica significativa, liberada a continuidade das obras após documentação fotográfica.
No entanto, um dos trabalhadores da escavação, que preferiu permanecer anônimo, contou anos depois a um pesquisador local. O que encontramos não era só uma parede velha, era uma sala e tinha coisas lá dentro. O arqueólogo fez todo mundo sair e chamou alguém da prefeitura. Eles fecharam a área com lonas pretas por dois dias.
Quando voltamos, tudo tinha sido concretado e nos mandaram seguir com as fundações em outro local. Ninguém falou mais sobre isso. As casas foram construídas, mas curiosamente deixando uma pequena área verde onde a estrutura havia sido encontrada. Nos mapas oficiais do loteamento, o espaço consta como área de preservação ambiental, embora não existam árvores nativas ou qualquer outra característica que justifique tal designação.
Os moradores dessas casas relatam ocasionalmente odores estranhos que parecem emanar do solo, especialmente em noites úmidas e frias de inverno. Alguns mencionam também sons difíceis de descrever, como um zumbido grave que faz as janelas vibrarem levemente. As reclamações formais à administração do condomínio sobre esses fenômenos são sempre arquivadas sem investigação.
Em 2002, uma estudante de história da Universidade de Caxias do Sul, Marina Cavali, tentou revisar o caso dos Bernard como tema de sua monografia de conclusão de curso. Ela encontrou obstáculos surpreendentes. Muitos dos documentos que deveriam estar nos arquivos municipais estavam extraviados ou em restauração. Pessoas mais velhas que poderiam ter informações se recusavam a falar e seu próprio orientador sugeriu fortemente que ela escolhesse outro tema.
Marina persistiu e conseguiu localizar um antigo funcionário aposentado da prefeitura, Jorge Teixeira, que havia trabalhado no departamento de obras na época da construção da estrada, nos anos 1960. Em uma entrevista gravada, ele revelou: “Havia algo muito errado naquele lugar. Os operários se recusavam a trabalhar depois do pôr do sol.
Máquinas quebravam sem motivo aparente. Um dos engenheiros encontrou inscrições estranhas em uma pedra e levou para casa. Na mesma noite, sua casa pegou fogo. Ele sobreviveu, mas nunca mais voltou ao trabalho. Quando encontraram aquela adega, o prefeito da época foi pessoalmente ao local com o delegado. Eles passaram horas lá dentro.
Quando saíram, o prefeito estava pálido como cera. Deram ordens para selar tudo imediatamente e mudar o traçado da estrada. Ninguém questionou. Havia algo nos olhos deles. Medo, puro medo. Marina Cavali concluiu sua monografia, que recebeu uma avaliação medíocre e foi arquivada sem publicação.
Ela abandonou a carreira acadêmica logo depois e mudou-se para outro estado. Quando contatada anos mais tarde por outro pesquisador interessado no caso, ela se recusou a falar sobre o assunto, dizendo apenas: “Algumas portas não devem ser abertas, algumas histórias não devem ser contadas”. Em 2010, um grupo de pesquisadores independentes de fenômenos paranormais tentou localizar a área exata onde ficava a adega dos Bernardi, utilizando mapas antigos e georreferenciamento moderno.
Eles obtiveram autorização dos atuais proprietários do terreno para realizar uma investigação não invasiva, utilizando equipamentos de radar de penetração no solo. Os resultados foram intrigantes. identificaram uma estrutura subterrânea a aproximadamente 7 m de profundidade, consideravelmente maior do que seria esperado para uma adega típica de vinícula colonial.
O líder da equipe, Leonardo Martins, escreveu em seu relatório: “A estrutura detectada apresenta características atípicas. Estima-se uma área total de aproximadamente 300 m², dividida em várias câmaras interconectadas. A profundidade e solidez da construção sugerem que foi projetada para durar séculos, não apenas para atender às necessidades temporárias de uma família de colonos.
Recomenda-se fortemente uma escavação arqueológica profissional. O relatório foi enviado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPAN, e a Universidade de Caxias do Sul. Nenhuma das instituições demonstrou interesse em prosseguir com uma investigação. O IFAN respondeu com uma carta padrão, indicando limitações orçamentárias para novos projetos e a universidade nunca respondeu formalmente.
Leonardo Martins e sua equipe tentaram obter financiamento independente para a escavação, mas sem sucesso. Em 2011, quando finalmente conseguiram levantar os recursos necessários através de uma campanha online, descobriram que a área havia sido declarada de interesse público pela prefeitura municipal e estava bloqueada para qualquer tipo de intervenção.
Em 2013, o terreno foi cercado e placas indicando área de proteção ambiental, entrada proibida, foram instaladas. Oficialmente, a justificativa era a presença de nascentes que abasteciam um dos afluentes do arroio Tega, importante para o equilíbrio hídrico da região. No entanto, estudos ambientais anteriores da área nunca haviam mencionado a existência dessas nascentes.
O jornalista Ricardo Mendes, do Jornal de Caxias tentou investigar a súbita mudança de status do terreno. Seus pedidos de informação baseados na lei de acesso à informação foram sistematicamente negados ou respondidos com documentação incompleta. Em uma de suas últimas reportagens sobre o assunto, Mendes escreveu: “Há uma conspiração de silêncio em torno daquele terreno.
Funcionários da Secretaria de Meio Ambiente se recusam a falar sobre o assunto. O processo de tombamento como área de preservação aconteceu em tempo recorde, sem as audiências públicas normalmente exigidas. O prefeito assinou o decreto pessoalmente, sem passar pela Câmara de Vereadores. Algo está sendo escondido da população de Caxias do Sul.
Poucos dias após a publicação desta matéria, o jornalista foi transferido para a sessão de esportes do jornal. A investigação sobre o terreno dos Bernard foi abruptamente encerrada e nenhum outro repórter demonstrou interesse em retomá-la. Em 2015, uma descoberta perturbadora trouxe o caso Bernard novamente à tona, ainda que brevemente.
Durante uma reforma em uma antiga casa no centro histórico de Caxias do Sul, operários encontraram dentro de uma parede uma caixa metálica selada contendo um manuscrito envelhecido. O documento escrito em italiano arcaico, foi identificado como sendo de autoria do padre Domênico Scussell, datado de dezembro de 1899.
O manuscrito foi enviado ao Departamento de História da Universidade de Caxias do Sul para tradução e análise. O professor Antônio Ferreira, especialista em documentos históricos da imigração italiana, foi encarregado do trabalho. Três semanas depois, ele solicitou licença médica por tempo indeterminado, alegando problemas de saúde não especificados.
O manuscrito desapareceu dos arquivos da universidade e inquéritos internos não conseguiram determinar seu paradeiro. Um funcionário do departamento, que pediu anonimato, afirmou a um blogueiro local que viu o professor Ferreira na noite anterior à sua licença médica trabalhando até tarde no laboratório de documentação. Ele estava pálido, suando, apesar do ar condicionado.
Quando perguntei se estava se sentindo bem, ele apenas murmurou algo como: “Eles não eram humanos. O que eles faziam naquela adega não era humano. No dia seguinte, ele não apareceu e o manuscrito sumiu. O professor Ferreira se mudou para Portugal pouco depois e nunca mais respondeu a tentativas de contato sobre o caso.
Sua casa em Caxias foi vendida rapidamente por um valor consideravelmente abaixo do mercado e seus colegas relatam que ele deixou para trás muitos pertences pessoais, como se tivesse pressa em partir. Em 2017, um acontecimento aparentemente não relacionado trouxe novas pistas sobre o caso. Um incêndio destruiu parcialmente um antigo depósito da delegacia de polícia de Caxias do Sul, onde eram guardados arquivos e evidências de casos antigos.
Durante o processo de recuperação e catalogação do material salvo, um técnico encontrou uma caixa metálica contendo frascos de vidro com etiquetas amareladas pelo tempo. As etiquetas, ainda legíveis, coninham a inscrição amostra propriedade Bernard, 1899, seguida por números de identificação. O técnico intrigado separou a caixa para a análise posterior, mas ao retornar no dia seguinte foi informado que todos os materiais restantes haviam sido descartados por risco biológico, seguindo ordens superiores.
O técnico José Carlos Vieira, não satisfeito com a explicação, fotografou discretamente as etiquetas e os frascos antes de seu descarte. Anos depois, já aposentado, ele compartilhou essas imagens com um grupo de estudo de história local junto com seu depoimento. Os frascos continue nem vinho.
Tinha uma consistência mais densa, como óleo, mas não era oleoso ao toque. Um dos frascos estava parcialmente quebrado e pude sentir o odor. Era doce, mas com um fundo acre que causava imediata repulsa. Mais perturbador era um pequeno caderno junto aos frascos com anotações do delegado Lima. Uma frase me marcou. Confirmado pelo Dr. Schmith.
Não é sangue humano, tampouco animal conhecido. Aconselha-se destruição imediata e completa disfarce dos fatos para evitar pânico. As fotografias de José Carlos, embora de baixa qualidade devido à idade do celular usado na época, mostram claramente os frascos com o líquido escuro e partes das etiquetas. Especialistas em documentação forense que analisaram as imagens confirmaram que a caligrafia e o tipo de papel das etiquetas são consistentes com documentos policiais do final do século XIX. Em 2018, uma equipe de arqueologia
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul obteve permissão para realizar um estudo preliminar não invasivo na área protegida que supostamente abrigava os restos da propriedade dos Bernardi. Utilizando tecnologia avançada de imageamento subterrâneo, eles conseguiram mapear parcialmente as estruturas soterradas sem realizar escavações.
O relatório preliminar, publicado apenas internamente na universidade, indicava a presença de uma estrutura subterrânea complexa, com múltiplas câmaras interconectadas, a uma profundidade média de 7,5 m. A configuração não corresponde a qualquer modelo conhecido de adega colonial italiana. A disposição das câmaras sugere um propósito ritual ou cerimonial, mais do que utilitário.
O estudo completo, que incluiria a análise do solo e possível coleta de amostras em pequenos poços de sondagem foi abruptamente cancelado quando a prefeitura revogou a autorização previamente concedida, citando riscos de contaminação do lençol freático. A professora docotora Helena Monteiro, que liderava a equipe, manifestou publicamente sua frustração.
Não há justificativa técnica para a revogação da autorização. Nossos métodos são não invasivos e seguem todos os protocolos de preservação ambiental. Há algo que não querem que encontremos naquele lugar. Pouco depois dessa declaração, a professora Monteiro foi afastada da coordenação do projeto por razões administrativas e a universidade emitiu um comunicado se desculpando com a prefeitura pelo mal entendido.
O projeto foi oficialmente encerrado e todos os dados coletados foram classificados como preliminares e inconclusivos. Em 2019, durante a digitalização do acervo fotográfico do jornal O Pioneiro, um técnico encontrou um envelope lacrado, contendo negativos fotográficos antigos com uma anotação. Propriedade Bernard, não publicar, 1899.
As fotografias, tiradas com uma câmera rudimentar da época mostram a fachada da casa principal, o portão de entrada da propriedade e, mais perturbadoramente, o interior da adega. Embora a qualidade das imagens seja precária, é possível distinguir claramente o que parecem ser símbolos ou inscrições nas paredes da adega, ferramentas incomuns dispostas sobre mesas de pedra e o que o fotógrafo identificou em suas anotações marginais como tanques de processamento.
Uma das fotografias mostra parcialmente um objeto que parece ser um livro grande, aberto sobre um pedestal, com páginas cobertas de escrita densa e diagramas. O historiador Rafael Domingues, que teve acesso às fotografias durante o processo de digitalização, comentou em um artigo acadêmico não publicado: “As inscrições nas paredes não correspondem a nenhum dialeto italiano conhecido.
Apresentam similaridades com certos textos venezianos do século XV associados a sociedades herméticas, mas com variações significativas. Mais intrigante é o livro mostrado parcialmente em uma das fotografias. O estilo de encadernação e o formato das páginas sugerem um manuscrito muito mais antigo do que seria esperado encontrar em uma colônia de imigrantes no Brasil do século XIX.
Domingues tentou publicar seu artigo em diversas revistas acadêmicas, mas todas recusaram, citando falta de rigor metodológico ou conclusões excessivamente especulativas. As fotografias originais foram posteriormente removidas do acervo durante o processo de digitalização, classificadas como material deteriorado sem valor arquivístico e supostamente destruídas.
Em 2020, um acontecimento inesperado lançou nova luz sobre o mistério. Uma senhora idosa, Maria Panceri, neta de Vitório Panceri, o homem que havia trabalhado brevemente na propriedade dos Bernard em 1899, procurou o Museu Municipal de Caxias do Sul, com um objeto que havia herdado de seu avô, um pequeno frasco de vidro escuro, selado com cera preta, contendo um líquido viscoso de cor indefinível.
Junto ao frasco, um bilhete escrito à mão por seu avô dizia isso. Eu tirei da adega deles quando percebi o que faziam. Nunca abra, nunca prove. Quando eu morrer, enterre longe de casa ou jogue no fogo. Não deixe que encontre você. Maria explicou que seu avô havia guardado o frasco em uma caixa de metal, enterrada sob o piso de sua casa.
Ele revelou o esconderijo apenas em seu leito de morte, fazendo o filho jurar que destruiria o objeto. No entanto, seu filho, pai de Maria, não teve coragem de destruir a única evidência tangível da história que seu pai contava. E assim, o frasco passou para Maria após sua morte. O diretor do museu, Dr.
Carlos Bento, reconhecendo a possível importância histórica do objeto, convenceu Maria a permitir que o frasco fosse fotografado e catalogado, prometendo devolvê-lo após a documentação. Ele contatou discretamente um amigo químico da universidade para realizar uma análise não invasiva do conteúdo, utilizando espectroscopia através do vidro.
Os resultados preliminares, compartilhados apenas verbalmente entre os dois profissionais, indicaram uma composição orgânica complexa, com componentes que o químico não conseguiu identificar completamente. “Há compostos aqui que não deveriam estar juntos naturalmente”, ele comentou, proteínas, lipídios e algo mais.
Algo que altera a estrutura molecular básica desses componentes. Isso não é uma fermentação natural de qualquer produto conhecido. Antes que análises mais detalhadas pudessem ser realizadas, Maria Panceri retornou ao museu em estado de evidente agitação, exigindo a devolução imediata do frasco. Ela contou que desde que havia retirado o objeto do esconderijo, estava tendo pesadelos vívidos e percebia sons estranhos em sua casa durante a noite.
Sinto como se alguém estivesse observando minha casa. Ontem à noite vi uma silhueta no jardim, uma figura alta, imóvel, apenas observando minhas janelas. Dr. Bento devolveu o frasco e sugeriu que Maria procurasse a polícia se sentisse que sua segurança estava ameaçada. Ela recusou, dizendo apenas: “A polícia não pode me ajudar com isso.
Ninguém pode!” Três dias depois, a casa de Maria foi destruída por um incêndio noturno. Seu corpo foi encontrado nos escombros e o laudo oficial indicou que ela havia morrido inalando fumaça durante o sono. O frasco nunca foi recuperado. Os bombeiros que atenderam a ocorrência relataram um odor incomum no local, doce e metálico ao mesmo tempo, que não correspondia a nenhum agente acelerante e conhecido usado em incêndios criminosos.
A investigação concluiu que o fogo começou devido a uma falha elétrica, embora vizinhos tenham relatado que a energia havia sido cortada em todo o quarteirão por algumas horas naquela noite, devido à manutenção na rede. Em 2023, um documentarista independente chamado Paulo Rodrigues iniciou um projeto sobre lendas urbanas da Serra Gaúcha, incluindo o caso dos Bernard como um de seus segmentos.
Durante suas pesquisas, ele entrou em contato com um ancião da comunidade local, Antônio Firmino, de 97 anos, que afirmava ser filho de um dos trabalhadores que participaram da operação de selamento da Adega em 1899, após a inspeção do delegado Lima. Em seu depoimento gravado, Firmino, com notável lucidez, apesar da idade avançada, relatou: “Meu pai nunca falou muito sobre aquele dia.
Dizia que tinham feito um juramento, mas às vezes quando bebia demais deixava escapar coisas. Dizia que o que viram lá dentro não era trabalho de cristãos. Falava de símbolos nas paredes que pareciam se mover quando se olhava por muito tempo. E o pior eram os tanques. Não eram para vinho. Meu pai dizia que havia restos, partes, não de animais.
E em um canto da adega encontraram roupas, pertences, coisas que reconheceram como sendo das pessoas que haviam desaparecido. Firmino continuou. O delegado fez eles queimarem tudo o que podiam. Depois cobriram as paredes com cal. e selaram a entrada. O padre jogou água benta e fez orações, mas meu pai dizia que não adiantou, que aquele lugar estava contaminado.
É essa a palavra que ele usava, contaminado. Ele nunca mais pisou naquela parte da colônia e me fez prometer o mesmo. Quando questionado sobre o que acreditava que os Bernard realmente faziam na adega, o ancião ficou em silêncio por um longo momento antes de responder: “Meu pai disse que eles não eram o que pareciam ser, que vinham de uma linhagem muito antiga mesmo na Itália, uma família que praticava artes proibidas.
Não era vinho que faziam, era outra coisa, algo que bebiam, algo que os mantinha, não envelhecendo. Meu pai viu um diário com datas que iam até centenas de anos atrás, sempre com os mesmos nomes. Giuseppe, Teresa, Marco, sempre os três, em diferentes lugares, diferentes épocas, sempre se movendo quando começavam as suspeitas. Paulo Rodrigues nunca completou seu documentário.
Durante uma visita ao terreno cercado que supostamente abrigava os restos da propriedade Bernard para captar imagens externas, ele sofreu um acidente. Caiu em uma fenda que se abriu subitamente no solo, fraturando a perna. Enquanto esperava socorro, relatou ter ouvido um som grave, como um canto distante, vindo de algum lugar abaixo da terra.
Após o acidente, Rodrigues desistiu do projeto, alegando problemas de saúde. Em uma breve entrevista a um podcast local, ele mencionou: “Há histórias que é melhor deixar esquecidas. Algumas verdades não trazem esclarecimento ou conforto, apenas abrem portas que deveriam permanecer fechadas. Hoje, a área onde ficava a propriedade dos Bernard continua isolada e protegida.
A vegetação cresceu densa sobre o terreno e as placas de advertência são periodicamente substituídas quando vandalizadas. Ocasionalmente, moradores da região relatam luzes estranhas durante a noite ou sons inexplicáveis vindo daquela direção, especialmente em noites frias de inverno. A Prefeitura de Caxias do Sul mantém uma política de descrição sobre o assunto.
Pedidos de informação são redirecionados para departamentos diferentes até se perderem na burocracia. Historiadores e jornalistas que demonstram interesse pelo caso frequentemente encontram obstáculos inesperados ou são sutilmente desencorajados. O caso dos Bernardi permanece como um dos mistérios não resolvidos da história da colonização italiana no Rio Grande do Sul.
Os desaparecimentos nunca foram oficialmente explicados. O que realmente acontecia naquela adega subterrânea continua sendo objeto de especulação. E o paradeiro atual da família Bernard, se é que ainda existem descendentes, é desconhecido. Há quem diga que em certas noites de inverno, quando a neblina desce espessa sobre os vales da Serra Gaúcha, é possível ver uma figura alta, sempre vestida de preto, parada na beirada da estrada próxima ao antigo sítio.
A figura nunca se move, apenas observa, e seus olhos dizem os poucos que afirmam ter visto de perto não refletem a luz dos faróis dos carros que passam. Uma lenda urbana moderna surgida entre estudantes universitários de Caxias do Sul fala de uma festa do vinho Bernard, um suposto ritual onde jovens desafiam uns aos outros a pular a cerca da área proibida na noite de Lua Nova e beber um gole de vinho deixado como oferenda junto a uma árvore específica.
A maioria considera isso apenas uma brincadeira tola, um teste de coragem. Mas nos arquivos policiais recentes, há pelo menos três registros de desaparecimentos inexplicados de jovens na região nos últimos 15 anos. Em todos os casos, as investigações foram encerradas com explicações convencionais: fuga voluntária, acidente em área rural, possível crime sem corpo localizado.
Nenhum dos relatórios menciona a proximidade da área onde ficava o sítio dos Bernardi. Nenhum investigador faz a conexão e talvez seja melhor assim. Porque, como escreveu o padre Scussel em seu diário perdido, há verdades que a mente humana não foi feita para compreender. Há horrores que, uma vez vistos, nunca mais abandonam a alma.
O melhor que podemos fazer é selar a porta, jogar fora a chave e rezar para que o que está do outro lado nunca encontre outra saída. A história do sítio macabro da família Bernardi permanece como um eco distante, um sussurro que ocasionalmente ressurge quando alguém tropeça em algum fragmento esquecido do passado. E a cada vez que isso acontece, pessoas desaparecem, documentos se perdem, investigações são encerradas, porque talvez, como sugeriu o velho Firmino em seu depoimento final, eles nunca foram embora, apenas esperaram e ainda estão esperando, nos
observando das sombras, escolhendo.