CASO ALDEIA: O CR!M3 DO POÇO NO CONDOMÍNIO EM CAMARAGIBE PE
O desaparecimento parecia, à primeira vista, ter uma explicação simples: uma viagem internacional, alguns dias sem contato e uma família esperando notícias. Mas bastou a polícia começar a olhar com mais atenção para dentro de uma casa em um condomínio de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, para que a história começasse a desmoronar.
Onde estava o médico e advogado Denilson Paes da Silva, de 54 anos?
A resposta não estava nos Estados Unidos. Não estava na Rússia. E, segundo a investigação, ele sequer havia deixado o condomínio onde morava.
O que os policiais encontrariam no quintal daquela residência transformaria um caso de desaparecimento em uma investigação de homicídio cercada por versões contraditórias, vestígios de sangue, tentativas de ocultação e uma descoberta brutal dentro de uma cacimba de aproximadamente 25 metros de profundidade.
Tudo começou oficialmente em 20 de junho de 2018, quando a farmacêutica Jussara Rodrigues Silva Paes procurou a delegacia de Camaragibe para comunicar o desaparecimento do marido.
Segundo o relato apresentado naquele momento, Denilson teria viajado primeiro para os Estados Unidos e depois para a Rússia, onde acompanharia partidas da Copa do Mundo. A previsão era de que retornasse em 12 de junho.

Ele nunca voltou.
Denilson vivia com Jussara e os dois filhos do casal, Danilo, então com 23 anos, e Daniel, de 20, em uma residência localizada no condomínio Torquato Castro, na Estrada de Aldeia.
Quando os investigadores começaram a verificar a história da suposta viagem, surgiram sinais de que alguma coisa não fazia sentido.
Documentos, malas e outros objetos pessoais permaneciam na residência. Mais importante: a análise das câmeras de segurança indicava que Denilson não havia saído do condomínio.
A viagem que justificava seu desaparecimento começava a parecer inexistente.
Outro detalhe chamou a atenção dos investigadores. Durante o registro do desaparecimento, Jussara teria perguntado como poderia ter acesso à conta bancária do marido.
A investigação avançou.
No dia 3 de julho, foi expedido um mandado de busca e apreensão. No dia seguinte, policiais e peritos chegaram à residência.
Foi nesse momento que uma área específica do imóvel começou a despertar suspeitas: uma antiga cacimba localizada no quintal.
Segundo a investigação, Jussara teria repetido aos policiais que o marido poderia estar em uma região de mata próxima ao condomínio. A hipótese apresentada era de que Denilson poderia ter sofrido um infarto enquanto caminhava pelas trilhas.
Enquanto isso, o perito criminal Fernando Benevides percebeu algo diferente no poço.
A estrutura parecia ter passado por alterações recentes.
Sobre a tampa de concreto havia vasos pesados com plantas ornamentais e pedras. Aquela disposição chamou a atenção da perícia.
Os agentes começaram a remover o que estava sobre a cobertura.
Em seguida, quebraram o cimento.
Quando a tampa foi aberta, a investigação mudou completamente de rumo.
Dentro da cacimba havia restos humanos.
A profundidade do poço exigiu a participação do Corpo de Bombeiros para a retirada do material. No interior também foram encontrados areia, entulho, pastilhas de cloro e cloro líquido.
O corpo havia sido submetido a graves ações de ocultação antes de ser colocado ali.
O homem que supostamente estaria viajando estava, na realidade, dentro do próprio terreno onde vivia.
Mas aquela seria apenas a primeira de muitas descobertas.
A perícia examinou a residência e encontrou sinais que reforçaram a suspeita de que alguma coisa grave havia ocorrido dentro da propriedade.
A casa apresentava sinais de limpeza intensa com produtos químicos. Embalagens de alvejante foram localizadas, e o uso de luminol revelou vestígios compatíveis com sangue em diferentes áreas.
Havia marcas em banheiros, no hall e em regiões próximas ao caminho entre a residência e a cacimba.
Também foram identificados sinais que poderiam estar relacionados ao deslocamento de um corpo.
Alguns cômodos haviam sido recentemente pintados.
Para os investigadores, o cenário já não era apenas de ocultação de cadáver. Era necessário reconstruir exatamente o que havia acontecido naquela casa e quem teria participado.
Jussara e o filho mais velho, Danilo, foram inicialmente autuados por ocultação de cadáver. Posteriormente, tiveram prisão temporária decretada durante a investigação do homicídio.
Enquanto isso, funcionários e pessoas que frequentavam a residência começaram a prestar depoimento.
E algumas declarações acrescentaram novas peças ao quebra-cabeça.
O jardineiro Emanuel Bezerra, que trabalhava havia anos para a família, relatou que havia recebido uma folga inesperada no final de maio.
Aquilo teria chamado sua atenção porque, segundo ele, não era algo comum.
Quando retornou ao imóvel, percebeu que uma pequena construção de tijolos usada por Denilson para guardar materiais de trabalho havia desaparecido.
Jussara teria explicado que o próprio marido havia pedido para derrubá-la.
O jardineiro também relatou que recebeu a orientação de limpar determinadas áreas da casa porque um gato teria morrido após consumir veneno.
Outra pessoa ouvida foi um funcionário do condomínio.
Ele contou que teria sido chamado para ajudar a fechar a cacimba próxima à piscina.
Segundo seu depoimento, havia um odor muito forte e grande quantidade de moscas na região.
A explicação apresentada naquele momento teria sido novamente relacionada à morte de um animal.
Pouco a pouco, circunstâncias que isoladamente poderiam parecer banais passaram a adquirir outro significado para a polícia.
A investigação ainda precisava estabelecer oficialmente a identidade dos restos mortais.
Em 10 de julho, exames genéticos confirmaram que pertenciam a Denilson.
As buscas dentro da cacimba continuaram durante vários dias.
Novos restos foram encontrados sob camadas de areia e entulho. Uma empresa especializada em trabalhos de altura chegou a auxiliar os bombeiros.
No quarto dia de escavações, foram encontrados a cabeça e o tórax.
Segundo o material investigativo, cerca de 90% do corpo foi localizado antes que os trabalhos naquele ponto fossem encerrados.
Enquanto os exames avançavam, os investigadores analisavam também a vida familiar de Denilson.
Testemunhas relataram conflitos envolvendo dinheiro e dificuldades no relacionamento entre o médico e alguns integrantes da família.
A empregada doméstica Josefa da Conceição afirmou que as discussões entre o casal eram frequentes e que Denilson pretendia deixar a residência.

O filho mais novo, Daniel, contou à polícia que o pai havia falado sobre a intenção de se mudar para um apartamento localizado a poucos quilômetros dali.
A situação ganhou outro elemento quando os investigadores analisaram registros eletrônicos.
Segundo a conclusão policial, Jussara teria descoberto, pouco antes da morte, que Denilson mantinha um relacionamento extraconjugal havia anos.
Arquivos encontrados no computador teriam mostrado fotografias íntimas de outra mulher.
Naquele mesmo período, Denilson cancelou uma viagem internacional que estava marcada com a esposa. Também teria cancelado uma reserva de estacionamento no aeroporto e pesquisado fechaduras para o apartamento onde pretendia morar.
Para a Polícia Civil, aqueles acontecimentos ajudariam a explicar o contexto anterior ao crime.
A investigação sustentou a hipótese de que a descoberta da relação extraconjugal e a separação iminente tiveram papel relevante na motivação atribuída ao caso.
Mas a reconstrução do que teria ocorrido dentro da residência ainda era mais complexa.
De acordo com a perícia citada no inquérito, Denilson chegou em casa na noite de 30 de maio.
Ele conversou com o filho mais novo e teria explicado que pretendia se mudar, garantindo que a relação entre pai e filho continuaria independentemente da separação.
Depois, Daniel foi dormir.
Segundo a versão construída pela investigação, o crime teria ocorrido durante a madrugada.
Os peritos apontaram o quarto de Denilson como um dos pontos centrais da reconstrução.
O laudo médico posteriormente indicou asfixia como causa da morte.
A perícia também identificou lesões e sinais de que o corpo havia sido deslocado para outras áreas da propriedade.
Em um espaço próximo ao quiosque, teria ocorrido uma tentativa de carbonização. Posteriormente, o corpo foi dividido antes de ser colocado dentro da cacimba.
A polícia procurou entender se Jussara teria conseguido realizar sozinha todas as ações descritas.
Essa questão se tornaria fundamental.
Meses depois, Jussara confessou ter causado a morte do marido e tentou afastar o filho Danilo da responsabilidade pelo crime.
Sua versão, entretanto, foi confrontada com testes periciais e uma reprodução simulada realizada durante aproximadamente dez horas.
Segundo a conclusão dos investigadores, ela não teria agido sozinha.
A defesa apresentou uma narrativa diferente.
Os advogados sustentaram que teria ocorrido uma luta corporal entre Jussara e Denilson e alegaram legítima defesa. Segundo essa versão, Denilson teria batido a cabeça durante o confronto, sendo posteriormente estrangulado.
Também foi alegada a existência de um histórico de violência doméstica, ponto que, conforme o material do caso, não foi comprovado no processo apresentado.
As diferenças entre a versão da defesa e a reconstrução policial transformaram o caso em uma longa batalha judicial.
Danilo conseguiu liberdade provisória em dezembro de 2018, após pagamento de fiança e imposição de medidas cautelares. Mais tarde, divulgou um vídeo no qual atribuiu o crime à mãe e criticou a investigação.
Jussara, por sua vez, enfrentaria o Tribunal do Júri.
Em 4 de novembro de 2019, ela foi julgada em Camaragibe.
Entre as testemunhas estava Daniel, o filho mais novo.
Ele declarou que não mantinha contato com a mãe desde o crime e esperava que ela fosse responsabilizada pela morte do pai.
Ao fim do julgamento, Jussara Rodrigues Silva Paes foi condenada a 19 anos e oito meses de prisão em regime fechado pelos crimes de homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.
A defesa recorreu buscando diminuir a pena. O Ministério Público também recorreu, mas pretendendo aumentá-la.
Em dezembro de 2021, desembargadores da Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco mantiveram a condenação nos termos então analisados, rejeitando tanto o pedido de redução quanto o de aumento da pena.
O caso permaneceu marcado por uma imagem difícil de esquecer.
Uma casa aparentemente comum.
Um médico dado como desaparecido.
Uma viagem internacional que, segundo a investigação, jamais aconteceu.
Funcionários dispensados em momentos considerados importantes pelos investigadores.
Uma residência cuidadosamente limpa.
Vestígios invisíveis aos olhos, revelados pelo luminol.
E, no quintal, uma cacimba coberta por concreto, pedras e vasos ornamentais.
Era justamente naquele lugar, tão próximo da família e ao mesmo tempo escondido de todos, que estava a resposta para o desaparecimento de Denilson.
O que começou com uma simples queixa na delegacia terminou revelando uma sequência de acontecimentos que mobilizou policiais, peritos, bombeiros, testemunhas, advogados e o Judiciário.
Mais de oito anos depois dos fatos ocorridos em 2018, o Caso Aldeia continua sendo lembrado não apenas pela brutalidade do crime, mas pelas contradições que cercaram os primeiros dias do desaparecimento e pelo trabalho pericial que desmontou, peça por peça, a história inicialmente apresentada.
No fim, foi uma pequena alteração no quintal que ajudou a colocar toda a investigação em outro caminho.
Porque quando os policiais se aproximaram daquela cacimba, ainda procuravam um homem desaparecido.
Minutos depois, estavam diante da cena que mudaria completamente o caso.