Guia Desapareceu No Monte Roraima — 3 Anos Depois Voltou Falando Língua Que Ninguém Reconhecia
Em 16 de agosto de 2019, às 6:42 da manhã, Renato Paiva enviou uma mensagem de voz para a esposa. disse que o grupo estava se preparando para partir do acampamento, que o tempo havia aberto
durante a madrugada, que o topo estava limpo e que ia ser uma expedição bonita, e que deixasse o feijão pronto, porque ele chegava antes de escurecer. Luciana respondeu com um áudio de 32 segundos. Disse para ele ter cuidado.
Disse que ia rezar. Disse que tinha feito promessa a Nossa Senhora para ele voltar bem dessa vez também, como voltava de todas as outras. Renato Paiva não voltou antes de escurecer. O celular dele deu sinal pela última vez às 10:23
daquela mesma manhã. captado por uma antena em território venezuelano em algum ponto do alto platô do Monte Roraima, na fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana. Depois desse horário, silêncio, o aparelho simplesmente saiu do mapa. 3 anos e 2
meses depois, no dia 18 de outubro de 2022, um homem foi encontrado encostado numa ribanceira às margens da BR174, a rodovia federal, que corta o estado do Roraima, de norte a sul, a 47 km de Boa
Vista. estava descalço com barba cerrada e roupas escuras que não eram as dele. Quando os caminhoneiros que pararam tentaram perguntar se ele estava bem, o homem respondeu com calma, com clareza, mas não em português, não em espanhol,
não em nenhuma das línguas indígenas que qualquer pessoa naquela estrada pudesse reconhecer de ouvido. A identificação levou três dias. Era Renato Paiva Vamelo, guia turístico, 37 anos, natural de Boa Vista, desaparecido havia 3 anos,

2 meses e 14 dias. O que aconteceu naquele topo de tepui entre a mensagem das 6:42 e o silêncio das 10:23, onde esteve Renato durante 1126 dias? O que ele comeu, com quem ficou? E
que língua era aquela que pronunciava com ritmo regular, com sons que linguistas de três universidades brasileiras declararam não reconhecer? Essas perguntas ainda não têm resposta fechada. O que existe é um dossiê, uma família e um homem que voltou falando
palavras que ninguém conseguiu traduzir. O Roraima não é uma montanha comum, é um teui, uma formação de arenito vermelho escuro com mais de 280 milhões de anos, com o topo plano coberto por um ecossistema que não
existe em nenhum outro lugar da Terra. Plantas carnívoras sem nome enciclopédia. Lagoinhas de água preta de fundo invisível. Um labirinto de pedras escuras, onde um homem em pé não é visto a 5 m de distância quando a névoa fecha.
E a neva fecha o tempo todo. Os Pemon, povo indígena, que habita aquela região há séculos, chamam o Roraima de Roroimá, que quer dizer algo parecido com a grande montanha verde. Para eles, o topo é morada de espíritos. Eles sobem quando
precisam, mas não ficam mais do que o necessário. E há partes onde não sobem de jeito nenhum, não por medo, mas por respeito. Essa é a diferença que os mais velhos fazem questão de explicar. Guias turísticos desaparecem no Roraima. O
Corpo de Bombeiros do Estado registrou sete ocorrências entre 2002 e 2022. A maioria foi encontrada em menos de 72 horas. Dois nunca foram localizados e um voltou depois de três anos falando
uma língua que a FUNAI classificou como não catalogada. Nenhuma dessas sete ocorrências se parece com a de Renato. O laudo linguístico produzido três semanas após o reencontro tem 12 páginas. A conclusão ocupa metade de um parágrafo.
Diz que a língua apresenta elementos fonéticos que remetem vagamente a famílias linguísticas da região, mas que não corresponde a nenhuma língua registrada. Diz que pode ser variação criada por isolamento prolongado. Diz que novos estudos seriam necessários.
Esses estudos nunca foram publicados. Você ficou aqui porque sabe que essa história não termina onde parece terminar e o que vem agora vai explicar porquê. Renato Paiva Melo nasceu em Boa Vista em novembro de 1982,
filho do meio de três irmãos numa família do bairro Raiar do Sol. O pai, seu Antônio trabalhava como carpinteiro numa marcenaria da Avenida Villy Roy. A mãe don Iracurava uniformes escolares em casa com uma
máquina singer elétrica que ficava no quarto de serviço e que não parou de funcionar nem quando ela envelheceu. Desde menino, Renato ia pescar com o pai no Rio Branco nos fins de semana.
Voltavam com jaraquis e tucunarés embrulhados em folha de bananeira. Dona Iraci fritava o peixe com farinha d’água e coloral. E os três irmãos comiam em volta da mesa de fórmica na cozinha com o ventilador de teto, girando devagar.
Era essa a vida que a família conhecia. Quando Renato tinha 19 anos, entrou como ajudante numa pequena agência de turismo de aventura que abria as portas em Pacaraima, cidade a 204 km de Boa Vista, já na divisa com a
Venezuela. Ele nem sabia que aquilo existia como profissão, mas foi a primeira vez que subiu ao Roraima e voltou diferente. Não soube explicar o que tinha mudado. Só sabia que precisava voltar. A escalada até o topo leva em
média quatro dias de caminhada. O percurso que Renato aprendeu primeiro passa pela Gran Sabana, do lado venezuelano, e sobe por uma fissura na parede vertical do tepui, que os guias chamam de La Rampa. Do lado brasileiro, o acesso é mais longo e atravessa o
território indígena do Zingaricó, com autorização da FUNAI. Renato aprendeu dois percursos. Aprendeu a ler o tempo, pelo jeito que a névoa fechava nas primeiras horas da manhã, pelo cheiro de terra molhada que precedia a chuva. Aprendeu a identificar
as plantas carnívoras Elianfora, que crescem nos afloramentos de pedra, com suas urnas de cor vinho, que parecem pequenas xícaras cheias de chuva. Aprendeu os nomes que os guias Pemon davam às grutas e passagens do platô.
Cueva del fantasma, Ventana, os corredores de pedra negra que mudavam de aparência conforme a luz. Em 18 anos, como guia certificado, Renato conduziu 317 expedições registradas ao Roraima. Esse
número consta da Rorim Explorer, agência com sede em Boa Vista, onde ele trabalhou a maior parte da carreira. 317 vezes ele subiu e desceu àquela montanha. Conhecia cada curva da trilha.
Sabia onde os arapassos de pescoço ruivo pousavam ao entardecer. Sabia em que ponto do platô a água da chuva formava uma lagoa rasa de fundo cor de xisto. Sabia onde a névoa era mais traiçoeira e onde não se devia dormir. Em 2021,
Renato se casou com Luciana, auxiliar de enfermagem que conheceu num pronto socorro de Boa Vista. Ele tinha ido para ser atendido depois de torcer o tornozelo numa descida. O casamento foi no cartório e a festa foi na casa de
dona Iraci, com churrasco no quintal e forró até de madrugada. A mãe cheirou a cabeça do filho antes de ele entrar no carro. foi a última a soltá-lo naquela noite. Eles moravam num apartamento alugado no bairro Asa Branca, um vaso de
orquídeas na varanda, um mapa grande do Roraima emoldurado na sala com as rotas marcadas à caneta vermelha. Luciana tinha aprendido a não esperar mensagem quando ele estava no topo, porque o sinal caía assim que entrava no platô.
tinha aprendido a contar os dias no calendário da cozinha, riscando cada um com caneta vermelha até a data de retorno. Em agosto de 2019, Renato Paiva Melo liderou a 318ª expedição registrada da sua carreira.
Foi a única da qual ele não voltou. O grupo que Renato conduziu naquele agosto era composto por seis pessoas além dele. Quatro turistas de São Paulo, um casal de fotógrafos de Manaus chamados Carla e Décio Ferreira e um assistente de guia
que trabalhava com Renato desde 2021, um rapaz de 25 anos chamado Maurício Tes. A expedição saiu na manhã do dia 13 de agosto, uma terça-feira.
Renato fez o briefing de segurança no estacionamento da pousada, onde o grupo estava hospedado. Mostrou o mapa, explicou o protocolo de comunicação. Rádio Walk Talk, a cada 2 horas, ponto de encontro em caso de separação, sinal
de emergência. distribuiu os coletes de identificação alaranjados que a agência exigia para todos os participantes. Maurício filmou parte do briefing com o celular. Aquela gravação existe e foi entregue à polícia. Renato aparece de
costas, apontando o mapa com uma régua de plástico amarela, explicando o percurso com uma voz calma e precisa que seus clientes descreveram mais tarde como a de alguém que havia contado aquela história centenas de vezes. Os primeiros dois dias correram sem nada
fora do esperado. O grupo acampou no sopé do teui na primeira noite, ao lado de um riacho de água fria, cor de chá, que corre entre pedras cobertas de musgo. A tarde do segundo dia alcançaram o topo depois de subir la rampa com mochila de 30 kg nas
costas. Renato levou o grupo até o ponto de vista que os guias chamam de janela do mundo, uma plataforma de arenito escuro de onde a Gran Sabana aparece lá embaixo como um tapete verde sem fim que segue até o horizonte.
Na terceira noite, Carla Ferreira anotou no diário de papel que mantinha durante a viagem que Renato estava mais quieto do que o normal. Ficou sentado do lado de fora da barraca por mais de uma hora, olhando para a direção noroeste do platô, sem conversar com ninguém. Ela
achou que ele estava cansado, não perguntou nada. Na manhã do dia 16, o grupo acordou com névoa densa. Era 6 horas da manhã. O topo estava coberto por uma camada de neblina que não deixava enxergar mais de 10 m à frente.
Renato preparou o café com o fogareiro de gás e distribuiu biscoito e polvilho embrulhados num saco plástico amarrado com elástico, do jeito que ele sempre levava nas expedições.
O grupo comeu em silêncio, com as capas de chuva vestidas, sentados em cima das pedras negras molhadas. Depois do café, ele disse ao grupo para esperar no acampamento enquanto ele ia verificar a condição da trilha de descida.
O corredor de pedras por onde iam descer ficava escorregadil depois de chuva e ele queria checar antes de partir. Era procedimento padrão. Maurício conhecia esse procedimento.
Renato tinha feito aquilo dezenas de vezes em expedições anteriores. Ele saiu sozinho às 6:42os. Essa é a hora da mensagem de voz que mandou para Luciana antes de partir. Às 8:50, Maurício tentou o rádio pelo canal
combinado. Nenhuma resposta. Às 9:20, tentou de novo. Silêncio. Às 10 horas, ele reuniu os turistas, explicou a situação com cuidado para não criar pânico e pediu para todo mundo ficar no lugar.
O sinal do celular de Renato apareceu pela última vez às 10:23 nos registros da operadora, captado pela antena venezuelana. Depois disso, o aparelho sumiu do rastreamento.
Às 13 horas do dia 16 de agosto, Maurício tomou a decisão de conduzir o grupo de volta ao acampamento base sem Renato. Era o protocolo. Ele sabia que o guia não gostaria daquela decisão, mas também sabia que não tinha escolha.
Ninguém dos seis via Renato desde as 6:42 da manhã. Ninguém tinha ouvido nada, ninguém tinha visto nada. O grupo chegou ao acampamento base na tarde do dia 17.
A descida durou um dia inteiro porque a névoa não havia aberto e Maurício optou pelo caminho mais longo. Do lado brasileiro, que atravessa o território em Garicó e não passa por trechos de parede vertical com visibilidade reduzida.
Quando chegaram à área de recepção da trilha, Maurício foi direto ao telefone fixo da pousada comunitária gerenciada pela associação indígena na entrada do parque. Ligou para Roraima Explorer em Boa Vista. A gerente operacional que
atendeu se chamava Edilene. Edilene registrou a ocorrência às 17:40 do dia 17 de agosto. Às 18:12, a delegacia de Pacaraima abriu o boletim de ocorrência número 742
do ano de 2019. O delegado responsável era Fausto Mendonça, que trabalhava naquela delegacia havia 12 anos. Luciana soube pelo telefone. Edilene ligou antes que a polícia. Luciana atendeu na cozinha, ainda com avental, aquecendo o
feijão que tinha prometido ao marido que ia deixar pronto. Ela ficou em silêncio alguns segundos depois que Edilene terminou de falar. Depois pediu que repetisse. Dona Iraci chegou ao apartamento da Nora menos de 20 minutos depois de receber o
telefonema. Ela morava sete quarteirões. Veio a pé com a bolsa na mão, de chinelo, sem trocar de roupa. Quando entrou pela porta, encontrou Luciana sentada na cadeira da sala com o celular no colo e o feijão fervendo no fogão,
sem ninguém olhando. As duas ficaram acordadas a noite inteira. Na delegacia, o delegado Mendonça colheu o depoimento de Maurício em 68 minutos. Depois ouviu cada turista separadamente. A transcrição ocupa 41 páginas nos autos
do inquérito. O que todos disseram convergiu nos pontos fundamentais. Renato saiu sozinho cedo com névoa fechada. Não voltou. Ninguém viu nada. Um detalhe que Carla Ferreira acrescentou no depoimento e que não constava no relato de Maurício era
este: Na noite do dia 15, véspera do desaparecimento, por volta de meia-noite, ela acordou com um vento que entrou pela abertura da barraca. Olhou para fora e viu Renato de costas, parado do lado de fora, olhando para o noroeste
do platô. Ficou ali por tempo que ela não soube calcular. Quando ela acordou com o grupo na manhã seguinte, ele já estava no lugar de sempre, preparando o café como se nada tivesse acontecido. Os olhos dele tinham uma expressão diferente. Ela não soube explicar melhor
do que isso. O delegado Mendonça anotou, mas o foco das primeiras horas era encontrar um homem vivo num terreno de difícil acesso. O resto ficou para depois. Naquela noite, três familiares de Renato, incluindo os dois irmãos e um
primo, pegaram o carro em Boa Vista e foram até Pacaraíma. 194 km de estrada federal de madrugada. Levaram água, lanternas, casacos e esperança. Ainda não tinham noção do que era o Roraima por dentro.
Ainda não sabiam como uma montanha de arenito pode guardar uma pessoa como quem guarda um segredo. O Corpo de Bombeiros do Estado do Roraima recebeu a solicitação de busca na manhã do dia 18 de agosto. Eram 7:12
quando a primeira viatura saiu de Boa Vista com destino a Pacaraima, com oito bombeiros, dois cães farejadores da raça Labrador e equipamento de escalada para trabalho em parede vertical. O capitão que coordenou a operação se chamava Elvcio Souza.
Havia conduzido três operações anteriores no Roraima. Sabia o que aquela montanha representava em termos de dificuldade operacional? O platô do Hororaima tem uma área de aproximadamente 34 km².
Não é grande no papel, mas em campo é outra coisa. O topo é coberto por um labirinto de formações de arenito escuro, algumas com mais de 10 m de altura, que criam corredores, becos e câmaras, onde um homem em pé não é visto
a 5 m de distância. O chão é musgo encharcado. Plantas carnívoras de base larga e lagoinhas de água preta que variam de profundidade conforme a estação. O GPS funciona com intermitência. O rádio perde sinal em pontos específicos da topografia. Mesmo
assim, nos primeiros dois dias de busca, o resultado foi zero. Os cães farejadores chegaram ao topo no segundo dia, guiados por dois bombeiros especializados. Os animais reagiram ao odor de uma camiseta de Renato que a família havia fornecido.
Uma camiseta azul usada na semana anterior à expedição. Eles trabalharam durante 4 horas seguidas no platô, percorrendo os corredores principais. Num ponto específico a noroeste do acampamento, onde o grupo havia pernoitado, os dois
labradores pararam. Ficaram alguns segundos cheirando o ar, depois se deitaram no chão de musgo encharcado. É o comportamento que os condutores descrevem como perda de rastro. O cheiro simplesmente não continuava a partir daquele ponto. Isso
consta no relatório do capitão Elvcio. Ele registrou como incomum, mas não como inexplicável. Animais farejadores perdem rastros em terrenos de pedra, com chuva intensa, com correntes de vento. O Roraima tinha tudo isso, mas os condutores dos cães
disseram entre si mais tarde que nunca tinham visto os dois animais se deitar ao mesmo tempo daquele jeito. Disseram que eles não pareciam confusos, pareciam que tinham parado de propósito.
Em Boa Vista, Luciana não dormiu nos primeiros cinco dias. Ficava com o celular na mão, carregando e descarregando a tela da conversa com Renato no WhatsApp, olhando para o áudio das 6:42.
Escutou aquele arquivo centenas de vezes. Disse que precisava ouvir a voz dele para acreditar que ele ainda podia estar vivo. Dona Irassi rezava o terço às 6 da manhã. ao meio-dia e às 9 da noite, sentada numa cadeira de plástico branca
que ela havia trazido de casa e instalado na varanda do apartamento de Luciana, com um rosário de madeira que o padre da igreja Nossa Senhora de Fátima, do bairro Raiar do Sol, tinha benzido 30 anos antes. Você conseguiria continuar sua rotina sabendo que alguém da sua
família ainda não apareceu? Sabendo que lá em cima, numa montanha de arenito, com mais de 280 milhões de anos, alguém que você ama está sumido e o sinal do celular dele parou de existir.
A família organizou por conta própria uma caixinha de madeira com as fotos de Renato que foram distribuídas a delegacias e prefeituras da região. Ninguém pediu. fizeram porque em Roraima, quando o estado demora, as famílias aprendem a não esperar. No
quinto dia de busca, o capitão Elvércio expandiu a operação. Incorporou ao grupo dois guias PON contratados pela Roraima Explorer, que conheciam o Platô em partes que não constavam em nenhum mapa oficial. Os PEMON têm nomes para pontos
do topo que a cartografia não registra. Passagens entre blocos de pedra, câmaras formadas pelo achatamento natural das rochas, anfiteatros circulares de arenito, onde o eco multiplica qualquer som, ao ponto de parecer que vem de outro lugar.
O mais velho dos dois guias se chamava Tomás e tinha mais de 60 anos. Conhecia o Roraima desde criança, porque o pai e o avô também eram guias. disse ao capitão que havia lugares no topo onde ele próprio não entrava. Não
por medo, por respeito. Era a palavra que ele usou. No quinto dia, o grupo de busca se dividiu em quatro equipes, duas cobrindo as áreas já percorridas, uma avançando para o setor noroeste do platô, em direção ao ponto onde os cães
haviam parado. Uma quarta equipe seguiu Tomás. por um caminho que ele descreveu como uma passagem que poucos guias conheciam, entre dois blocos de arenito negro, que formavam um corredor estreito de uns 50 m de comprimento, com as
paredes se fechando por cima como uma fenda. A quarta equipe encontrou algo no fim desse corredor. Não era Renato, era uma mochila. Uma mochila velha de lona verde escura com alças de couro ressecado. Dentro havia três objetos:
uma garrafa de alumínio amassada, um caderno espiral com capa de plástico azul e um pedaço de tecido dobrado em quatro, que quando aberto tinha o tamanho de uma camiseta infantil. O caderno estava escrito: “Letra miúda, inclinada para a esquerda em português.
O capitão Elvécio foliou as páginas com luvas de procedimento. O que estava escrito pareciam descrições de lugares, direções, referências de pedras, distâncias estimadas em passos e, em algumas páginas palavras que não eram do português. Palavras que ninguém da
equipe conseguiu identificar. A mochila foi recolhida como evidência. Semanas depois, a perícia determinou que tinha mais de 20 anos. O caderno também. A última anotação tinha uma data, 7 de março de 2001,
mais de 18 anos antes da expedição de Renato. Nenhum desaparecimento oficial no Roraima naquele ano correspondia ao perfil do dono daquela mochila. Dona Iraci não soube da mochila de imediato.
A polícia não comunicou os detalhes à família. Ela ficou sabendo meses depois por Maurício Teles, que mantinha contato com os bombeiros por conta própria. Quando soube, ficou quieta por um longo tempo. Depois disse: “Então, não é a
primeira vez” e não estava errada. O inquérito policial aberto pelo delegado Fausto Mendonça foi arquivado por falta de elementos em 6 de fevereiro de 2020, quase 6 meses depois do desaparecimento.
A decisão chegou a Luciana por carta registrada. A carta tinha três parágrafos. O primeiro descrevia o andamento das buscas. O segundo dizia que não haviam sido encontrados indícios de crime e que a hipótese predominante era acidente com queda em área de
difícil acesso. O terceiro informava o número do processo para eventual consulta futura. Luciana leu três vezes, colocou num envelope plástico e guardou dentro de uma pasta com elástico que ficava embaixo da cama.
Na pasta havia cópias do boletim de ocorrência, fotografias da expedição, recibos da agência e um bilhete que Renato tinha deixado na geladeira antes de partir, escrito no verso de um cartão de visita, dizendo que tinha comprado goiabada para ela e que estava na
segunda prateleira. Luciana não comeu a goiabada, ficou lá por meses. A família de Renato entrou com representação na Defensoria Pública do Estado do Roraima, pedindo reabertura das investigações.
O defensor público que atendeu se chamava Cláudio Ibiapina. Ele aceitou o caso e protocolou no Ministério Público Estadual. O MP respondeu em 93 dias, dizendo que as buscas tinham sido realizadas dentro dos protocolos, que
não havia indícios de crime, que o caso estava devidamente registrado no Sinalid, o Sistema Nacional de Localização e identificação de Desaparecidos. Maurício Teles, por conta própria, voltou ao Roraima duas vezes, uma em outubro de 2019. Outra em março de 2020,
já com a pandemia começando, às duas vezes subiu até o topo e caminhou pelos setores que conhecia, chamando o nome de Renato. Na segunda subida, encontrou preso numa fenda de pedra, a cerca de 200 m do ponto onde os cães haviam parado, um
pedaço de tecido azul, do mesmo azul da camiseta que Renato usava na manhã do desaparecimento, descrita por todos os membros do grupo. O pedaço era pequeno, do tamanho de uma palma de mão aberta, desbotado pelo sol e pela umidade, sem sangue, sem rasgão,
como se alguém tivesse cortado um quadrado de pano com tesoura e enfiado naquela fenda. Maurício fotografou e desceu com o tecido no bolso do colete. Entregou ao delegado Mendonça pessoalmente. O laudo pericial confirmou que o tecido era de algodão azul com
fibras compatíveis com camiseta de uso comum, sem DNA identificável. O caso não foi reaberto naquele período. Luciana voltou ao plantão no pronto socorro três vezes por semana, porque o salário de Renato na agência tinha parado e ela
precisava das contas. Ela colocou uma foto pequena de Renato na beirada do armário de remédios do posto de enfermagem onde trabalhava. A foto do dia do casamento, ele de camisa branca e sorrindo. Ela disse mais tarde que colocou ali porque queria que alguém
além da família soubesse que aquele homem existia, que ele tinha nome, que estava sumido, que ainda não tinha voltado. O primeiro ano passou com a esperança ainda acesa, ainda que baixa.
O segundo ano passou com a dor transformada numa rotina que as famílias com desaparecidos conhecem bem. A leveza esquisita dos dias normais ao lado do peso que não vai embora. Dona Iraci continuou rezando o terço três vezes por dia, mas passou a andar com uma lista
dentro do bolso do casaco, um papel dobrado com o nome de Renato escrito com letra grande, o ano de nascimento e a data do desaparecimento. Ela levava aquele papel para todo lugar, na fila do mercado, na consulta, no posto de saúde, no banco, quando ia
sacar a aposentadoria do marido, ela dizia que carregava o papel para ele não ser esquecido. Para onde ela fosse, ele ia junto. Luciana foi a única consulta de psicologia que o convênio cobria.
Ficou em três sessões e parou porque não conseguia encontrar palavras. para explicar o que sentia uma profissional que não conhecia a Disse mais tarde que o problema não era a dor em si, era a indefinição. Morte tem velório, desaparecimento não tem nada, fica
aquela sala vazia onde a pessoa deveria estar. O mapa do Roraime moldurado na sala ficou no lugar durante os três anos inteiros. Ela não tirou e não explicou o porquê. No início de 2021, surgiu uma denúncia anônima num grupo de WhatsApp
entre moradores de Boa Vista. A mensagem dizia que um homem parecido com Renato tinha sido visto numa aldeia Yanomami, próxima à região de Surucucu, no extremo sul do estado, perto da fronteira com Amazonas.
A família levou a polícia consultou a FUNAI. A FUNAI consultou os agentes de campo. A resposta veio 4 meses depois. Nenhum homem correspondendo a descrição havia sido registrado naquela área. Em 2022 surgiu uma segunda denúncia por
mensagem direta no perfil que os irmãos de Renato mantinham nas redes sociais. Dizia que um homem havia sido visto em Puerto Ayacucho, do lado venezuelano da fronteira. pedindo comida em frente a um supermercado e parecendo confuso.
A denúncia veio de uma brasileira que morava lá. Luciana tomou um ônibus para Pacaraima e foi até a linha de fronteira. Tentou cruzar com os documentos do marido e uma foto. A imigração não deixou passar. Ela ficou três dias num banco em frente ao posto
de fronteira, esperando alguém que pudesse acionar do outro lado. Os irmãos mandaram mensagem para um contato na Venezuela. A pessoa foi até Puerto Aacuxo. Não encontrou ninguém.
Luciana voltou para Boa Vista no ônibus das 23 horas, com a bolsa no colo e o rosto virado para a janela durante toda a viagem. Ninguém a bordo sabia o que ela estava carregando. Cada família que já esperou por uma pessoa que sumiu sabe o que é esse tipo de noite. Esse ônibus
que anda devagar na estrada escura, esse peso que não tem palavras. Ao então chegou outubro de 2022. Na tarde do dia 18 de outubro de 2022, uma carreta com placa de Roraima parou no acostamento da BR17,
sentido Boa Vista, no qum 237. O motorista Élcio Barreto havia notado uma figura na beirada da estrada que lhe pareceu estar mal. Ele desceu e foi ver.
Era um homem sentado na ribanceira de terra seca à margem da rodovia, descalço, com calças compridas de tecido grosso cor de caqui desgastadas nos joelhos. Uma camisa de manga longa em tom indefinido entre o bege e o cinza, manchada de terra seca. Barba com mais
de 10 cm, cabelo comprido e opaco, coberto de poeira vermelha. Él perguntou se o homem estava bem. O homem respondeu, mas não em português. O que o motorista ouviu, segundo seu depoimento posterior, foi algo que parecia uma língua com ritmo regular,
com sons culturais e vogais abertas, pronunciado com calma, sem agitação. O homem não parecia com medo, não parecia ferido, parecia apenas cansado. Él ligou para o 192. A Polícia Rodoviária Federal chegou em 26 minutos
com duas viaturas. Os agentes tentaram se comunicar em português, em espanhol. Um deles conhecia algumas palavras de anomame de uma capacitação. Nenhuma dessas línguas produziu reação de reconhecimento no homem. O samo chegou
em seguida. Os paramédicos verificaram os sinais vitais. A pressão estava baixa, mas estável. Os pés apresentavam calosidade de uma extensão que sugeria meses ou anos sem calçado, a sola endurecida como couro curtido. O peso
era de 58 kg para 1,78 m de altura. O médico que examinou depois anotou marcas no antebraço esquerdo que podiam ser cicatrizes antigas, mas não confirmou a origem. O homem foi levado ao hospital geral de Roraima. Na ficha
de admissão, o campo de identificação ficou como desconhecido. A identificação veio por comparação fotográfica três dias depois. A médica responsável pelo caso, a Dra. Salete Mota, pediu à assistência social que consultasse o
Sinalid. Um servidor da Polícia Civil cruzou as características físicas com os registros de desaparecidos do estado. O nome de Renato Paiva Melo apareceu na busca. A confirmação veio por impressão digital e foi comunicada à família na
tarde do dia 21 de outubro. Luciana estava no plantão quando o telefone tocou. O número era desconhecido. Ela atendeu, achando que era engano. Quando desligou, ficou parada no corredor do pronto socorro por um tempo que ela não soube quantificar. Uma
colega perguntou se estava bem. Ela disse que sim. Foi ao banheiro e chorou encostada na parede de azulejo branco durante alguns minutos. Depois voltou ao plantão. Dona Iraci chegou ao hospital naquela noite com os dois irmãos e o primo. Entrou no quarto e ficou parada
na porta por um momento. O homem deitado na cama, com o soro no braço e a barba por fazer, tinha a testa de Renato, os ombros de Renato, as mãos grandes de Renato. Ela se aproximou devagar, segurou a mão dele, falou o nome em voz baixa, do jeito que
chamava quando ele era criança. O homem virou o rosto para ela, olhou e falou algo. Não era português. Nas primeiras duas semanas de internação no Hospital Geral de Roraima, Renato Paiva Melo não pronunciou uma única palavra em português.
não demonstrou reconhecer o idioma quando era falado a ele. Respondia perguntas com um fluxo contínuo de fala na língua desconhecida, às vezes mais longa, às vezes mais curta, com um ritmo que a equipe médica descreveu como organizado e regular, diferente da fala
desestruturada de alguém em surto ou em estado confusional. A do Salete Mota solicitou apoio linguístico da Universidade Federal de Roraima. Um professor Tour do Departamento de Letras foi ao hospital e registrou em gravação 32 minutos de fala
de Renato. Encaminhou o material para dois colegas com especialização em línguas indígenas da Amazônia. Os dois especialistas ouviram o material separadamente. As conclusões foram parecidas. A língua apresentava estrutura sintática com
elementos que podiam remeter às famílias linguísticas Caribe e Araque, presentes entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana. Mas havia sons que não correspondiam a nenhuma língua conhecida dentro dessas famílias. uma categoria de sons velares
repetitivos que não existia em nenhum idioma catalogado daquela região. O material foi encaminhado a FUNAI, depois ao Instituto Socioambiental, depois, por solicitação do Ministério Público Estadual a dois linguistas da
Universidade de São Paulo. Nenhum chegou a uma conclusão fechada. O laudo oficial da Funai, produzido 23 dias após o reencontro, diz em síntese o seguinte: “Os elementos fonológicos analisados não permitem identificar a língua como
pertencente a nenhum grupo linguístico catalogado no Brasil, na Venezuela ou na Guiana. Não se descarta a hipótese de criação linguística por isolamento prolongado. Fenômeno documentado em estudos de privação social severa.
Recomenda-se acompanhamento longitudinal. Isolamento prolongado é o termo técnico que os linguistas usam quando uma pessoa passa tempo suficiente sem contato humano, a ponto de o cérebro reorganizar a linguagem a partir de fragmentos
internos. É um fenômeno raro documentado em casos extremos de pessoas que cresceram sem exposição à fala. Nesses casos, ainda é possível identificar os fragmentos da língua base na reorganização, os pedaços de onde veio. No caso de
Renato, os linguistas não encontraram essa base com clareza. Os fragmentos presentes na fala não reconstruíam o português, não reconstruíam o espanhol e não reconstruíam nenhuma língua indígena específica conhecida.
Se fosse com você, com alguém da sua família, você acreditaria no que o laudo disse? Você conseguiria ler aquelas 12 páginas e aceitar que a palavra criação é suficiente para explicar uma língua inteira que ninguém no Brasil conhece?
Na semana de 4 a 11 de novembro de 2022, Renato começou a pronunciar as primeiras palavras em português. A primeira foi mãe, a segunda foi água, a terceira foi Luciana. Foram dias difíceis para a família, mas não pelo que ele disse,
pela forma como disse. Devagar demais, como quem está colocando peso em cima de sons que existiam guardados em algum lugar fundo e que precisam ser aprendidos de novo, um por um.
A língua desconhecida foi diminuindo gradualmente ao longo das semanas, mas nunca desapareceu completamente. Ao longo de 46 dias de internação, com o acompanhamento de fonaudiologia e psiquiatria, Renato Paiva Melo foi recuperando o português de forma
progressiva. Havia dias em que falava confluência quase normal. Havia dias em que misturava as duas línguas numa alternância que a fonoaudióloga responsável descreveu em seus registros como troca de código com base desconhecida.
Nas sessões de psiquiatria conduzidas pelo Dr. Wagner Portela, Renato foi construindo um relato fragmentado. As sessões foram gravadas com autorização da família. Partes do relato chegaram à mídia local de Boa Vista por um vazamento de
informações que nunca foi apurado. O que Renato disse, em síntese, conforme o que se tornou público, é isto. Ele saiu do acampamento na manhã de Névoa para verificar a trilha. Em algum ponto do corredor de pedras, a noroeste do
acampamento, a neblina fechou de tal forma que ele perdeu a referência de direção. Tentou o rádio sem resposta. Caminhou tentando reencontrar o caminho. Encontrou uma passagem entre dois blocos de arenito que não conhecia. Entrou
porque achava que levava de volta ao acampamento. A partir daí, o relato fica fragmentado. Renato disse que encontrou pessoas do outro lado da passagem. Não soube descrever com clareza quem eram.
disse que não era um grupo grande. Disse que havia abrigo entre as pedras, uma câmara protegida do vento, que ele não havia visto em nenhuma expedição anterior, que havia fogo, que havia comida, raízes e frutos que ele não reconhecia, que o trataram bem.
Quando o psiquiatra perguntou em que língua essas pessoas falavam com ele, Renato respondeu na língua desconhecida. A sessão foi interrompida enquanto ele ficou naquele estado de alternância. Quando voltou ao português, disse: “Eu aprendi a fala deles. Eles
não aprenderam a minha. sobre os três anos, ele não tinha uma percepção de tempo correspondente. Estimava que havia passado poucas semanas, talvez dois ou três meses. Quando lhe mostraram a data real no visor de um celular, ficou olhando em
silêncio por um tempo longo, depois disse: “Não pode ser.” Nunca disse que foi mantido contra a vontade. Nunca disse que tentou sair antes. Disse numa das últimas sessões registradas que saiu quando sentiu que precisava voltar.
Não soube explicar melhor do que isso. O Dr. Wagner Portela, em entrevista posterior a um jornal de Boa Vista, disse que o caso apresentava elementos sem paralelo na literatura clínica.
disse que o diagnóstico mais próximo seria um episódio dissociativo prolongado, potencialmente associado a privação sensorial e isolamento geográfico extremo. Disse que outras hipóteses foram consideradas, mas que não havia elementos suficientes para confirmá-las.
Disse também que o estado físico do paciente era surpreendente para o tempo de exposição, sem parasitas graves, sem desnutrição severa, com função cognitiva preservada em graus variados, a palavra surpreendente ficou no ar. Ninguém
acrescentou nada depois dela. Depois da alta hospitalar, Renato voltou a morar com Luciana no apartamento do bairro Asa Branca. Quando entrou pela porta, ficou parado por alguns segundos na sala. O mapa do Roraima ainda estava na parede,
com as rotas marcadas à caneta vermelha. Ele olhou para o mapa, depois foi se sentar no sofá. Não pediu para tirar, não pediu para deixar, nunca mais subiu ao Roraima, nunca mais trabalhou como guia. Mas em certas noites, segundo
Luciana, ele acorda e fica sentado na beira da cama, olhando para a janela na direção do norte, e, às vezes, muito baixinho, ele fala algumas palavras na língua que ninguém reconhece. Renato Paiva Melo continua morando em Boa Vista. Passou a trabalhar alguns anos
depois do retorno como auxiliar de manutenção numa empresa de serviços da cidade. Não fala publicamente sobre o que viveu no Roraima. F. A família optou por não conceder entrevistas depois das primeiras que saíram logo após a atapalar.
O laudo linguístico da FUNAI nunca foi seguido de novos estudos publicados. Os arquivos das gravações das sessões de psiquiatria estão guardados, não foram tornados públicos. A mochila encontrada no corredor de pedras, com o caderno de
anotações e as palavras em língua não identificada, permanece num arquivo da delegacia de Pacaraima. O nome do dono, se é que havia um nome registrado em algum lugar, nunca foi encontrado. O desaparecimento de 2000 e um ao qual a
data no caderno possivelmente remete, continua sem correspondência nos registros oficiais. O Corpo de Bombeiros do Estado do Roraima continua recebendo ocorrências de desaparecimento em expedições ao TEPUI. O protocolo de busca é o mesmo.
Os cães continuam subindo ao topo. A névoa continua fechando. O que aconteceu com Renato Paiva Melo entre 16 de agosto de 2019 e 18 de outubro de 2022 não tem uma resposta que caiba em laudo médico,
em diagnóstico psiquiátrico ou em número de processo policial. O que existe é um homem que voltou depois de mais de três anos. Uma esposa que esperou com uma foto encostada no armário de remédios do posto de enfermagem onde trabalhava. Uma mãe que rezou o terço três vezes por dia
durante 1126 dias seguidos e que carregou um papel dobrado com o nome do filho dentro do bolso do casaco, em toda fila de mercado, em toda consulta no posto, em toda vez que saiu de casa. e uma língua
que linguistas de três estados brasileiros declararam não conseguir identificar. Histórias como essa não pedem explicação, pedem escuta, pedem memória, pedem que a gente não deixe que se transformem em silêncio. Porque o que pesa nas famílias que vivem com um
desaparecido não é só a ausência, é a indefinição. É não saber se acende uma vela de esperança ou uma de saudade. É ter que escolher entre manter a roupa dele na gaveta ou doar para alguém que precisa.
é carregar essa decisão pequena como se fosse uma traição em qualquer uma das direções. Dona Iraci ainda tem o papel dobrado dentro do bolso do casaco. O papel está amassado de tanto ser guardado e aberto, mas o nome está lá, a
letra grande e caprichada que ela mesma escreveu. Renato, ela não tirou o papel depois que ele voltou. perguntaram porê. Ela não soube explicar direito. Só disse que havia ficado acostumada a andar com ele, que parecia que se tirasse alguma coisa
ia desfazer. E assim ela continua com o papel no bolso, com o filho em casa, com o mapa do Roraima na sala da nora, com perguntas que ninguém respondeu, com o rosário de madeira que o padre benzeu 30 anos atrás e que ela usa toda manhã, toda tarde, toda a noite, com a memória
intacta de cada dia que esperou e com a certeza silenciosa que só quem esperou assim conhece, de que esperar também é uma forma de não deixar ir.