Uncategorized

Ninguém queria a terra cheia de pedras que sobrou pra ela — anos depois, era a mais fértil de todas.

A primeira pedra que Aparecida Nogueira arrancou daquele chão numa manhã de setembro de pesava quase 13 kg e tinha o formato de um coração torto. Saiu preta, com terra grudada nas costas, como se fosse uma casca antiga, e ela precisou dos dois joelhos apoiados no barro seco para trazê-la à superfície. Quando finalmente conseguiu, largou a pedra no coxo do carrinho de mão enferrujado e escutou o barulho oco de metal batendo em metal.

Um som que ela ainda ia ouvir milhares de vezes ao longo daqueles quatro meses. Do outro lado da cerca, um menino de cerca de 10 anos parou a bicicleta e ficou olhando. Depois seguiu para casa e contou à mãe que a dona Cida tinha enlouquecido de vez, porque estava catando pedra no meio do sol das 10 horas, com um lenço na cabeça e uma calça de brinque tinha sido do marido dela.

A mãe do menino não respondeu, só balançou a cabeça do jeito que se balança a cabeça para as coisas que não têm mais jeito. E ainda naquela tarde, quando o sol começou a cair, Aparecida tinha juntado 87 pedras. Contou uma por uma. Anotou o número num caderno de capa dura na primeira linha da primeira página e ao lado escreveu apenas: “Dia um”.

Aparecida Nogueira tinha 52 anos quando herdou aquele pedaço de terra. E não foi bem uma herança, foi mais uma sobra. O pai dela, o velho Sebastião Nogueira, tinha morrido em maio, no fim de uma vida inteira criando cabra e plantando milho num sítio de 19 haares no agreste de Pernambuco, entre Pesqueira e São Bento do Una.

Na hora da partilha, os três irmãos mais velhos ficaram com as partes boas. O irmão do meio, também chamado Sebastião como pai, pegou os sete hectares de baixio com o poço e o pé de um bu grande. O mais velho, o Genivaldo, pegou os 5 hectares que davam frente pra estrada, onde já tinha um curral de pedra pronto.

E a irmã Tereesinha, que morava em Caruaru, ficou com os 3 hactares onde tinha a casa velha. sobraram para Aparecida 4 hectares e 70 ares de um terreno que ninguém quis no fundo do sítio, encostado no morro, cheio de pedra por todo lado, com uma inclinação que em alguns pontos passava de 12%. Terra ruim, todo mundo dizia, terra que não segurava chuva, não segurava semente, não segurava nem cabra, porque cabra ali torcia o pé.

Na hora de assinar, o Sebastião ainda disse à irmã, com a voz de quem faz um favor, fica com essa sida que pelo menos serve para você criar galinha. Aparecida assinou. Não respondeu nada. guardou o papel dobrado no bolso do vestido e voltou para casa a pé, os 4 km pela estrada de Barro, porque naquele tempo ela ainda não tinha carro e o marido dela, o Adalberto, já tinha morrido fazia 7 anos de uma parada do coração em cima do trator.

Ficaram só ela e a filha Marle, que tinha ido embora para Recife Estoço de enfermagem e vinha em casa só nas festas. Naquele mês de maio, quando a Paresítida chegou em casa com o papel da partilha, sentou na cozinha, botou o papel em cima da mesa, olhou para ele por um tempo bem grande e disse baixinho: “Como quem faz uma promessa que ninguém precisa ouvir? Vamos ver.

” Passou quatro meses só pensando. Passou quatro meses, só fez. foi na Emater de Pesqueira duas vezes, foi na biblioteca da paróquia uma vez e leu, sublinhando com uma caneta bica azul, tudo que encontrou sobre solos pedregosos, sobre agricultura de encosta, chamavam de cordão de pedra em contorno. Em setembro, decidiu começar.

Não avisou ninguém, só pegou o carrinho de mão do marido, um pé de cabra, uma enchada e foi. O irmão Sebastião ficou sabendo pela mulher dele, que ficou sabendo pela vizinha, que ficou sabendo pelo menino da bicicleta. Chegou lá no terceiro dia de caminhoneta e desceu já rindo. Ele olhou o carrinho de mão com as pedras empilhadas, olhou o caderno aberto em cima de uma lona, olhou a irmã suada com o lenço na cabeça e riu de novo.

Um riso que não era de raiva, era pior. Era um riso de pena. Você não tá boa da cabeça. Isso aqui não vira nada. Isso aqui é chão de lagarto. Aparecida não parou de arrancar a pedra que estava arrancando. Só respondeu: “Sei o que eu tô fazendo.” Só respondeu sem levantar os olhos. Sebastião falou mais uma hora. Disse que ela ia acabar com as costas, que ia gastar dinheiro à toa, que ia virar piada em pesqueira inteira.

Su, ofereceu comprar de volta o pedaço o por R$ 3.000. Sea balançou a cabeça uma vez devagar e disse que não. Sebastiã foi embora balançando a cabeça também. Duas semanas depois apareceu o Zé Raimundo, o vizinho de cerca, dono do sítio ao lado. Zé Raimundo era mais velho, mais quieto e mais perigoso porque não ria, só constatava. Ele parou o cavalo na porteira.

Ficou um tempo olhando o serviço já feito. Nessa altura, ela já tinha arrancado mais de 1000 pedras, todas empilhadas em montinhos no alto do morro, e falou uma frase só: “Cida, terra pedregosa não muda. Não, terra pedregosa é assim, porque Deus fez assim.” Ela olhou para ele, limpou a testa com as costas da mão e respondeu com uma frase que o Zé Raimundo repetiria depois em muitas conversas de armazém, sem entender direito o por ficou marcada na cabeça dele.

Seu Zé, terra ruim é a que ninguém quis escutar. Essa que ainda não foi escutada. Na quinta semana, quando Aparecida já tinha catado, contado e empilhado 3842 pedras, ela foi de novo até Emater de Pesqueira e, dessa vez pediu para falar com um técnico. foi atendida por um rapaz magro de óculos chamado Vanderlei Barbosa, agrônomo formado em Serra Talhada, que tinha do anos de casa e uma paciência que os colegas mais velhos já tinham perdido.

Ela contou o que estava fazendo, mostrou o caderno, depois pediu duas horas de folga ao chefe subiu na moto e foi com ela até o terreno. O que ele viu foi um morro de inclinação irregular, com o topo mais seco e a base mais úmida, solo raso, talvez 20 cm até a rocha mãe em vários pontos e um número impressionante de pedras já removidas e organizadas.

Vanderlei tirou da mochila um nível de mangueira, uma trena de 50 m e um caderno de campo. Passou o dia inteiro medindo com ela. No fim da tarde, sentaram os dois debaixo do único pé de aroeira que tinha no terreno, e ele desenhou com a caneta o que ia ser preciso fazer. O plano tinha um nome técnico: cordões de pedra em contorno associados à adubação verde com leguminosas de cobertura.

Era uma prática recomendada pela emebrapa semiárido para terrenos exatamente como o dela em costas de solo raso e pedregoso na região do agreste. Funcionava assim. As pedras que Aparecida já estava arrancando não iam ser jogadas fora, nem vendidas, nem empilhadas em canto nenhum. Iam virar linhas, cordões. Cada cordão seria uma fileira baixa de pedra com cerca de 40 cm de albiça e 60 de largura.

de altura e 60 de largura na base, construído seguindo as curvas de nível do terreno, ou seja, atravessando a encosta na horizontal, nunca subindo e descendo. A distância entre um cordão e outro seria calculada pela inclinação. Naquela encosta, com 12% de declive médio, os cordões precisavam ficar a cada 15 m de distância vertical, nos trechos mais íngremes, a cada 10.

A função dos cordões era simples de dizer e difícil de fazer. Segurar a água da chuva. Quando chovesse no agreste chove pouco, mas quando chove chove com força. A água iria descer pela encosta, arrastando terra, semente, adubo, tudo. Os cordões iam barrar essa descida. Cada linha de pedra seria uma pequena barragem que não segurava a água totalmente, deixava passar aos poucos, mas segurava a terra que a água carregava.

Com o tempo, atrás de cada cordão ia-se formar um degrau natural de solo depositado, um terraço, mas construído pela própria enchurrada no ritmo dela. Vanderley explicou que em tr 4 anos o que hoje era encosta pedregosa ia ter atrás de cada cordão uma faixa de terra fofa de 30 40 cm de profundidade. Terra nova feita pela chuva.

e pelas pedras. Mas os cordões sozinhos não bastavam. precisava ao mesmo tempo alimentar o solo. Vanderley recomendou plantar entre os cordões feijão de porco e mucuna preta, duas leguminosas de cobertura que crescem rasteiras, cobrem o chão inteiro em três meses e tem uma capacidade que os agrônomos chamam de fixação biológica de nitrogênio.

raízes que puxam o nitrogênio do ar e devolvem ao solo sem custo, sem adubo comprado. Além disso, quando as plantas morressem no fim do ciclo, iam virar matéria orgânica em cima da Terra, uma cobertura viva que segurava a umidade, protegia do sol e alimentava a vida do solo. Os fungos, as minhocas, as bactérias que fazem terra virar terra fértil.

Aparecida escreveu tudo, perguntou sobre sementes. Vanderley disse que a Emater tinha um convênio. Ele conseguia 10 kg de feijão de porco e cinco de mucuna de graça, se ela se comprometesse a devolver o dobro depois da colheita para o banco de sementes comunitário. Ela concordou. Começou a construção dos cordões na semana seguinte e foi ali que veio o primeiro erro.

Aparecida, com pressa e sem experiência, montou os três primeiro as pedras no chão, sem cavar nada por baixo. Ficou bonito, ficou reto, ficou firme, aparentemente na primeira chuva de novembro, que caiu com 32 mm em 40 minutos, os três cordões desabaram. A enchurrada passou por baixo, contornou, levou pedra, levou terra e abriu um suco na encosta que ela levou uma semana para tapar.

Aparecida chorou naquela noite. Foi a única vez. No dia seguinte, voltou para Emater e disse a Vanderlei [limpando a garganta] o que tinha acontecido. Ele foi de novo com ela ao terreno, olhou o estrago e disse: “Sem dramatismo nenhum. A senhora esqueceu de assentar. explicou de novo. Agora com um desenho no chão.

Antes de empilhar as pedras, era preciso cavar uma valeta rasa de 15 a 20 cm de profundidade, seguindo a curva de nível, colocar as primeiras pedras, as maiores, as mais chatas, dentro da valeta, calçando bem, e só então levantar o cordão em cima. Assim, o cordão ficava fincado no chão, ancorado, e a água passava por cima ou entre as pedras, nunca por baixo.

Refez tudo. >> Aparecida refez tudo. Levou mais três meses. Se meses depois arrancar a primeira pedra, ela tinha construído 18 cordões de pedra em contorno, totalizando cerca de 1300 m lineares de barreira, usando aproximadamente 14.000 pedras. número exato contado no caderno. Entre os cordões plantou o feijão de porco e a mucuna, com espaçamento de 40 cm entre covas, duas sementes por cova.

E esperou. Choveu em março, choveu em abril. Os cordões seguraram. Ela sabia que tinha dado certo antes de olhar direito, porque quando desceu o morro depois da chuva mais forte, sentiu embaixo do pé descalço que o chão estava mole nos degraus atrás de cada cordão e duro no meio entre um cordão e outro. A terra estava começando a se formar exatamente onde Vanderley tinha desenhado que ia se formar.

Em julho, o feijão de porco cobriu tudo, uma folhagem verde escura, densa, que escondeu o chão inteiro entre os cordões e chegou nos joelhos dela quando ela andava. A mucuna cresceu por cima do feijão, se enrolando, criando uma segunda camada. Aparecida não colheu nada naquele ano. Não era para colher.

As duas leguminosas foram deixadas no chão, cortadas no cutelo em novembro. Quando começaram a secar e viraram uma manta grossa de palha em cima da terra, Vanderley explicou que aquela palha era o adubo, que dali a três meses ela ia estar preta, dissolvida, virando matéria orgânica, e que só no segundo ano sobre essa base se podia começar a plantar o que dá comida: feijão de corda, milho, mandioca, gerimum.

No segundo ano, ela plantou feijão de corda entre os cordões mais baixos, onde a terra já tinha uns bons 20 cm de solo depositado. Colheu 74 kg num pedaço em que dois anos antes não crescia nem mato. Plantou o mandioca em cima. Plantou gerimum cabóclo em volta dos cordões, deixando as ramas correrem por cima das pedras. Uma técnica que Vanderlei tinha aprendido com uma agricultora de custódia e que aproveitava as pedras aquecidas pelo sol para amadurecer o gerimu mais rápido.

Foi funcionando lentamente, teimosamente, como as coisas certas costumam funcionar. E foi aí que veio a seca. No começo de 2012, o inverno não veio. As primeiras chuvas de janeiro, que naquela região sempre marcavam o início do plantio, simplesmente não caíram. Março secou. Em abril, o Inmet declarou oficialmente a estiagem no agreste pernambucano e em maio, o governo do estado decretou situação de emergência em 122 municípios.

Foi o começo do que ficou conhecido como a maior seca do Nordeste em 50 anos. Uma estiagem que se estendeu com pequenas interrupções até 2017. Os poços começaram a baixar em junho. Em agosto, o poço do irmão Sebastião no Baixo, que sempre tinha dado água boa, deu barro. As pastagens do Genivaldo na frente da estrada viraram um tapete cor de couro.

As cabras do Zé Raimundo começaram a morrer em setembro. Os caminhões pipa passavam três vezes por semana pela estrada de barro e as filas na cisterna comunitária começavam às 4 da manhã. Em Pesqueira, o gerente da Emater foi transferido e Vanderlei, promovido a coordenador regional, quase não conseguia mais visitar terreno de agricultor pequeno, porque estava viajando pelas frentes de emergência da estiagem.

A conversa em pesqueira no armazém na feira do sábado era só uma: quem ia aguentar e quem ia vender. Muita gente vendeu, muita gente foi embora. Mais um turno da velha migração do sertão. Mais um turno da velha do sertão para São Paulo, para Recife, pro sul da Bahia. O irmão Sebastião não vendeu, mas quase. Em outubro de 2012, com o baix pasto e sem quase nenhum bicho de pé, ele começou a conversar em voz baixa com um sujeito de Caruaru, que oferecia comprar os 7 haares por um preço que 10 anos antes teria sido uma ofensa.

A mulher dele pediu que esperasse mais um mês. Ele esperou e num sábado de novembro, em vez de ir para Caruaru assinar papel, resolveu, sem saber bem porquê, passar antes no fundo do sítio para ver como estava a irmã. Sebastião entrou pela porteira de estaca torta, do jeito que sempre entrava, e, no primeiro instante achou que tinha errado o caminho.

Parou o Chevete na sombra do que sobrou de um pé de umbu, desceu e ficou parado com a mão em cima da porta, olhando. O que ele estava vendo não podia ser o pedaço de terra que ele tinha achado ruim demais até para si mesmo 3 anos e meio antes. O morro estava verde. Não era um verde de chuva recente, porque chuva recente não tinha havido.

Um verde meio poeirado, meio cansado, mas verde. As folhas do feijão de corda, que já tinha sido colhido em maio, tinham secado no pé e formado uma camada rasteira que cobria o chão. Por cima, os pés de mandioca, aqueles pés altos de cana verde clara com folhas em forma de mão, estavam de pé, todos sem uma folha amarela, distribuídos em fileiras entre linhas cinzentas que ele demorou um pouco para reconhecer como sendo de pedra.

E os gerimuns, a coisa que mais impressionava, os gerimuns cabóculos, redondos, cor de barro, estavam pousados em cima das pedras dos cordões, como se estivessem esperando alguém. Ele contou 22 só no primeiro cordão. Aparecida saiu de trás da casinha de taipa que ela tinha levantado no ano anterior com um balde de alumínio na mão, uma pá pequena na outra, o suf e o mesmo lenço na cabeça, viu? O irmão não disse nada.

Só apoiou o balde no chão, esperou. Sebastião andou uns 15 passos morro adentro, abaixou, passou a mão na terra debaixo da palha do feijão. A terra estava fresca, fresca. Em novembro, no meio da seca do século, no agreste, onde a última chuva significativa tinha caído em fevereiro do ano anterior, a terra ainda estava fresca embaixo daquela cobertura.

Ele encolheu os dedos, apertou um punhado e o punhado ficou junto do jeito que só terra com matéria orgânica de verdade fica junta. Sebastião abriu a mão devagar, olhou o punhado escorrer e ficou nessa posição agachado por um tempo bem longo. Quando se levantou, não olhou para a irmã. Olhou para o alto do morro, para os 18 cordões de pedra desenhados na encosta, como linhas de um caderno pautado para a mandioca em pé, para os gerimuns pousados nas pedras.

E quem o conhecia bem dizia depois que tinha sido a primeira vez que o viram saindo de algum lugar com uma expressão que não era de certeza. Ele foi embora s sem passar em Caruaru. Não vendeu os sete hectitares do baixo. E segundo a mulher dele contou depois paraa Terezinha, ficou até de madrugada sem falar quase nada, tomando café e olhando pra escuridão do lado de fora.

Um mês depois, na primeira semana de dezembro, chegou uma canete branca da Emater no terreno de Aparecida e desceram dela cinco pessoas. Vanderlei, dois técnicos de outros municípios e dois agricultores do sertão do Pageú, um homem e uma mulher, que tinham vindo de ônibus até Pesqueira, só para ver com os próprios olhos o que Vanderley estava contando nas reuniões da secretaria.

Aparecida, recebeu todo mundo com café e bolo de milho. Passou a manhã inteira andando com eles pelos cordões, explicando ela mesma o que tinha aprendido, mostrando o caderno onde estava tudo anotado, as datas, as pedras, as chuvas, os quilos colhidos, os erros. A agricultora do Pageú, uma senhora chamada Damiana, chorou baixinho quando entendeu o que estava vendo.

Disse que tinha oito hectares em serra talhada, quase iguais àquele, herança do sogro, e que o marido dela tinha decidido semana anterior ir embora pro Ceará abandonar tudo. Damiana anotou tudo, pediu o telefone da Emater. voltou uma segunda vez em fevereiro com o marido e uma terceira vez em julho com dois cunhados.

Três anos depois, em 2015, o sítio dela em Serra Talhada, tinha 22 cordões, plantação de palma forrageira entre eles e um pequeno rebanho de cabras que atravessou a estiagem sem perder nenhum animal. Marl, a filha de Aparecida, que tinha ido embora para Recife e virado enfermeira, começou a vir mais vezes. Trouxe o marido para conhecer o terreno.

Depois trouxe o filho pequeno, o Ravi, e ensinou o menino a contar pedra igual a avó tinha contado no primeiro dia. Ravi, com 6 anos, achou aquilo a melhor brincadeira fora do mundo. encheu quatro cadernos de números e o Zé Raimundo, o vizinho de cerca, aquele que tinha dito que que terra pedregosa, não muda porque Deus fez assim, sozinho, sem cavalo, a péum pediu e pediu, olhando o chão, se dona Cida, se não fosse muito incômodo, como é que se assenta uma pedra chata dentro de uma valeta rasa? Aparecida Nogueira

tem hoje e, ó, se Deus quiser, e a conta bater direito, 69 anos. E continua morando naquele mesmo pedaço de terra, que hoje é os mais fértil dos 19 haares que sobraram do sítio velho do pai dela. O irmão Sebastião passou a vida repetindo, sem constrangimento, que a irmã tinha sido a melhor agricultora da família e que só demorou porque ninguém quis ver.

O Zé Raimundo morreu em 2019 e antes de morrer pediu que enterrassem ele com uma pedra do cordão de dona Cida na mão. A pedra foi. Terra ruim não existe. Existe terra esquecida, terra maltratada. Terra que ninguém quis olhar direito. Terra que passou vida inteira ouvindo dizer que não servia e que um dia, quando aparece uma pessoa que tem paciência de escutar em vez de julgar, mostra o que sempre teve para dar.

É assim com a terra nos serra e talvez seja assim com muita coisa, mas com pessoas que herdaram o que ninguém quis, com histórias que passaram anos empoeiradas num canto, com sonhos que ficaram do lado de fora da partilha, tratados como sobra, como resto, como a não precisar sentir culpa depois. Aparecida arrancou uma por uma com as próprias mãos 14.000 1 pedras.

E cada uma dessas pedras, que todo mundo chamava de defeito, virou parte da estrutura que sustenta a fartura de hoje. Não foi mágica, foi trabalho, foi técnica, foi escuta, foi teimosia, foi saber que a Terra, quando a gente se abaixa e pergunta com respeito, sempre responde. E aí eu queria perguntar para você, minha querida, meu amigo, que está me ouvindo agora.

No meio do seu dia, no meio da sua vida, será que o que te deram como sobra, aquilo que ninguém no seu caminho quis? Aquilo que você mesmo já achou que não valia nada? Será que isso não é justamente o pedaço de chão onde a sua história mais bonita ainda tá para ser plantada? Ninguém queria a terra cheia de pedras que sobrou paraa dona Aparecida.

E anos depois ela era a mais fértil de todas. Se essa história te tocou, se você conhece alguém como a dona Sida, alguém que recebeu o que ninguém queria e transformou naquilo que todo mundo passou a admirar, me conta aí embaixo nos comentários quem é essa pessoa na sua família, na sua vizinhança, na sua vida.

escreve o nome dela, deixa registrado, porque histórias como a de Dona Aparecida ex cada canto desse Brasil, existem em cada canto desse Brasil e a gente precisa lembrar delas, especialmente quando o mundo grita que só o que já é grande merece atenção. Se você ainda não é inscrito nesse canal, se inscreve agora.

Ativa o sininho para não perder as próximas histórias e compartilhe esse vídeo com aquela pessoa que precisa ouvir hoje que terra ruim não existe. Que Deus abençoe você, a sua casa, o seu trabalho e cada pedra que você já teve que arrancar do seu caminho. Até a próxima história.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

You Might Also Enjoy