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ESSA TERRA NÃO CRIA NEM MATO disse o coronel. A escrava só sorriu e pegou a enxada.

Quando o coronel Anastado saiu do campo dos ossos naquela tarde de setembro, ele ficava rindo baixinho, do jeito que ria quando queria humilhar sem levantar a voz. Benedita ficou parada onde ele a deixou, com a enchada apoiada no ombro reto e os olhos fixos na terra que não tinha cor de terra. Era cinza. Cinza como pele de morto, cinza como cinza mesmo, dura como a pedra do moinho, rachada em desenhos que pareciam mapa de rio seco, meio alqueire de chão que ninguém tinha conseguido acordar em 10 anos. Nem mato nascia ali, e mato

nasce em qualquer lugar. Dizia o povo da fazenda que dois bois eles tinham naquele pasto antes de virarem couro e que uma cabra magra largada por descuido E que uma cabra magra largada por descuido havia voltado no dia seguinte para o curral sem ter tocado uma folha porque folha não existia. Benedita olhou aquilo tudo e não disse nada.

Passou o dedo pela lâmina da enchada, testando o corte. Então se abaixou, colheu um punhado daquele pó cinzento e cheirou. Ela tinha 27 anos e 15 deles vividos na fazenda Santa Helena, no alto de Minas, região do cerro, onde as estradas subiam entre morros de pedra e onde as chuvas, quando vinham, vinham com uma pressa que assustava. tinha chegado lá com 12 anos em um lote de nove pessoas trazidas da Bahia depois que a senhora mãe do coronel morrera e a família precisou pagar dívidas.

Do lote inicial sobravam três. Ela, Rosalina, que tomava conta da cozinha, e o velho Zé Bento, que já mal enxergava, mas ainda sabia amansar cavalo pelo som da respiração. Os outros seis haviam morrido de febre em três invernos. ou tinham sido vendidos para uma fazenda de café em São João del Rei. Benedita não falava disso.

Falava pouco, no geral. Trabalhava no roçado, cuidava dos porcos e das galinhas, e nas horas em que a lua estava boa, saía para colher folhas que ninguém entendia para que serviam. Rosalina achava que era mandinga. O velho Zé Bento sabia que não era né? O campo dos ossos ficava atrás do curral velho do outro lado da cerca de pedra que separava a fazenda do fundo do vale.

“Meio alqueire”, dizia o coronel Anastasia, mas eram dois alqueires e meio segundo compasso que passou por ali uma vez e riu o compasso do agriensor Damázio. Ele riu quando o coronel disse que aquilo era terra. Havia 10 anos. Ninguém plantava nada ali. Antes disso, havia sido plantação de milho por muito tempo.

Milho atrás de milho, ano após ano, sem descanso e sem cobertura, tudo o que o milho não conseguia segurar. E o que sobrou foi essa poeira cinza que o coronel agora oferecia como piada. A piada tinha tinha começado três semanas antes, no alpendre da Casagre, depois do jantar. O coronel estava com hóspede, um comissário da capital que veio negociar diamante e no meio da conversa, o hóspede perguntou se toda aquela terra era boa.

O coronel disse que sim, com exceção do campo dos ossos, e explicou por se chamava assim. O comissário riu. Ele disse que terra ruim, Sissi, é preguiça de quem trabalha. O coronel, que não gostava de ficar sem conversa alguma, respondeu que se qualquer pessoa de sua fazenda conseguisse fazer aquele chão dar alguma coisa em se meses, ele daria a essa pessoa a terça parte do que fosse colhido pelo resto da vida dela.

Foi por brincadeira que ele fez a oferta. Foi por brincadeira também que no dia seguinte e repetiu a promessa na frente de Bastião, o feitor, e de dois camaradas assalariados. Todos riram. Benedita não riu, nem disse sim, nem disse não. Só perguntou se podia começar naquela mesma semana. O coronel disse que poderia começar naquela mesma tarde e que o prazo começava a contar dali.

Foi quando ele foi até o campo dos ossos com ela, fez o gesto largo de quem mostra um deserto, disse a frase que ficou repetida na fazenda inteira aquele mês e voltou rindo baixinho. Essa terra não cria nem mato disse ele. E foi embora. Bastião foi o primeiro a bater na porta da cenzala no dia seguinte, antes mesmo do sino da alvorada, disse a Benedita que ela a tinha três dias para desistir por conta própria.

Porque se ela levasse aquilo até o fim e falhasse, a humilhação da fazenda inteira ia sobrar nas costas dele. Bastião não era coronel, mas gostava de fingir que era. E a promessa da terça parte, se algum milagre acontecesse, tirava dele exatamente aquilo que ele mais defendia, que era o controle sobre quem plantava o que e quem colhia quanto.

Disse mais. Disse que se ela sumisse com semente do paiol, ele ia contar. Se ela pedisse esterco do curral, ele negaria. Se ela quisesse água do poço fora do horário, o poço estava fechado. Benedita ouviu tudo com o rosto abaixado. Do jeito que você ouve na cenzala e quando ele terminou, ela agradeceu por ter sido avisada.

Bastião ficou desconcertado com o agradecimento porque não tinha vindo para ser gentil e foi embora sem saber se tinha ganhado ou perdido a conversa. Rosalina foi diferente. Rosalina esperou o fim do dia, quando as duas iam para o riacho lavar os pés antes de dormir, e disse baixinho, quase sem mover a boca, que estava com medo, não do coronel e nem de Bastião.

Do que os outros iam pensar quando visse Benedita perder, porque perder para Rosalina era o único caminho possível. Aquele chão tinha matado boi, tinha derrotado o coronel velho antes mesmo de morrer, tinha vencido dois administradores contratados. Benedita não era administradora. Não tinha estudo, não tinha nome, não tinha coisa nenhuma além de uma enchada e a enchada era emprestada.

Rosalina falou tudo isso de uma vez, do jeito que se fala uma coisa que ficou apertando o peito o dia inteiro. Benedita ficou olhando a água correr por cima das pedras. Depois disse que a terra não sabia ler, então eu não ia saber que era ela quem estava plantando. E que se a terra não tava plantando nada, era porque ninguém tinha perguntado ainda direito o que ela queria.

Rosalina não entendeu. Benedita não explicou. voltaram caladas para cenzá-la e no dia próxima Benedita começou. Ela começou com a cinza. Antes de mexer na terra, precisava saber com o que estava lhe dando. E cinza, que não guarda umidade nem cheiro, é cinza sem vida. E cinza sem vida precisa ser convocada de volta. Ele os passou a primeira semana só andando pelo campo dos ossos de manhã cedo e no fim da tarde, quando a temperatura do chão mudava.

Ele cavou pequenos buracos com a mão em oito lugares diferentes e mediu com o cabo da enchada até onde a terra ficava dura. Em dois lugares dava três dedos. Nos outros seis eu dava um dedo e meio. E depois disso era pedra. Ela juntou o punhado de terra dos misturou num pano, molhou com um pouco de água do riacho e apertou entre as mãos.

Apertou entre as mãos. A bola desmanscigura nada. Nem água, nem raiz, nem semente. Isso ela havia aprendido com a avó na Bahia. E a avó havia aprendido com a bisavó que tinha sido roçadeira em um lugar chamado cabinda, do outro lado do mar, onde plantar num chão gasto era coisa de todo dia. Vovó dizia que terra desse jeito não era terra faminta e terra faminta come antes de dar.

O primeiro plantil dela não foi pra comer, foi para alimentar o chão. No fundo do curral velho, ela juntou em 40 dias um monte de esterco de gado misturado com palha de milho velha, casca de mandioca da cozinha, cinza do fogão da cenzala e uma coisa que só ela sabia fazer, que era um chá espesso, feito com folha de giricídia machucada em água morna.

A giricídia cresceu em galhos tortos perto do correnga curiosa. Perguntou uma vez para queia. Benedita disse que era para acordar o que estava dormindo. Rosalina achou que era resposta de mandinga de novo e voltou para a cozinha rindo com pena. O monte de esterco, palha, casca, cinza e chá, virado com a inchada a cada três dias durante seis semanas.

esquentou a ponto de sair fumaça quando ela cutucava com um pedaço de pau. Bastião passou uma vez e viu a fumaça e perguntou: “Ela tinha ficado louca de fazer fogueira no meio do inverno. Ela disse que não era comendo.” Ela disse que não era comendo. Ele riu, mas ficou desconfiado. Começo de abril, quando o composto já estava escuro, mole, cheirando a terra molhada de floresta, ela começou a se espalhar.

Espalhou em faixas atravessadas, perpendiculares ao caimento do terreno, para que a chuva não levasse embora tudo de uma vez. Duas passadas por metro quadrado calculadas a olho, porque olho de quem trabalhou a vida inteira no roçado é medida melhor que qualquer bastão. Meio alqueire de campo dos ossos consumiu quase três meses de composto.

Ainda faltou um pedaço. Ela deixou isso pedaço para depois. Em cima do composto espalhado, ela plantou feijão de porco. Não para colher. O feijão de porco era aprendizado antigo, coisa que se dizia entre roçadeiras que pretos velhos tinham trazido no fundo da memória junto com o Iname e o Quiabo.

Ele crescia rápido, dava uma vagem que não servia pra muita coisa na mesa, mas embaixo do chão fazia uma raiz cheia de bolinhas brancas que puxavam doar ar uma comida invisível e devolviam para a terra na hora em que a planta era cortada. 5 kg de semente. Ela devolver 10 kg se falhasse. Sim. O coronel deu achando graça.

Bastião conferiu na balança, na entrada e na saída. Rosalina emprestou uma cabaça velha para carregar as sementes e disse baixinho que ia orar. Benedita agradeceu a reza, mas plantou como quem não precisa dela. O feijão de porco brotou em oito dias. Em três semanas, era um tapete verde que cobria o campo dos ossos inteiro, escondendo a cor cinza, como se estivesse com vergonha dela.

Em oito semanas, chegava no meio da canela. Em 12 até o joelho. Bastião passou de novo, viu o verde e não riu. Perguntou o que era. Benedita disse que era feijão de porco. Ela disse que não era para comer. Ele foi embora achando aquilo desperdício. E naquela noite contou ao coronel, que também achou desperdício, e mandou dizer que se em três meses não tivesse coisa que se pusesse na boca ali, o combinado estava desfeito.

Faltavam ainda dois meses e meio do prazo. Benedita mandou dizer que estava dentro. No começo de junho, com o feijão de porco quase florindo, ela cortou. Cortou tudo, meio alqueire de verde no chão, deitado, murchando ao sol de manhã e virado com a enchada à tarde, enterrado raso na semana do curral, e achou que Benedita tinha desistido do jeito mais estranho possível.

Bastião viu e correu contar ao coronel em que a escrava tinha ficado louca de vez. O coronel foi até lá, olhou o campo, viu a terra escura por baixo do verde cortado, cheirou o ar e ficou meio calado. Depois disse a Bastião que esperasse, não disse mais nada. 15 dias depois do enterro do feijão de porco, Benedita abriu covas com o cabo da enchada, covas rasas, um palmo de largura, espaçadas, conforme a memória velha ensinava, uma para cada três passos.

Nas covas, nas covas ela plantou uma niva de mandioca cortada em pedaços de 20 cm, colhida na roça do velho Zé Bento, com a autorização dele. Entre as fileiras de mandioca, ela semeou o feijão calpe, que os antigos chamavam de feijão fradinho. Nas beiradas do campo, plantou quiabo e maxixe para atrair os insetos que gostavam de folha larga e desviar deles a plantação principal.

Isso também era coisa de gente velha e o velho Zé Bento aprovou com a cabeça quando ela contou. O único percalço veio na quinta semana depois do plantio, quando uma linha de Saó desceu do morro e começou a dissauva de seu olha de mandioca do curral e começou a levar folha de mandioca à cova por cova, uma cova por noite, em uma velocidade que iria acabar com a plantação inteira em menos de um mês.

Benedita passou uma tarde inteira seguindo a trilha das formigas até o formigueiro, que ficava a mais de 200 m dali, no capão de mato ralo. Voltou, ferveu num tacho de água, oito maços de folha de fumo com dois copos de cinza fina. Coou, esperou esfriar e à noite, com uma lamparina apagada, foi despejando o líquido escuro nas bocas do formigueiro.

Repetiu três noites. Na quarta noite, não saiu formiga. Na semana seguinte, nem sinal delas no campo. Rosalina, que tinha ficado sabendo do fumo e da cinza, perguntou onde ela tinha aprendido aquilo. Benedita disse que não tinha aprendido, que ela não entendeu, mas dessa vez lembrava. Rosalina não entendeu, mas dessa vez guardou.

Ah, a mandioca demorava a mostrar. Por baixo do chão, ela crescia devagar nos primeiros dois meses, formando raiz, enquanto a parte de cima ainda parecia planta miúda de quintal. Mas o feijão fradinho entre as fileiras já estava dando vagem em 40 dias. E Benedita colhia com uma vasilha pequena, guardando parte para semear de novo, e levando o resto para a cozinha da Senzala, onde Rosalina cozinhava com um pedaço de toucinho velho e chamava as outras mulheres para partilhar.

A primeira vez que apareceu o feijão colhido campo dos ossos na tigela da cenzala, Rosalina não conseguiu comer. Para beira vez ficou olhando o prato e chorando um choro miúdo, sem barulho, do jeito que se chora quando o corpo entende antes da cabeça que alguma coisa mudou. Benedita comeu o dela e o dela também.

Faltando dois meses para o prazo do coronel se cumprir, Benedita fez uma coisa que Bastião achou de novo o desperdício. Cortou o capim seco no barranco do fundo, duas carroçadas cheias, e espalhou por cima do chão do campo dos ossos, cobrindo o pé. de cada mandioca e formando uma manta parda entre as fileiras. Bastião perguntou se ela ia queimar.

Ela disse que não. Ela disse que a terra também tinha vergonha e que gostava de andar coberta quando o sol batia forte. Bastião levou essa resposta ao coronel, que dessa vez não riu. O prazo de seis meses do coronel batia no dia 22 de agosto e no dia 18 de julho a chuva parou.

parou de um jeito abrupto, sem aviso, do jeito que a chuva do cerro parava quando resolvia parar e deixando o céu daquele azul liso e cruel que os mais velhos aprendiam a temer. Depois três, depois quatro, o riacho baixou até virar um fio. A grama do pasto amarelou, as folhas do laranjal da casa grande começaram a enrolar e o coronel, que tinha assistido de longe ao verde, crescendo no campo dos ossos com uma mistura de espanto e desconforto, agora tinha um motivo para falar com Bastio, com a voz de quem está prestes a desistir de um assunto incômodo. A

desistir de um assunto incômodo? disse que se a seca durasse mais duas semanas, ele ia mandar arrancar a plantação de Benedita e vender o meio alire para o vizinho, o coronel Praxedes, que já havia oferecido pouco dinheiro por aquele chão duas vezes antes, e agora, com a fazenda toda seca, ia oferecer menos ainda, mas alguma coisa era melhor que nada.

Bastião concordou com o entusiasmo de quem via uma promessa antiga se desfazendo sem precisar mais nada da parte dele. Benedita ouviu a notícia da boca de Rosalina que ouviu do cozinheiro que servia a mesa, que ouviu do coronel. Ele não disse nada por dois dias. No terceiro dia, no final da tarde, foi até o campo dos ossos e ficou lá até depois de escurecer.

voltou para cenzá-la com terra sob das unhas e um pedaço menor de mandioca que a mão, arrancado da cova da beirada. Ele mostrou para Rosalina. A mandioca era clara, gorda, firme, sem fibra escura. Rosalina não sabia o que fazer com aquilo e perguntou se dava para levar ao coronel. Ainda não, que se ela levasse agora, ele ia decidir que aquilo era prova de pouca coisa.

precisava esperar. Precisava aguentar mais 15 dias sem chuva, sem perder a plantação. Ela levantou antes do sino, nos 14 dias seguintes. Tirava a água do poço, uma caneca por vez e regava só a base de cada mandioca junto do pé, sem molhar a folha. Levava três horas para regar meio alqueire desse jeito.

Depois cobria de novo com o capim seco, ajeitando a manta com a mão. À tarde, quando o sol afrouxava, ela voltava com a enchada e afofava a superfície entre as fileiras, quebrando qualquer casca que estava se formando por cima do chão, porque casca dura remove a pouca umidade que ainda resta embaixo. Rosalina começou a acordar cedo também, sem ter sido pedida, e tirava a água do outro lado.

As duas não falavam durante o trabalho, no trabalhavam e o céu continuava azul. Choveu no dia 20 de agosto, dois dias antes do prazo. Choveu pouco, uma chuva garota que não encheu o córrego, mas molhou o telhado e que teria outro perto baço da fazenda e que teria passado sem capim seco havia mais de um mês.

No campo dos ossos, a chuva miúda foi retida pela manta, gotejou devagar até o chão e encontrou embaixo uma terra que ainda estava fresca do trabalho da véspera. foi o suficiente. No dia 21, as folhas de mandioca que estavam começando a murchar levantaram de novo. Estavam brilhantes na manhã do dia 22, dia do prazo, quando o coronel Anastassio Furtado, chegou ao campo dos ossos acompanhado de três homens que Benedita nunca tinha visto.

Um deles era o coronel Praxedes. Os outros dois eram compradores de mandioca de diamantina. que Praxedes tinha trazido para a fazenda por sugestão do próprio Anastásio dois dias antes, quando ainda parecia que o plantio ia se perder na seca e o meio alqueire ia ser vendido junto com o que sobrasse dentro. Anastáso havia combinado com pracedes que iam olhar o campo juntos no dia do prazo, na frente dos compradores, para que ficasse claro para todo mundo que a experiência havia fracassado e que a venda estava justificada.

Era uma humilhação preparada com cuidado e havia sido preparada com Benedita como principal humilhad. Quando os quatro homens dobraram a esquina do curral velho e chegaram na cerca de pedra do campo dos ossos, o que estava do outro lado da cerca não era o que o coronel Anastasia esperava mostrar.

Era uma faixa comprida de mandioca alta, verde escura, com folhas grandes que se abriam na altura da cintura de um homem, cobrindo o chão inteiro que 10 anos antes havia sido chamado pela primeira vez de campo dos ossos. Feijão fradinho já em fim de safra. Algumas vagens secas balançando nos pés. Nas beiradas quiabo alto, maxixe estendido no chão como colouxa.

E na cabeceira mais próxima da cerca um pequeno monte de raízes de mandioca já arrancadas, brancas por dentro, gordas, empilhadas em cima de um pano. Benedita estava atrás desse monte, com a enchada no ombro e uma das mãos apoiada nela. Do mesmo jeito exato que estava no dia em que o coronel Anastásio deixara ela ali.

Ele não sorriu, não disse nada, só ficou olhando para os quatro homens do outro lado da cerca esperando. O coronel Praxedes foi o primeiro a falar. fez uma pergunta baixa dirigida a Anastasia sobre desde quando aquele chão dava mandioca desse tamanho. Os dois compradores de diamantina trocaram um olhar e um deles se abaixou, passou a mão em uma das mandiocas empilhadas, sentiu o peso, perguntou quantos quilos ela achava que o meio alqueire ia render.

Benedita respondeu sem mudar o tom, que estimava 600 kg só de mandioca, mais o feijão que já estava colhendo, mais o quiabo, mais o maxiche. Falava para o coronel. Anastásio ficou em silêncio o tempo todo. Não fez pergunta, não fez brincadeira, não repetiu a frase que havia dito seis meses antes.

Tirou a pel, passou a mão no rosto, no chão do campo de ossos, e ficou de olhos fixos, como quem vê pela primeira vez uma pessoa que morava na casa dele. Havia muitos anos. Quem o conhecia bem contou depois que o viram sair de algum lugar sem ter dado a última palavra. Rosalina foi a prameira. Já vinha ajudando desde o mês da seca, mas depois do dia 22 pediu Benedita na privacidade da Senzala para aprender para aprender direito.

Não do jeito de quem vê e imita, mas do jeito de quem entende porque cada coisa é feita. Benedita começou a ensinar aos poucos para noite, na luz baixa do candieiro. Ele primeiro ensinou o teste do pó apertado na mão, depois o cheiro da terra viva contra o cheiro da terra, cansada, depois as fases da lua, para plantil de raiz e para plantil de folha.

Depois o feijão de porco, o composto quente, o cobertura morta contra a seca. Rosalina anotava tudo na cabeça porque não sabia escrever e Benedita também não, mas tinha o jeito antigo de guardar as coisas em ordem, uma em cima da outra, para não perder nenhuma. Quando o Natal daquele ano chegou, Rosalina já havia começado a trabalhar um pedaço menor de chão ruim atrás da cozinha.

E no ano seguinte esse pedaço estava dando repolho, alface, cebolinha, cheiro verde, coisa que a cozinha da fazenda tinha comprado do vizinho por 15 anos. O coronel Anastasia cumpriu o combinado. Benedita passou a receber a terça parte de tudo o que o campo dos ossos produzia, contada em quilos e paga em dinheiro trimestral na frente de duas testemunhas.

Em dois anos, com essa terça parte guardada em um pote de barro que ficava enterrado embaixo do giral da cenzala, ela economizou o suficiente para comprar sua própria alforria. o valor combinado com Anastasia em um manhã sem testemunhas no Alpendre, quando os dois estavam finalmente se felando de igual para igual, cada um sabendo exatamente o que o outro tinha feito e [limpando a garganta] não tinha feito, ficou na fazenda por mais três anos depois disso, agora recebendo salário, ensinando rei mais duas mulheres da

cenzala. Bastião, o feitor pediu demissão nesse período fiança. Em sapão, o feitoros tenso de incompabilidade de com as mudanças na fazenda. Ninguém pediu para ele ficar. Terra ruim não existe. Existe terra cansada, terra ferida, terra que foi tratada como se não tivesse memória, sendo que a terra é justamente aquilo que mais lembra de tudo.

A terra lembra do primeiro milho que foi plantado nela. E lembra do último, lembra do peso do arado, do machado que derrubou a árvore que a cobria dos 10, 20, 30 anos em que ninguém pensou nela como coisa viva, e sim como coisa para gastar. A terra fica quieta por um tempo, esperando que alguém volte com outra intenção.

E quando ninguém volta, ela adormece daquele jeito profundo que parece morte, mas não é. É espera, é o pedido mais paciente que existe no mundo. Benedita entendeu isso não porque leu em um livro, porque livro não tinha, mas porque sua avó tinha entendido. E a avó da avó e a avó da avó da avó do outro lado do mar.

E o que os coronéis chamavam de superstição? E os feitores chamavam de mandinga, e os estudiosos chamavam de conhecimento primitivo, [limpando a garganta] era, na verdade, a única coisa que aquela fazenda tinha para escutar quando tudo já havia sido tentado sem escuta. A ciência dos velhos chegou no navio negreiro junto com os corpos e continuou trabalhando o chão do Brasil de dentro das censalas.

silenciosa, precisa, correta, mesmo quando ninguém quis reconhecer que era ciência. O coronel Anastado morreu em 1863, 15 anos depois daquele setembro no campo dos ossos. Benedita, já livre havia 12 anos, comprou daquela fazenda, do herdeiro, o meio alqueir, onde tudo havia começado, e mais três alqueires em volta. 30os plantou o que quis do jeito que sabia e ensinou quem quis aprender.

E não cobrou uma moeda pelo ensino. Morreu os anos depois da assinatura da lei Áurea com 70 anos e a mesma enchada. E você que está me ouvindo enchada. E você que está me ouvindo agora, alguma vez já cuidou de alguma coisa que todo mundo tinha desistido? O coronel disse que aquela terra não criava nem mato e a escrava só sorriu e pegou a enchada.

Mas o sorriso dela não era desafio, era paciência. Era o sorriso de quem já sabia antes de começar que o chão tinha razão de estar cansado e que a única coisa que faltava era alguém disposto a devolver o que tinham tirado dele. Se essa história tocou alguma coisa dentro de você, me conta aqui embaixo o nome de uma pessoa de sua família que sabia mexer com terra, com planta, com bicho, com coisa da roça e cujo conhecimento quase se perdeu.

Escreva o nome, escreva de onde ela era. Vamos guardar juntos essas lembranças que os livros de história esqueceram. Se você ainda não é inscrito no canal, se inscreve, ativa o sininho para não perder as próximas histórias e compartilha esse vídeo com aquela sua tia, aquele seu tio, aquele seu avô que ia gostar de ouvir.

Que Deus abençoe você e a sua casa, minha querida, meu amigo. Até a próxima história.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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