Atualização sobre o caso da família Aguiar: A investigação revela o uso de engano para atrair um idoso e seis pessoas foram processadas em conexão com esse plano horrível
O desfecho do inquérito e o choque que abalou a comunidade gaúcha
A longa espera que consumiu a paciência e a esperança de parentes e moradores da cidade de Cachoeirinha chegou a um ponto de ruptura com a apresentação formal das conclusões da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Foram oitenta e três dias de investigações intensas, marcados por um trabalho de inteligência que resultou em um dos maiores inquéritos criminais da história recente do estado.
Com mais de vinte mil páginas e arquivos digitais que ultrapassam dez terabytes de dados, a apuração técnica desmontou a narrativa de mero sumiço e colocou no centro das acusações o policial militar Cristiano Dominguez Francisco. Ao todo, seis pessoas foram indiciadas por participarem de forma ativa na execução dos crimes, na dissimulação do cenário dos fatos e na ocultação de vestígios vitais.
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O primeiro ataque na noite de sábado e o assassinato de Silvana
A reconstrução cronológica montada pelas forças policiais demonstra um nível assustador de frieza e premeditação executado ao longo de meses. De acordo com as análises de circuitos de segurança, na noite de sábado, vinte e quatro de janeiro, Cristiano foi até a residência de Silvana Guerman Aguiar a bordo de um veículo Fox vermelho por volta das vinte horas e trinta e quatro minutos. Como a ex-companheira ainda não havia chegado, ele permaneceu no local por cerca de sete minutos antes de se retirar.
Silvana chegou pouco mais de uma hora depois, estacionando o carro nos fundos do terreno. O retorno fatal do suspeito ocorreu às vinte e três horas e trinta e dois minutos. Em um intervalo de apenas doze minutos, a mulher foi morta, com indícios periciais apontando para asfixia mecânica decorrente de treinamento de imobilização física, técnica que não deixa derramamento massivo de sangue.
A emboscada tecnológica e o uso de inteligência artificial
Para neutralizar a família da vítima e evitar que as buscas começassem precocemente, o policial militar recorreu a um mecanismo inédito e perturbador. A perícia realizada no disco rígido do computador do investigado revelou buscas prévias feitas exatamente no dia vinte e quatro de janeiro sobre aplicativos de clonagem de voz por inteligência artificial. Com o aparelho celular de Silvana em mãos logo após matá-la, ele simulou a voz da mulher para mandar áudios e mensagens aos pais dela, alegando que havia sofrido um acidente de trânsito e que a residência estava com problemas na rede de energia elétrica. Essa manipulação digital serviu como uma armadilha fatal para atrair os idosos até o endereço onde o primeiro crime já havia sido consumado.
O desespero do pai e a execução covarde na casa da filha
No domingo, vinte e cinco de janeiro, imagens de câmeras de vigilância registraram um dos momentos mais comoventes de todo o caso: o idoso Isaí Vieira de Aguiar, de sessenta e nove anos, em frente à Segunda Delegacia de Polícia de Cachoeirinha, ao meio-dia e vinte e dois minutos. Acompanhado da esposa Dalmira, ele tentava desesperadamente registrar o desaparecimento da filha, mas encontrou as portas do plantão fechadas. Sem conseguir atendimento formal, o casal chegou a pedir auxílio a uma viatura da Brigada Militar na rua, externando suas desconfianças contra o ex-genro.
Poucas horas depois, Cristiano utilizou o veículo SpaceFox de sua atual companheira para conduzir o senhor Isaí até a casa de Silvana, sob o pretexto de reparar a caixa de luz externa. Os dois entraram no imóvel às dezesseis horas e vinte e nove minutos. Vinte minutos mais tarde, às dezesseis horas e quarenta e oito minutos, o suspeito saiu sozinho no automóvel. Naquele curto intervalo, o pai de Silvana foi brutalmente assassinado por asfixia, tendo seu sangue detectado posteriormente pela perícia forense no pátio e nas dependências dos fundos.
O assassinato de Dalmira e a madrugada de movimentações
A sequência sanguinária não poupou a mãe de Silvana. Dalmira Aguiar foi assassinada em circunstâncias que a polícia aponta terem ocorrido em sua própria moradia ou em ponto próximo ao comércio da família, em ação voltada exclusivamente para eliminar testemunhas que já desconfiavam da autoria do crime. Na madrugada de segunda-feira, vinte e seis de janeiro, Cristiano voltou à casa da ex-esposa com o Fox vermelho entre três horas e nove minutos e três horas e quarenta e sete minutos.
Durante quase quarenta minutos de atuação na calada da noite, ele recolheu os corpos para descarte em área desconhecida entre os municípios de Gravataí e Cachoeirinha. Na manhã do mesmo dia, sem demonstrar cansaço ou arrependimento pelo fim de semana de horror, o agente se apresentou normalmente ao batalhão de serviço em Canoas, mantendo o telefone de Silvana ativo sob o mesmo sinal de antena de seu aparelho particular.
A lista de crimes e a teia de comparsas indiciados
A gravidade dos atos cometidos resultou no indiciamento do policial militar por oito delitos graves: feminicídio, duplo homicídio qualificado para encobrir crimes anteriores, ocultação de cadáver, furto qualificado pelo roubo de celular e televisor, fraude processual, falsidade ideológica, associação criminosa e abandono de incapaz, já que deixou o próprio filho de nove anos trancado e isolado em casa enquanto consumava os ataques.
Contudo, o cerco probatório atingiu também seu círculo familiar e íntimo. O irmão Wagner e a atual esposa Milena Domingues foram indiciados por ocultação de cadáver, fraude processual, associação criminosa e furto qualificado, acusados de articular a limpeza de rastros e assumir bens da vítima. A mãe do policial, a sogra dele e um amigo de longa data também acabaram indiciados por fraude processual, falso testemunho e associação criminosa, revelando um esforço conjunto para proteger o executor e ludibriar os peritos.
A busca pelos corpos e a dor insuperável dos parentes
Apesar do encerramento do inquérito e do encaminhamento do material para apreciação do Ministério Público, o drama central permanece em aberto diante da ausência dos corpos das três vítimas. O delegado Anderson Spier admitiu publicamente que uma das linhas apuratórias considera que o autor possa ter colocado os três corpos no interior do Fox vermelho e submergido o veículo em algum manancial hídrico ou desmanchado a lataria inteira com ajuda clandestina.
A defesa de familiares de Silvana agora move ações judiciais urgentes para retirar a guarda do menino de nove anos das mãos da avó paterna indiciada, exigindo que a criança seja acolhida pelos parentes maternos. Enquanto o Ministério Público prepara a denúncia oficial para levar os acusados ao Tribunal do Júri, a comunidade e os familiares mantêm uma vigília comovente, clamando para que a verdade prevaleça e que os restos mortais de Silvana, Isaí e Dalmira sejam finalmente encontrados para receberem uma despedida digna.