Uncategorized

Barco Com 12 Pessoas Sumiu No Amazonas Em 2009 — 15 Anos Depois Achado À Noite Com Luzes Acesas

Em 18 de junho de 2009, às 6:15 da manhã, o barco regional São Sebastião das Águas partiu do porto de Coari, no Amazonas, com destino a fé. A viagem duraria aproximadamente 10 horas pelo rio Solimões.

Havia 12 pessoas a bordo. O piloto, um ajudante de Conv, sete passageiros que viajavam por motivos familiares e três comerciantes que transportavam mercadoria. O barco nunca chegou a ter fé. Não houve chamado de socorro, não houve testemunha

de naufrágio, não foi encontrado destroço, mancha de óleo, nem corpo. O São Sebastião das Águas simplesmente deixou de existir naquela quinta-feira de junho, numa das rotas fluviais mais movimentadas do interior do Amazonas.

Esta é a história de um desaparecimento que a Marinha classificou como naufrágio sem evidências. de 12 famílias que esperaram respostas durante 15 anos e de um barco que reapareceu numa noite de agosto de 2024, ancorado numa enceada

deserta do rio Puruz, a 400 km da rota original, com as luzes de navegação acesas, o motor desligado, nenhum sinal de deterioração grave e nenhum rastro das pessoas que estavam a bordo. O rio Solimões é a continuação do Amazonas que

vem do Peru e segue até Manaus, onde encontra o rio Negro. É um rio largo, barrento, com correnteza forte na época das cheias. Coari fica a cerca de 360 km de Manaus, rio acima. Tefé, outros 200

km além. Entre uma cidade e outra há dezenas de comunidades ribeirinhas flutuantes, ilhas sazonais que aparecem e desaparecem conforme o nível da água. Quem viaja por ali conhece o ritmo do rio, sabe quando a margem muda e sabe

onde tem tronco submerso. Sabe que se o motor parar no meio da corrente, o barco vira em minutos. É um conhecimento passado de pai para filho, não escrito em manual nenhum, aprendido no corpo, no tato, no ouvido afinado ao som da água batendo diferente

no casco quando a profundidade muda. O piloto do São Sebastião das Águas era Raimundo Ferreira da Costa, 52 anos, nascido e criado às margens dos Solimões. Ele conhecia aquele trecho de rio como conhecia o próprio quintal.

Havia feito a rota Coaritefé mais de 300 vezes. Não bebia, não acelerava à noite, não saía quando o tempo fechava. Era o tipo de homem que a comunidade ribeirinha chama de piloto de confiança.

Uma expressão simples que carrega peso real naquelas águas. No porque num rio onde o estado está longe e a distância entre um porto e outro pode ser de 4 horas de motor, a confiança no piloto é a única garantia que o passageiro tem.

Naquela manhã de junho, o tempo estava aberto, não havia previsão de tempestade. A água estava alta, mas dentro do normal para a época. O céu tinha aquela cor clara do Amazonas antes das 9 da manhã, uma luz branca, quase plana, que vem de cima e de baixo ao

mesmo tempo, porque o rio devolve tudo. Raimundo partiu no horário, conferiu o combustível, acenou para a filha que ficou no porto. Filha Luciana, 24 anos, ficou parada no CIS até o barco dobrar a curva do rio e desaparecer atrás da mata

fechada da margem. Foi a última pessoa que viu o São Sebastião das águas navegando. Não foi um naufrágio com testemunha, não foi um acidente com sobrevivente. Isso não foi um caso que a Marinha resolveu em semanas, nem que a polícia fechou com laudo definitivo.

Foi o desaparecimento completo de uma embarcação com 12 pessoas num trecho de rio monitorado num dia sem tempestade por uma causa que ninguém foi capaz de determinar e que permaneceu sem explicação por 15 anos até que algo reapareceu numa noite

de agosto numa enceada do rio Purus onde não deveria haver nada. Se esse tipo de história te faz questionar o que você acredita saber sobre o interior do Brasil, sobre o que o Estado alcança e o que fica fora do alcance, você pode se inscrever no canal

e deixar a sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança devagar. Tudo o que aconteceu precisa ser contado sem pressa, porque é na acumulação dos detalhes que o peso real desse caso se revela. Por quanto tempo

uma família consegue esperar antes de aceitar o que o sistema diz que é verdade? Em que momento 12 famílias diferentes espalhadas pelo interior do Amazonas percebem que ninguém vai continuar procurando por elas?

O que significa encontrar um barco intacto 15 anos depois num lugar onde ele não deveria estar, sem nenhuma das pessoas que estavam a bordo e com uma luz acesa que a perícia técnica não conseguiu explicar. Estamos no rio Solimões, em junho de 2009.

A rota entre Coari e Tefé era percorrida diariamente por barcos regionais que transportavam gente, mantimento e mercadoria entre comunidades sem estrada. Não havia câmera de monitoramento nos portos do interior, não havia sistema de rastreamento em

tempo real para embarcações de pequeno porte. A a delegacia mais próxima de alguns trechos daquele rio ficava a horas de distância por água. E o Sinalid, o sistema nacional de pessoas desaparecidas, ainda funcionava de forma desintegrada entre estados, com fichas

em papel e processos que podiam levar semanas para cruzar uma fronteira estadual. O São Sebastião das Águas era um barco regional de madeira, pintado de azul e branco, com 16 m de comprimento e capacidade para 25 passageiros. Tinha

dois andares. Embaixo o convés de carga, onde ficavam os volumes maiores, as sacas de mantimento, as caixas de isopor com peixe, os galões de combustível sobressalente amarrados com corda. cima o convageiros com redes armadas de ponta a ponta,

balançando ao ritmo do motor e um banco corrido de madeira ao longo das laterais, onde quem não tinha rede ficava sentado assistindo o rio passar. Embaixo da escada que ligava os dois andares, havia um pequeno compartimento de ferramentas.

Na proa, uma cabine de madeira compensada com a roda do leme, o painel simples e uma cadeira de plástico branca que Raimundo havia trazido de casa depois que a original apodreceu. Não era um barco novo, tinha quase 30 anos de rio, mas era bem cuidado da maneira que

os barcos de trabalho no interior do Amazonas costumam ser cuidados, não com tinta fresca, nem com peças originais. mas com atenção constante, conserto imediato quando algo dava problema e um conhecimento íntimo de cada barulho

diferente que o motor fazia. Raimundo sabia distinguir o som de uma correia, esticando do som de uma folga no eixo, que sabia quando o casco precisava de calafetagem antes de ver a água entrar.

sabia sem precisar olhar quando o nível do combustível estava chegando na metade. Raimundo Ferreira da Costa havia comprado o barco em 1998 com o dinheiro de uma indenização trabalhista que recebeu depois de um

acidente numa madeireira onde trabalhou por 12 anos. O acidente tinha machucado a mão esquerda. Ele perdeu dois dedos, mas o dinheiro da indenização foi suficiente para comprar o barco usado de um senhor de Manaus que estava se aposentando. Raimundo transformou aquilo

numa pequena empresa familiar que nunca teve CNPJ. Nunca teve funcionário registrado, mas que sustentou a família por mais de 10 anos sem que faltasse nada essencial. A esposa Irene cuidava da documentação, licença de navegação, inspeção da

Marinha e atualização do cadastro de embarcação na Capitania dos Portos. A filha mais velha, Luciana, vendia as passagens no porto de Coari, sentada numa cadeira de praia embaixo de uma sombrinha de lona, com um caderno de capa dura, onde anotava nome, destino e

valor pago. O filho mais novo, Éder, que todo mundo chamava de Júnior, havia começado a trabalhar como ajudante de Conv aos 15 anos e estava ficando bom no serviço. Aquela quinta-feira de junho, Júnior não estava a bordo. Havia ficado em Coari porque tinha uma consulta no

postinho. Quem estava no barco como ajudante era um rapaz chamado Elon Maciel, 17 anos, sobrinho do vizinho de Raimundo, que estava prendendo o ofício fazia dois meses, e que Raimundo havia concordado em levar naquela viagem como forma de ajudar a família do menino que

passava por dificuldade. Elton tinha chegado ao porto às 5:30 da manhã, meia hora antes de Raimundo, e já estava arrumando as sacas no Convor. Quando o piloto chegou, o barco partiu com sete passageiros registrados no caderno de bordo de Luciana.

Mais três que embarcaram de última hora, quando o barco já estava quase soltando as amarras e que Luciana anotou num pedaço de papel avulso que depois seria anexado ao caderno. Todos conhecidos, todos com motivo claro para estar ali.

Ninguém desconfiado, ninguém estranho ao ritmo daquele porto, daquele barco, daquele rio. Às 6:15, Raimundo soltou as amarras. O motor de centro fez aquele ronco grave e constante que os moradores do porto já

não ouviam mais de tão acostumados que estavam. O barco afastou do CIS devagar, virou a proa rio acima e começou a ganhar velocidade. Luciana acenou do porto e Raimundo não viu, já estava com o olho no rio. Elon

acenou da popa. O São Sebastião das águas entrou na curva, sumiu atrás da vegetação da margem e o ronco do motor foi ficando mais baixo até que o porto voltou ao seu barulho normal de água. pássaro e gente conversando.

Essa foi a última imagem registrada por qualquer testemunha. Um barco azul e branco dobrando uma curva dos solimões numa manhã clara de junho. O que aconteceu depois desse ponto não foi visto por ninguém que tenha voltado para contar. O São Sebastião das Águas deveria ter chegado

a ter fé por volta das 16:30 da tarde. A viagem de Coari até fé pelos Solimões levava entre 9 e 11 horas, dependendo da correnteza, do peso a bordo e de quantas paradas o piloto fazia em comunidades ao longo do

caminho. Raimundo costumava parar em duas ou três comunidades para entregar encomendas que passageiros pediam para deixar ou para pegar alguém que esperava na beira sentado num tronco com uma trouxa nos joelhos. Era parte do serviço, parte do que fazia o barco ser

necessário naquelas comunidades que não tinham outra forma de transporte regular. Quando o barco chegava a ter fé, Raimundo tinha o hábito de ir ao orelhão do porto e ligar para Irene. Era uma ligação curta. Dizia que tinha chegado, que estava tudo bem, que saía

na manhã seguinte de volta para Coari. Irene anotava o horário num caderninho. Havia anotações de mais de 200 viagens naquele caderninho, todas com a mesma estrutura. data, horário da partida, horário da chegada, observação eventual.

Era o sistema deles, simples pessoal, sem tecnologia nenhuma, funcionava. Naquela quinta-feira o orelhão não tocou. Irene esperou até às 17:30 antes de começar a ficar inquieta.

Às 18 horas começou a ligar para conhecidos em tefé. ligou para a mulher de um comerciante que tinha um armazém perto do porto. Ligou para um primo distante que morava num bairro perto do centro. Ligou para a pensão, onde Raimundo costumava dormir quando a

viagem de volta saía só na manhã seguinte. Ninguém tinha visto o barco, ninguém sabia de nada. O porto de Tefé tinha registrado outras chegadas naquele dia. O São Sebastião das Águas não estava entre elas. Às 19:45,

Irene saiu de casa e foi a pé até a capitania fluvial em Coari. A capitania ficava a uns 15 minutos de caminhada num prédio de alvenaria pintado de branco na beira do rio, com uma guarita na entrada e uma placa da marinha do Brasil que o sol havia desbotado. Este agente de

plantão era um jovem que Irene não conhecia. Ela explicou a situação com calma. Disse o nome do barco, o nome do piloto, o horário de partida, o destino, o horário previsto de chegada.

O agente ouviu, anotou os dados num formulário impresso e disse que era comum haver atraso naquele trecho, que o rio estava cheio, que podia ter havido problema no motor que o piloto estava resolvendo sozinho, que era melhor esperar até a manhã seguinte antes de

acionar qualquer coisa. Irene disse que Raimundo sempre ligava quando chegava, que nunca havia deixado de ligar em mais de 10 anos de viagens. O agente disse que entendia, mas que o protocolo da capitania exigia aguardar 72 horas antes de registrar

desaparecimento de embarcação. Irene não sabia o que era protocolo. Sabia que o marido não tinha ligado e voltou para casa a pé pelo mesmo caminho no escuro, com cheiro de rio na roupa e uma certeza que ainda não tinha nome.

ficou na varanda até perto da meia-noite, olhando para a água escura dos solimões que passava lá na frente. O rio não devolvia imagem nenhuma, só o barulho constante da correnteza e de vez em quando o motor distante de alguma lancha passando longe. O telefone ficou

na mesa ao lado com o volume no máximo. Amanhã de sexta-feira, 19 de junho, quando o barco ainda não tinha aparecido e nenhuma notícia tinha chegado de nenhuma direção, Irene voltou à capitania com Luciana. Desta vez, o agente de turno era outro. Ouviu a

história, consultou o formulário de ontem, fez um telefonema para ter fé e confirmou que o São Sebastião das Águas não havia atracado. Comunicou formalmente o ocorrido à Marinha do Brasil. Ne marinha [limpando a garganta] do Brasil foi oficialmente acionada na tarde de sexta-feira, 19 de junho de

2009, 24 horas, depois do horário previsto de chegada do barco a Tefé. A primeira equipe de busca organizada pela Marinha saiu na tarde daquele mesmo dia. Três embarcações menores, cada uma com dois agentes a bordo e equipamento de

comunicação por rádio. A estratégia inicial era percorrer a rota direta entre Coari e Tefé, parando em cada comunidade ribeirinha para perguntar se alguém havia visto São Sebastião das águas ou tinha qualquer informação sobre o que havia acontecido.

O trecho entre Coari e Tefé pelos Solimões passa por dezenas de comunidades. Algumas têm nome no mapa. Outras são apenas um conjunto de casas na beira, um porto de tábua e uma escola de madeira. Em cada paradas, a resposta foi a mesma. Ninguém tinha visto nada,

né? Ninguém havia ouvido falar de acidente. Ninguém havia visto destroço boiando. Ninguém havia ouvido explosão, barulho diferente, pedido de socorro. O rio tinha passado o dia de quinta-feira, como sempre passava.

largo e barrento e indiferente, sem devolver nada que não fosse a sua própria corrente. Durante os dois primeiros dias, a busca foi concentrada na rota principal. No domingo, a Marinha ampliou a área, incluindo afluentes menores, onde o barco poderia ter

entrado por engano ou emergência. No mesmo dia, um helicóptero da Marinha sobrevoou o trecho entre as duas cidades durante 3 horas, com dois observadores a bordo, olhando para o rio e para as margens. Não avistaram destroço, não

avistaram barco encalhado, não avistaram sinal de nenhum tipo. Na segunda-feira, 22 de junho, do mergulhadores da Marinha desceram em três pontos específicos da rota, onde o fundo era mais fundo, e a correnteza formava redemoinhos, lugares

conhecidos entre os pilotos dos Solimões como pontos de risco para embarcações que perdem o controle. Os mergulhadores passaram seis horas na água. Não encontraram destroço submerso.

Não encontraram motor afundado. Não encontraram corpo. Não encontraram nenhuma evidência de que uma embarcação de 16 m havia afundado naquele ponto em algum momento recente. A operação de busca foi formalmente encerrada no dia

26 de junho de 2009. oito dias depois do desaparecimento, o laudo preliminar elaborado pela Marinha classificou o caso como naufrágio por causa não determinada, com hipóteses de colisão com objeto submerso

e falha estrutural do casco ou evento climático localizado não registrado por estações meteorológicas. O documento tinha quatro páginas. Nas quatro páginas não havia uma única evidência física que sustentasse a hipótese de naufrágio.

Havia apenas a ausência do barco e a ausência das pessoas. E a ausência, quando não tem explicação, se transforma em hipótese por exclusão. O barco desapareceu. Se não está em lugar nenhum, deve ter afundado. Essa foi a lógica. Não havia outra disponível

naquele momento, sem corpo, sem destroço, sem evidência física de qualquer tipo. Entre os passageiros registrados no caderno de bordo de Luciana e no papel avulso anexado, estava um conjunto de pessoas que nada tinham em comum, exceto o fato de terem

decidido, cada uma, por seu próprio motivo, embarcar naquele barco azul e branco naquela manhã de quinta-feira. E eram vidas separadas que se encontraram por algumas horas num convés de madeira e depois desapareceram.

juntas, sem aviso, sem explicação e sem despedida. Havia uma professora chamada Marinete Souza Figueiredo, 41 anos, que havia passado três semanas em Manaus num curso de formação continuada pelo governo do estado e voltava para casa, para o

marido e para os dois filhos que moravam em Tefé. Havia um senhor chamado Benedito Alves Pantoja, 63 anos, que havia embarcado em Coari depois de uma viagem de ônibus de 8 horas de Manaus, porque a filha estava internada no

hospital de Tefé com problema no rim e ele não sabia mais o que fazer além de ir estar perto. Havia dois irmãos, Warley e Clyson Monteiro, 32 e 35 anos.

mas que transportavam redes artesanais produzidas pela mãe para vender na feira de Tefé, como faziam a cada dois meses. Havia uma mulher chamada Dalva Cristina Rego, 38 anos, que viajava com a filha de 6 anos chamada Rebeca, para uma

consulta com o especialista em tefé, porque a menina tinha um problema de visão que o posto de saúde de Coari não conseguia tratar. Havia outros três passageiros, dos quais o papel avulso tinha o nome, mas não o motivo da viagem. Gilmar Teixeira Braga, 56 anos.

Sônia Pereira da Costa, 29 anos. E Aurélio Campos Macedo, 44 anos. E havia o jovem Elton Maciel, 17 anos, que estava aprendendo o ofício. 12 pessoas, 12 histórias que não chegaram ao fim.

onde deveriam ter chegado. Cada nome virou um processo separado. Cada família teve que ir à delegacia ou registrar boletim de ocorrência, aguardar prazo, ser atendida por um agente diferente que conhecia o caso de forma superficial

e que fazia as mesmas perguntas que os anteriores já haviam feito. Cada família teve que em algum momento, lidar com a burocracia que surge quando uma pessoa desaparece e o Estado precisa organizar essa ausência em formulários.

Para movimentar conta bancária de uma pessoa desaparecida, é preciso de certidão de ausência. Para receber pensão em nome de cônjuge desaparecido, é preciso de processo na Defensoria Pública. Para vender um imóvel que estava em nome de quem sumiu, é preciso

de declaração judicial. São processos que levam meses, às vezes anos, e que exigem que a família vá pessoalmente a repartições em cidades que no interior do Amazonas podem estar a horas de distância por rio. Irene Ferreira da

Costa era a mais insistente de todas, não por ser mais determinada que as outras, mas porque era a esposa do piloto e o piloto era o responsável pelo barco. E isso lhe dava uma relação diferente com o desaparecimento.

Não era só o marido que havia sumido, era o trabalho da família, era o sonho que o marido havia construído com o dinheiro de dois dedos perdidos. Era o nome que estava pintado no casco. Irene passou os três primeiros anos indo e voltando de Coaria a Manaus de barco, o

mesmo tipo de barco, para pressionar a Marinha a reabrir a busca. Levava consigo o caderno de bordo original que Luciana havia guardado. Levava as fotos do barco tiradas com câmera descartável numa viagem de 2007.

levava a última conta de telefone onde estava registrada a ligação que Raimundo havia feito para ela na noite anterior à viagem, confirmando que o barco estava pronto para partir na manhã seguinte. A Marinha ouvia, anotava, dizia que o caso estava arquivado e que para ser reaberto

precisaria de nova evidência. Irene perguntava o que era uma nova evidência. Os agentes explicavam de formas diferentes, mas o resultado era sempre o mesmo. Sem evidência nova, o caso não reabre. Irene não sabia onde encontrar evidência nova se o barco e as pessoas

tinham desaparecido sem deixar nada para trás. Era uma lógica que ela entendia racionalmente, mas que não conseguia aceitar na prática. O processo foi formalmente arquivado em 2012, 3 anos depois do desaparecimento.

As famílias foram orientadas por assistentes jurídicos da Defensoria Pública de Manaus a requerer a declaração de morte presumida para os seus desaparecidos. Um instrumento legal previsto no Código Civil brasileiro para situações em que a

morte e tinha peso real. Para Júnior tinha um peso diferente, mais difícil de nomear. Ele tinha 17 anos quando o pai desapareceu. Completou 18, 19, 20. Aprendeu a pilotar barco, como o pai havia ensinado.

Começou a fazer a rota Coarfé por conta própria com um barco menor que havia comprado de segunda mão. Toda vez que passava pelo trecho dos Solimões, onde o pai havia desaparecido, olhava para o rio dos dois lados, sem saber bem o que esperava ver. Quando um desaparecimento

no rio não tem explicação, a comunidade ribeirinha não fica em silêncio. O silêncio é do processo oficial. Na comunidade fala-se, sempre se fala. E o que se fala vai tomando forma ao longo dos meses, misturando observação com suposição, memória com invenção,

até que ninguém mais sabe com certeza onde termina o que alguém viu e começa o que alguém imaginou. Durante os primeiros meses depois do desaparecimento do São Sebastião das Águas, a teoria que circulou com mais força em Quari e nas comunidades ao longo dos Solimões foi a de pirataria

fluvial. Não era uma teoria sem base. Havia registros de ataques a embarcações menores no Amazonas e em seus afluentes, especialmente em trechos mais isolados, onde grupos armados abordavam barcos, roubavam carga e, em alguns casos,

afundavam a embarcação para eliminar testemunhas. Era uma realidade conhecida. tinha acontecido com outros barcos em anos anteriores. A questão era que esses casos sempre deixavam algum rastro.

Alguém escapava anado. Alguém era liberado na margem. O barco era encontrado afundado perto de onde o ataque havia ocorrido. Leou então era levado para outro estado e vendido com documentação falsificada.

No caso do São Sebastião das Águas, nenhuma dessas coisas havia acontecido. Ninguém escapou, ninguém pediu resgate, ninguém tentou vender o barco, ninguém registrou o ataque nas comunidades daquele trecho naquele dia. A polícia

civil do Amazonas investigou essa hipótese durante os primeiros meses. Colheu depoimentos, consultou registros de outros casos de pirataria fluvial, não encontrou nenhuma ligação com o desaparecimento do São Sebastião das Águas. Arquivou essa linha de

investigação em 2010. Houve quem falasse em disputa por Rota. Havia, naquele período uma tensão entre operadores de barcos regionais em Cuari por causa da distribuição de passageiros em determinados trechos.

Nada que chegasse à ameaça formal, mas a comunidade sabia de desentendimentos. A polícia investigou, ouviu os operadores envolvidos, não encontrou motivo suficiente para sustentar a hipótese de crime motivado por disputa comercial.

Raimundo não tinha processo, não tinha inimigo declarado, não devia dinheiro a ninguém que a investigação conseguiu identificar. A hipótese de tempestade súbita, uma virada rápida de tempo, com vento forte e chuva intensa, que podia virar um barco em minutos, era tecnicamente

possível no Amazonas, onde o clima muda com rapidez. Mas os registros meteorológicos de 18 de junho de 2009 para aquele trecho do Solimões não mostravam nenhuma ocorrência significativa.

O dia havia sido de sol com nuvens esparsas. Nenhuma estação registrou o vento acima de 30 km/h. Nenhum relato de morador Ribeirinho mencionou chuva forte ou temporal durante o período da tarde daquele dia.

E havia ainda o problema que qualquer pessoa do rio sabia apontar sem precisar ser técnico. Um barco de madeira que vira numa tempestade não desaparece. Boia. As tábuas boiam. As sacas de isopor boiam, as redes boiam, os salvaavidas boiam. Sempre sobra alguma

coisa na superfície. Sempre. Durante 15 anos, nada boiou. Nenhum fragmento do São Sebastião das Águas foi encontrado em lugar nenhum. Nenhum objeto pessoal dos passageiros apareceu em nenhuma margem. Nenhuma peça do motor foi

recolhida por nenhum pescador. O rio engoliu tudo e não devolveu absolutamente nada. O que, para qualquer pessoa com experiência em águas fluviais amazônicas não era apenas incomum, era impossível. Os anos foram passando da forma como os anos passam quando não há

resolução. Não de uma vez, mas aos poucos. Numa acumulação silenciosa de datas que voltam e vão embora sem trazer nada de novo. O primeiro aniversário do desaparecimento, o segundo. O quinto, as famílias foram

reorganizando as suas vidas em torno de uma ausência que o Estado havia decidido nomear de uma forma e elas haviam decidido nomear de outra. Júnior Ferreira da Costa fez 42 anos em maio de 2034, não em 2024, com o pai desaparecido há

15 anos e a mãe Irene, ainda morando na mesma casa à beira dos Solimões em Coari, com o caderno de bordo dentro de uma caixa de sapato no guarda-roupa e a certeza da morte presumida do marido ainda não assinada. Luciana havia se casado, ido morar em Manaus, tido dois

filhos. Ligava para a mãe toda semana. Nunca mais havia voltado a vender passagem no porto. Não conseguia. E o aniversário de 15 anos do desaparecimento passou em junho de 2024, sem cerimônia, sem nota

da Marinha, sem matéria de jornal, sem nada. A história havia saído de circulação há muito tempo. O mundo continuava do jeito que o mundo continua. E 12 nomes num processo arquivado não fazem barulho suficiente para interromper esse movimento. Foi num dia

de agosto de 2024, 41 dias depois do aniversário de 15 anos do desaparecimento, que o São Sebastião das Águas voltou. Na noite de 12 de agosto de 2024, o barco pesqueiro Estrela do Norte navegava pelo rio

Puros, na altura do município de Pauini, no interior do Amazonas. O puruz é um afluente dos Solimões que corre pelo sul do estado com nascente no Peru e fo próxima a Anori. É um rio diferente dos Solimões. A água é mais escura, quase

preta em alguns trechos no por causa da decomposição da matéria orgânica que vem da floresta. A calha é mais estreita, a vegetação das margens chega mais perto da água. Há menos movimento de embarcações, menos comunidades, mais silêncio. Aini fica a aproximadamente

400 km em linha reta do trecho dos Solimões, onde o São Sebastião das Águas havia sido visto pela última vez em junho de 2009. Por rio, considerando a distância entre os dois sistemas fluviais e o trajeto

necessário para sair do Solimões e entrar no Puros, a distância era consideravelmente maior. O piloto do Estrela do Norte era um homem chamado Adailton Ramos, 58 anos, pescador profissional com 22 anos de experiência

no Puros e nos seus tributários. Adaon conhecia aquele trecho de rio como conhecia a própria mesa de casa e sabia onde o canal ficava mais fundo. Sabia onde a vegetação da margem escondia bancos de areia que podiam encalhar uma

lanterna na época da seca. Sabia que numa enceada fechada por vegetação não havia casa, não havia comunidade, não havia razão para haver luz. Foi por isso que a luz chamou a atenção. Era uma luz verde, piscando em intervalos regulares,

no lado direito da margem, dentro de uma enceada quase fechada, por um arco de árvores que cresciam até dentro da água. Adaon reduziu a velocidade. Primeiro pensou que fosse uma luz de casa flutuante. Havia algumas espalhadas por aquele trecho do puruz, mas aquela ele

conhecia. Não havia casa ali, não havia nada, só mato e água escura. Adaon desviou devagar em direção à luz. Conforme o estrela do norte se aproximou, lhe a forma de um barco foi saindo do escuro. Primeiro a silhueta,

depois o casco, depois a cor, azul e branco. Com o facho da lanterna de proa, dava para ver que o barco estava ancorado a uns 5 m da margem. parado, sem balanço excessivo, como se estivesse ali faz tempo. A âncora estava presa ao

fundo. Uma corda grossa ia do casco até um galho grosso da árvore mais próxima, como âncora suplementar. O barco não estava à deriva, estava amarrado, estava posto ali de forma deliberada. No casco com a lanterna apontada diretamente, ainda dava para

ler parte de um nome. As letras haviam desbotado. A tinta estava soltando em alguns pontos, mas a forma das letras era clara. São Sebastião, o restante do nome havia sumido com a tinta, mas São Sebastião estava ali legível, numa

escrita que Adailton não reconheceu na hora. Só mais tarde, quando desceu a bordo e viu a placa de identificação dentro da cabine, é que o número de registro cruzou com o nome completo: São Sebastião das Águas.

Adaon Ramos não subiu sozinho. Chamou os dois tripulantes do Estrela do Norte, um homem de 40 e tantos anos chamado Valdirene, que era mulher, e um jovem de 22 anos chamado Thago. Os três subiram a bordo do São Sebastião das Águas às

21:37, com lanternas e facão para cortar a vegetação que havia crescido parcialmente sobre o corrimão da escada de acesso ao conv superior. O que encontraram foi um barco vazio e intacto. O convés de passageiros estava

vazio. As redes que deviam estar armadas haviam apodrecido. Só ficaram as argolas de metal presas às vigas do teto, enferrujadas mais no lugar. O chão de madeira estava coberto por uma camada de folhas secas, lilodo

endurecido, fezes de morcego e pequenas sementes que o vento havia trazido de algum lugar. O teto tinha uma infiltração num canto que havia escurecido a madeira ao redor. Havia teias de aranha em quase todos os ângulos do Conv, mas a estrutura estava

intacta, as vigas estavam firmes, as tábuas do assoalho não cediam sob o peso, as laterais não tinham fissura, não tinham marca de impacto, não tinham evidência de colisão com nada, não havia furo no casco, não havia sinal de incêndio, não havia marca de bala, não

havia nada que sugerisse violência de qualquer tipo. O motor de centro estava desligado, mas quando a Dailton desceu ao convés inferior e examinou o motor com a lanterna, o que viu não era um motor destruído pelo tempo. O metal estava enferrujado em alguns pontos externos,

mas a estrutura do bloco estava preservada. Havia óleo seco no fundo da caixa do motor, do tipo que sobra quando o combustível evaporou, mas a lubrificação ficou. Alguém havia desligado o motor de forma ordenada. Não havia quebrado, não havia explodido, não

havia parado por falha catastrófica, havia sido desligado quando tentaram girar a chave que ainda estava no contato, uma chave simples do tipo de ignição, com um chaveiro de borracha preta que havia endurecido, mas não havia quebrado, o painel de instrumentos

acendeu por um segundo. Só por um segundo. Depois apagou. A bateria estava morta. Mas o sistema elétrico havia respondido por um instante, como se ainda houvesse algo ali dentro que não havia desistido completamente.

No Convese inferior, além do motor, encontraram três sacas de farinha completamente tomadas por mofo e podridas, o que desintegraram quando Adaon tocou numa delas. Uma caixa de madeira com restos de ferramentas, uma chave de boca, uma

lona dobrada, um rolo de fio de cobre, enferrujadas mais reconhecíveis e uma mochila infantil de tecido azul vazia, sem zíper, sem alça, sem nenhuma identificação.

A mochila estava pendurada num gancho na parede do Convés, como se alguém a tivesse colocado ali com cuidado. Não encontraram documento nenhum. Não encontraram carteira, identidade, bilhete de passagem, caderno de bordo.

Não encontraram corpo, não encontraram osso, não encontraram sangue, não encontraram bilhete, mensagem escrita, nada que sugerisse que alguém havia deixado algo explicando o que havia acontecido ou onde havia ido.

Encontraram na cabine do piloto duas coisas que não se encaixavam com o resto do quadro. E a primeira era uma garrafa térmica de alumínio, ainda fechada, apoiada no canto esquerdo do painel de instrumentos. A garrafa estava intacta, sem ferrugem significativa.

Quando a Daílton pegou e balançou, havia um líquido dentro que fazia barulho. Ele não abriu. A segunda era um boné de tecido corque, com a logo bordada de uma empresa de pesca esportiva. sediada em Manaus. O boné estava apoiado em cima do

painel, como se alguém o tivesse tirado da cabeça e colocado ali com naturalidade antes de sair. Os dois objetos não tinham sujeira, não tinham a camada de poeira e lodo que cobria tudo o mais no barco. Pareciam ter sido colocados ali há bem menos tempo do que

15 anos. Adaon Ramos voltou para o Estrela do Norte com os três objetos, a mochila, a garrafa e o boné embrulhados numa lona. Na manhã de 13 de agosto, né?

Assim que o sinal de rádio ficou estável na entrada de Pauini, ele acionou a Marinha via rádio amador, descreveu o que havia encontrado, deu as coordenadas aproximadas, disse que o nome no casco era São Sebastião e que havia uma placa de identificação dentro com número de

registro. O operador de rádio da Marinha em Lábria pediu que ele repetisse o número de registro. Adaon repetiu. Houve uma pausa de quase 2 minutos. Depois o operador voltou e disse que ia checar o cadastro e ligar de volta. A Marinha levou três

dias para enviar uma equipe ao local. Quando chegaram, o barco estava exatamente onde Adailton havia dito. A enceada estava fechada por vegetação. A âncora estava presa ao fundo. A corda estava amarrada ao galho. O barco estava

parado. A equipe da Marinha fotografou tudo, fez medições. Eu coletou amostras de madeira do casco, de sedimento do fundo do Convés, de ferrugem do motor. identificou formalmente o barco pelo número de registro e pela placa interna.

Era o São Sebastião das Águas, cadastrado em nome de Raimundo Ferreira da Costa. Coari, Amazonas, licença original emitida em 1998, renovada pela última vez em 2008.

O barco foi rebocado para a base fluvial de Lábria, onde passou por perícia técnica completa durante as semanas seguintes. O laudo final foi divulgado em outubro de 2024. As conclusões eram diretas e ao mesmo tempo, impossíveis de conciliar com

qualquer explicação disponível. O São Sebastião das Águas estava em estado compatível com 15 anos de abandono em ambiente fluvial amazônico. Havia deterioração de material orgânico, oxidação de componentes metálicos, degradação de elementos têxteis. E tudo

isso era consistente com o tempo transcorrido desde o desaparecimento. Mas o barco não estava em estado compatível com o naufrágio. O casco estava íntegro. Não havia ruptura, não havia entrada de água estrutural, não havia evidência de colisão com objeto de

grande porte, não havia deformação do casco que indicasse impacto. O barco não havia afundado, nunca havia afundado. Casco que afunda e permanece submerso durante 15 anos num rio amazônico apresenta características de deterioração completamente diferentes do

que foi encontrado no São Sebastião das Águas. Os peritos foram diretos nesse ponto. O barco não havia estado submerso. Havia estado fora da água, ou, no mínimo parcialmente fora da água durante o período em que esteve desaparecido.

A âncora encontrada no fundo da enceada não era a âncora original do barco. O São Sebastião das Águas, conforme seus documentos de inspeção de 2008, estava equipado com uma âncora de ferro de 15 kg, modelo padrão para embarcações de

médio porte fluvial. A âncora encontrada era de ferro fundido, com design diferente, pesando aproximadamente 40 kg, do tipo utilizado em embarcações de grande porte ou em instalações fixas como flutuantes e plataformas. Era uma

âncora que não pertencia ao São Sebastião das Águas e que não havia sido colocada ali por acidente. O laudo náutico incluía uma análise de viabilidade de deslocamento autônomo. Seria possível que o barco tivesse navegado sozinho do Solimões até a

enceada do Puruz onde foi encontrado? A resposta era não, por três razões. E primeira, o barco não tinha combustível suficiente no tanque. Os peritos estimaram a quantidade residual de combustível encontrada como insuficiente para percorrer mais de 20 km. Segunda,

não havia corrente fluvial entre o Solimões e o Purus, que pudesse deslocar uma embarcação de 16 m por 400 km sem motor. Terceira. Para sair dos Solimões e entrar no sistema do Puruz, uma embarcação precisaria navegar por rotas que incluíam pelo menos uma passagem por

área habitada ou por posto da Marinha. E nenhum desses pontos havia registrado a passagem do São Sebastião das Águas em nenhum momento dos últimos 15 anos. O barco havia sido levado até ali por alguém em algum momento, com âncora

própria e com intenção de deixá-lo naquele lugar. Quem havia feito isso e por havia feito? E o que havia acontecido com as 12 pessoas que estavam a bordo quando o barco partiu de Quari em junho de 2009? Nenhuma dessas perguntas tinha resposta no laudo de

outubro de 2024. Em novembro de 2024, a Marinha convocou formalmente as famílias das 12 pessoas desaparecidas para uma sessão de reconhecimento de objetos encontrados a bordo do São Sebastião das Águas. A

sessão foi realizada numa sala da base fluvial de Manaus. Os objetos estavam dispostos e sobre uma mesa coberta por lona plástica, a mochila infantil azul, a garrafa térmica de alumínio e o boné de pesca esportiva.

Havia também fotografias dos demais itens encontrados a bordo, as ferramentas, as sacas de farinha, os elementos fixos do barco, para que as famílias pudessem identificar qualquer detalhe. Mas Sirene Ferreira da Costa havia feito a viagem de Coaria Manaus de

barco com Júnior ao lado. Ela tinha 68 anos. Havia emagrecido nos últimos anos. Carregava uma bolsa de couro marrom que Júnior havia comprado para ela de aniversário. Quando entrou na sala e viu os objetos na mesa, ficou parada por

alguns segundos na porta antes de se aproximar. Quando o agente da Marinha mostrou o boné e perguntou se ela reconhecia o objeto, Irene pegou o boné com as duas mãos, examinou o bordado, examinou o interior, examinou o tecido.

Depois devolveu ao agente e disse que o marido nunca teve um boné daquele, que Raimundo não fazia parte de clube de pesca nenhum, que não havia empresa nenhuma de pesca esportiva com a qual o marido tivesse qualquer relação. O boné não era dele. A garrafa térmica ela não

reconheceu e disse que era parecida com outras iguais que havia em mil casas. Não tinha como dizer. A mochila infantil azul foi o momento mais difícil da sessão. Uma das mulheres presentes, irmã de Dalva Cristina Rego, a mãe que havia embarcado com a filha de 6 anos, Rebeca,

ficou em silêncio por um tempo, olhando para a mochila. Depois disse que era parecida, que a Rebeca tinha uma mochila azul, mas que não conseguia afirmar com certeza, porque mochila azul de criança não era coisa rara. O agente perguntou se havia alguma marca ou detalhe

específico que ela lembrasse. A mulher disse que não. Disse que a Rebeca tinha 6 anos quando sumiu e que ela não se lembrava de detalhe de mochila de criança de 6 anos depois de 15 anos. O restante dos objetos não foi reconhecido

por ninguém. Ao término da sessão, e o agente responsável informou às famílias que a Polícia Federal havia aberto inquérito para investigar as circunstâncias do reaparecimento do barco. As linhas de investigação incluíam possível ocultação de cadáver,

falsidade ideológica em relação ao desaparecimento original e possível associação criminosa. O agente explicou que o inquérito estava em fase inicial e que as famílias poderiam ser chamadas a prestar depoimento formal em momento posterior.

Até o fechamento das informações disponíveis sobre este caso, nenhum suspeito havia sido identificado, nenhuma pessoa havia sido indiciada, nenhuma versão alternativa dos fatos havia sido apresentada por ninguém. O barco continuava retido na base fluvial

de Lábria, aguardando resolução judicial sobre sua destinação. As famílias continuavam sem corpo para enterrar, mas as 12 pessoas que haviam embarcado no São Sebastião das Águas em junho de 2009 continuavam oficialmente como desaparecidas.

O caso continuava classificado como desaparecimento sem solução. Havia um detalhe. Um único detalhe que os peritos da Marinha não conseguiram encaixar em nenhuma explicação técnica disponível e que ficou registrado no Alto de apreensão lavrado por Adailton Ramos na

noite de 12 de agosto de 2024 e confirmado por depoimento formal de quatro testemunhas adicionais que estavam nas proximidades quando o Estrela do Norte se aproximou da enceada.

Quando Adailton Ramos avistou o São Sebastião das Águas pela primeira vez, a luz de navegação do lado de Bombordo estava acesa, piscando verde, em intervalos regulares de aproximadamente 2 segundos entre um pulso e outro. Dera

essa luz que havia chamado a atenção de Adaílton na escuridão do rio Puzz naquela noite. Era essa luz que havia feito o piloto do Estrela do Norte desviar da rota e se aproximar da enceada. Sem aquela luz, o barco não teria sido encontrado. Estava dentro de

uma enceada fechada, no escuro, sem nada que o tornasse visível a uma embarcação que passasse pelo canal principal. A luz de navegação de bombordo de um barco regional é alimentada por bateria de 12 V. É um sistema simples, funcional, sem redundância. Quando a bateria morre, a

luz apaga. Não há outra fonte de energia, não há sistema auxiliar. A luz fica acesa enquanto a bateria tem carga. Quando a bateria acaba, a luz apaga. A bateria que estava a bordo do São Sebastião das Águas, quando foi retirada pelos peritos da Marinha durante a

perícia em Lábria, a estava completamente descarregada, sem carga alguma. Quando os técnicos tentaram conectá-la a um carregador para ver se ainda respondia, ela não segurou carga. Quando tentaram ligar um LED simples diretamente nos terminais, nada

aconteceu. A bateria estava morta de uma forma que os técnicos descreveram como compatível com descarga total por longo período, possivelmente anos. Os técnicos testaram o sistema elétrico do barco com uma bateria externa.

As luzes de navegação não acenderam, nem a de bombordo, nem a de boreste, nem a de popa. O sistema elétrico havia deteriorado o suficiente para não funcionar mais com alimentação externa padrão. Não havia bateria oculta no barco, não havia painel solar instalado,

não havia gerador, não havia nenhuma fonte de energia alternativa que os peritos conseguissem identificar. Mas Adailton Ramos havia visto a luz. Os dois tripulantes do Estrela do Norte haviam visto a luz. Quatro pescadores de

uma embarcação que passou pelo canal principal do Purus naquela mesma noite, a cerca de 300 m da enceada, confirmaram em depoimento à Marinha que haviam visto uma luz verde piscando na direção da margem direita. Um deles havia comentado com o colega que parecia luz de barco. O

colega havia respondido que barco nenhuma tem o que fazer naquelas horas, naquela. Os dois haviam continuado a viagem sem parar. Seis pessoas em depoimentos separados, colhidos em dias diferentes por agentes diferentes, confirmaram ter

visto a mesma coisa. Uma luz verde piscando num barco que, de acordo com a perícia técnica, não tinha condição elétrica alguma de acender nenhuma luz. Os peritos incluíram o fato no laudo, mas registraram as seis testemunhas,

registraram os resultados dos testes elétricos, registraram a ausência de qualquer fonte de energia identificável e concluíram o parágrafo com uma frase que não era comum em laudos técnicos da Marinha do Brasil. A origem da iluminação observada pelas testemunhas

na noite de 12 de agosto de 2024 não poôde ser determinada com os recursos técnicos disponíveis. Ninguém soube dizer de onde vinha a energia. Ninguém soube dizer porque uma luz de navegação estaria acesa num barco

abandonado há 15 anos, ancorado numa enceada deserta de um rio que ficava a 400 km da última posição, conhecida do São Sebastião das Águas. O que se sabe é o seguinte. Em 18 de junho de 2009, um

barco com 12 pessoas partiu de Coari com destino a ter fé e não chegou. Em 12 de agosto de 2024, e o mesmo barco foi encontrado no rio Purus, intacto, sem as pessoas, com uma âncora que não era sua e com uma luz acesa, sem fonte de

energia identificável. O intervalo entre esses dois momentos tem 15 anos, 400 km e nenhuma explicação que feche por completo. O restante é silêncio.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

You Might Also Enjoy