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Ela salvou 200 GALINHAS que seriam sacrificadas — até o primeiro comprador ver os ovos…

As 200 galinhas chegaram numa terça-feira de agosto dentro de quatro gaiolas de transporte empilhadas na caçamba de uma caminhonete velha que pertencia ao frigorífico de Gilmar Teixeira em Ibateguara. Nenhuma delas fazia barulho. Essa foi a primeira coisa que Celestina Rocha notou quando desceu os degraus da varanda para receber o carregamento, o silêncio.

Galinha saudável faz barulho. Galinha em gaiola de transporte faz barulho. 200 galinhas juntas, mesmo cansadas de viagem, deveriam estar fazendo um barulho que chegasse até a estrada. Essas não faziam nada. ficavam paradas nas gaiolas com a cabeça levemente inclinada e os olhos entreabertos, como animais que já tinham desistido de calcular o que viria a seguir.

Gilmar Teixeira tinha avisado por telefone que o lote seria sacrificado na sexta. eram poedeiras que tinham encerrado o ciclo produtivo, galinhas que, depois de 72 semanas em produção, era tinham caído para uma taxa de postura abaixo de 40% e que não compensavam mais a ração que consumiam. No sistema industrial onde ele as comprava, esse era o ponto de corte.

Abaixo de 40 vai pro abate. As 200 galinhas de Celestina estavam em 32%. Na última medição do integrador, Gilmaras vendeu por R$ 8 a cabeça o valor de mercado para bate de frangos velhos, num total de R$ 16.600 que Celestina pagou à vista com o dinheiro que guardava num envelope de papel dentro de uma lata de biscoito na dispensa.

Ela tinha 46 anos, viúva havia quatro e morava numa propriedade de 3 hectares nos arredores de Viçosa, em Alagoas. O sítio tinha um pomar pequeno, um roçado de mandioca e até aquela terça-feira um galinheiro vazio que o marido tinha construído com madeira de eucalipto e tela de arame antes de adoecer. Celestina tinha trabalhado a vida inteira com galinhas, de quintal, de pequena escala, nunca com 200 cabeças de uma vez, mas tinha algo que conhecia bem e que as pessoas ao redor dela raramente associavam a ela. Havia estudado três

anos de zootecnia numa escola técnica em Maceió, quando era jovem, antes de casar e voltar para o interior. O curso não foi até o fim. O que ela aprendeu ficou. O cunhado dela, Severino Rocha, ficou sabendo das galinhas no dia seguinte e apareceu no sítio no início da tarde, com a expressão de quem vem cumprir uma obrigação desconfortável.

Severino tinha uma mercearia enviçosa e se considerava um homem prático. Disse que Celestina tinha jogado dinheiro fora, que galinha de ciclo encerrado não voltava a botar com nenhum tratamento do mundo e que o máximo que ela conseguiria seria um frango duro para caldo, que nem isso valia o esforço. Disse que a cunhada estava sozinha demais e que sozinha demais fazia a cabeça da pessoa girar em direção errada.

Celestina ouviu tudo sem interromper, serviu um copo de água que ele bebeu e depois pediu que ele a ajudasse a descarregar as últimas duas gaiolas da caminhonete. Severino recusou e foi embora. Ela descarregou sozinha. O que Celestina sabia e que Severino não tinha motivo para saber era que galinhas poedeiras de ciclo encerrado não são necessariamente galinhas destruídas, são galinhas exaustas.

O sistema produtivo industrial as empurra continuamente, luz artificial por 16 horas por dia, ração de alta energia, estímulo constante de postura, até que o corpo do animal simplesmente desacelera como mecanismo de defesa. A glândula ovariana reduz a atividade. O folículo que daria origem ao ovo, deixa de maturar no ritmo esperado.

Casca do ovo, que depende de cálcio absorvido diariamente, começa a sair fina, mas o aparelho reprodutivo da galinha não está morto, está em repouso forçado. Havia um protocolo para isso. Chamava-se muda forçada induzida, em inglês Forst Mold. E era uma prática documentada na avicultura comercial desde os anos 60, usada por integradores grandes para estender a vida produtiva de lotes de alta genética em vez de sacrificá-los ao fim do primeiro ciclo.

A ideia central era simples, a passar por um período de privação controlada que simulasse o repouso natural que um animal em liberdade teria entre ciclos de postura. Esse repouso permite que o ovário se recupere, que o tecido folicular se renove e que, quando a alimentação é retomada de forma gradual, a galinha entre num segundo ciclo produtivo com qualidade de ovo muitas vezes superior ao que produzia no final do primeiro.

Celestina tinha relido sobre o protocolo em dois manuais técnicos que pediu emprestado a um técnico agropecuário do município. um homem chamado Dário, que a conhecia da época em que o marido ainda era vivo e que lhe trouxe os documentos sem cobrar nada. A muda forçada que ela decidiu usar era a muda não alimentar, alternativa ao método antigo de jejum total, que causava mortalidade alta e tinha sido progressivamente abandonado.

No método não alimentar, as aves não passam por jejum total. Em vez disso, substituía-se a ração convencional. por uma dieta de baixíssima, um período de 10 a 14 dias, a dieta clássica usava farinha de ostra ou farelo de arroz puro, alimentos que o animal ingere normalmente, mas que fornecem calorias e proteína tão reduzidas que o sistema produtivo entra em descanso sem que o estress seja intenso o suficiente para matar.

Ela calculou a quantidade necessária com base no peso das aves e no número de cabeças. Cada galinha consumia entre 80 e 100 g de ração por dia. Para 200 galinhas eram 20 kg por dia. Durante a fase de muda, ela substituiria a ração por farelo de arroz integral, que comprou em sacos de 50 kg numa casa agropecuária de Viçosa, e adicionaria casca de ostra moída com fonte de cálcio para preservar a integridade óssea durante o período de restrição.

O farelo de arroz fornecia em torno de 8% de proteína bruta comparado aos 16 a 18% da ração de postura convencional. Essa queda abrupta na proteína disponível era o sinal que o corpo da galinha precisava para interpretar como início de período seco. Os primeiros cinco dias foram os mais difíceis de observar. As galinhas que tinham chegado em silêncio tornaram-se inquietas quando sentiram a mudança na ração, não quantidade, mas no sabor e na textura que o instinto delas reconhecia como diferente.

Algumas batucavam o comedouro com o bico por mais tempo do que o habitual. A postura, que já estava em 32%, caiu para 8% na segunda semana. Celestina anotava tudo num caderno que pendurava num prego na entrada do galinheiro. Número de ovos por dia. Aspecto da crista das aves, consumo de água, qualquer sinal de mortalidade.

Na déma semana de acompanhamento, perdeu três galinhas, duas por causas que o técnico Dário identificou como relacionadas ao estado anterior das aves, provavelmente já comprometidas quando saíram do frigorífico. uma por picote de galinha mais agressiva que deixou uma ferida que infeccionou. 197 galinhas continuavam vivas.

No 12º dia, ela iniciou a fase de realimentação. Esse era o momento em que o protocolo exigia mais atenção, porque introduzir proteína demais, rápido demais, forçava o sistema produtivo antes que o ovário tivesse completado o descanso e o resultado era postura irregular. ovos com casca fina e alta taxa de ovos quebrados.

Celestina começou com uma ração de transição que ela mesma formulou com orientação de Dário. 40% de farelo de soja, 20% de farelo de trigo e 10% de mistura mineral com cálcio elevado. Proteína bruta resultante: 12% manteve essa dieta por 7 dias. No 19º dia, introduziu a ração de pré-postura, proteína bruta de 14%, com adição de metionina sintética para suportar a formação da clara do ovo e cálcio em 3% da matéria seca para a formação da casca.

Cada saco de ração pré-postura custava R$ 92. Ela usava sacos e meio por semana. Era mais caro do que a ração comum. E ela sabia que esse custo precisava ser absorvido por no máximo duas semanas antes que a postura retomasse. No 23º dia, desde a chegada das galinhas ao sítio, Celestina encontrou sete ovos no ninho da manhã. No dia seguinte, 16.

No final da quarta semana de realimentação, a taxa de postura tinha chegado a 61%, 120 ovos por dia, em média de 197 galinhas. Era mais do que o dobro do que o integrador media antes do descarte. Mas foi quando ela começou a examinar os ovos que entendeu o que tinha acontecido de verdade.

O protocolo de muda forçada, quando bem executado, produz um fenômeno documentado na avicultura que os técnicos chamam de renovação do epitélio ovariano. O ovário, que retoma a atividade depois de um repouso adequado, produz folículos mais saudáveis do que os que estavam sendo formados no final do ciclo exausto.

O resultado prático é um ovo de segunda vida, com qualidade superior ao ovo, de fim de ciclo. Casca mais espessa e mais uniforme, gema com coloração mais intensa, clara com menor índice de fluidez. Celestina tinha um ovoscópio simples comprado por R$ 35 numa loja de equipamentos agropecuários e ela passou uma tarde verificando os ovos da primeira semana de produção plena contra a luz.

As câmaras de ar eram pequenas e regulares. As cascas não mostravam as microtrincas que caracterizam ovo de galinha em estado de depressão de cálcio. A coloração da gema, quando ela quebrou alguns para verificar, era de um amarelo alaranjado que ela não esperava ver. Foi nesse ponto que a notícia chegou de um vizinho.

A propriedade de Edilson Menezes ficava a 2 km pela estrada de Terra e Edilson criava galinhas há 15 anos, um aviário comercial de médio porte, 3.000 aves, integrado à mesma cooperativa de Viçosa. Na primeira semana de outubro, um dos seus lotes apresentou sintomas de doença de Newcastle, queda brusca de postura, secreção nasal, torcicolos em algumas aves.

O veterinário da cooperativa confirmou a suspeita em dois dias. A vigilância sanitária estadual decretou bloqueio sanitário num raio de 5 km a partir da propriedade afetada. Celestina estava dentro desse raio. O bloqueio significava suspensão imediata. da comercialização de ovos e aves vivas da área. Nenhum produto podia sair da propriedade enquanto a investigação epidemiológica estivesse em curso.

A vigilância estimou inicialmente um prazo de 15 a 20 dias. Celestina 120 ovos por dia chegando e nenhum lugar para vender. Ela tinha investido até aquele ponto R$ 2.900 entre a compra das galinhas, os insumos da muda, a ração de realimentação e pequenas reformas no galinheiro. Ainda não tinha recuperado R sequer.

Ela montou uma câmara fria, improvisada com isopor e gelo dentro do galpão de ferramentas e começou a armazenar os ovos em bandejas de 30, embaladas em jornal, no escuro e no frio. A vida útil de um ovo conservado adequadamente em torno de 15º é de 30 a 35 dias sem perda significativa de qualidade. Ela tinha margem.

O que ela não tinha era certeza sobre quanto tempo o bloqueio duraria. E se as galinhas de Edilson confirmariam Newcastle ou se a suspeita seria descartada antes. O laudo definitivo da vigilância sanitária saiu no 17º dia. Newcastle confirmado no lote de Edilson, mas os testes feitos nas propriedades do raio de bloqueio, incluindo a de Celestina, voltaram negativos para o vírus.

O bloqueio foi levantado para as propriedades não afetadas. Celestina tinha na Câmara improvisada 2040 ovos armazenados. Nenhum deles com mais de 18 dias, todos dentro da janela de qualidade. Ela telefonou para um comprador que tinha conhecido numa feira agropecuária em Maceió, no ano anterior, um homem de nome Edivaldo, que fornecia ovos para supermercados de médio porte no litoral alagoano e que ela sabia que procurava fornecedores da região.

Edivaldo disse que precisava ver o produto antes de qualquer conversa de preço. Combinou uma visita paraa manhã de quinta-feira. Ele chegou numa caminhonete branca às 8:30. Celestina estava no galinheiro quando ele parou no pátio e veio abrir o portão sem se apressar. Edivaldo era um homem de uns 50 anos, moreno, com a postura de quem avalia coisas o dia inteiro e raramente se surpreende com o que encontra.

Ela o levou diretamente ao galpão, onde as bandejas de ovos estavam empilhadas. Ele pegou a primeira bandeja, virou os ovos na mão, um a um, verificou a casca com atenção específica de quem sabe o que está procurando. Depois pegou um ovo e bateu de leve na quina da bandeja para quebrar.

A gema que ele viu era de um amarelo alaranjado profundo que ele depois descreveu para quem perguntou como a coisa mais próxima de ovo de galinha caipira que ele tinha visto num produto de escala. Ele ficou olhando pro ovo partido por alguns segundos sem dizer nada. Pegou mais um, quebrou, olhou de novo. Celestina ficou parada ao lado dele em silêncio enquanto ele examinava.

Não explicou o protocolo, não mencionou a muda forçada, não disse de onde as galinhas tinham vindo, deixou os ovos falarem. Edvaldo fechou o punho devagar sobre a casca vazia do segundo ovo, colocou no bolso como quem guarda uma amostra e olhou para ela. Perguntou quantas bandejas ela tinha. Ela disse: “68”.

Ele perguntou: “Qual seria a produção semanal estável?” Ela disse: “840 ovos por semana, crescendo para 900 à medida que as aves restantes entrassem em plena postura. Ele ficou quieto por um momento, calculando alguma coisa que ela não perguntou. Depois ofereceu 55 centavos por ovo contra os 42 centavos, que era o preço médio de mercado, para ovos convencionais de granja na região naquele mês.

A diferença era o que a qualidade da casca e da gema valia para supermercados que vendiam ovo como produto diferenciado. Celestina aceitou sem negociar, não porque o preço fosse definitivo, mas porque havia tempo para isso depois. A vizinha que soube da história, antes de qualquer outra foi Josefauda, que criava 25 galinhas no quintal e vendia ovos no mercadinho do marido.

Josefa apareceu no sítio numa tarde de novembro com dois ovos na mão e uma pergunta direta. O que Celestina tinha feito diferente? Celestina abriu a porteira, convidou para dentro e passou uma hora explicando o protocolo sem omitir nenhuma etapa. A fase de farelo, os dias de realimentação, a ração de pré-postura com cometeionina, o ovoscópio.

Josefa saiu com o caderno de anotações que Celestina fez uma cópia à mão antes da visita porque sabia que alguém viria perguntar mais cedo ou mais tarde. Há uma ideia que circula entre criadores de animais e que tem a durabilidade das coisas que nunca foram examinadas de perto, a ideia de que animal que parou de produzir não tem mais serventia, que o corpo cansado é corpo encerrado, que o ciclo que fechou não abre mais.

Mas o corpo do animal, como a terra que descansa no período seco, não sabe que foi declarado inútil. Ele sabe apenas que precisa de tempo. A galinha que entra em repouso não está morrendo. Está esperando as condições que nunca chegaram no lugar de onde veio. Está guardando o que ainda tem. E quando alguém chega e oferece o que faltava, o silêncio, a pausa, a ração certa na hora certa, o que parecia encerrado recomeça com uma qualidade que o ciclo anterior, no cansaço dele, não tinha mais como oferecer. Não é milagre.

É apenas o que acontece quando uma coisa viva é tratada como coisa viva e não como recurso que foi até o fim da sua utilidade. E essa pergunta vale mais do que para galinhas. Vale para tudo que foi descartado antes de alguém ter paciência de perguntar o que aquilo ainda tinha para dar. Celestina Rocha salvou 200 galinhas que seriam sacrificadas numa sexta-feira.

E meses depois, o primeiro comprador que entrou no galpão dela ficou parado diante dos ovos, sem conseguir falar por um tempo. Se você já aproveitou um animal, uma terra ou qualquer coisa que alguém tinha dado como perdida, conta nos comentários de que estado você é e o que você encontrou do outro lado da desistência dos outros.

Se essa história chegou até você pela primeira vez, se inscreve no canal. e compartilha com alguém que precisa ouvir que o que parece acabado às vezes só está esperando a pessoa certa chegar. Que Deus abençoe você e a sua família.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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