Imagens de segurança foram a chave para desvendar o caso Carlinha — Santos (SP)
CHOQUE EM SANTOS: CÂMERAS REVELARAM O ÚLTIMO CAMINHO DE CARLINHA — E UM DETALHE INESPERADO AJUDOU A POLÍCIA A DESVENDAR O CRIME
O que parecia ser apenas mais uma tarde de domingo terminou em uma das histórias mais devastadoras registradas em Santos, no litoral de São Paulo. Em 29 de janeiro de 2017, Carla Roberta Barbosa, conhecida carinhosamente como Carlinha, saiu de casa dizendo à mãe que iria brincar com uma amiga que morava na mesma rua. Ela tinha apenas 9 anos. O destino ficava a cerca de 100 metros de sua residência. Era um percurso curto, conhecido e aparentemente seguro. Ninguém poderia imaginar que aquelas seriam algumas das últimas horas da menina.
Quando o tempo começou a passar e Carla não voltou, a preocupação tomou conta da família. Parentes saíram pelas ruas procurando a criança, perguntando a moradores e tentando entender onde ela poderia estar. O que inicialmente parecia um desaparecimento rapidamente assumiu contornos assustadores. Ainda naquela noite, uma notícia abalaria a família e toda a região central da cidade: o corpo de uma menina havia sido localizado em frente à garagem de uma empresa, na Rua da Constituição.

Pouco depois, veio a confirmação que ninguém queria receber.
Era Carla.
A partir daquele momento, uma investigação complexa começou. A Polícia Civil precisava reconstruir praticamente minuto a minuto o que havia acontecido desde o instante em que a menina saiu de casa. E foi nesse trabalho que uma rede de câmeras espalhada pelas ruas de Santos acabaria assumindo um papel decisivo.
UM DEPOIMENTO QUE DEIXOU A INVESTIGAÇÃO AINDA MAIS MISTERIOSA
Nos primeiros momentos do caso, uma das principais informações veio de uma amiga de Carla, também com 9 anos. A criança contou às autoridades que Carla estaria andando de bicicleta quando percebeu um veículo preto seguindo seus movimentos.
Segundo esse relato inicial, duas pessoas teriam descido do carro e levado Carla à força, enquanto outra pessoa permaneceria na direção.
A história provocou enorme preocupação porque apontava para a possibilidade de um sequestro realizado por várias pessoas. Entretanto, durante a investigação, policiais identificaram inconsistências na narrativa.
Por se tratar de uma testemunha muito jovem, surgiu a hipótese de que alguns acontecimentos pudessem ter sido interpretados ou reconstruídos de maneira imprecisa. Para os investigadores, isso significava que seria necessário encontrar provas independentes capazes de mostrar aquilo que realmente aconteceu naquela tarde.
Foi então que começou uma verdadeira corrida atrás das imagens.
Policiais passaram a procurar câmeras instaladas em empresas, estabelecimentos comerciais e equipamentos públicos. Ao todo, dezenas de gravações foram analisadas.
E, lentamente, as imagens começaram a contar uma história diferente.
AS CÂMERAS COMEÇAM A RECONSTRUIR OS ÚLTIMOS PASSOS
Uma gravação mostrava Carla andando de bicicleta pela rua por volta das 16 horas. Nas imagens, um homem aparecia caminhando nas proximidades da menina.
A mãe reconheceu Carla e confirmou inclusive que aquela era a bicicleta utilizada pela filha. As roupas registradas na câmera também coincidiam com aquilo que a criança vestia naquele domingo.
A polícia começou então a comparar diferentes gravações.
Imagem após imagem.
Rua após rua.
Minuto após minuto.
O objetivo era descobrir para onde Carla havia ido e quem poderia ter cruzado seu caminho.
Entre dezenas de câmeras examinadas pelos investigadores, algumas gravações se tornaram especialmente importantes para a solução do caso.
Mas um dos elementos mais impressionantes da investigação não foi uma pessoa.
Foi um cachorro.
PIRATA: O DETALHE QUE NINGUÉM IMAGINAVA
O animal era conhecido como Pirata e vivia no mesmo cortiço onde Carla morava.
Em uma das gravações analisadas, Pirata aparecia acompanhando a menina durante parte de seu trajeto.
Até aí, aparentemente nada fora do normal.
Porém, as câmeras registraram algo que chamou imediatamente a atenção dos investigadores: o cachorro acompanhou Carla até outro imóvel da região.
Pouco tempo depois, Pirata apareceu novamente nas imagens.
Mas dessa vez estava sozinho.
Carla não estava mais ao lado dele.
A sequência ajudou a polícia a concentrar sua atenção sobre o cortiço para onde a menina havia seguido.
E naquele local vivia Renato Mariano.
Na época, ele trabalhava recolhendo materiais recicláveis e morava em um pequeno cômodo alugado a aproximadamente 120 metros da casa de Carla.
O homem passou a ocupar posição central na investigação.
Agora, porém, os investigadores precisavam de provas.
O CARRINHO QUE APARECEU NAS GRAVAÇÕES
As câmeras continuaram revelando novas peças daquele quebra-cabeça.
Além das imagens mostrando a chegada de Carla ao imóvel, outras gravações registraram movimentações envolvendo um carrinho de supermercado.
Segundo a investigação, após o crime, o carrinho teria sido utilizado para transportar o corpo da vítima para outro ponto da região central de Santos.
As imagens mostravam Renato conduzindo o equipamento e, posteriormente, aparecendo novamente com o carrinho vazio.
Para os investigadores, aquela sequência ajudava a reconstruir o trajeto realizado após o crime.
Mas outro comportamento despertaria ainda mais suspeitas.
Segundo uma testemunha ouvida de forma sigilosa, depois de prestar depoimento à polícia, Renato teria retirado seus pertences do quarto onde vivia e realizado uma limpeza no ambiente.
A perícia decidiu examinar o local.
O que seria encontrado ali transformaria definitivamente o rumo da investigação.
A PERÍCIA ENTRA EM CENA
Policiais utilizaram técnicas periciais no cômodo e identificaram vestígios que foram encaminhados para análise.
Materiais coletados no imóvel, assim como objetos associados ao suspeito, seguiram para laboratórios especializados.
Paralelamente, os investigadores continuaram examinando todas as imagens disponíveis.
Era uma investigação construída por diferentes camadas: câmeras, testemunhos, perícia e genética.
Até que chegou uma das confirmações mais importantes.
As análises indicaram compatibilidade entre o perfil genético encontrado na investigação e o de Renato.
Outros homens que haviam sido investigados anteriormente foram descartados pela perícia.
A polícia agora considerava possuir um conjunto robusto de elementos para apontar Renato como responsável.
Porém havia outro problema.
Ele havia desaparecido.
COMEÇA A CAÇADA AO SUSPEITO
Quando a polícia avançou sobre sua identificação, Renato já não estava mais no local onde morava.
Segundo a investigação, ele deixou Santos e passou por outras cidades.
A Justiça decretou sua prisão temporária em março daquele ano. Posteriormente, após o Ministério Público apresentar denúncia, também foi decretada a prisão preventiva.
Mas encontrar o suspeito não seria simples.
Sem informações concretas sobre seu paradeiro, autoridades divulgaram fotografias e mobilizaram investigadores.
Meses se passaram.
A família de Carla aguardava respostas enquanto o homem apontado pela polícia continuava foragido.
Até que uma informação chegou à Delegacia de Investigações Gerais de Campinas.
Um indivíduo com características semelhantes às de Renato estaria vivendo em uma instituição destinada à recuperação de dependentes químicos no bairro Satélite Íris.
Investigadores foram ao endereço.
Ali estava o homem procurado desde Santos.
Inicialmente, ele apresentou outro nome.
A estratégia não durou muito.
Depois de ser conduzido à delegacia, sua verdadeira identidade foi confirmada.
Quase sete meses após o crime, a fuga havia terminado.
A VERSÃO APRESENTADA APÓS A PRISÃO
Durante os primeiros relatos depois da captura, Renato reconheceu parte de sua participação, mas tentou atribuir a responsabilidade pela morte da menina a uma suposta terceira pessoa.
Segundo essa versão, outro homem teria levado Carla até ele e seria esse indivíduo o responsável pelo assassinato.
A investigação, contudo, continuou trabalhando com os elementos periciais, imagens de segurança e demais provas reunidas ao longo dos meses.
Posteriormente, em audiência, o próprio caso sofreria mais uma reviravolta.
O advogado que representava Renato decidiu abandonar a defesa após afirmar que o acusado havia relatado detalhes sobre o episódio.
Enquanto isso, a família de Carla acompanhava cada etapa do processo e cobrava Justiça.
A tragédia havia destruído uma família.
A mãe da menina precisou inclusive deixar a residência onde havia vivido durante anos porque permanecer naquele ambiente significava conviver diariamente com lembranças dolorosas da filha.
DOIS ANOS DEPOIS, O CASO CHEGA AO TRIBUNAL DO JÚRI
O julgamento foi realizado em 31 de julho de 2019, no Fórum de Santos.
Sete jurados ficaram responsáveis por analisar as acusações e as provas apresentadas no processo.
Durante a sessão, testemunhas foram ouvidas.
A mãe de Carla também prestou depoimento e relatou o impacto que a perda da filha havia provocado em sua vida.
Foi um dos momentos mais emocionantes do julgamento.
Renato também foi interrogado.
Em juízo, confessou os crimes e declarou arrependimento.
Para o Ministério Público, entretanto, todas as circunstâncias demonstravam que o acusado sabia o que estava fazendo e tinha capacidade de compreender a gravidade dos próprios atos.
A defesa tentou argumentar que transtornos mentais e dependência química poderiam ter afetado sua capacidade de julgamento.
Essa questão já havia sido objeto de avaliação especializada.

Um exame psiquiátrico realizado anteriormente concluiu que, embora Renato apresentasse perturbações, ele possuía capacidade para compreender o caráter ilícito de seus atos e decidir sobre suas ações no momento do crime.
Após aproximadamente oito horas de julgamento, veio a decisão.
52 ANOS E 6 MESES DE PRISÃO
O Conselho de Sentença acolheu a acusação.
Renato Mariano foi condenado por homicídio qualificado, estupro de vulnerável e ocultação de cadáver.
A pena estabelecida foi de 52 anos e seis meses de prisão, inicialmente em regime fechado.
Era o encerramento judicial de uma longa investigação.
Mas para a família, nenhuma sentença seria capaz de devolver aquilo que havia sido perdido.
Do lado de fora do fórum, parentes lembraram quem Carla realmente era antes que seu nome se transformasse em manchete policial.
Uma menina alegre.
Ativa.
Comunicativa.
Uma criança que brincava na rua e conversava com os moradores da região.
Seu pai resumiu a dimensão da ausência afirmando que praticamente qualquer lugar fazia a família lembrar dela.
A irmã também descreveu a sensação deixada pelo crime: um enorme vazio dentro da família.
O CASO QUE MOSTROU O PODER DE UMA ÚNICA IMAGEM
O assassinato de Carla Roberta Barbosa ficou marcado pela brutalidade, mas também pela forma como a investigação conseguiu reconstruir os acontecimentos utilizando diferentes fontes de prova.
Foram dezenas de câmeras analisadas.
Algumas mostraram Carla em seus últimos deslocamentos.
Outras ajudaram a identificar o trajeto ligado ao suspeito.
E, no meio de todas elas, apareceu Pirata.
Um cachorro que simplesmente acompanhava uma criança pelas ruas acabou registrando, sem saber, uma pista fundamental.
Ele entrou nas imagens ao lado de Carla.
Depois voltou sozinho.
Esse pequeno detalhe ajudou os investigadores a direcionar sua atenção para um endereço específico e, combinado às demais provas, permitiu reconstruir uma sequência crucial daquela tarde.
A ciência forense completou o trabalho.
As imagens indicaram caminhos.
A períícia encontrou vestígios.
O DNA ajudou a estabelecer a ligação entre o suspeito e o crime.
Meses depois, informações recebidas pela polícia permitiram localizar o foragido em Campinas.
Do desaparecimento até a condenação, o caso Carlinha mostrou como uma investigação pode depender de detalhes que, isoladamente, parecem quase insignificantes.
Uma câmera posicionada na rua.
Um carrinho registrado por poucos segundos.
Um animal voltando sozinho.
Vestígios invisíveis a olho nu.
Quando essas peças foram colocadas lado a lado, surgiu uma sequência capaz de conduzir investigadores até a verdade.
Carlinha tinha apenas 9 anos quando sua vida foi interrompida.
Anos depois, o nome da menina continua associado não apenas a um dos crimes que mais chocaram Santos, mas também a uma investigação na qual tecnologia, perícia e trabalho policial foram fundamentais para impedir que o responsável permanecesse escondido.
A condenação trouxe uma resposta da Justiça.
Para a família, porém, ficou uma ausência que nenhuma decisão judicial consegue apagar.
E talvez seja exatamente por isso que, mesmo tantos anos depois, o caso ainda provoca uma pergunta impossível de ignorar:
quantas vezes a verdade de um crime pode estar escondida em um detalhe que quase ninguém percebeu?