ISSO AÍ NÃO CRIA NEM PARA COMER — riram do quintal dela. Hoje, abastece o mercado da cidade.
O primeiro pé de mamão que Marlene Batista arrancou do próprio quintal numa manhã de abril pesou 11, 300 g na balança de ferro da mercearia do Senr. Aurélio, e o Senhor Aurélio ajustou os óculos, olhou para o mostrador, depois olhou para Marlene, depois olhou de novo para o mostrador, como se estivesse dando ao número uma última chance de virar outra coisa.
Ela apenas sorriu com o canto da boca, aquele sorriso curto de quem já esperava o susto do outro. Tinha atravessado a rua com o fruto embrulhado num pano de prato azul claro, aquele mesmo pano que a mãe lhe deixara em 1989. E o mamão estava tão pesado que ela precisou trocá-lo de braço duas vezes no caminho, de 230 m entre o portão da sua casa e a porta da mercearia.
Ninguém que passasse na calçada naquela manhã, com o céu ainda cinza da chuva da madrugada, poderia imaginar que aquele único mamão era só o começo do dia dela. Marlene tinha 56 anos, corpo miúdo, mãos grossas de quem passou a vida inteira apertando o cabo de enchada e morava sozinha numa casinha de três cômodos no fim da rua Vereador Damião Coelho, no distrito de Alto Bonito, a 42 km da sede do município.
O marido dela, Antônio Batista, tinha morrido em 2013 num acidente de moto voltando da roça alugada, onde ele plantava milho e feijão para os outros. E desde aquele ano, Marlene virou o que a vizinhança chamou por muito tempo de a viúva do fundo da rua. expressão que ela nunca gostou, mas nunca corrigiu, porque discutir era gastar fôlego que ela preferia guardar para o serviço.
O quintal da casinha tinha 380 m², um retângulo comprido cercado por muro baixo de tijolo aparente que o Antônio tinha começado a levantar em 2005 e nunca terminado. Durante os primeiros seis anos depois da viuvez, aquele quintal foi um problema para Marlene mais do que uma esperança. A terra ali era cor de barro claro batido, sem minhoca, sem mato, sem cheiro.

Ela mesma contou depois, em conversa com uma mulher que veio de longe estudar a história dela, que num dia de 2018 enfiou a enchada com toda a força para começar um canteirinho de coentro e a lâmina bateu num chão que suou seco, como parede de reboco. Foi ali que ou aprendia a fazer aquela terra voltar a viver, ou vendia a casa e ia embora para sair ver.
Vendeu o fogão à lenha que tinha embora para a sede. Vendeu duas cabras que criava atrás da casa, juntou tudo com a aposentadoria de um salário mínimo e no dia 7 de fevereiro de 2019 começou o que ela chamou na frente de quem quisesse ouvir de recuperação do quintal. Foi essa palavra recuperação que virou motivo de chacota, porque aquele quintal do lado de fora do muro baixo era conhecido em alto bonito como um pedaço de chão que não criava nem para comer.
Tinham tentado antes o Antônio tentara feijão em 2007 e o feijão nasceu amarelo e morreu antes de florir. Uma vizinha antiga, dona Cida, tentara plantar quiabo em 2011 e colheu três frutos torcidos no ano inteiro. A terra dali, diziam, era terra cansada, terra sem sal, terra que Deus tinha esquecido. Foi por isso que quando Marlene chegou na venda do Senr.
Aurélio, no dia 8 de fevereiro comprando dois sacos de calcário dolomítico de 50 kg cada um, mais um saco de esterco curtido de galinha, mais uma panova de cabo curto. O Zé Beltrão, que estava sentado no banco de madeira em frente à venda tomando o café da manhã dele, deu uma risada seca por dentro do nariz e disse alto para que os outros três homens ali também escutassem, que a Marlene ia gastar dinheiro para adar chão de barranco e que barranco não vira roça nem com reza forte.
O Zé Beltrão tinha 67 anos, era criador de gado de corte no sítio dele a 8 km do centro, se orgulhava de nunca ter comprado uma alface na vida e falava alto porque tinha certeza. Marlene ouviu, ajeitou o saco de calcário no ombro e respondeu apenas que o problema não era o barranco, era o silêncio que tinham feito em cima dele.
Ninguém entendeu direito o que ela quis dizer. O Zé Beltrão riu de novo. Casada com o irmão mais novo do falecido. Casada com o irmão mais novo docido Antony. Semanas e depois, no domingo do em que foi visitar Marlene levando um pote de doce de mamão, viu Marlene ajoelhada, abrindo uma vala rasa no chão duro com uma sacholinha, e disse com aquela voz de quem já conhecia o final da história, que Marlene estava ficando quando louca de sozinha.
que aquilo ali não era serviço para uma mulher de 56 anos, que era melhor arrumar uma vaguinha na prefeitura, alguma coisa de faxineira ou merendeira, do que ficar cavando barro. Marlene apenas ofereceu café para a cunhada, agradeceu o doce, guardou o pote na cozinha e voltou para a vala. Dona Neid foi embora antes do meio-dia e passou uma semana sem aparecer.
O primeiro serviço de Marlene naquele quintal, antes de qualquer semente foi ouvir a terra. Ela conta que aprendeu isso com uma agrônoma chamada Iracema Nogueira, que dava um curso gratuito de dois dias na sede da Emater Municipal em janeiro de 2019, curso ao qual ela foi de ônibus na sexta-feira e voltou no domingo à noite com um caderno de capa dura escrito do começo ao fim.
Foi nesse curso que Marlene aprendeu que terra ruim não é terra ruim, é terra desequilibrada. E o primeiro passo, disse a agrônoma, é medir o pH. Marlene comprou uma fita de teste de pH de solo por R$ 18 numa loja agropecuária da sede. Misturou uma amostra de terra do quintal com água destilada num copo. Esperou o tempo certo e leu o resultado.
PH4,5. ácido, muito ácido. Foi por isso que ela comprou o calcário dolomítico. Espalhou os 100 kg por toda a área de 380 m², respeitando a proporção de 260 g por m² que a agrônoma tinha ensinado. E depois passou o rastelo velho misturando o pó branco com os 10 cm de cima do solo. Aquilo não podia ser plantado antes de 30 dias.
Ela esperou 45 para garantir. Enquanto esperava, começou a segunda parte do trabalho, que era a mais lenta e a mais importante, a construção da matéria orgânica. Marlene montou uma pilha de compostagem no canto direito do quintal, num espaço de 2 m por 1 m cercado por quatro estacas de bambu. Camada por camada, uma camada de 10 cm de folha seca de mangueira catada na calçada da praça.
Depois uma camada de 5 cm de esterco curtido de galinha comprado do compadre Chiquinho. Depois uma camada de resto de casca e verdura da própria cozinha. Depois um pouco de terra do próprio quintal. Depois folha seca de novo. Regou de leve. Cobriu com um pedaço de lona velha. Virou a pilha a cada 15 dias com uma forquilha comprada por R$ 27.
Em 70 dias, aquela pilha tinha virado um húmus escuro, cheiroso, quente ao toque, com minhoca aparecendo dentro, sem ela ter posto nenhuma. Marlene chorou. Foi a primeira vez que chorou naquele quintal. Foi em maio de 2019 que ela começou a plantar. E aqui é onde o serviço dela deixou de parecer serviço de fundo de quintal e começou a se chamar por um nome técnico que os agrônomos da região usavam, mas que quase ninguém em alto bonito conhecia.
Ous, oss, os, sistema agroflorestal ou saf para os íntimos. A ideia ensinada por Iracema no curso era simples de dizer e difícil de fazer. Em vez de plantar uma coisa só, você planta em camadas, como a mata planta. Uma camada alta, uma camada média, uma camada baixa, uma camada rasteira. Cada uma alimentando a outra, cada uma fazendo sombra.
ou raiz ou cobertura para a próxima. No canto onde batia mais sol da manhã, Marlene plantou três mudas de bananeira nânica, doadas pelo pai da Iracema, com espaçamento de 2,5 m entre uma e outra. No espaço entre as bananeiras, plantou dois pés de mamão formosa, a partir de sementes que ela mesma tirou de uma mão do mercado, secou na sombra e plantou em copinho de sorvete furado.
Enquanto o mamão e a banana ainda eram mudinhas de 20 cm, ela plantou no meio deles feijão guandu. Uma leguminosa que fixa nitrogênio no solo pelas raízes cresce rápido e serve tanto para adubar a terra quanto para colher o grão para o feijão de comer. O guando, foi ela mesma quem semeou um pé a cada 80 cm em cova rasa de 3 cm.
Em 80 dias, o guando estava com 1,5 me de altura, dando sombra parcial para as mudas ainda pequenas. Debaixo do guando, quando começou a chegar o outono e o sol perdeu força, Marlene plantou o segundo andar, que ela chamava por dentro de si de andar da panela. Alface crespa, coentro, cebolinha, rúcula, salsinha, mostarda.
Sementes compradas em envelopes de R$ 2,50 cada um. Ela abriu canteiros elevados de 20 cm de altura, 1 m de largura, 3 m de comprimento, entre as fileiras de guando inescuras. Os canteiros. A terra já era outra, escura, fofa, cheirosa, cheia de minhocas. O coentro em cinco dias brotou como se estivesse com raiva de ter demorado tanto para nascer.
Foi nesse ponto que Marlene teve o primeiro tropeço sério. E é importante contar, porque tudo que dá certo tem um pedaço que quase deu errado. Ela quis apressar a alface. plantou duas fileiras de alface crespa num canteiro que ainda batia sol o dia inteiro, achando que ia estar tudo bem, porque as bananeiras cresceriam depressa.
A alface queimou em três dias, ficou amarela nas bordas, murcha, comida por lagartinha por cima. Marlene contou depois que quase desistiu. Voltou ao caderno da Iracema. encontrou o pedaço em que a agrônoma tinha escrito com letra grande alface: “É planta de sombra parcial, plantar sob docel”.
Marlene arrancou o que restava, esperou a banana dar quatro folhas grandes e replantou. Naquele segundo plantil, colheu 48 pés de alface em 45 dias, sem gastar nenhum centavo de agrotóxico, porque as joaninhas, que vieram com o coentro, comeram os pulgões antes que os pulgões comessem a alface. O terceiro andar do quintal era o rasteiro.

Batata dose plantada de rama, 2 m quadrados de canteiro, cobrindo o chão como um tapete verde que segurava a humanidade e não deixava o mato invasor entrar. Abóbora paulista. Uma muda só jogar. Abóbora paulista, uma muda só jogada de Matias guias podiam correr por cima do muro baixo. E entre uma coisa e outra, capim limão, hortelã, manjericão, pimenta dedo de moça, tudo em pé de rua, em pé de canto, em pé de sobra, ocupando cada centímetro de terra que sobrava.
Quando e Marlene aprendeu a chamar isso de consórcio, palavra bonita, que ela repetia baixinho enquanto molhava. A água era outra história. Marlene não tinha dinheiro para irrigação por gotejamento pronto dessas que se compra em kit. Comprou 30 m de mangueira preta fina dessas de meia polegada, por R$ 68, e perfurou a mangueira com uma agulha aquecida no fogo, um furinho a cada 30 cm.
ligou a mangueira num filtro caseiro feito com garrafa pet e areia lavada e o filtro a uma cisterna de 1500 L que ela mandou fazer com um pedreiro chamado Seu Domingos por R$ 600 cobrando a água do telhado quando chovia naquele quintal cada gota entrou onde tinha que entrar não sobrou nem para o barro fora do canteiro e sobretudo a cobertura morta aquela foi que Marlene disse ter aprendido a duras penas.
Toda vez que ela deixava um canteiro descoberto por dois dias, o sol batia, a terra rachava, a umidade sumia, a planta sofria, palha seca de milho, folha caída de mangueira, casca de coco cortada em pedaço, bagaço de cana de açúcar do engenho do vizinho. A terra do quintal, que em fevereiro de 2019 tinha cor de tijolo velho.
em novembro daquele mesmo ano já era escura, fresca, e recebia a enchada com um som macio, quase molhado. Foi em fevereiro de 2020, quando o quintal estava no auge da primeira safra grande, que veio o susto, que quase levou tudo por água abaixo, embora naquele caso não tenha sido água, foi a falta dela. A estação de chuva, que costumava começar em outubro e ir até março, aquele ano falhou.
Choveu direito em novembro, alguma coisa em dezembro e depois o céu fechou a torneira. Janeiro passou sem uma pancada. Fevereiro começou com 39 graus todo dia. Vento seco vindo do lado da serra e o chão dos vizinhos que não tinham cobertura morta, nem canteiro, nem sombra de bananeira, virou pó branco de novo.
Foi a pior seca dos últimos 11 anos no distrito. Segundo depois, disseram os relatórios do Inmet. A cisterna de 1500 litros da Marlene, que ela contava para durar a estação seca inteira, esvaziou em 23 dias, porque ela precisou molhar duas vezes por dia em vez de uma. Ela conta que passou uma noite sem dormir, olhando para o teto e pensando em vender tudo.
No dia seguinte, foi bater na porta do seu Domingos, o mesmo pedreiro da cisterna, e pediu para ele fazer uma segunda cisterna, dessa vez de 2.500 L, cobrada na próxima chuva. O seu Domingos disse que fazia, mas ela ia pagar em três parcelas depois. Ela aceitou. A segunda cisterna ficou pronta em 13 dias. Mas não choveu.
Foi o Guandu que salvou o quintal. As raízes daquele feijão que ela tinha plantado como adubação verde entravam quase 1 metro no chão, buscando água que a alface não alcançava. As folhas do guandu, quando caíam ou eram podadas, viravam mais cobertura morta, mais sombra, mais matéria orgânica para as bananeiras. Enquanto o quintal do Zé Beltrão, que ficava a 8 km dali e não tinha nenhuma cobertura, viu 210 pés de milho murchar em quatro dias, o quintal da Marlene continuou.
Não deu safra grande naquele fevereiro, deu safra pequena, mas deu com o quintal secando devagar, mas ainda produzindo, que uma professora aposentada chamada dona Yolanda, passou na frente da casa dela, indo para a igreja, olhou por cima do muro baixo, viu o coentro em pé firme, o quiabo dando fruto, oamão pintando de amarelo e parou. Perguntou se podia comprar.
Marlene disse que podia. Vendeu meio kg de coentro, 10 frutos de quiabo e um mamão. Tudo por R$ 14. Foi a primeira venda da vida dela. Voltou para dentro de casa, colocou os R$ 14 em cima da mesa de fórmica, olhou para o dinheiro e disse baixinho sozinha, que talvez desse certo. Que talvez sim. A partir daquele dia de fevereiro, o quintal virou outra coisa.
Não que a Marlene tivesse mudado o serviço ou plantado alguma coisa diferente. Continuou tudo igual. Os três andares, a cobertura morta, a mangueira furada, a compostagem no canto direito. Mas a fama, que é uma planta que ninguém precisa regar, começou a crescer sozinha. Dona Yolanda contou para a sobrinha, que era professora numa escola municipal na sede.
A sobrinha contou para o marido que era comprador de um sacolão. O comprador do sacolão, seu Reginaldo, apareceu numa quarta-feira de junho de 2020, perguntando se dava para comprar em quantidade. Perguntando se dava para comprar em quantidade. Marlene disse que dava. Combinaram um preço, combinaram duas entregas por semana, combinaram no aperto de mão uma coisa que Marlene seis meses antes não teria acreditado se alguém tivesse contado.
O primeiro carregamento foi de 22 kg de folhosos, 8 kg de tomate de cereja e quatro mamões. Marlene arrumou tudo em caixas de plástico verdes dessas de feira que ela comprou de segunda mão por 7 cada uma. E na manhã de segunda-feira, 13 de julho de 2020, o caminhão pequeno do seu Reginaldo, uma combi branca com o adesivo do sacolão pintado à mão do lado, parou na frente da casa da Marlene às 6:30 da manhã para carregar.
Foi uma segunda-feira igual às outras. Foi uma segunda-feira diferente de todas. Aconteceu que naquela mesma manhã, mais ou menos naquele mesmo horário, o Zé Beltrão estava passando na rua Vereador Damião Coelho, a caminho da venda dos senhor Aurélio, onde ele ia comprar sal grosso para o gado. >> O Zé Beltrão tinha 68 anos naquele júlio e naquela manhã tinha se levantado com dor no joelho, o que sempre o deixava mal humorado mesmo.
Ele viu a Kombi branca parada. Achou estranho, diminuiu o passo. Foi chegando, viu Marlene sair pela porta da casa carregando uma caixa verde de folhosos que devia pesar seus 12 kg. Viu ela colocar a caixa na traseira da Kombi. Viu ela voltar. viu ela sair de novo, dessa vez com outra caixa cheia de mamão. Viu o seu Reginaldo conferir uma anotação num caderninho.
E mais uma vez, e mais uma vez. O Zé Beltrão parou no meio da rua, não disse nada, não riu, não fez nem aquele barulho pelo nariz que ele costumava fazer. ficou olhando as caixas subindo na combi, as folhas de alface aparecendo pela borda do plástico verde, uma mão amarelo pesado dentro da caixa. Depois, quando o seu Reginaldo já tinha fechado a traseira e estava dando a volta para entrar no motorista, o Zé Beltrão tirou o chapéu de palha da cabeça, segurou o chapéu com as duas mãos na altura do peito e continuou parado ali no meio da rua, olhando para
o portão daquela casa que ele tinha 18 meses antes, chamado publicamente na venda do senhor Aurélio de Barranco, que não vira a roça nem com reza forte. Marlene, do lado de dentro do quintal não viu ele ou fingiu que não viu. Continuou entrando e saindo. Mas o senhor Aurélio, que estava abrindo a mercearia do outro lado da rua e assistiu tudo por cima da grade, disse depois para quem quisesse ouvir, que foi a primeira vez em 40 anos de amizade que ele viu o Zé Beltrão parar num lugar sem saber o que dizer.
Quem primeiro veio bater no portão da Marlene depois daquela manhã? Não foi o Zé Beltrão, nem a dona Neid, nem ninguém que tivesse ido dela nos meses anteriores. Foi uma menina de 17 anos, Luana, filha da vizinha do outro lado da rua. Aquela mesma vizinha que 10 anos antes tinha tentado plantar quiabo e colheu três frutos torcidos.
A Luana era uma menina calada, tinha terminado o ensino médio numa escola da sede. Não queria ir embora do distrito para estudar, mas também não queria virar caixa de supermercado. Marlene disse que sim. Combinaram duas tardes por semana, terça e disse e quinta. Das duas a cinco. A Marlene não cobrou. disse que o pagamento era a Luana Comar dela.
E foi assim que, seis meses depois nasceu o segundo quintal agroflorestal da rua Vereador Damião Coelho, num terreninho de 220 m² atrás da casa da vizinha, com bananeira mamão guandu e canteiro elevado de coentro e cebolinha. Tudo copiado do que a Marlene tinha feito, mas adaptado pela Luana para caber num espaço menor. Em novembro de 2021, seu Reginaldo passou a comprar folhosos também da Luana e passou a fazer duas paradas na rua em cada segunda-feira.
Primeiro a casa da vizinha, sempre nessa ordem, porque a Marlene tinha começado primeiro e a Luana insistiu. Hoje dizem que existem 11 quintais parecidos com o da Marlene em alto bonito. Ninguém sabe o número exato porque a Marlene nunca contou e a Emater da SED parou de acompanhar por falta de agrônomo.
Sabe-se que a dona Yolanda, aquela professora aposentada que fez a primeira compra de R$ 14, tem um canteiro no fundo do quintal dela agora e leva coentro para a filha na cidade quando vai visitar. Sabe-se que o senhor Aurélio da Mercearia deixou de comprar alface do atravessador e passou a comprar direto da Luana e da Marlene e diz que o coentro dele agora dura três dias na prateleira.
em vez de um. Sabe-se também que o Zé Beltrão, aquele mesmo Zé Beltrão de 68 anos, no aniversário de 69, plantou 11 pés de mamão no fundo do sítio dele e pediu para Marlene aparecer lá para dar uma olhada. Ela apareceu, não cobrou nada. Só disse, quando estava indo embora, que o mamão precisa de sombra parcial no primeiro ano e que ele tinha plantado no lugar certo.
Terra ruim não existe e nunca existiu. Existe terra que ninguém quis ouvir, terra que o silêncio dos outros foi cobrindo até parecer parte do chão. A terra do quintal da Marlene não era pior do que a terra do sítio do Zé Beltrão, nem pior do que a terra do quintal da vizinha que colheu três quiabos torcidos em 2011. Era só uma terra a mais na fila das terras esquecidas.
e ficou lá esperando, como as coisas esperam, sem pressa, porque a Terra tem um tempo que não é o nosso tempo. O que a Marlene fez no fundo, no fim, quando você tira a compostagem e o guandu e o pH e o consórcio de camadas, foi só uma coisa, prestar atenção. Ela olhou para aquele barro batido e não viu o que os outros viam.
E o que estava faltando? A mággio, viu o que estava faltando. E o que estava faltando não era caro, era matéria orgânica, era sombra, era água na hora certa, era paciência de esperar-se 45 dias depois do calcário. Coisas que a natureza sempre soube, coisas que a gente esqueceu de perguntar para ela.
E aqui, minha querida, meu amigo, fica uma pergunta que talvez vha a pena a gente carregar para dentro da semana. Quantas terras da sua vida você já chamou de perdidas sem antes se perguntar se elas não estavam só esperando alguém sentar do lado delas e ouvir com paciência? Quantas coisas que você achou que não davam mais nada estão agora mesmo de olhos fechados esperando para ser lembradas? A terra do quintal da Marlene passou 11 anos calada.
E quando alguém finalmente parou para escutar, ela tinha uma safra inteira guardada. Aquele quintal que não criava nem para comer hoje abastece o sacolão do seu Reginaldo, a cozinha da dona Yolanda e a mesa de meia dúzia de famílias que passaram a comer verdura fresca duas vezes por semana no distrito de Alto Bonito.
Se essa história tocou o seu coração como tocou o meu ao contar para você, deixa aqui embaixo nos comentários o nome de uma terra da sua vida. Pode ser um pedaço de quintal, pode ser um sonho antigo, pode ser uma pessoa que você quase desistiu e que ainda hoje espera você voltar. Gostaria muito de ler cada um. E se você ainda não é inscrito no canal, aproveite para clicar naquele botãozinho vermelho ali embaixo, porque toda semana a gente traz uma história como essa, verdadeira, do jeito do interior, contada com o cuidado que a história merece.
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