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Ela disse que ia criar patos no meio do sertão. Todos riram… até ela virar a maior da região.

O cheiro veio antes do caminhão. Era aquele cheiro específico de animal molhado, misturado, com palha seca, um cheiro que não pertencia àquele lugar, não ali na catinga de custódia, onde o vento em novembro cheira a poeira e jurema e a nada mais. Quando o caminhão dobrou a última curva da estrada de argila e parou na frente da propriedade de Dalva Ferreira, já havia quatro homens encostados na cerca, olhando.

Um deles era o irmão de Dalva, outro era o marido da vizinha do lado. Era os outros dois eram trabalhadores do sítio, que ficava a 2 km e que haviam ouvido falar da história e tinham vindo confirmar com os próprios olhos. O motoriu à traseira do caminhão e começou a descarregar as gaiolas. Dentro delas 320 pintinhos de pato da raça Pequin, com duas semanas de vida, brancos como papel de carta, fazendo o barulho miúdo que Pato Novo faz quando está com fome e com frio. Ao mesmo.

Dalva Ferreira tinha 51 anos, era viúva, havia seis e havia depois da maior parte desses 6 anos tentando descobrir o que fazer com os 22 hactares de catinga seca que o marido havia deixado. Ele havia tentado criar gado por anos, o que todo mundo tentava, e o gado mal sobrevivia nas secas, morria socas longas e comia dinheiro nas entressafras.

Quando ele morreu, havia 14 bois magros e uma dívida de R3. 000ais no Banco do Nordeste. Nos Dalva vendeu os bois, pagou metade da dívida, renegociou o resto e ficou com a terra dois funcionários e um problema que ninguém havia conseguido resolver antes dela. O que plantar, criar ou cultivar em um certus, que chove 140 mm por ano nos bons anos e 60 nos ruins, em uma propriedade pequena demais para compensar as apostas erradas.

A idéia dos patos, ela havia encontrado em um caderno velho que pertencia a um agrônomo chamado Paulo Henrique Sales. Chevafídius isso, que havia trabalhado na Embrapa semiárido em Petrolina [limpando a garganta] por 12 anos antes de se aposentar e que havia escrito naquele caderno de capa verde desbotada observações detalhadas sobre criação de aves alternativas em clima seco.

Não teoria de livro. mas anotações de campo feitas ao longo de anos, com números de temperatura, de conversão alimentar, de mortalidade por raça. O caderno havia chegado às mãos de Dalva, através de sua prima Berenice, que morava em Salgueiro, e havia encontrado o caderno em uma caixa de livros em uma feira de usados por R$ 2.

A prima havia mandado pelo motoboy, achando que Dalva ia rir. Dalva leu duas vezes, depois ligou para Embrapa, em Petrolina e no segundo telefonema conseguiu falar com a extensionista Marta Celeste, que havia sido aluna de Paulo Henrique e conhecia as anotações. Marta confirmou o que estava no caderno e foi além.

Pato Pekin, adaptado ao clima semiárido, com manejo correto de temperatura e piso, produziu bem acima do frango caipira em ganho de peso por quilo de ração. A conversão alimentar de Pekin ficava entre 2 kg e 2,5 kg kg de ração por quilo de peso vivo ganho, contra 3, do frango caipira em condições semelhantes.

mais resistente a doenças respiratórias causadas por calor que o sistema termorregulador da raça havia sido selecionado para amplitudes térmicas altas [música] e gerou subprodutos que o frango comum não oferecia no mesmo volume. As penas do Pequim tinham mercado em estofaria e travesseiros artesanais. A gordura subcutânea tinha saída em mercados regionais.

E o volume de esterco produzido por animal era três vezes maior que o da galinha, o que em sistema de biofertilizante líquido representava uma receita paralela com palma e fava que Dalva já cultivava nos fundos. Quando Dalva contou ao irmão Eustáque o você estava planejando, ele ficou olhando para ela por um tempo sem dizer nada.

Aí ele falou: “Pato é bicho d’água. Aqui não tem água nem pra gente. Dalva disse que tinha água suficiente se soubesse usar bem. Eustáquio disse que ia ser dinheiro jogado fora, que Kaatinga não é lugar de pato, que ela deveria comprar algumas cabras e parar de inventar. Dalva anotou a objeção da água no caderno que ele havia comprado para substituí-lo do Paulo Henrique, porque eu pensei que Boa ideia merece caderno próprio.

E foi pesquisar o consumo hídrico real de um lote de 300 patos em sistema de confinamento. O número que Marta Celeste deu a ela por telefone foi de 7 L por pato por dia em sistema de bebedouro Nipple, o bebedouro de pressão que o animal ativa com o bico, sem desperdiçar a água em calha aberta. 700 L por dia para o lote inteiro de 100 dias de operação por ciclo.

Mais 300 L diários para limpeza do piso abaixo do ripas e umidificação do ambiente nos dias mais secos. Um total de 1000 L por dia, que para a cisterna que Dalva havia construído do anos antes, com recursos do programa Cisternas do governo federal, capacidade de 16.000 1000 L, abastecida por carro pipa quinzenal 180 a viagem no período de seca.

Representava reabastecimento a cada 16 dias. O custo anual com água, incluindo todas as viagens de carro pipa no período sem chuva e a captação própria nos meses de inverno saía a R$ 4.300 por ano ou cerca de R$ 717 por lote de 48 dias. Dalva havia feito essa conta três vezes antes de mostrar ao irmão.

O próprio Eustáo, quando ela apresentou a planilha que havia montado na mesa da cozinha com os números divididos por item de custo, não respondeu de imediato. Ficou olhando para o papel. Depois disse que água de carro pipa era cara e que no final das contas o custo ia comer à margem. Dalva mostrou a coluna de margem na planilha.

Eustáquio ficou em silêncio um tempo mais. Depois disse que esperava que ela soubesse o que estava fazendo e foi embora. O galpão foi a primeira coisa. Sem galpão correto, Marta Celeste havia dito logo na primeira conversa: “Não havia criação de pato possível no semiárido”. O sol direto em novembro em custódia chega a 42 graus na sombra na hora do almoço e Pintinho, com duas semanas entra em colapso térmico em menos de 20 minutos sob essa temperatura sem proteção.

O pato Pequen adulto aguentava o calor melhor do que a maioria das aves, mas o pintinho era vulnerável até os 21 dias de vida, quando o sistema de termorregulação ficava maduro. Alva havia levantado o galpão de 16 m de comprimento por oito de largura com telha de zinco dupla, duas telhas paralelas com câmara de ar de 6 cm entre elas, que funcionava como isolamento térmico e reduzia a temperatura interna em até 8º em relação à temperatura externa no pico do calor.

O galpão foi orientado no sentido leste oeste, com as laterais abertas voltadas para norte e sul, para que o sol da manhã e da tarde não batesse diretamente nas telas. As laterais eram de tela de arame galvanizado de malha 1, meio, suficientemente aberta para ventilação, mais fechada o bastante, para impedir entrada de animais silvestres.

As cortinas plásticas desciam nas noites frias. Novembro no sertão tem noite fria, quando o céu está limpo e a umidade é baixa, e pintinho recém-chegado não tolera menos de 20º e subiam nas manhãs depois que o sol aquecia o interior. O piso era o ponto central de todo o sistema. E o que mais havia custado tempo para Dalva entender completamente? Pato é ave úmida por natureza.

O bico curvo e largo desperdiça mais água do que qualquer outro bico de ave doméstica, molhando a cama constantemente. Em sistema convencional de cama de maravalha ou palhada, o mesmo sistema usado para frango, a umidade acumulada do pato transforma a cama em lama em menos de uma semana. criando amônia que danifica as vias respiratórias e barro que machuca os pés e facilita a entrada de bactérias pelo calo plantar.

O resultado era doença crônica, baixo ganho de peso e mortalidade alta. Marta Celeste havia explicado o sistema de piso ripado como a solução. Estrado de madeira cerrada elevado 15 cm do chão, com frestas de 1 cm entre as tábuas, por onde as feeses e a água desperdiçada caíam diretamente para uma calha de coleta revestida com lona plástica abaixo.

O pato ficava no estrado seco, a sujeira e a umidade ficavam abaixo e o ambiente do galpão ficava com umidade relativa controlada entre 50 e 65 e 5%. A faixa onde o PEK se desenvolve melhor, sem estresse térmico, por umidade alta. O material da calha era recolhido a cada dois dias, diluído em água e bombeado para um tanque de fermentação anaeróbia de 200 L, onde maturava por 20 dias antes de ser aplicado na palma forrageira dos fundos como biofertilizante líquido.

Marta Celeste havia dito que em propriedades maiores esse subprodutos se tornava uma linha de receita separada. Em custódia, por enquanto, ele pagava o adubo da palma, que pagava a ração dos patos no período seco. A madeira para o ripado foi o maior custo fixo do projeto, R$ 12.200, em eucalipto, tratado com autoclave, que resistia melhor à umidade do que a madeira comum e durava ao menos 8 anos sem apodrecer.

Dois carpinteiros de custódia, que nunca haviam feito piso para criação de ave instalaram o estrado, seguindo as medidas que Dalva copiou a mão da folha que Marta Celeste havia enviado por WhatsApp. O galpão inteiro, telha dupla, tela galvanizada, cortinas plásticas, bebedouro nipple, comprados de um fornecedor em fortaleza, comedouros de calha, PVC, e a estrutura do ripado saiu por 48.000. R$ 1.000.

Dalva havia solicitado o financiamento do PRONAF B, aprovado em 40 e R$ 2.000 em duas parcelas e pagou a diferença com o que havia guardado nos 2 anos desde a morte do marido. Quando os 320 pintinhos chegaram em novembro, o galpão estava pronto há uma semana e havia passado por uma desinfecção completa, com formou 2%.

Dois dias antes da chegada dos animais. com o ambiente fechado por 12 horas para o gás atuar nos cantos e frestas. Dalva e seus dois funcionários, Cícero, que havia trabalhado com o marido dela desde sempre, e uma mulher chamada Madalena, que havia sido contratada especificamente para os patos e que tinha criado galinha caipira a vida toda, haviam feito três dias de treinamento com Marta Celeste por videochamada, aprendendo o protocolo de biossegurança, desinfecção de calçado em bandeja com hipoclorito antes de entrar no galpão.

Troca de avental, mãos lavadas, nenhum animal externo dentro do raio de 50 m da estrutura. A vacinação contra a doença de Newcastle havia sido feita ainda no incubatório de origem, mas Marta Celeste pediu para Dalva confirmar com o fornecedor a data e o lote da vacina. Estava confirmado.

O primeiro mês era o mais crítico havia dito a extensionista. Se o pintinho passa os primeiros 21 dias sem problema respiratório, ó, o sistema vai. A alimentação seguia fases distintas. Na fase inicial do zero aos 21 dias, a ração era de 22% de proteína bruta, a chamada ração inicial de alta proteína, necessária para o desenvolvimento acelerado de músculo e pena do PEK nesse período.

A partir do 22º dia, a ração passava para a fase de crescimento com 18% de proteína e maior proporção de energia metabolizável para deposição de gordura. E acabamento do peito. Dalva havia comprado a ração de um fabricante de arcoverde em sacos de 50 kg, calculando o consumo médio de ração por lote em 100 kg para a fase inicial e 2.800 para a fase de crescimento.

Os comedouros de PVC eram ajustados em altura a cada semana, acompanhando o crescimento do animal para que ele não desperdiçasse ração ao bicar além da borda. As primeiras duas semanas correram sem incidente. Dalva entrava no galpão duas vezes ao dia, às 6 da manhã, antes do sol esquentar, e às 5 da tarde, quando o calor cedia, anotando temperatura interna no termômetro de parede, verificando o nível de água nos bebedouros e conferindo se havia pintinho apartado do grupo.

Pintinho doente separa-se dos outros e fica parado com o bico virado para baixo e os olhos semicerrados. Era o sinal que Marta Celeste havia descrito. É descrito com precisão. E Dalva havia repassado para Cícero e Madalena até os dois saberem identificar de longe. Na 15ª noite, Cícero encontrou seis pintinhos assim. Dalva ligou para Marta Celeste às 6 da manhã do dia seguinte com fotos das aves e da área abaixo do ripado.

A extensionista olhou, fez uma pergunta sobre as feeses, cor e consistência, dois indicadores diagnósticos primários, e disse que era coxidiose protozoário intestinal que prolifera quando a umidade do ambiente ultrapassa o limite de controle. A causa tinha sido simples. Uma das conexões de encaixe rápido de um bebedouro nípple havia afrouchado durante a noite anterior, vazado água lentamente sobre o ripado.

E embora a água houvesse passado pelas frestas da tábua, ela havia molhado o suporte de madeira da estrutura, criando umidade que evaporou de volta para o ambiente do estrado. Nada grave o bastante para aparecer na verificação da manhã anterior, mas suficiente para elevar a umidade local e criar as condições que o eimeria, o gênero de protozoário que causa a coxidiose, a solução para se multiplicar.

Troca imediata da conexão defeituosa. Aplicação de cal virgem granulada abaixo do ripado, na área afetada para a absorção da umidade residual e tratamento preventivo de todos os 320 pintinhos com amprolum diluído na água de bebida por 5 dias anticoxidiano de baixo custo disponível em qualquer agropecuária. Dalva foi à agropecuária de custódia na mesma manhã, comprou o produto, diluiu na proporção indicada na bula e abasteceu todos os bebedouros.

Os seis pintinhos doentes morreram nos dois dias seguintes, sem que ela pudesse fazer mais do que isolar e observar. Os 314 restantes completaram o tratamento e não apresentaram sequela. Foi esse episódio que validou o sistema de piso ripado mais do que qualquer resultado positivo teria feito. A falha havia sido de uma conexão, não do sistema.

E o sistema limitado, o dano a seis animais em vez de se espalhar por todo o lote, como teria acontecido em cama de maravalha convencional. Dalva passou a verificar todas as conexões dos niples toda manhã com a mão, empurrando levemente cada encaixe para checar folga. Era 10 minutos de trabalho que ela nunca mais deixou de fazer.

Aos 42 dias de vida, o lote inteiro passou pela primeira pesagem. Marta Celeste havia dito que o pequim em confinamento deveria atingir entre 2 kg e 2,300 g nessa idade, com conversão alimentar de 2,3 de ração para cada quilo de peso vivo. O resultado de Dalva foi de 2, 400 g de média, ligeiramente acima da referência, o que Marta Celeste atribuiu ao piso ripado? Sem humidade, sem doença crônica que consome energia do animal, o ganho de peso fica mais eficiente.

O abate foi marcado para os 48 dias, quando o Pequen atinge o peso ideal de comercialização, sem começar a emagrecer por estresse de calor. O problema chegou na forma de uma carta com carimbo do frigorífico de Salgueiro, três semanas antes da data prevista para o abate. O frigorífico comunicava que estava suspendendo as compras de aves alternativas por tempo indeterminado.

Havia trocado de dono no mês anterior após dificuldades financeiras e o novo proprietário havia decidido concentrar a operação em frango e suino, que tinham giro mais rápido e fornecedores mais consolidados na região. Para o pato não havia mais contrato. Alva leu a carta na mesa da cozinha na hora do almoço com o feijão já frio na panela.

Ficou olhando para o papel por um tempo que ela não soube depois dizer quanto foi. 314 patos com 45 dias de vida e abate previsto para o 48º. Porque depois dos 48 dias, o Pequim começa a perder rendimento de carcaça com o calor e manter o lote mais tempo. Seria jogar ração em animal, que já deu o que tinha para dar, e sem nenhum comprador fechado.

O custo de ração era de R$ 280 por dia para o lote inteiro. Ela tinha no máximo seis dias de margem antes que o custo adicional começasse a cortar o lucro projetado de forma significativa. Ela foi ao caderno, virou para uma página em branco e começou a listar o que tinha, o peso estimado do lote, o preço mínimo que precisava receber, por aquilo para cobrir os custos variáveis, o número de compradores em potencial que ela conhecia e o que cada um poderia absorver.

Depois ligou para Marta Celeste. A extensionista ou viu com atenção, ficou um momento em silêncio e então deu três contatos. Dois restaurantes de Recife, que ela sabia que serviam pato no cardápio, e um açueiro especializado em cortes alternativos em serra talhada, que havia comprado pato de outros dois produtores que haviam participado de projetos da Embrapa.

Dalva ligou para os três no mesmo dia, no mesmo período da tarde. Os dois restaurantes de Recife confirmaram interesse imediato. O pato Pekin tinha demanda crescente em restaurantes de culinária regional que trabalhavam com carta diferenciada, mas queriam entrega refrigerada em até 48 horas após o abate e não tinham logística para buscarem custódia.

Fechar esse canal e exigir um transporte frigorífico que Dalva não tinha e não ia conseguir contratar em seis dias. O açgueiro de Serra Talhada, Geraldo, pediu para ver o animal antes de fechar qualquer preço. Dalva arrumou o carro com Cícero no dia seguinte de manhã e foi à serra talhada com duas aves vivas acondicionadas em gaiola de madeira.

O açgueiro era um homem de poucas palavras e muito gesto. Olhou os patos por um bom tempo, abriu a asa de um para ver o acabamento da pena. Pena limpa e aderida indica animal saudável. Apertou o peito para sentir a deposição de músculo e verificou as patas. Depois disse que fechava a R$ 15 o quilo de peso vivo, retirada no sítio, com caminhão frigorífico por conta dele.

O preço de mercado do frango convencional na região naquela semana era de R$ 8,90 o kg. Dalva disse que sim. Antes que ele terminasse a frase. Geraldo mandou um caminhão frigorífico. Cícero e Madalena ajudaram no manejo de retirada. O lote total. Ao final do ciclo de 48 dias, pesou 692 kg de peso vivo, média de 2,g por av.

Levemente abaixo da pesagem aos 42 dias havia reduzido o consumo de ração. A venda para Geraldo rendeu R$ 10.380. O custo de ração para o ciclo inteiro havia sido de R$ 4.200. O custo de energia, água de carro, pipa e medicamentos havia somado R$ 970. O primeiro lote descontados todos os custos variáveis havia dado um lucro de R$ 5.210 em 48 dias.

Não era fortuna, mas era o começo do cálculo que Dalva havia feito antes de começar. Seis lotes por ano, com intervalo de duas semanas entre cada um para limpeza e descanso do galpão, davam projetado de R$ 1.000 de lucro operacional anual antes de pagar o financiamento. Com o financiamento pago em 24 prestações, a margem líquida do terceiro ano seria diferente.

E no terceiro ano, ela ampliou o galpão. foi ao sítio numa tarde de março do segundo ano, sem avisar como era o feitio dele. Entrou pela porteira, cumprimentou Cícero, que estava ajustando as cortinas do galpão para proteger do sol da tarde, e parou do lado de fora, sem pedir para entrar. As aves do quarto lote tinham 42 dias e estavam no peso certo 300 no peso certo 300 patos brancos e gordos no estrado de madeira com o barulho característico que pato adulto bem alimentado faz um grasnado baixo e constante que não tem agitação nem medo dentro dele. Eustio

ficou ali por um tempo com as mãos nos bolsos. Ele sabia que para entrar precisava do desinfetante na bandeja e talvez soubesse também que algumas coisas se olha melhor de fora antes de decidir entrar. Quando Dalva saiu do galpão e o viu parado na tela, ela não disse nada de imediato. Ficou do lado dele.

Os dois ficaram olhando os patos juntos por alguns minutos com o sol de março de lado, deixando o interior do galpão com aquela luz baixa que faz tudo parecer mais quieto do que é. Eustáquio não disse nada sobre ter dito que não ia dar certo. Dalva não disse que havia dado. Eles ficaram ali até o sol cair um pouco mais.

E então Eustáo perguntou quanto tempo levava para montar um galpão daquele. Dalva disse que depende do terreno, mas que ela tinha aprendido tudo no processo e poderia ajudar com as medidas. Eustáquio assentiu devagar, como quem está calculando alguma coisa por dentro, e foi embora sem buzinar. A notícia da produtora de Pato de Custódia chegou ao município primeiro pelo Geraldo de Serra Talhada, que havia começado a dizer aos clientes que comprava pato de produtora local, coisa que ninguém fazia antes na região e depois que em sertão pequeno viaja mais

rápido do que notícia de rádio. No quarto mês do segundo ano, uma mulher de Arcovde que criava Galinha Caipira entrou em contato com Dalva pedindo informação sobre o sistema de piso ripado. Um rapaz de 26 anos de Certânia, que tinha herdado terra do pai e não sabia o que plantar nela, pediu para visitar o galpão.

Dalva recebeu os dois, mostrou o galpão por dentro com o protocolo de desinfecção do calçado que ela pedia. para todo visitante. Explicou o sistema de bebedouro Nipple, o biofertilizante da fossa, a ração por fase. Deu o número de Marta Celeste para os dois. Não cobrou nada por isso. Disse que havia recebido orientação de graça de uma extensionista que nunca a havia visto antes e que repassar era o mínimo que ela podia fazer.

Tem coisas no sertão que todo mundo acha que não cabem no sertão. O pato é bicho d’água, diz a sabedoria antiga. E no sertão não tem água. Disse que pato no semiárido é invenção de gente que nunca viveu a seca. Disse que terra de catinga não aceita o que não foi posto ali pela natureza. Disse isso, quem nunca perguntou para a terra o que ela mesma podia dar se alguém se desse ao trabalho de perguntar direito? A seca não vai embora.

O calor de novembro em custódia não vai embora. Mas a sabedoria que diz que nada pode ser diferente foi construída antes de existir bebedouro nipple. Antes de existir cisterna de 16.000 1000 L captada pelo telhado. Antes de existir uma mulher com um caderno velho comprado por R$ 2 em feira de usados e determinação de ligar para Embrapa até alguém atender, o sertão não muda.

Mas às vezes o que parece impossível no sertão não é impossível. É só não resolvido ainda, esperando alguém que não aceite a resposta que sempre foi dada, só porque sempre foi dada, e que tenha paciência para encontrar a pergunta certa. Quantas outras coisas a gente já decidiu que não cabem no lugar onde vive, sem nunca ter parado de verdade para perguntar porquê.

Dalva Ferreira disse que ia criar patos no meio do sertão, todo mundo riu. E no terceiro ano ela havia se tornado de Pato Pequim do sertão pernambucano, com dois galpões em operação, seis funcionários e contrato fixo com três compradores na região. Se você mora no sertão ou conhece alguém que criou algo que parecia impossível onde estava, conta para a gente nos comentários a cidade, o que foi criado e o que as pessoas disseram antes.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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